Notas iniciais
Olá pessoas, Estou tão feliz de ver que vocês estão gostando desse spin-off. Agradeço imensamente pelos comentários, pois eles me incentivam a escrever e também me ajudam a ter uma ideia do que vocês estão pensando. Espero que gostem desse capítulo. Boa leitura.

— Seu amigo te ligou — Aaron avisou ao entrar na cozinha. Joseph fingiu não ouvi-lo. — É a quarta vez só essa semana — ele acrescentou, quando o outro não lhe deu a devida atenção. — Se não pretende atender, porque não diz a ele para parar de te ligar?

— Não faria diferença — Joseph respondeu simplesmente. Seus olhos sequer se desviaram do caderno de desenho onde ele rabiscava algo que Aaron ainda não conseguia identificar.

— Você nem tentou.

— Faz mais de um mês que eu o ignoro e tenho certeza de que ele não é idiota. Ele já entendeu o recado.

— Então, o que? Você vai apenas continuar ignorando todas as ligações dele, esperando que ele finalmente se canse e desista de te procurar, é isso?

— Sim, é exatamente isso.

Aaron revirou os olhos para ele com força.

— Francamente, porque vocês dois não se comem de uma vez e param com toda essa frescura, hein?

Joseph que, até então, estava concentrado em seu caderno, finalmente parou de desenhar e ergueu o rosto para encará-lo.

— O que disse?

— Você me ouviu — Aaron cruzou os braços e o encarou de volta. — Ou você vai negar que essa sua amizade com o Nathan não é, no mínimo, estranha? Qual é? O cara corre atrás de você feito um cachorrinho.

— Hoje você tirou o dia para falar merda, não é? — Joseph recolheu suas coisas e se levantou. Não estava a fim de conversa, principalmente aquela.

— Só estou falando o que eu acho.

— Então, é melhor parar de falar porque você não sabe de porra nenhuma.

— Será? Ou será que você apenas não quer admitir que é uma bicha? — Aaron retrucou.

Largando suas coisas no chão, de qualquer jeito, Joseph simplesmente deu meia volta e o agarrou pela gola da camiseta, trazendo-o para mais perto.

— Repete isso.

— Por que? Além de bicha, você também é surdo?

— Já chega, Aaron! — Brianna entrou na cozinha e se adiantou para separar os dois garotos que estavam prestes a sair no soco. — Onde está aprendendo essas coisas horríveis? Eu não te eduquei para ser esse tipo de pessoa. Peça desculpas ao Joseph agora.

Aaron torceu o nariz para a ordem, mas diante do olhar afiado da mãe murmurou um pedido de desculpas e teve pelo menos a decência de parecer arrependido.

— Agora suba e vá ajudar o seu irmão com o dever de casa. Nós vamos ter uma conversa muito séria sobre suas atitudes mais tarde — Brianna anunciou e Aaron lançou um último olhar meio enraivecido a Joseph antes de sair da cozinha batendo os pés.

Joseph se concentrou em recolher seu material de desenho do chão.

— Não dê ouvidos às bobagens que ele fala — Brianna comentou após um momento. — Aaron tem andado com uns garotos terríveis ultimamente e está adquirindo os péssimos hábitos deles, mas nós vamos conversar seriamente sobre isso mais tarde. Não quero que ele faça você se sentir desconfortável por gostar de garotos.

— Eu não gosto — Joseph disse e Brianna abriu um sorriso gentil para ele.

— Tudo bem. Isso não é uma inquisição, ok? Você não precisa assumir nada. Só estou dizendo que se um dia você precisar conversar...

— Qual é o problema com vocês, hein? — Joseph retrucou, já sem paciência. —Eu não sou gay, caralho. Porque vocês não vão cuidar dos seus próprios assuntos e me deixam em paz?

Brianna sentiu suas bochechas corarem.

— Me desculpe, Joseph. Eu não quis me intrometer na sua vida. É que eu ouvi a discussão e como você está sempre com o Nathan e eu nunca vi nenhum dos dois com uma garota, então, eu pensei...

— Pensou errado — Joseph terminou de recolher suas coisas e se apressou para sair da cozinha, mas Brianna entrou em seu caminho, barrando-o.

— Me desculpe. Eu fiz uma suposição infeliz, está bem? Reconheço o meu erro e sinto muito mesmo se eu te deixei constrangido com o que disse.

Joseph a encarou, impaciente.

— Tá, que seja! Posso ir agora?

— Não. Na verdade, eu vim aqui porque preciso falar com você sobre uma coisa — ela olhou ao redor como se para ter certeza de que os dois estavam totalmente sozinhos ali na cozinha. — Preciso de um favor.

— Um favor? — Joseph estreitou os olhos e se afastou um passo. Para ele, tudo que vinha após essa palavra era sempre um problema.

— Você sabe que o aniversário do Christopher é na próxima semana, certo?

— Sei. E daí?

— Eu decidi fazer uma festa surpresa para ele, mas preciso tirá-lo de casa por algumas horas, enquanto organizo tudo — Brianna explicou. — Eu pediria ao Aaron para me ajudar com isso, mas você sabe como é o seu pai, então, será que você não poderia levar o Christopher para um passeio no domingo?

— Eu?! — Joseph a encarou como se ela tivesse acabado de lhe pedir para tomar veneno.

— É só por algumas horas — Brianna tentou tranquiliza-lo. — Eu já acertei tudo com a empresa responsável pela decoração e eles me garantiram que conseguem organizar tudo rapidamente. Eu poderia apenas mantê-lo longe do jardim por esse tempo, se fosse possível, mas você sabe como o Christopher é curioso. Ele acabaria descobrindo a surpresa antes da hora e perderia toda a graça — ela sorriu, um tanto receosa. — E então, você me ajuda?

Joseph negou com a cabeça. Brianna só podia estar louca para achar que ele concordaria com aquela ideia. Ele nunca tinha sido muito próximo de Christopher, praticamente nem falava com o garoto. Como eles poderiam passar uma tarde inteira juntos sem que aquilo parecesse estranho?

— Por favor, Joseph — a mulher insistiu. — É só por um tempo. Vocês nem precisam ir muito longe, basta leva-lo para brincar no parque aqui perto.

— Por que você não pede para a babá dele fazer isso?

— Chloe não trabalha aos domingos. Está no contrato dela.

— Arranje outra babá, então.

— Para leva-lo ao parque justo no dia do aniversário dele? — Brianna indagou. — Acha que ele não desconfiaria de nada?

— Se eu fosse com ele daria no mesmo. Quando foi que você já nos viu passando algum tempo juntos?

— Mas vocês são irmãos — ela apontou o óbvio. — O Christopher gosta de você e ficaria contente se você o levasse para brincar no parque qualquer dia. Seria como um presente de aniversário para ele.

— Eu não vou fazer isso — Joseph encerrou o assunto. — Convença o meu pai a deixa-lo passar a tarde com o Aaron ou diga para ele mesmo passar a tarde com o garoto. O Christopher é filho dele, afinal.

— Eu já tentei todas essas opções, Joseph. Seu pai está ocupado com a abertura da nova filial francesa e ele prefere que eu cancele a festa a deixar que o Christopher fique com o Aaron por uma tarde.

— Então arranje outra pessoa.

— Quem? — Brianna perguntou já sem esperanças. — Eu não tenho muitas opções aqui. Fora você, o seu pai e o Aaron, a pessoa com quem o Christopher tem mais afinidade na família é o seu tio Andrew, mas...

— Ele não! — Joseph recusou a ideia tão rapidamente que Brianna até se assustou.

— Por que?

— Porque não! — Ele disse categórico. — Não acho que ele seja bom para cuidar de crianças.

— Mas ele se dá bem com o Christopher e o Christopher gosta bastante dele.

— Esqueça. Eu mesmo vou levar o Christopher ao parque no domingo — Joseph comunicou, pegando-a de surpresa.

— Você disse que não queria ir.

— Eu mudei de ideia — ele deu ombros. — Que horas o pessoal da organização chega?

— Bem, eu marquei com eles às 14h...

— Certo. Eu tiro o Christopher de casa antes disso — Joseph concluiu e saiu da cozinha apressado.

Brianna não entendeu sua mudança repentina, mas ela raramente entendia o que se passava na cabeça de Joseph mesmo, então, apenas deixou a estranheza da situação de lado e se concentrou em outras coisas. Ela tinha uma festa surpresa para organizar afinal.

Quando o dia do aniversário de Christopher chegou, Joseph já havia se arrependido pelo menos dez vezes de sua decisão, mas não teve coragem de voltar atrás. Ele não fazia a mínima ideia de como manteria o garoto entretido por uma tarde inteira quando sequer sabia de que atividades ele gostava, mas esperava não ser tão ruim nisso ao ponto de estragar a surpresa que Brianna vinha preparando. Christopher, por outro lado, estava tão empolgado com a ideia de passar algum tempo com ele que mal cabia em si. A única pessoa que parecia mais infeliz que Joseph com toda aquela situação era Aaron, mas quanto a isso não havia nada que eles pudessem fazer, apesar de Aaron ter passado a semana inteira implicando com ele como se aquilo fosse sua culpa.

— É melhor você cuidar direito do Christopher — Aaron o alertou quando estavam se preparando para sair. — Se ele se machucar naquele parque ou for sequestrado, eu juro que acabo com você.

Joseph apenas revirou os olhos. Às vezes Aaron era tão superprotetor com o irmão caçula que lhe dava náuseas.

— Diga a sua mãe para me enviar uma mensagem quando a gente puder voltar — foi o que ele disse enquanto esperava Brianna vestir o casaco em Christopher.

Aaron lhe virou a cara e se afastou sem responder.

— Se comporte hoje, ok? O Joseph não vai querer te levar para passear de novo se você for desobediente — Brianna avisou ao garotinho que concordou, empolgado.

Joseph reprimiu um suspiro.

— Vamos? — Perguntou e, mesmo desconfortável com o contato, deixou que Christopher segurasse sua mão, pois Brianna disse que ele deveria.

— Divirtam-se — ela desejou aos dois, mas diversão era a única coisa que Joseph não esperava ter.

Como o parque ficava a poucas quadras de distância, eles caminharam até lá sem pressa. Christopher não soltou sua mão, nem o desobedeceu em nenhum momento, mas tagarelou por todo o caminho, o que fez Joseph desejar que o moleque tivesse um botão de desliga. Ele não tinha um, infelizmente.

Quando chegaram ao parque, Joseph se sentou em um dos bancos próximos ao escorrega, esperando que Christopher fosse brincar com as outras crianças, mas o garoto apenas se sentou ao seu lado e ficou olhando ao redor, balançando os pés.

Joseph o encarou com curiosidade.

— O que está fazendo?

— Nada — Christopher sorriu para ele, deixando à mostra as covinhas em suas bochechas.

— Então, porque está sentado aqui?

— Porque é para isso que os bancos servem ué — ele deu de ombros, despreocupado.

Joseph quase o mandou ir à merda.

— Você não vai brincar?

— Hoje não.

— Por que não?

— Porque quero ficar aqui com você. Eu quase nem te vejo quando você está em casa.

— Sem essa de bebê carente para cima de mim, ok? Vai logo brincar. Sua mãe vai me encher o saco se você não se divertir hoje.

— Eu posso brincar no parque qualquer outro dia, Joe. Além disso, sei que ela vai fazer uma festa surpresa para mim, é melhor eu não chegar em casa todo sujo.

Joseph o encarou desacreditado.

— Você sabe da festa?

— Claro que sei. Ouvi minha mãe cochichando sobre isso a semana inteira, mas não conta para ela, tá? — O garoto o encarou com seriedade. — Ela vai ficar triste se souber que eu já descobri tudo.

— Eventualmente, ela vai saber.

— Não vai, não. Eu andei praticando no espelho. Consigo fingir surpresa perfeitamente agora. Quer ver?

— Não.

Christopher deu de ombros.

— Tudo bem, você vai ver na festa.

— Você é uma praga, sabia? Não acredito que eu vim até aqui para nada.

— Não foi para nada. A gente ainda pode conversar e tomar sorvete. Aaron sempre compra uma casquinha para mim quando o meu pai viaja e a gente pode vir aqui. — Joseph não disse nada, então, Christopher acrescentou: — E hoje é o meu aniversário, sabe? Eu mereço pelo menos um sorvete.

— Ai, saco — Joseph jogou a cabeça para trás, resmungando. — Tudo bem. Onde?

Christopher apontou para uma barraca mais adiante com várias mesinhas de madeira em volta.

— O sorvete de morango deles é o melhor — comentou.

Sem muitas opções, Joseph se colocou de pé e segurou a mão dele novamente.

— Então vamos, né? Você já me tirou de casa mesmo.

Eles compraram seus sorvetes e passaram o restante da tarde observando as outras crianças brincarem. Christopher não parou de falar por um minuto sequer e também fez amizade com um Husky Siberiano chamado Sky, cujo dono o levava para passear por ali todos os dias. Joseph até tentou prestar atenção em tudo que o garoto dizia, mas a maior parte era informação irrelevante e ele não estava com o melhor dos humores nas ultimas semanas, então, apenas abstraia e fingia escuta-lo.

Ainda assim, algumas horas depois, quando Brianna lhe mandou uma mensagem avisando que estava tudo pronto, Christopher estava alegre e parecia ter se divertido de verdade com ele, apesar de não terem feito nada divertido de fato.

Conforme Brianna havia lhe pedido na mensagem, Joseph levou Christopher direto para o jardim quando eles chegaram em casa e Christopher realmente fingiu surpresa quando as luzes se acenderam e todos começaram a cantar “parabéns para você” em alto e bom tom.

Joseph quase riu.

— Falso — ele sussurrou no ouvido do garoto, recebendo um sorriso cumplice do mesmo antes de ele ser cercado por alguns parentes e amiguinhos da escola que queriam lhe entregar os presentes.

— Obrigada por cuidar dele hoje — Brianna disse satisfeita e Joseph pensou no quanto Christopher era mais inteligente que a mãe, já que tinha conseguido se fazer de bobo durante toda a semana e tinha enganado até mesmo ele naquela tarde.

— Não foi nada — ele deu de ombros.

Com sua visão periférica, Joseph viu sua tia Greta acenar para ele, mas fingiu não ter notado o cumprimento. Nos últimos anos, ele vinha se empenhando em fugir da mulher em todas as reuniões de família porque se sentia extremamente desconfortável perto dela, não apenas pelo fato de sua tia sempre querer abraça-lo quando o via, mas principalmente pelo fato dele ter sido estuprado pelo homem que dormia ao lado dela todas as noites.

— Não vai comemorar com a gente? — Brianna perguntou ao vê-lo se afastar da festa. Joseph sacudiu a cabeça, negando.

— Tenho uns trabalhos da escola para terminar — mentiu.

— Espera um instante então. Eu vou separar um pouco de bolo e alguns docinhos para você levar e comer mais tarde.

— Não precisa — Joseph se apressou em dizer ao ver a tia se levantar e caminhar em sua direção. — Eu comi muito no almoço, não estou com fome — completou e saiu do jardim praticamente correndo. Provavelmente não conseguiria fugir da tia a noite toda, mas quanto menos precisasse interagir com ela, melhor.

— Apressado para ir ao banheiro? — A voz de Aaron o alcançou quando ele estava prestes a subir a escada, fazendo-o parar e retroceder um passo.

— Algo assim — Joseph o avistou próximo a área da piscina e caminhou até lá. — Porque está sentado aí sozinho?

— Não estou sozinho — Aaron apontou para Screapy que estava deitado aos seus pés, mordiscando um desses brinquedos para cães. O loiro o mediu dos pés a cabeça. — Você se cansou bem rápido do seu papel. Achei que passaria mais tempo fingindo ser um bom irmão. O que foi? Não te agradeceram o suficiente por fazer o mínimo?

Joseph correu seus olhos por ele, estudando sua postura.

— Ainda está com raiva porque eu levei o Christopher ao parque hoje?

— Você nem gosta dele! — Aaron reclamou. — Nem lembra que ele existe, na maior parte do tempo, mas pode passar a tarde inteira com ele e eu não. É obvio que estou com raiva.

— E de que adianta você descontar a sua raiva em mim, hein? Você está sempre bravo como se isso fosse minha culpa, mas não é. Eu não pedi para as coisas serem desse jeito.

— Bem, eu não estou te vendo protestar por causa disso.

— Eu protestei uma vez — Joseph o encarou com raiva. — Talvez você não se lembre, mas levei um tapa por causa disso e, depois, você simplesmente disse que não precisava que eu o defendesse.

— E eu não preciso mesmo!

— Então, decide o que você quer de mim, porra! — Joseph deu um tapa no copo de refrigerante que Aaron segurava e Screapy se levantou, latindo para ele, pronto para defender o dono.

— Se manda daqui, Joseph! — Ele disse tentando acalmar o cãozinho. — Não quero que seu pai venha brigar comigo porque o Screapy está fazendo barulho. Some!

Joseph nem discutiu. Simplesmente se afastou e refez seu caminho para dentro de casa. Estava tão bravo com Aaron que mal podia enxergar direito, então, sequer percebeu que havia alguém sentado no escuro, dentro de seu quarto, até retirar a camiseta e pegar a toalha de banho.

— Você continua lindo — a voz de seu tio ecoou pelo cômodo e, por um instante, Joseph sentiu o coração saltar para fora de seu peito devido o susto. Ele se virou rapidamente, encontrando a silhueta do tio em sua cama.

Andrew acendeu a luz do abajur.

— Não vai me cumprimentar, Joe?

— O que faz aqui?

— É aniversário do seu irmão. Eu vim desejar os parabéns a ele.

— A festa é no jardim — Joseph o encarou. — Se quer cumprimentar o Christopher, você deveria estar lá, com sua esposa e filhos, não no meu quarto.

— Eu estarei lá em um instante. Só vim dar uma olhadinha em você — Andrew se levantou e se aproximou dele um passo de cada vez. Joseph sentia suas mãos suarem por causa do pânico. — Você não guardou o nosso segredo, hein? Mas eu não te culpo. Eu te machuquei aquele dia, não foi? Você deve ter ficado zangado.

Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Joseph que tremeu quando sentiu os dedos do mais velho em contato com sua pele.

Quatro anos.

Tinham se passado quatro anos desde aquela noite horrível. Quatro malditos anos em que ele lutou com todas as forças para esquecer cada segundo do que havia vivido nas mãos do tio e, de repente, era como se tivesse dez anos de novo e estivesse de volta àquele momento sombrio e doloroso da sua infância.

— Por favor, não me machuca — Joseph pediu com um fio de voz e Andrew se aproximou ainda mais dele, acariciando seus lábios com o polegar.

— É claro que eu não vou te machucar, bebê. Eu só não sabia como fazer direito da primeira vez. Você era bem menor do que é agora, sabia? Era como um bonequinho em minhas mãos, eu deveria ter tido um pouco mais de cuidado com você.

Joseph sentiu seu estômago embrulhar. Seu tio ainda tinha o mesmo cheiro de perfume caro e loção pós-barba do qual ele se lembrava e aquilo lhe causava uma náusea tão forte que o deixava zonzo. Ele se sentia fraco, vulnerável, uma criança assustada mesmo que já não fosse. Podia ter crescido bastante nos últimos quatro anos, ter ganhado alguns músculos, mas perto do tio ainda sentia-se pequeno, desprotegido.

— Foi doloroso não te ver por todo esse tempo, sabia? Os outros que tive não são como você, Joe, eles nunca me deixaram satisfeito — Andrew escorregou sua mão livre pelo torso desnudo do garoto e correu o nariz por seu pescoço. — Nossa, como eu senti sua falta. Seu pai foi um verdadeiro bastardo por me afastar de você. Ele disse que queria evitar um escândalo, mas não tinha razão para isso, certo? Você é o meu garotinho, nós teríamos conversado e resolvido tudo. Ficaríamos bem.

As mãos de Andrew acariciaram o membro de Joseph por cima do tecido de sua calça jeans e os lábios dele sugaram a pele de seu pescoço, marcando-a. Joseph sentiu as pernas vacilarem, teria caído se o tio não o tivesse imprensado um pouco mais contra a parede, segurando-o.

— Tudo bem. Peguei você — Andrew sussurrou em seu ouvido, mas ele já não ouvia. Sua cabeça girou tal qual seu estômago quando ele sentiu a língua molhada do tio invadindo sua boca, privando-o do oxigênio a tal ponto que ele sabia que estava a um passo de apagar.

— Screapy! — A voz de Aaron ecoou em algum lugar ali perto e Andrew parou de beijá-lo para olhar a porta enquanto ele ouvia com atenção. — Screapy, volta aqui. Devolve isso, seu pestinha!

Os latidos do cãozinho se aproximaram, bem como os passos apressados de Aaron atrás dele e Andrew praguejou, soltando-o.

— Terminamos depois — ele disse e saiu do quarto, deixando Joseph finalmente livre para escorregar pela parede até parar sentado no chão, sem forças.

— O que você tá fazendo? — Aaron parou à sua porta, observando-o com curiosidade. Screapy já tinha corrido para dentro de seu próprio quarto com seja lá o que fosse que ele havia pegado no andar de baixo.

Joseph virou o rosto para olhá-lo, mas nem chegou a proferir uma única palavra antes da náusea consumi-lo e ele se curvar para vomitar no chão.

— Porra — Aaron se afastou para evitar sujar os pés com aquilo. — Que merda você tem? Está bêbado de novo? Se tiver bebido enquanto cuidava do Christopher, eu vou te dedurar para a minha mãe — ameaçou.

Joseph não respondeu. Não se importava com o que o outro dizia, sequer ouvia as palavras que saíam de sua boca na verdade. Tudo que se repetia em sua cabeça eram as palavras de seu tio:

Os outros que tive não são como você, Joe.

Eu senti sua falta.

Você é o meu garotinho.

Terminamos depois.

Com certo esforço, Joseph se colocou de pé e caminhou para fora do quarto. Aquele lugar havia se tornado claustrofóbico, ele não conseguia raciocinar, não conseguia respirar direito ali.

— O que há com você? — Aaron insistiu, mas Joseph apenas o empurrou para fora do caminho e correu para longe, apoiando-se nas paredes quando achava que ia desabar.

Por coincidência, ao cruzar o hall de entrada da casa, ele acabou se esbarrado em Erick e em outro homem que caminhava ao lado dele e cujo terno ficou encharcado de uísque depois do encontrão que tiveram.

— Joseph! — Erick ralhou com ele, olhando envergonhado para o homem ao seu lado. — Desculpe, Normán, essas crianças são tão descuidadas às vezes. Venha, eu te mostro onde fica a cozinha, podemos cuidar dessa sujeira.

— Pai — Joseph agarrou seu braço, impedindo-o de avançar.

— Nós conversamos depois.

— Pai, por favor — Joseph choramingou e Erick abriu um sorriso constrangido para o homem que o acompanhava.

— Eu vou encontra-lo em um instante, Normán. A cozinha fica a sua esquerda — indicou e quando o tal Normán finalmente sumiu de vista, ele se voltou para Joseph, agarrando o braço do garoto com força. — Qual é o seu problema? Você sabe quem é aquele homem? August Normán é um investidor importante e você está me fazendo passar vergonha na frente dele, Joseph.

— Porque você o convidou? — Joseph sequer ouviu o que Erick dizia. — Porque o deixou entrar aqui de novo? Porque?

— Do que você está falando?

— Você sabe do que estou falando — Joseph o encarou, choroso. Erick entendeu.

— Seu tio Andrew veio apenas acompanhar a esposa e os filhos. É aniversário do Christopher, Joseph, como eu poderia convidar sua tia e as crianças e não convidá-lo?

— Você prometeu que não deixaria ele me machucar de novo.

— E estou cumprindo. Ele não vai se aproximar de você.

— Ele estava no meu quarto.

— Não. Ele não estava, Joseph. Eu o vi no jardim há um minuto.

— Ele não estava lá antes!

Erick o encarou.

— Apenas pare.

— Eu estou falando a verdade. Porque você não acredita em mim?

— Porque eu acabei ver o seu tio no jardim!

— Ele não estava lá antes, estava na porra do meu quarto! — Joseph gritou e Erick apenas o estapeou com força no rosto.

— Chega, Joseph. Chega! Eu não estou com humor para lidar com os seus chiliques hoje. Nossa casa está cheia de convidados e eu estou no meio de uma conversa importante. Se quer tanto assim chamar atenção, faça isso outro dia. Não estrague o aniversário do Christopher e, principalmente, não estrague as minhas negociações.

Joseph ergueu os olhos para encará-lo. Seu pai realmente se importava assim tão pouco? Realmente achava que ele só queria chamar atenção?

Magoado, Joseph se afastou dele e caminhou para fora da propriedade, sem nem mesmo se preocupar em falar com Brianna quando ela surgiu em seu caminho com um pedaço de bolo para entrega-lo.

— Aonde ele vai? — Ela perguntou a Erick sem entender coisa alguma do que havia acontecido, mas seu marido apenas se desfez da situação com um leve aceno.

— Ele vai voltar quando se cansar desse joguinho. Deixe-o ir — então Erick seguiu para dentro de casa para encontrar o grande investidor com quem estava conversando antes.

***

Nathan despertou com seu celular tocando sem parar. Ele olhou para o relógio digital em sua cabeceira, constatando que era pouco mais de duas da manhã e grunhiu. Porque diabos o estavam incomodando daquele jeito em uma madrugada de segunda-feira? Ele tinha aula mais tarde, caramba!

— O que é? — Atendeu sem nem mesmo cumprimentar a pessoa do outro lado e a voz de Danny, seu amigo e aprendiz de traficante nas horas vagas, ressoou pela linha logo depois.

— É assim que você fala comigo, seu merdinha? Abre a porta, eu trouxe uma coisa para você.

— Danny, são duas da manhã...

— Anda logo, Nathan, eu não vou ficar esperando aqui para sempre — Danny desligou e Nathan se arrastou para fora da cama, contrariado. Iria matar o amigo por incomodá-lo tão tarde, com certeza iria. No entanto, ao abrir a porta de casa e se deparar com Danny segurando um Joseph praticamente desacordado em seus braços, todos os palavrões que rondavam sua cabeça se dissiparam assim como o sono que estava sentindo.

— O que aconteceu com ele? — Nathan se adiantou para tirar o garoto embriagado dos braços do amigo.

— Não é óbvio, ele tá bêbado. E não me olha assim, eu não tenho nada a ver com isso — Danny completou quando Nathan o encarou irritado. — Encontrei com ele por acaso. Você tem sorte que um dos caras com quem ele estava bebendo é um cliente meu e precisou de um bagulho. Ele disse que o mauricinho aí deu um relógio para ele em troca dele comprar bebida — Danny lhe estendeu o relógio e Nathan logo o reconheceu como um que Joseph havia ganhado de aniversário um tempo atrás.

— Por que ele está sem blusa? — Questionou pegando o relógio de volta e o guardando no bolso.

Danny deu de ombros.

— Eu sei lá, ele já estava sem ela quando eu cheguei.

Nathan suspirou, frustrado. No que Joseph havia se metido naquela noite?

— Tá. Obrigado por trazê-lo para cá.

— Obrigado é o cacete. Eu gastei duzentas pratas para pegar o relógio dele de volta. Você tá me devendo, cara.

— A gente acerta isso depois, ok?

Danny revirou os olhos. Sentia que nunca mais veria suas duzentas libras de novo, mas o que ele não fazia por um amigo, né?

— Beleza, tô indo nessa. E vê se não se aproveita do garoto porque eu não vou te tirar da cadeia não.

— Ah, cala a boca, Danny! — Nathan fechou a porta na cara dele e se concentrou em cuidar do pequeno problema que tinha nas mãos.

Por sorte, aquela era uma das noites em que seus pais não estavam em casa, então, ele não precisava se preocupar em dar explicações. Apenas carregou Joseph até o banheiro do térreo e o colocou embaixo do chuveiro. O garoto tentou protestar quando ele retirou seus sapatos e sua calça, mas estava embriagado demais para impedi-lo.

— Que merda, Joe. No que estava pensando, hein? — Nathan ligou a água gelada e o segurou para que ele não caísse. —Você podia ter se machucado feio hoje, sabia?

Como resposta, Joseph apenas o socou no peito de maneira fraca.

Nathan bufou. Porque estava discutindo com um bêbado?

Ele ajudou Joseph a terminar o banho e escovar os dentes, depois, o vestiu com um de seus moletons velhos e uma camiseta regata e o levou para o sofá. Preparou uma xícara de café forte e lhe entregou.

— Vai melhorar mais rápido se beber — incentivou e Joseph fez como ele pediu.

Demorou uma eternidade para que ele terminasse todo o café, mas quando enfim conseguiu sorver o último gole, Joseph já se sentia bem melhor. Não estava sóbrio de todo, mas pelo menos estava sóbrio o suficiente para as coisas pararem de girar a sua volta.

— Consegue andar — Nathan pegou a xícara das mãos dele e a colocou sobre a mesinha de centro. Joseph assentiu ligeiramente. — É melhor você dormir um pouco. Vai acordar com uma ressaca sinistra amanhã.

Ele ajudou Joseph a se levantar do sofá e o guiou escada acima, até seu quarto, onde o colocou sentado na cama.

— Você pode dormir aqui essa noite, eu vou ficar no quarto dos meus pais. Se precisar de alguma coisa, me chama — Nathan se virou para sair, mas parou quando Joseph o segurou pela mão, apertando seus dedos levemente.

— Fique aqui essa noite — ele pediu e Nathan se voltou para ele, hesitando um pouco. Em qualquer outra circunstância adoraria dividir a cama com Joseph, mas aquele não era um bom momento para isso.

— Desculpe, Joe, eu não posso.

— Por que não?

— Porque você tá bêbado — Nathan citou o óbvio.

— Não estou tão bêbado ao ponto de não saber o que estou fazendo, Nate. Pelo menos, não mais.

— Eu sei, mas também não está sóbrio o suficiente para não se arrepender disso amanhã, quando acordar e perceber que dormimos na mesma cama.

— Eu não vou — Joseph garantiu. — Sei bem o que estou pedindo.

— Sabe mesmo? Porque você tem me ignorado há mais de um mês, Joseph. Não queria nem falar comigo, mas agora quer que eu durma aqui com você apesar de nós dois sabermos que você não suporta contato físico. Percebe como isso soa confuso?

— Eu não posso apenas ter mudado de ideia?

— É claro que pode. O que me preocupa é você ter mudado de ideia depois de beber e ser deixado praticamente inconsciente na minha porta.

— Eu nem estou mais tão bêbado, Nate.

— Eu não vou discutir isso agora. Amanhã conversamos a respeito.

— Achei que você gostasse de mim — Joseph disse sentindo-se frustrado.

— E eu gosto.

— Então, por que você não quer dormir aqui? — Ele se colocou de pé, apoiando-se nos ombros de Nathan para se equilibrar melhor. — Se gostasse mesmo de mim, você aceitaria. Em vez disso, cria milhares de desculpas.

— Não são desculpas, Joseph.

— São, sim. Eu já disse que estou bem e que sei exatamente o que estou fazendo. Por que você continua me dizendo não se estou te dando exatamente o que você queria? Por que não aceita de uma vez?

— Joe...

— Você gosta de mim, certo? — Joseph levou as mãos à barra de sua camiseta e a puxou para cima, retirando-a.

— O que está fazendo?

— Quando me beijou naquela noite você esperava que correspondesse? E se eu tivesse correspondido, Nate, se tivesse te deixado livre para explorar não apenas a minha boca, mas todo o meu corpo, o que você teria feito? Você teria transado comigo?

— Que tipo de pergunta é essa?

Joseph passou os braços ao redor do pescoço dele e se aproximou um pouco mais, juntando seus quadris; sua boca tão próxima da boca de Nathan que o garoto podia sentir o cheiro da pasta de dente e do café misturados em seu hálito.

— Faça isso agora — ele disse, roçando os lábios levemente contra os do outro. — Transe comigo.

— O que? — Nathan o afastou. Seu coração batia acelerado e ele engoliu em seco, excitado e confuso ao mesmo tempo. Não entendia porque Joseph estava agindo daquela maneira. Antes o garoto evitava qualquer tipo de contato físico e, agora, queria que ele o levasse para a cama? — O que está acontecendo com você?

— Não é o que você quer? — Joseph insistiu, tentando agarrá-lo de novo. — Eu não vou te impedir dessa vez, Nate. Não vou fugir como fiz antes.

— Para, Joseph — Nathan o afastou de novo, mas Joseph voltou a se aproximar e tentou beijá-lo, forçando-o a virar o rosto. — Para com isso.

— Eu sei que você me deseja, Nate, eu posso ver nos seus olhos. Sei que quer me jogar naquela cama e me foder até eu esquecer o meu próprio nome, então, por que não vai em frente, hum? Por que não faz isso?!

— Joseph, para! — Nathan o segurou pelos pulsos e o empurrou de volta para a cama, atirando-o nela. — Que merda você está fazendo, hein? Por que está agindo assim? Você não é desse jeito!

Joseph não respondeu, mas sua expressão tornou-se repentinamente triste e angustiada. Nathan suspeitou que ele estivesse prestes a chorar, mas o garoto desviou seus olhos dos dele e ficou encarando o piso, sem saber direito onde apoiar suas mãos que tremiam levemente.

— O que foi que aconteceu? — Nathan perguntou verdadeiramente preocupado com ele. Tinha alguma coisa errada e ele podia sentir.

— Eu beijei um cara hoje — Joseph disse, em voz baixa, ainda sem olhar para ele. — Beijei uma garota também, não me lembro do nome deles. Na verdade, acho que eu nem perguntei.

Nathan franziu a testa.

— Por que está me contando isso? — Questionou, se esforçando para controlar a pontada de ciúme que o atingiu ao imaginar Joseph beijando outras pessoas naquela noite.

— Porque eu quero que você entenda.

— Quer que eu entenda o que? Que você não gosta de mim, é isso? Porque, se esse for o caso, havia maneiras muito melhores de me dizer, sabia? Você não precisava ficar se agarrando com vários desconhecidos por aí. Já viu como está o seu pescoço, Joseph? Qual dos seus ficantes fez isso, o garoto ou a garota?

— O meu tio — Joseph respondeu e Nathan travou. Não era como se ele já não soubesse que o garoto tinha sofrido abuso na infância, mas ouvi-lo dizer... Bem, não era fácil.

— Então, foi o seu tio quem... — Nathan não conseguiu terminar a frase, mas Joseph assentiu, entendendo do que ele falava. — Eu sinto muito, Joe.

Nathan se aproximou para abraça-lo e, pela primeira vez em quatro anos, Joseph não o afastou. O garoto apenas se aconchegou contra o peito dele e deixou que as lágrimas, que vinha contendo desde que saiu de casa, finalmente se libertassem.

— Está tudo bem — Nathan tentou confortá-lo. — Está tudo bem, Joseph.

— Não, não está — Joseph disse em meio às lágrimas. — Eu passei quatro anos com medo, Nate. Eu não conseguia dormir, não conseguia comer e a mera possibilidade de alguém me tocar me apavorava, você entende? Eu vivi em um inferno! Todos os dias eram como um pesadelo.

— Eu sinto muito, Joe.

— Eu não quero passar mais quatro anos assim — Joseph explicou. — Não quero mais viver com medo, Nate. Eu não aguento! Eu só quero esquecer tudo isso. Por favor, me ajuda a esquecer.

Então, Nathan finalmente entendeu porque Joseph tinha bebido tanto aquela noite, porque ele havia beijado pessoas cujos nomes nem se lembrava e porque estava tão desesperado para que ele o tocasse.

— Por favor — Joseph insistiu. — Por favor, Nate. Eu só preciso esquecer.

E, naquele momento, Nathan não se importou em ser apenas uma rota de fuga, não se importou com o fato de Joseph não enxerga-lo da mesma forma que ele o enxergava. Se Joseph precisava de uma distração, então, Nathan seria uma. Ele seria qualquer coisa que o fizesse se sentir melhor.

Por isso, ele puxou o rosto de Joseph de encontro ao seu e o beijou.

Notas finais
E aí, galerinha, o que acharam do capítulo? Foi um pouco tenso, né? Mas vejam pelo lado bom: teve interação do Joseph com o Christopher e acho que deu para vocês entenderem um pouquinho de como o Joseph enxerga o nosso bebê. Aliás, alguém aí já tem algum palpite de como as coisas terminaram tão ruins entre o Joseph e o Aaron? Não se acanhem e comentem XD Vejo vocês em breve. Beijocas.