Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up
9 Piece Of Peace
Notas iniciais
Joseph acordou com o corpo quente de Nathan junto ao seu e uma dor de cabeça infernal. Ele não sabia exatamente que horas eram, mas a julgar pelos raios de sol que se infiltravam pelas frestas da cortina devia ser tarde, o que lhe fazia lembrar que ele havia perdido outro dia de aula naquela manhã. Não que se importasse com isso.
Ele se remexeu um pouco na cama, tentando se libertar do abraço de Nathan, mas isso só fez com que o garoto, inconscientemente, o puxasse para mais perto e o segurasse com mais firmeza, prendendo-o ali.
Era estranho.
Não pelo fato de estar nos braços de outro rapaz — que por sinal também era seu melhor amigo desde a infância —, mas simplesmente pelo fato de estar sendo abraçado por alguém. Ele havia passado tanto tempo sem ser tocado e sem tocar em ninguém que, agora, aquele simples ato parecia coisa de outro mundo. Se a situação fosse diferente, Joseph provavelmente se sentiria mais que apenas desconfortável por estar ali, mas depois do que ele e Nathan haviam feito à noite, aquela proximidade com o rapaz já não lhe incomodava tanto.
Joseph corou ao pensar sobre isso.
Não é como se fosse inocente e não soubesse nada sobre sexo. Havia sofrido um abuso afinal, além disso, costumava se masturbar às vezes e não tratava tal coisa como um tabu, mas experimentar aquilo com Nathan tinha sido uma experiência bem diferente. Joseph estava acostumado a dar prazer a si mesmo, mas recebe-lo de outra pessoa foi uma novidade que se mostrou agradável.
Parando para refletir, ele duvidava que houvesse outra pessoa, além de Nathan, capaz de fazê-lo se sentir confortável em um momento como aquele. Se tivesse tentando com qualquer outra pessoa, provavelmente teria desistido ou se traumatizado ainda mais, mas Nathan tinha sido cuidadoso e gentil o tempo inteiro, sempre preocupado em perguntar se ele estava bem e atento a todas as vezes que seu corpo se retraía quando algum toque mais íntimo lhe assustava.
Eles não chegaram a transar naquela noite, pois Nathan não quis ir tão longe e, agora, já mais calmo e sem o efeito do álcool para nublar sua mente, Joseph se sentia grato por isso, não porque achava que fosse se arrepender caso tivesse acontecido, mas porque não queria que sua primeira vez fosse manchada por tais coisas. Na verdade, ele nem tinha certeza se poderia considerar aquela uma “primeira vez”, levando em conta que seu tio havia lhe tirado isso há muito tempo, mas também se recusava a contar um estupro como uma experiência sexual, até porque o que tinha vivenciado com Nathan era totalmente diferente do que seu tio fizera consigo.
Nathan não o forçou a nada, tampouco o machucou. Cada toque do garoto o fazia se sentir especial, não sujo como antes. E, sim, foi estranho no inicio, até mesmo um pouco aterrorizante, devido aos traumas que ele tinha enraizados dentro de si, mas também foi romântico e sensual, muito diferente de quando seu tio o tocava. Ter as mãos e os lábios de Nathan explorando seu corpo não lhe causou a repulsa com a qual já havia se habituado, da mesma forma que seus beijos profundos e cálidos não o fizeram se sentir mal como havia acontecido com as outras duas pessoas que ele beijara naquela noite.
O único momento em que Joseph se sentiu ligeiramente constrangido foi quando Nathan lhe pagou um boquete, mas foi um constrangimento passageiro já que ele esqueceu a vergonha no momento em que a língua do outro deslizou por seu pau e, um instante depois, já estava segurando o garoto pelos cabelos, praticamente implorando para que ele não parasse. Nathan o obedeceu, é claro, e quando Joseph gozou em sua boca, ele não reclamou. Na verdade, Joseph podia jurar que o sorriso que surgiu em seus lábios era o mais bonito que já tinha visto desde que o conhecera e, talvez por isso, ele não tenha conseguido se impedir de beijá-lo de novo, mesmo com os resquícios de seu próprio gozo ainda manchando os lábios do rapaz.
— Espero que esteja me encarando porque me acha bonito e não porque está pensando em me matar — a voz sonolenta de Nathan o pegou de surpresa e Joseph teve um leve sobressalto, o que fez o garoto sorrir. — Eu te assustei?
— Um pouco — Joseph confessou, meio sem graça por ter sido pego em flagrante.
Ele observou Nathan se sentar na cama e se espreguiçar, reparando pela primeira vez, em tantos anos, no quanto o amigo era atraente. Nathan tinha um corpo bem feito — nem muito forte, nem magro demais —, cabelos loiros escuros que agora batiam na altura de seus ombros e, muitas vezes, estavam presos em um coque, olhos castanhos claros com um leve toque esverdeado ao redor das íris e um sorriso bonito que ficava ainda mais charmoso por causa do incisivo lateral inferior levemente torto. Joseph se perguntou como nunca tinha notado esses detalhes antes, mas, talvez, enxergar o seu melhor amigo apenas como o seu melhor amigo por anos tivesse o deixado meio cego para essas coisas.
— Tudo bem? — Nathan perguntou, estranhando a maneira quase boba como Joseph o olhava.
Ele desviou o olhar rapidamente.
— Tudo — disse, corando um pouco. Sentia-se um verdadeiro idiota por ficar tão tímido diante do cara que, apenas algumas horas antes, estava chupando seu pau, mas fazer o que? — Você não tinha aula essa manhã? — mudou de assunto.
Nathan deu de ombros.
— Eu tenho aula todos os dias, mas não é sempre que tenho você na minha cama, então, tenho que aproveitar, certo? — Ele brincou.
Joseph o socou no peito.
— Como está a ressaca?
— Horrível — Joseph praticamente grunhiu. — Parece que eu fui atropelado por um caminhão e que, não satisfeito, ele deu ré e me atropelou de novo. Acho que eu quero morrer.
— Não quer, não. Você só precisa de café da manhã, remédio e bastante água. Para a sua sorte, eu tenho tudo isso aqui em casa — Nathan se levantou e apanhou sua calça do chão, vestindo-a e jogando para Joseph a calça de moletom que havia lhe emprestado na noite anterior, para que ele pudesse se vestir também.
Joseph tentou não mapear o corpo nu do garoto enquanto isso, mas, obviamente, falhou. Ele queria entender desde quando tinha começado a sentir atração por corpos masculinos, mas não conseguiu encontrar na memória um momento em que isso tivesse acontecido consigo antes. Não sabia dizer se era porque apenas o corpo de Nathan tinha começado a atrai-lo daquela forma ou se era porque antes era muito novo para pensar em qualquer pessoa nesses termos, mas achava que isso não fazia muita diferença.
De qualquer modo, ele vestiu a calça de moletom e a blusa regata que Nathan lhe emprestara e, enquanto o garoto ia escovar os dentes, procurou por seus pertences no quarto. Seu celular e sua carteira estavam sobre a cômoda de Nathan, assim como seu relógio e Joseph pegou o objeto sem saber como ele tinha ido parar ali já que tinha certeza de que havia dado o relógio ao cara que lhe comprara bebidas naquela noite. Seu celular, como já esperava, estava descarregado, mas ele não se importou, afinal, não havia ninguém com quem gostaria de falar no momento.
— Deixei uma escova para você lá na pia — Nathan avisou, abraçando Joseph pelas costas e depositando um selinho em seu ombro. Ele não soube como reagir àquele gesto carinhoso, pois não estava acostumado com essas coisas, então, apenas assentiu meio sem jeito e foi escovar os dentes.
Quando terminou, Nathan ainda estava esperando por ele no quarto e os dois desceram juntos para a cozinha, mas Joseph interrompeu seus passos na metade da escada ao ouvir um par de vozes vindas de lá.
— Seus pais estão em casa — ele disse assustado.
Nathan confirmou com um aceno.
— Eles devem ter chegado agora de manhã — ele segurou a mão Joseph para guiá-lo escada abaixo, mas o garoto puxou a mão da sua no mesmo instante, deixando-o confuso. — Fiz algo errado?
— É que os seus pais estão aqui — Joseph explicou, envergonhado. Nathan não entendeu.
— Sim, eles moram aqui — ele deu de ombros.
— Eu passei a noite na sua casa e estou vestindo as suas roupas, Nate. O que eles vão pensar?
— Joseph, você já dormiu aqui antes e eu já te emprestei uma ou outra peça de roupa nesse tempo. Não tem nada demais nisso.
— É diferente agora.
— Só por que você gozou na minha boca enquanto eu te chupava gostoso essa noite? — Nathan perguntou e Joseph quase bateu nele por falar sobre aquilo bem ali no meio da casa.
— Cala a boca!
— Deixa de bobagem. Não está escrito na sua testa que eu te fiz um oral, Joe. Vem, vamos tomar café.
Mais uma vez ele segurou a mão de Joseph e o arrastou escada abaixo até a cozinha. Seus pais estavam sentados à mesa, conversando enquanto também finalizavam seu café da manhã atrasado e se viraram para os dois assim que eles entraram.
— Oi, meninos — a mãe de Nathan os cumprimentou com um sorriso gentil. — Eu fiz o café da manhã, estão com fome?
— Morrendo — Nathan depositou um beijo na testa dela e deu dois tapinhas no ombro de seu pai, enquanto Joseph cumprimentava ambos com um “bom dia” extremamente educado que quase lhe fez revirar os olhos.
— Você perdeu mais um dia de aula, mocinho — o pai de Nathan comentou quando eles se sentaram à mesa, um ao lado do outro.
— Não tinha nada de importante hoje — o garoto respondeu, passando geleia de framboesa nas torradas que a mãe havia feito, sem se importar muito com esse fato.
— Ouviu isso, Ellen? Esse seu filho realmente não valoriza a fortuna que eu gasto com a mensalidade daquele colégio.
— Querido, você deveria saber que o fruto não cai muito longe da árvore. — A mãe de Nathan riu e cochichou para os dois rapazes ao seu lado: — Charles era bem pior que vocês quando estava na faculdade, ele costumava pagar aos colegas para responderem à chamada por ele. Não o tomem como exemplo.
— Eu ouvi isso — o homem se levantou e recolheu os pratos que ele e a esposa haviam sujado, levando-os para a lava louças. — Nathan, hoje é o seu dia de colocar o lixo para fora e não se esqueça de arrumar a mesa depois que vocês dois terminarem de comer, ok?
— Pode deixar.
— E nada de empurrar o seu trabalho para o Joseph. Ele é visita aqui, você não. — Completou antes de erguer os polegares para Joseph e se retirar da cozinha. Nathan gritou um “tá” por cima do ombro, ainda muito concentrado em suas torradas.
— Bem, meninos, eu também vou descansar um pouco. Apareça por aqui mais vezes, Joseph — a mãe de Nathan abriu um sorriso carinhoso para ele que assentiu em resposta.
Ela saiu da cozinha logo em seguida, mas não sem antes reparar na marca de chupão que Joseph tinha no pescoço, no entanto, preferiu não comentar nada a respeito. Tinha ido ao quarto do filho mais cedo, pronta para lhe dar uma bronca por ter faltado ao colégio de novo, mas se deparou com os dois rapazes dormindo juntos e, embora o edredom os cobrisse da cintura para baixo não era preciso ser nenhum grande gênio para notar que ambos estavam nus.
Ellen não podia dizer que se surpreendeu.
Como mãe, era óbvio que já sabia da preferência do filho por garotos, assim como sabia que Nathan não era virgem já há algum tempo e vê-lo na cama com Joseph também não foi algo tão inesperado assim. Ela já tinha notado a forma apaixonada como Nathan olhava para o garoto e já suspeitava que Joseph pudesse corresponder aos sentimentos dele, então, apenas deu meia volta e os deixou dormir, fingindo que nunca tinha estado naquele quarto.
Alguns pais poderiam perder a cabeça por saber que seu filho adolescente estava fazendo sexo, mas ela e o marido não eram assim. Ambos sabiam que os jovens estavam se tornando cada vez mais precoces sexualmente nos últimos anos e já tinham conversado muito com Nathan sobre isso, fazendo questão de educa-lo sobre a importância do uso de preservativos, entre outras coisas. Àquela altura, não havia nada que o garoto não soubesse sobre sexo seguro e o fato de Nathan estar transando com um garoto não era algo que os incomodava, já que sempre tiveram a mente aberta em relação a tais práticas. Nathan provavelmente sabia disso, mas como ele nunca tinha se assumido para eles, ela e o marido também fingiam não saber de nada. Eles acreditavam que o filho falaria sobre o assunto quando estivesse pronto e, quando esse dia chegasse, eles o apoiariam como sempre fizeram. Ellen só esperava que Joseph tivesse o mesmo apoio dentro de sua própria família.
— Viu? Eu disse que não precisava se preocupar — Nathan comentou quando sua mãe sumiu pelo corredor.
Joseph riu de nervoso, finalmente se inclinando para pegar um pouco de suco.
— Tá, eu me apavorei mesmo e daí? — Ele confessou. — Você não pode me julgar.
— Você fica realmente adorável sendo todo educado com os meus pais, sabia? Parece até outra pessoa.
— Vá se foder, Nathan.
— E aí está o Joseph que eu conheço. Gosto mais desse, aliás.
— Ninguém se importa.
— Você se importa.
— Eu não me importo coisa nenhuma — Joseph lhe virou a cara, ocupando-se com seu café da manhã e Nathan apenas riu.
Ele estava feliz por ver que Joseph estava melhor naquela manhã, tão diferente do garoto perdido e quebrado que havia entrado em sua casa antes e esperava que ele se mantivesse assim. Ainda não tinha digerido tudo o que havia descoberto na outra noite e só de pensar no que o tio de Joseph havia feito com ele, sentia seu sangue ferver. Se dependesse dele, ambos já estariam na delegacia, denunciando aquele patife nojento por abuso sexual, mas não cabia a ele tomar aquela decisão.
Era Joseph quem tinha de decidir se queria denunciar o tio ou não e como ele disse que só queria esquecer tudo e seguir em frente, só lhe restava aceitar e apoiá-lo nisso. Nathan podia não concordar com a decisão, mas também não queria expor o garoto a nada que ele não se sentisse confortável e seguro o suficiente para fazer, pois sabia que denuncias de abuso exigiam bem mais da vitima que do estuprador de fato, então, se colocou em seu lugar e se forçou a fazer as coisas como Joseph queria.
— Você vai voltar para casa hoje? — Ele quis saber.
Joseph sentiu seu coração murchar. Não queria voltar para casa ainda. Na verdade, não queria voltar e ponto, mas sabia que não tinha como fugir disso para sempre. Hora ou outra seu pai se cansaria de esperar por sua boa vontade e o obrigaria a voltar para casa e, de qualquer forma, ele não podia montar abrigo ali na casa de Nathan por muito tempo, seria inconveniente.
— Vou voltar no fim da tarde — respondeu tentando não deixar transparecer o quanto estava infeliz com aquilo.
— Se quiser, você pode dormir aqui essa noite também — Nathan sugeriu.
Joseph negou com a cabeça.
— Você tem aula amanhã. Não quero te atrapalhar.
— Você não atrapalha.
— Está insistindo só para poder dormir comigo de novo, não é? — Joseph provocou.
Nathan riu.
— O que foi que me entregou? A baba praticamente escorrendo da minha boca enquanto eu te olho ou o fato de eu nem poder me levantar daqui porque fico de pau duro só de pensar em ter você na minha cama de novo?
— Nate, meu Deus! — Joseph gargalhou tão alto que precisou tapar a própria boca para evitar que os pais do garoto o ouvissem. Nathan gostou daquele som, ele tinha quase certeza de que aquela era a primeira vez que ouvia Joseph rir com tanta vontade.
— Falando sério agora, eu quero muito, muito mesmo dormir com você de novo — ele confessou —, mas não é só por isso que quero que fique aqui essa noite. Você sabe.
— Eu sei — Joseph assentiu. — Venho dormir aqui outro dia.
— Promete?
— Prometo.
— E vai me desbloquear no celular?
— Quando eu chegar em casa e recarregar a bateria dele, sim.
— Foi um saco passar mais de um mês bloqueado, sabia? Sem falar que você nem me atendia quando eu ligava para a sua casa. Você foi muito cruel.
— Eu sei. Me desculpe. Eu costumo fugir quando não sei lidar com alguma coisa. É meio que um mecanismo de defesa, sabe? Se eu pensar demais em um problema começo a surtar por causa dele, então, eu apenas o ignoro.
— E, no caso, eu era o problema.
— Com certeza era. Você me deixou... muito perdido naquele dia.
— Desculpe por isso. Eu geralmente não sou impulsivo assim.
— Tudo bem. Já passou, certo?
— Certo. E já que ainda temos o restante dessa tarde juntos, o que acha de fazermos algo divertido? — Nathan sugeriu.
— Tipo o que?
— Sei lá, podemos jogar videogame ou sair para tomar um sorvete e ficar de bobeira por aí, você decide. Mas se quiser passar a tarde inteira no meu quarto, agarradinho comigo, eu não tenho nada contra. Inclusive até prefiro.
— Acho que te vencer em algumas partidas de videogame está ok para mim — Joseph riu.
— É realmente uma pena — Nathan suspirou, fingindo estar decepcionado.
Depois de levar o lixo para fora e arrumar a mesa como seu pai havia pedido, Nathan e Joseph subiram de volta para o quarto e ligaram o videogame. Durante algum tempo, eles realmente jogaram a sério, mas Joseph reclamou que estava com dor de cabeça após algumas partidas, então, eles decidiram passar o resto da tarde dormindo, o que terminou com os dois se agarrando no quarto, embora aquela pegação tenha sido bem mais leve que a da noite anterior já que os pais de Nathan estavam em casa.
— Dorme aqui de novo — Nathan pediu já no final da tarde, prendendo Joseph em um abraço apertado e recusando-se a deixa-lo sair da cama.
— Não posso. Anda, Nate, me deixa levantar.
— Não — Nathan resmungou e apesar de seu tom manhoso, o beijo que ele depositou no pescoço de Joseph, logo abaixo de sua orelha, não foi nem de longe tão inocente e fez o garoto ofegar baixinho. — Por favor, fica.
— Merda — Joseph quase cedeu, mas se recompôs a tempo de se libertar de seu abraço e empurra-lo para longe, levantando-se rapidamente. — Mantenha suas mãos longe de mim — avisou quando Nathan fez menção de abraça-lo de novo —, eu não raciocino muito bem quando você faz essas coisas.
— Que coisas?
— Você sabe muito bem o que, Nathan. Não se faça de idiota comigo, pois eu sei que você não é.
Nathan riu de seu desespero.
— Eu não achei que você fosse tão tímido, Joe. Quieto e reservado, sim, mas tímido é novidade para mim.
— Eu não sou tímido — Joseph reclamou enquanto pegava suas coisas. — Você que é muito... sabe?
— Muito o quê? Muito safado? — Nathan procurou os olhos dele com os seus, já que Joseph parecia decidido o olhar para cada canto daquele quarto exceto para ele.
— Sim! É exatamente isso!
— A gente se conhece há cinco anos e você só notou isso agora?
— É porque antes isso não era direcionado a mim.
— Errado. Sempre foi direcionado a você — Nathan o corrigiu. — Você só não sabia disso na época.
— Certo. É melhor eu ir embora agora — Joseph concluiu, rindo de sua cara de pau. — Te mando uma mensagem quando eu conseguir recarregar o meu celular.
— Espera, eu te levo em casa — Nathan se sentou na cama, procurando por sua camiseta.
— Não precisa.
— Eu sei, mas eu quero.
— Nate, não — Joseph pousou a mão em seu ombro, fazendo-o parar. — Olha... eu gosto de você, tá ok? Talvez eu sempre tenha gostado, mas só tenha percebido quando você me beijou aquele dia. A questão é que... isso aqui — ele apontou de um para o outro tentando se explicar —, nós dois, juntos, ainda é algo muito novo para mim, entende? Eu nem tive tempo de processar tudo isso direito.
— Por que parece que você vai me dar um fora?
— Eu não vou — Joseph negou veemente. — Não é isso, é só que... a minha vida é uma bagunça, toda ela. A minha família é complicada, eu sou complicado e aqui dentro — Joseph apontou para a própria cabeça com o dedo indicador — nem sempre é um bom lugar para ficar. Na maior parte do tempo, eu nem consigo lidar comigo mesmo, então, eu só quero ir com calma, entende? Não quero embarcar nisso rápido demais e acabar estragando tudo depois. Eu quero muito fazer isso dar certo.
— Eu entendo — Nathan pousou sua mão sobre a de Joseph que ainda estava em seu ombro e a acariciou, compreensivo.
Ele conhecia Joseph há mais de cinco anos e sabia muito bem que o garoto era cheio de questões pessoais complexas e obscuras que ele não estava nem perto de entender. Sua vida e a Joseph eram muito diferentes e, às vezes, ele só queria abraça-lo e garantir que ninguém o machucaria, mas não havia muito que pudesse fazer na maior parte do tempo.
Nathan odiava isso.
Odiava vê-lo ferido e quebrado como estava antes e não poder ajudar. Não poder fazer nada além de ficar por perto e tentar impedi-lo de desistir de tudo e se trancar, de uma vez por todas, dentro de si mesmo. Era realmente triste saber que ele tinha uma luz tão bonita, mas que as pessoas a sua volta estavam deixando que ela se apagasse pouco a pouco.
Tudo que Nathan queria era ser diferente deles, ser um porto seguro e não mais um abismo escuro e frio na vida de Joseph.
— Vamos devagar — ele concordou e Joseph sorriu para ele.
— Obrigado — disse e deixou que Nathan depositasse um selinho casto em seus lábios antes de ir embora.
Voltar para casa naquele dia foi, provavelmente, a coisa mais difícil que Joseph já tinha feito até então. Depois de passar uma noite e uma tarde inteira com Nathan, sendo tratado com tanto carinho e respeito, era difícil não sofrer com a ideia de voltar para um lugar onde sempre se sentia tão mal, mas não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso. Não era como se tivesse outro lugar para onde ir.
Silencioso como sempre, Joseph abriu a porta de casa e entrou, mas sequer conseguiu atravessar todo o corredor antes da voz sempre insensível de seu pai alcança-lo.
— Onde esteve? — Erick o questionou, parando atrás dele com os braços cruzados e uma expressão dura no rosto.
Joseph se virou.
— Passei a noite na casa do Nathan. Com ele e os pais — completou porque já sabia que Erick nunca tinha gostado muito do garoto e havia passado a gostar ainda menos depois do fatídico dia em que chegou bêbado em casa e acabou ficando de castigo por um mês.
— Já disse que não quero você andando com esse projeto de marginal.
— Nathan não é um marginal e seria melhor se eu tivesse passado a noite na rua?
— Seria melhor se você se comportasse e não armasse um circo como fez ontem, Joseph. Suas atitudes prejudicam a todos nessa casa.
Joseph pensou em responder, mas preferiu ficar calado. Erick não lhe daria ouvidos de qualquer maneira, não importava o que dissesse.
— Porque não me atendeu quando eu te liguei essa manhã? — Ele perguntou, mudando de assunto ao ver que o garoto não protestaria.
— Meu celular descarregou — Joseph mostrou a ele o aparelho e Erick torceu o nariz para aquilo, mas pelo menos não lhe deu um sermão sobre não deixar seu celular descarregado. Seria demais até para ele.
— A diretora do seu colégio me ligou, ela disse que você tem faltado muito e que as suas notas estão caindo. Será que eu vou ter que contratar alguém para te levar até a porta da escola e garantir que você assistirá às aulas?
— Desculpe — foi o que Joseph respondeu, pois não achava que seu pai se contentaria com qualquer outra resposta além daquela. A verdade é que ele odiava aquele colégio e seus colegas de turma que sempre o faziam se sentir inadequado. Faltar a algumas aulas por mês era basicamente a forma que ele havia encontrado para não desistir totalmente de ir à escola.
Erick suspirou, cansado. Parecia que conversar com Joseph, mesmo que apenas por alguns minutos, consumia toda a sua energia.
— Você está de castigo. Sem videogames, sem TV e sem passeios depois da escola. E, se eu souber que andou faltando de novo, vou te dar uma surra tão grande que vai precisar ter aulas domiciliares porque não vai conseguir sair da cama por um mês — avisou e virou as costas para Joseph, voltando para o seu escritório.
Joseph resmungou baixinho. Não sentiria tanta falta do videogame ou da TV, mas, agora que tinha voltado a falar com Nathan, não poder sair seria um verdadeiro pé no saco. Ele só esperava que esse castigo acabasse logo.
Chateado, Joseph continuou seu caminho até o quarto, mas assim que chegou ao fim da escada deu de cara com Aaron que, além de esbarrar propositalmente nele, o mediu dos pés a cabeça como se estivesse julgando todos os seus defeitos com um único olhar.
— Parece que a noite foi boa — ele disse, analisando as roupas que Joseph usava. Ele havia saído de casa apenas de calça jeans e tênis, mas tinha retornado com as roupas que Nathan lhe emprestrata, pois as suas estavam imundas.
— Não começa — Joseph se desviou dele, mas Aaron o segurou pelo braço e completou:
— Eu te liguei ontem. Um cara atendeu e disse que você estava com ele e que eu devia parar de te incomodar. Não era a voz do Nathan.
Joseph se virou para ele devagar. Lembrava-se vagamente de seu telefone tocando, mas não sabia quem havia ligado, porque o garoto que beijara naquela noite havia tomado o celular de suas mãos e atendido e ele estava simplesmente bêbado demais para reclamar.
— Com quem você estava? — Aaron perguntou e, pela primeira vez, Joseph detectou mais que a implicância costumeira em seu tom de voz. Ele parecia... chateado?
— Por que quer saber?
— Por que não responde?
— Porque isso não é da sua conta — Joseph puxou o braço das mãos dele, afastando-se. — Não tenho que te explicar nada.
— Você é um idiota.
— E você é o que?
Aaron olhou para ele com raiva.
— Ao que parece eu sou um idiota também, porque só um idiota teria perdido tempo te ligando ontem.
— Ótimo, então, já que estamos de acordo, vá viver a sua própria vida e deixe a minha em paz.
— Ótimo!
— Ótimo — Joseph retrucou o encarando com raiva também.
Aaron continuou olhando para ele. Os dois pareciam estar em uma batalha para ver quem desistia primeiro e, se Joseph estivesse em um dos seus dias bons, provavelmente ficaria ali até Aaron se cansar e sair com raiva, mas era ele quem estava cansado e com dor de cabeça naquele dia. Já tinha tido sua cota de discussões com seu pai no andar de baixo, não tinha pique para mais uma.
Ele se afastou, seguindo em direção ao quarto, mas parou quando Aaron disse:
— Você saiu daqui feito um louco ontem, eu não sabia o que havia de errado. Desci e fui te procurar lá no jardim, mas minha mãe disse que você tinha discutido com o seu pai e saído. Achei que fosse voltar logo, mas a festa acabou, todos foram embora e você não apareceu, então, eu te liguei.
Joseph se voltou para ele.
— Achei que iriamos encontrar o seu corpo em um beco hoje — Aaron continuou. — Você não estava normal, Joseph. Aí eu te liguei e você estava com algum idiota, provavelmente bêbado demais para se cuidar sozinho. Eu fiquei...
— Ficou o que? — Joseph insistiu. Aaron realmente ia dizer que ficou preocupado com ele? Era mesmo isso?
— Nada — Aaron fechou a cara, irritado de novo. — Você parece estar muito bem de qualquer forma.
Ele começou a se afastar, mas dessa vez foi Joseph quem o segurou.
— Eu realmente estava bêbado ontem — ele confessou. — E, se quer saber, eu não faço a menor ideia de com quem eu estava naquela hora, mas não passei a noite com essa pessoa. Acabei indo para a casa do Nathan e dormi lá. — Joseph o soltou e apontou para as roupas em seu próprio corpo — elas são dele, aliás.
— Eu não te perguntei — Aaron resmungou, contrariado.
— Eu sei. Mas sinto muito se te deixei preocupado.
Ele não respondeu. Apenas voltou para o quarto e bateu a porta. Joseph também foi para o seu. Talvez, um dia, entendesse como a cabeça de Aaron funcionava, mas naquele momento ele só queria descansar um pouco para se curar da ressaca.
Colocou o celular para carregar e foi tomar um banho, se enfiando em um pijama confortável logo depois. Lembrou-se de desbloquear o contato de Nathan e de lhe enviar uma mensagem como disse que faria. O garoto respondeu no mesmo instante e Joseph riu.
Era tão estranho!
Pensar nos dois assim, juntos, parecia algo surreal e ele não sabia como reagir a isso. Deveria mandar corações no final das mensagens como os namorados faziam? Aliás, eles estavam namorando agora ou continuavam como antes, naquela terra de ninguém entre a amizade e o algo mais?
Sem querer pensar muito nisso, Joseph guardou o celular e se ajeitou melhor na cama. Não se preocuparia com esses detalhes, pelo menos não ainda. Por enquanto, apenas aproveitaria os momentos legais ao lado de Nathan e, depois, eles decidiriam o que fazer. Tinham tempo, certo? Não precisavam resolver tudo naquele instante.
— Vá com calma — Joseph lembrou a si mesmo. — Você não quer estragar isso.
E ele realmente não queria.
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