Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up
10 Rebellion
Notas iniciais
— Levante a cabeça — Joseph pediu, ajeitando a postura de Nathan pela quarta vez só no último minuto. — Se não parar de se mexer, eu nunca vou conseguir terminar.
— Mas eu estou quieto.
— Você abaixa a cabeça toda hora, Nate.
—É porque o meu pescoço já está doendo — ele resmungou e Joseph precisou ajeitar sua postura de novo. — Se eu soubesse que esse negócio de modelo era tão chato, não teria pedido para você me desenhar. Eu estava esperando algo mais parecido com Jack e Rose em Titanic, sabe? Não isso.
— Fala sobre a parte em que eles fazem sexo dentro do carro ou sobre quando o navio afunda e o Jack morre?
— Claro que é sobre quando o Jack morre. Por que diabos eu iria querer transar com você, ainda mais dentro de um carro? Eca! — Nathan brincou e Joseph atirou sua borracha nele, mas ele a segurou antes que ela o acertasse de fato.
— Você é um porre. Eu não sei porque aceitei namorar você —Joseph comentou, concentrado no rascunho no qual estava trabalhando.
— Provavelmente porque você me ama e porque nós fomos feitos um para o outro — Nathan desenhou um grande coração no ar e Joseph fechou a cara para ele.
— Eu te disse para ficar quieto — reclamou. — Além disso, nunca ouvi nada mais clichê.
— Isso é porque você não reconheceria uma declaração de amor nem se eu batesse com ela na sua cara.
— E esse seu papinho aí conta como declaração?
— Por que foi mesmo que eu te pedi em namoro, hein? — Nathan questionou e Joseph apenas riu.
— Terminei — ele avisou e Nathan respirou, aliviado, por poder se movimentar livremente de novo. — Não está finalizado ainda — acrescentou mostrando o resultado de seu trabalho para o outro —, tem algumas coisas que quero corrigir e falta colorir também, mas está quase pronto.
— É a primeira vez que você faz um retrato? — Nathan perguntou, admirado com a qualidade do desenho que o mais novo havia feito.
Joseph deu de ombros.
— Com um modelo vivo, sim. Eu costumava reproduzir algumas fotos que via na internet, para poder treinar o traço, mas é a primeira vez que faço isso com uma pessoa de verdade. É um pouco mais difícil do que imaginei.
— Você se saiu muito bem. O desenho ficou ótimo.
— Obrigado, mas teria ficado melhor se o modelo em questão não se mexesse e tagarelasse tanto — Joseph o provocou.
Nathan levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido com o comentário.
— Eu duvido que a Mona Lisa tenha ouvido tais absurdos do Leonardo Da Vinci, sabe?
— Provavelmente ela era uma modelo menos inquieta que você — Joseph concluiu e Nathan tomou o caderno de desenho de suas mãos para avaliar seu retrato mais de perto. Ele já sabia o quão talentoso Joseph era com um lápis de desenho e uma folha em suas mãos, mas isso não o impedia de ficar sempre boquiaberto com suas obras. Seu retrato não foi exceção. O desenho tinha ficado realmente bom! Era mais ou menos como olhar para uma foto sua, mas em preto e branco, e ele estava impressionado com o quão realista o desenho ficara.
— Posso ficar com ele? — Perguntou e Joseph pareceu mais que horrorizado com a ideia.
—É claro que não! Esse é o primeiro retrato que eu faço, ele não ficou muito bom.
— Eu achei que ficou excelente.
— A sua opinião não conta, Nate.
— Porque não? A minha opinião é a única que deveria contar aqui.
— Mas não conta. Você sempre diz que os meus desenhos ficaram ótimos mesmo quando eles estão péssimos. Não dá para confiar no seu julgamento.
— Que história é essa? Você nunca fez um desenho péssimo.
— Eu já fiz vários desenhos péssimos. Esse aí é um deles. Preciso treinar um pouco mais antes de realmente fazer um retrato decente.
Nathan o encarou por um instante, depois, revirou os olhos para as palavras do menor. Às vezes, Joseph era perfeccionista e autocrítico demais.
— Ok, senta aí! — Ele disse, empurrando o garoto para a mesma poltrona na qual estivera sentado antes.
— Por que?
— Porque eu vou te ensinar a valorizar os seus desenhos — Nathan explicou, virando a página do caderno e apanhando um lápis 6B do estojo.
Joseph riu.
— Você vai me desenhar?
— Vou. Agora fica quietinho e vira o seu rosto um pouquinho para a esquerda.
— Para a esquerda?
— Uhum.
— Assim? — Joseph se virou e Nathan avaliou sua postura como se fosse algum especialista no assunto.
— Não, assim não. Um pouco menos.
— Um pouco menos? Você sequer sabe o que está fazendo?
— Silêncio. Me deixa trabalhar — Nathan se sentou no banquinho diante dele e começou a rabiscar enquanto Joseph o encarava com diversão. Ele parecia muito concentrado em seu trabalho, movimentando o lápis sobre a folha com determinação e, às vezes, murmurando alguns “hum” aqui e ali enquanto estudava a postura de Joseph.
O garoto tinha certeza de que a expressão séria e atenta no rosto do namorado era uma cópia perfeita da sua, quando estava desenhando, e não duvidava que Nathan estivesse tirando sarro de sua “cara de artista”, porque ele era bem capaz disso. Seu namorado era um piadista na maior parte do tempo.
Após alguns minutos, Nathan devolveu o lápis para o estojo, deu uma ultima conferida em seu trabalho e, então, virou o caderno para que Joseph pudesse ver sua obra de arte: um boneco palito cercado de corações assimétricos, com as palavras “namorado mais rabugento do mundo” escritas logo abaixo.
— Confessa, ficou ótimo — Nathan disse e Joseph riu tanto que mal conseguiu respirar o suficiente para respondê-lo.
— Ah, sim, ficou perfeito! — Ele mentiu, fingindo estar realmente impressionado com o trabalho do namorado. — Uma verdadeira obra de arte, Nate! Se Da Vinci ainda estivesse vivo, ele morreria de novo, só que de inveja.
— Eu sei. Michelangelo tem sorte que a Capela Sistina foi construída muito antes de eu nascer porque, certamente, o papa daquela época iria preferir que eu a pintasse — Nathan disse orgulhoso. — No entanto, como eu não sou egoísta com a minha arte, vou deixar que você leve o desenho para casa e o cole na sua parede junto com os seus.
— Uau. Você me daria mesmo tamanha honra?
— Sim, mas só dessa vez. Das próximas vai precisar pagar, é claro.
— Ah, claro — Joseph pegou seu caderno de volta e o guardou na mochila ainda rindo. — E você aceita beijos como forma de pagamento ou apenas dinheiro?
— Por quem me tomas, caro senhor? Acaso acha que pode pagar por meu belíssimo trabalho com alguns beijos? Porque se acha, você está coberto de razão. Aliás, quer pagar adiantado?
— Meu Deus, você é péssimo! — Joseph o empurrou levemente e Nathan riu.
— E essa é apenas uma dentre as dezenas de qualidades que eu possuo, como você já sabe.
— Sim, sim, que belo partido você é... — Joseph conferiu o horário em seu relógio e guardou o restante de suas coisas que estavam espalhadas sobre a mesa de estudos de Nathan. — Preciso ir. Meu pai me quer de volta em casa às sete.
— Esse seu toque de recolher é um saco.
— Eu sei, mas é melhor lidar com essa restrição de horário que com um castigo de meses. Eu mal me livrei do último.
— Argh! Odiei cada segundo daquele seu castigo.
— Não mais que eu — Joseph depositou um selinho breve em seus lábios e se afastou. — Eu te vejo amanhã?
— Sem falta — Nathan sorriu para ele e, como sempre, o sorriso de Joseph morreu assim que ele saiu pela porta.
Nos últimos meses, havia se tornado rotina para ele passar as tardes com Nathan. Às vezes, eles ficavam horas jogando vídeo game ou assistindo filmes, às vezes iam ao parque tomar um sorvete ou, no caso de Nathan, andar de skate, mas na maioria das vezes eles apenas passavam a tarde inteira trancados no quarto, conversando e se agarrando.
Joseph gostava especialmente dessas partes. Nunca achou que poderia superar o abuso que sofrera na infância, mas cada dia ao lado de Nathan lhe mostrava que essa não era uma realidade tão distante assim. Inclusive, nas ultimas semanas, Joseph admitia que vinha pensando cada vez mais sobre dar esse próximo passo com ele, afinal, eles estavam naquele relacionamento há mais de um ano e, superando todas as expectativas, as coisas não poderiam estar melhores. Nathan era seu porto seguro e, embora Joseph nunca tivesse verbalizado tais palavras antes, ele o amava com todo o seu coração.
— Está atrasado — foi a primeira coisa que seu pai lhe disse quando ele abriu a porta de casa e Joseph quase teve um ataque cardíaco por causa do susto que levou.
Ele olhou para o relógio de parede antigo do outro lado da sala, aquela relíquia horrível que seu pai insistia em manter e fez uma leve careta.
— Só me atrasei alguns minutos.
— Alguns minutos de atraso ainda é um atraso — Erick concluiu, se levantando da poltrona onde estava e caminhando com passos decididos até ele. Joseph não conseguiu evitar se retesar com aquela aproximação. Era sempre assustador quando Erick se aproximava daquela maneira.
— Não vai se repetir — ele garantiu, mantendo seus olhos presos ao chão para evitar o olhar gélido do pai.
— Amanhã quero que venha direto para casa quando sair do colégio e quero que permaneça aqui.
— Por que? — Joseph questionou, recebendo um olhar raivoso de Erick no mesmo instante. Em geral, quando seu pai estava em casa, ele tentava ao máximo cumprir seu horário corretamente. Às vezes se atrasava um pouco, como naquela noite, mas Erick nunca tinha criado caso por causa disso. — Eu só me atrasei cinco minutos, pai. Não é grande coisa.
— É sempre uma grande coisa quando você me desobedece, Joseph, mas seu atraso é o que menos me importa agora.
— Então, o que?
— Teremos um jantar amanhã e quero que você participe.
— Por que? — Dessa vez Joseph soou confuso. Seu pai nunca lhe pedia para participar dos jantares que fazia em casa, na verdade, Erick sempre lhe dizia para sumir de suas vistas e ficava mais que satisfeito quando ele se trancava no quarto fingindo que não fazia parte da família.
— Convidei August Normán e sua família para jantar aqui amanhã. Você provavelmente se lembra da filha dele, Lucille.
Joseph confirmou com um aceno. Ele se lembrava de Lucille, pois tinha esbarrado com a menina algumas vezes na empresa de seu pai, quando Erick insistia que ele fosse até lá aprender sobre os negócios da família. Lucille era uma garota gentil, de sorriso doce e grandes olhos azuis, cerca de um ano mais velha que ele. Para os padrões ingleses, ela era considerada uma garota atraente e Joseph até suspeitava que ela fosse uma pessoa agradável de conviver, mas não entendia porque era importante para seu pai saber se ele se lembrava dela ou não, afinal, não é como se os dois fossem melhores amigos de infância ou algo assim. Eles apenas se cumprimentavam educadamente quando seus caminhos se cruzavam pelos corredores.
— Ela perguntou por você hoje. Queria saber se estaria presente no jantar — Erick explicou e o cenho de Joseph se franziu ainda mais.
— Por que ela se importa com isso? Nós sequer conversamos quando nos vemos na empresa.
— Chegou ao meu conhecimento que ela tem certo interesse em você. Um interesse romântico — Erick concluiu e Joseph finalmente entendeu onde seu pai queria chegar com aquilo. Sua expressão passou de confusa a horrorizada em milésimos de segundos.
— Você quer que eu seduza a garota? — Ele perguntou, inconformado com o quão baixo seu pai podia chegar quando se tratava de negócios.
Erick nem se preocupou em negar.
— Não deve ser tão difícil. Ela já está interessada em você, apenas faça com que esse interesse aumente.
— Não vou fazer isso.
— É claro que vai.
— Não vou enganar alguém desse jeito só para que você consiga o seu acordo milionário, pai. Eu mal conheço essa garota!
— Você pode conhecê-la melhor no jantar de amanhã.
— Isso é absurdo.
— Absurdo? Não fale comigo como se eu estivesse te pedindo muito, Joseph. Lucille é uma garota bonita e bem nascida, ela é herdeira de uma das famílias mais influentes de Londres e sabe-se lá porque, em nome de Deus, ela se interessou por alguém como você, então, aproveite a chance. Você já está mais que na idade de começar um namoro — Erick esclareceu. — Quando eu tinha dezesseis anos, já havia apresentado mais de uma garota aos meus pais e eles ficariam orgulhosos se eu apresentasse a eles alguém como Lucille Normán.
— Eu não sou você — Joseph retrucou sem nem pensar nas consequências que aquela afronta direta poderia lhe trazer. — Não vou namorar alguém só por causa da conta bancária dos pais dela. Aliás, quem eu namoro ou quando não deveria ser uma decisão sua.
— E deveria ser sua? — Erick lhe encarou com raiva. — Quantas boas escolhas você fez na vida, hum? Vai completar dezesseis anos em breve e ainda nem sabe que carreira quer seguir, Joseph. Na verdade, você sequer sabe se vai conseguir entrar em uma universidade ou mesmo se formar no colégio. Eu deveria deixar o seu futuro em suas mãos?
— É a minha vida, pai! Ela pode ser uma merda para você, mas ainda é minha!
— Enquanto você morar sob o meu teto, eu tomo as decisões. E, amanhã, você vai se sentar à mesa conosco, vai sorrir, ser educado e vai tratar aquela garota como se ela fosse a coisa mais importante da sua vida, você me entendeu?
— E se eu não fizer isso? — Joseph o provocou. — E se eu não te obedecer dessa vez?
— Você vai me obedecer — Erick concluiu. — Vai fazer exatamente o que estou mandando ou eu juro por Deus, Joseph, eu não me responsabilizo pelo que farei.
— E o que mais você pode fazer, me matar? — Joseph quase riu. Ele achava que essa era a única punição que seu pai ainda não tinha lhe dado, já que agredi-lo, proibi-lo de sair e lhe tomar seus pertences eram os castigos de praxe. No entanto, Erick foi muito além disso.
— Os pais do Nathan trabalham para um grande parceiro de negócios da minha empresa — ele explicou. — Tenho certeza de que esse parceiro não se importaria em demitir dois de seus funcionários caso eu pedisse a ele.
Joseph o encarou, chocado.
— Você não faria isso.
— E você não me envergonharia no jantar de amanhã, certo? — Erick o encarou de volta.
Joseph quis gritar. Ele não acreditava que seu pai o estava chantageando daquela maneira, mas também não sabia por que estava tão surpreso com isso, afinal, era seu pai. Chantagem era um de seus métodos favoritos.
— O Nathan é o seu melhor amigo há anos, Joseph. Eu tenho certeza de que você não iria querer prejudicar a família dele dessa maneira, não é? — Erick continuou. — Você sabe que eu tenho contatos suficientes nessa cidade para fazer com que os pais dele nunca mais encontrem um emprego por aqui, então, eles teriam que se mudar e você perderia o seu único amigo. Seria uma pena, não? Mas já que quer decidir por si mesmo, vou deixar que faça essa escolha. O que vai ser?
Erick aguardou pela resposta, mas Joseph permaneceu calado. Não havia nada que ele pudesse dizer afinal. Seu pai podia não saber sobre o relacionamento que ele mantinha com Nathan há mais de um ano, mas ele certamente sabia da importância que o garoto tinha em sua vida. Era óbvio que Erick usaria esse fato para manipulá-lo em algum momento, mas no recanto mais profundo de seu coração, Joseph ainda tinha esperanças de que esse dia nunca chegasse. Infelizmente, ele havia chegado antes do que imaginava.
— Venha direto para casa amanhã e esteja pronto para o jantar às sete. Quero você em um terno bem alinhado e sem esses brincos horrorosos na orelha — Erick estipulou e lhe virou as costas, sabendo que a batalha havia sido ganha.
Joseph observou o pai sumir de suas vistas, então, marchou para seu quarto pisando duro. Ele não acreditava que teria que passar a noite seguinte servindo de entretenimento para uma garota rica pela qual não tinha o menor interesse. O que aconteceria caso ela realmente o quisesse como namorado? Ele teria que embarcar em um namoro de fachada apenas para que seu pai não colocasse em prática as ameaças que fizera? E como Nathan se sentiria sobre isso? Aliás, como ele próprio se sentiria tendo que fingir um namoro? Conseguiria fazer isso?
— Merda! — Joseph chutou o primeiro par de sapatos que encontrou jogado pelo quarto, mas só depois percebeu que não deveria ter um par de sapatos jogados ali. Ele se abaixou e recolheu o tênis, então, notou as marcas de dentes que pontilhavam o calçado de cima a baixo. — Filho de uma puta!
Com o calçado em mãos, Joseph atravessou o corredor e abriu a porta do quarto de Aaron sem nem bater antes. Como não o encontrou lá, desceu novamente as escadas e foi até a cozinha.
— Onde ele está? — Perguntou a Brianna praticamente fervilhando de raiva. A mulher, que estava ajudando Christopher com sua lição de casa, pausou a leitura e o encarou sem entender.
— Onde está quem?
— Aquele animalzinho fedido — Joseph lhe mostrou o tênis parcialmente devorado que trazia nas mãos.
— Oh. Screapy deve estar no jardim...
— Estou falando do Aaron! — Ele a cortou e ela teve que reprimir um sorriso de diversão diante da forma como o enteado descreveu seu filho. Os garotos não se cansavam de implicar um com o outro.
— Ele provavelmente está no jardim também — Brianna respondeu e Joseph saiu da cozinha bufando.
Ele encontrou Aaron sentado em uma das mesas do jardim, concentrado no videogame portátil que tinha nas mãos, enquanto Screapy corria sem rumo pelo gramado.
— Seu cachorro destruiu mais um dos meus tênis — Joseph jogou o que sobrou do calçado sobre a mesa e Aaron retirou sua atenção do jogo e a depositou nele.
— É uma pena.
— Pena vai ser quando eu quebrar essa sua cara inteira. Você não consegue colocar limites nesse pulguento?
— Primeiro, ele não é pulguento. Segundo, ele não teria destruído nada se você não deixasse os seus sapatos espalhados pelo chão.
— Eles estavam embaixo da minha cama, dentro do meu quarto, Aaron!
— Onde o Screapy não teria entrado se você mantivesse a sua porta fechada, como eu te pedi.
— Ou onde ele não entraria se você, que é o dono, lhe desse alguma educação. Você vai me comprar outro par igualzinho!
— Não vou mesmo. Você sabe que eu não tenho dinheiro para isso.
— Trate de arranjar.
— Fala sério, Joseph, você tem um armário cheio de tênis. Poderia usar um por dia, durante dois meses, e ainda teria alguns sobrando. Dois pares não vão te fazer tanta falta assim.
— Esse era um dos meus tênis favoritos e o seu cachorro o comeu. Não me importa quantos tênis eu tenho, Aaron, você vai me dar um novo.
— Tá! Eu vejo isso com a minha mãe depois — Aaron resmungou e voltou sua atenção novamente para o videogame portátil, mas Joseph tomou o objeto de suas mãos e o atirou no chão, pisando sobre ele até trincar a tela. — Você ficou doido?!
— Aquele pulguento já destruiu dois pares dos meus tênis em menos de um mês. Se houver um terceiro, vou fazer isso com a sua perna em vez do videogame. Você me entendeu?
—Você está me ameaçando?
— Com certeza — Joseph o encarou. Talvez estivesse apenas descontando sua raiva em Aaron, já que os calçados realmente não lhe fariam tanta falta e ele poderia comprar tênis novos com a mesada generosa que seu pai lhe dava, mas foda-se! Estava furioso e achava que dois pares de tênis destruídos eram motivos mais que suficientes para começar uma briga naquela noite. — Já estou farto de você e desse seu maldito cachorro.
— Eu quem já estou farto de você, Joseph. Olha o que fez com o meu videogame!
— Foi merecido.
— Merecido? Eu disse que iria resolver o problema dos seus tênis com a minha mãe depois. Você não tinha que quebrar as minhas coisas!
— E você não tinha que ter me respondido desse jeito estúpido.
— Que jeito estúpido? Eu apenas te respondi. O que mais você queria? Que eu acrescentasse um “sim, senhor”? Agora eu vou ter que morder a minha língua para me dirigir a você também? Já não basta fazer isso com o crápula do seu pai.
— Você é tão babaca.
— Não, Joseph, é você quem está sendo um babaca. Aliás, seu pai deve estar orgulhoso do filho de uma puta escroto que ele criou tão bem.
Joseph nem parou para pensar, quando percebeu já tinha acertado um soco no rosto de Aaron que desmontou no chão com o nariz sangrando por causa do golpe. Ele se assustou um pouco com sua própria atitude. Costumava discutir com Aaron todos os dias, mas nunca tinha chegado ao ponto de agredi-lo ou feri-lo daquela maneira.
— Joseph, o que você fez?! — Brianna surgiu no jardim, horrorizada com a cena que havia presenciado. Ela se apressou até onde Aaron estava caído e o ajudou a se levantar, olhando com indignação para enteado ao ver o sangue vermelho vivo escorrendo sem parar do nariz do filho. —O que deu em você?
— O que está acontecendo aqui? — Erick também apareceu no jardim e analisou toda a cena à distância, com seu olhar clínico de sempre.
— O Joseph agrediu o Aaron. Vou ter que leva-lo ao hospital, ele provavelmente fraturou o nariz — Brianna observou o ferimento com cautela, então, apoiou o garoto ainda desnorteado em seus braços e o conduziu para fora dali, mas não antes de seu olhar recair sobre o videogame pisoteado no chão. — O que está havendo com você, hein? Você não era assim — ela murmurou para Joseph ao passar, mas não esperou por uma resposta dele.
— Você quebrou mesmo o nariz do pirralho? — Erick perguntou assim que Brianna e Aaron estavam fora de vista, provavelmente já na garagem se preparando para irem ao hospital.
— Pode começar a gritar — Joseph disse desanimado. — Eu sei que fiz merda.
— Aquele pirralho abusado merecia mais que um soco. Ele não passa de um estorvo nessa casa, um imprestável. Você fez bem. — Então, Erick deu dois tapinhas nas costas de Joseph, olhando-o como se pela primeira vez ele tivesse feito algo certo, algo que o orgulhasse e Joseph sentiu seu estômago embrulhar.
Então, era isso? Erick finalmente tinha conseguido dobra-lo? Ele realmente estava se tornando uma cópia desprezível de seu pai? Uma versão mais jovem de tudo aquilo que mais odiava?
— Eu não sou você — Joseph murmurou para si mesmo, recusando-se a aceitar que havia mudado tanto e para pior. Os olhos de Erick se estreitaram enquanto ele tentava compreender as palavras.
— Fale mais alto, Joseph. Eu já disse que odeio quando você choraminga dessa maneira.
Tomado por uma coragem que nem sabia que tinha, Joseph ergueu a cabeça e olhou no fundo dos olhos de seu pai.
— Eu disse que não sou você — repetiu mais alto. — Não sou você e não vou me transformar nessa pessoa horrível que você quer que eu seja.
Os olhos de Erick se estreitaram ainda mais, mas dessa vez de ódio.
— O que está dizendo?
— Estou dizendo que não vou participar daquela droga de jantar amanhã, pai. Não vou iludir nenhuma garota rica e boba só para você conseguir o seu acordo milionário. E se está tão interessado assim na fortuna do pai dela, então, você mesmo pode flertar com August Normán amanhã se quiser.
A bofetada que atingiu seu rosto logo depois já era esperada, então, não doeu tanto quanto doeria caso ele tivesse sido pego de surpresa. Joseph não reclamou, não se irritou, sequer alterou sua expressão apesar de sentir seu rosto arder como o inferno no local em que Erick o acertara.
— Você quer mesmo me desafiar, seu merdinha? Você sabe bem o que eu sou capaz de fazer.
— Eu não vou mais jogar esse seu jogo, pai. Não há vencedor além de você, então, faça como quiser — Joseph lhe virou as costas e apenas saiu do jardim, correndo de volta para o único lugar que ainda lhe trazia alguma paz: o abraço de Nathan.
O garoto estranhou vê-lo bater em sua porta àquela hora da noite, principalmente porque sabia de sua restrição de horário e sabia que Erick estava na cidade, mas abriu a porta mesmo assim e Joseph sentiu vontade de chorar ao vê-lo parado diante de si, com sua calça de pijama velha e os cabelos ainda molhados por causa do banho recém-tomado.
Nathan era como um anjo. Refletia luz por onde passava e Joseph duvidava que houvesse um ser humano no mundo com um coração mais puro e cheio de amor que o dele. Tinha certeza de que o garoto era o que havia de melhor em todo aquele caos que chamava de vida.
— Tudo bem, Joe? — Nathan perguntou, encarando-o com certa preocupação, provavelmente porque ele parecia prestes a chorar.
Joseph se sentiu ainda pior.
O que ele tinha feito? Seu pai destruiria a família de Nathan e a culpa seria inteiramente sua! Ele não deveria tê-lo confrontado daquela maneira, deveria tê-lo obedecido como sempre, assim ninguém sofreria com uma retaliação.
— Eu acho que fiz uma loucura — Joseph se explicou, alarmado. Nathan segurou sua mão trêmula e o puxou para dentro de casa, encostando a porta de entrada ao passar.
— O que aconteceu?
Joseph apenas negou com a cabeça. Era difícil colocar tudo em palavras.
— Hey, conversa comigo. Me diz o que aconteceu. Porque está assim?
— Eu enfrentei o meu pai hoje — Joseph finalmente disse. — Ele queria que eu me envolvesse com uma garota, a filha de um investidor importante da empresa dele, mas eu me recusei a fazer isso. Eu disse não.
— Ele agrediu você — Nathan pousou sua palma sobre a bochecha avermelhada de Joseph, encarando-o com toda a preocupação do mundo. Joseph afastou a mão dele dali e desviou o olhar.
— Isso não é nada. Estou acostumado com essa merda, Nate. É você quem me preocupa.
— Eu?
— Você vai me odiar, eu sei que vai! Eu deveria ter pensado melhor antes de agir, mas eu não quero ser como ele, Nathan! Não quero fazer esse tipo de coisa! — Joseph disse praticamente atropelando as palavras e Nathan precisou segurá-lo e trazê-lo para perto de si novamente.
— Joseph, calma. Me explica direito o que aconteceu, ok? Porque você acha que vou te odiar?
— O meu pai ameaçou a sua família — Joseph respondeu, sentindo-se culpado. — Ele ameaçou destruir a carreira dos seus pais caso eu me recusasse a me envolver com essa garota. Disse que faria os dois perderem o emprego e que usaria todos os contatos dele para impedir que eles arranjassem qualquer outro trabalho em Londres. Ele queria me chantagear! Meu próprio pai!
— Ele sabe sobre nós?
— Não. Não sabe. Ou pelo menos eu acho que não sabe, mas ele sabe que você é o meu melhor amigo desde sempre, Nate. Sabe a importância que você tem para mim, foi por isso que ele usou você e a sua família para tentar me convencer a fazer essa droga.
— E você acha que ele realmente faria isso? Acho que ele realmente acabaria com a carreira dos meus pais?
— Sim. Ele faria só para me ensinar uma lição. Meu pai não é do tipo que aceita perder, muito menos do tipo que aceita que eu o desafie. Eu não sei o que fazer agora, Nate. Eu devo voltar e pedir desculpas? Devo fazer o que ele me pediu e começar um namoro com aquela garota só por causa do dinheiro do pai dela?
— Claro que não, Joe. Isso seria horrível — Nathan negou com a cabeça, mas era obvio que mil coisas se passavam na mente dele, então, Joseph permaneceu calado, observando-o enquanto ele parecia processar todas aquelas informações e pensar em uma solução viável.
Havia dias em que Joseph simplesmente odiava ter nascido na família em que nasceu, mas, em dias como aquele — quando acabava ferindo e colocando em risco as pessoas de que gostava por causa do que seu pai o compelia a fazer — ódio era muito pouco para definir como ele se sentia.
— Não é sua culpa — foi o que Nathan disse quando notou seu olhar pensativo. — Se seu pai é um cretino filho de uma puta, isso não tem nada a ver com você, Joe. Você não é ele, entende isso?
— Mas se seus os pais perderem o emprego porque eu o desobedeci...
— Eles darão um jeito — Nathan o cortou. — Se não aqui, em outra cidade, outro pais, não sei. Eles têm competência para isso, vão arranjar outro emprego mesmo com seu pai usando tudo o que tem para dificultar isso. Acredite em mim.
Joseph assentiu, mas a tristeza em seus olhos se tornou um pouco mais profunda ao pensar nos pais de Nathan tendo que mudar de cidade ou, ainda pior, tendo que mudar de país para conseguirem se reestabelecer.
— Você iria embora com eles, certo? — Perguntou, apesar de já saber a resposta. Nathan faria dezoito anos em alguns meses, mas ainda era menor de idade e não tinha como ele se manter sozinho ali. Ele sequer tinha um emprego. Além disso, ele amava os pais, era óbvio que não os deixaria sozinhos nessa e Joseph não poderia julgá-lo por isso.
— Eu voltaria assim que pudesse.
— Isso é um período de tempo tão vago — Joseph refletiu. — O que eu faria aqui sem você? Eu não tenho outros amigos, Nate. Eu não... Eu não saberia lidar com isso.
— Você ficaria bem, Joseph. Você é muito forte, sabe disso.
— Eu não sou.
— Você é, sim.
— Talvez eu devesse voltar e pedir desculpas. Fazer o que o meu pai quer que eu faça — Joseph divagou. — Não deve ser tão ruim quanto a alternativa...
— Joseph — Nathan mais uma vez o cortou, requisitando sua atenção. — Você não vai fazer isso, não vai iludir uma garota apenas para que o seu pai ganhe ainda mais dinheiro do que ele já tem, entendeu? Você é muito melhor que isso, é muito melhor que ele! Eu não vou deixar que ele te transforme em um peão desse jeito e sei que os meus pais concordariam comigo se estivessem aqui. Eles são pessoas boas e pode ter certeza que, se tiverem que escolher entre o emprego deles ou você, eles vão te escolher assim como eu sempre te escolho.
Joseph sentiu o coração se aquecer com as palavras de Nathan. Era estranho pensar que pessoas fora de sua família tinham mais consideração por ele que seu próprio pai, mas era reconfortante também. Ao longo daqueles meses de namoro, ele havia aprendido a amar os pais de Nathan como se fossem dele e a apreciar os momentos de descontração que passavam juntos. Saber que eles o escolheriam despertava nele um intenso sentimento de carinho e gratidão. Coisas que não sentia há muito tempo.
— Eu amo você e amo os seus pais — ele verbalizou antes mesmo que se desse conta do peso que essas palavras tinham. Nathan pareceu não acreditar no que ouviu.
— O que você disse? — Ele perguntou, apenas para confirmar que não estava sonhando. Já havia dito a Joseph dezenas de vezes que o amava, mas aquela era a primeira vez que ouvia o garoto dizer também.
— Eu disse... Eu disse que eu te amo — Joseph repetiu, mas mal conseguiu terminar a frase antes que Nathan o beijasse.
Foi o beijo mais longo e cálido que eles já haviam trocado em todos aqueles meses juntos, tanto que Joseph perdeu o fôlego em certo ponto e precisou interrompê-lo para respirar, mas foi apenas por um segundo e, logo, eles já estavam se beijando de novo, explorando os corpos um do outro com mãos inquietas e necessitadas.
Ele mal conseguiu registrar o momento em que Nathan retirou sua camiseta ou o memento em que ele próprio se livrou da camiseta branca do mais velho, mas isso não importou. Naquele momento, havia mais que vontades acumuladas ao longo de meses de namoro. Havia o medo de uma separação iminente, a gratidão por todos os momentos compartilhados, o peso da declaração de amor recém-trocada, então, não foi surpresa que em poucos minutos os dois já estivessem jogados sobre a cama de Nathan, quase completamente despidos e sem ter muita certeza de como haviam chegado lá.
— Tem certeza disso? — Nathan perguntou, pausando os beijos e carícias para olhar nos olhos de Joseph a espera de uma resposta. — Isso não é qualquer coisa, Joe. Se não estiver pronto...
— Eu estou — Joseph disse, decidido. — Eu confio em você.
Então, nenhuma outra palavra foi necessária.
Os lábios de Nathan voltaram aos seus e os dedos longos e esguios do rapaz deslizaram de seu rosto para o cós de sua calça, abrindo o botão e retirando-a do caminho com maestria. Joseph deixou escapar um suspiro quando a mão de Nathan esbarrou em seu pau e tal reação não passou despercebida ao rapaz que logo tratou de repetir o ato, dessa vez acariciando o local com um pouco mais de força.
— Você gosta? — Ele quis saber. Joseph só conseguiu murmurar um “sim” quase inaudível, então, Nathan continuou tocando-o daquela forma, observando cada uma de suas reações com tamanha atenção que o garoto se sentiu até um pouco constrangido por isso, mas não de maneira desconfortável.
Nathan tinha dessas coisas. Desde sempre, ele foi o único capaz de fazer com que Joseph se sentisse constrangido e confortável ao mesmo tempo e o garoto nunca conseguiu entender como duas reações tão adversas podiam coexistir em tamanha harmonia dentro de si em momentos como aquele, mas elas coexistiam.
— Você é tão lindo — Nathan comentou de repente. — Se você pudesse se enxergar com os meus olhos agora, Joseph...
— Eu saberia que você precisa de óculos? — Joseph brincou, apesar de sua voz ter soado fraca pelo fato de Nathan ainda estar com as mãos ao redor de seu pau, acariciando-o com vontade.
— Você saberia que é a criatura mais linda que eu já conheci — Nathan completou, inclinando-se para beijá-lo de novo.
Joseph se permitiu ser beijado como nunca antes, permitiu que Nathan retirasse o restante da roupa de ambos e se deliciou com a sensação do corpo completamente nu do outro sobre o seu. Em alguns momentos, ele era transportado para um mundo de sonhos tão arrebatador que precisava lembrar a si mesmo de que seus pulmões não sobreviveriam sem oxigênio, então, ele separava sua boca da boca de Nathan por um segundo só para voltar a beijá-lo com ainda mais vontade depois.
Embora tivessem passado muitas tardes se agarrando dentro daquele quarto e embora Joseph tivesse dito a Nathan que estava pronto, eles nunca tinham parado para conversar sobre como seria quando realmente transassem e Joseph nunca pensou que aquilo seria importante até Nathan perguntar:
— Como você quer fazer?
De início, Joseph não entendeu muito bem a pergunta. Ele apenas encarou o namorado com uma expressão confusa enquanto tentava decifrar suas palavras, mas após alguns segundos finalmente compreendeu o que ele queria dizer: quem seria o ativo e quem seria o passivo?
— Ahn... — Joseph ponderou, sem saber direito o que responder. Por um lado, ele já havia presumido que seria o passivo da relação porque Nathan sempre tivera muito mais atitude que ele nessas horas, mas, por outro lado, ele também não tinha certeza de que não iria surtar quando acontecesse, pois o abuso que havia sofrido anos antes ainda lhe assombrava às vezes.
— Você pode me comer, se quiser — Nathan respondeu diante de sua indecisão e Joseph quase se engasgou com sua resposta.
— Você... Você já... — ele tentou perguntar, mas as palavras pareciam ter ficado presas em sua garganta.
— Se eu já dei para alguém? — Nathan completou, adivinhando seus pensamentos. Joseph apenas assentiu, tímido. — Nunca, mas eu não me importaria de dar para você.
— Mas você sabe que dói, certo?
— No início, sim. Mas não dói tanto se fizer direito e, depois, a dor some e fica tudo bem.
Joseph o encarou com descrença e Nathan suspirou, entendendo exatamente para onde os pensamentos do mais novo tinham ido.
— Sei por que não acredita — ele disse cuidadoso —, mas você precisa entender que aquilo que o seu tio fez com você não foi sexo, Joe. Aquilo foi estupro e é por isso que esse tipo de coisa é chamado de “violência sexual”, porque não há amor, carinho ou cuidado envolvido. É apenas isso, uma violência. E não é assim que o sexo de verdade funciona.
Joseph pensou a respeito. Era difícil acreditar que a dor seria suportável daquela vez, que ele não desmaiaria de novo ou não se machucaria, mas ele realmente queria acreditar nisso, queria experimentar aquilo com Nathan e descobrir como era o sexo de verdade do qual ele falava, aquele onde havia amor, carinho e cuidado.
— Quero que faça comigo — ele decidiu, por fim. — Quero que me mostre como é transar com alguém que eu amo e que me ama de volta.
— Tem certeza? Podemos fazer do outro jeito e tentamos isso depois, se achar melhor.
— Não. Eu quero assim — Joseph enlaçou os dedos em sua nuca e o puxou para mais perto. — Quero sentir você.
Então, Nathan fez o que ele queria. O beijou como se não houvesse amanhã e o tocou como se não houvesse nada mais precioso no mundo. Ele viu o cenho do mais novo se retrair um pouco quando lambuzou sua entrada com lubrificante e levou um dedo até o local, acariciando com cuidado.
Nathan esperou que Joseph se acostumasse com a carícia antes de introduzir o mesmo dedo em sua entrada e também esperou que ele se acostumasse com a sensação de desconforto antes de continuar preparando-o, sempre perguntando se o garoto estava bem e sempre atento a qualquer micro reação que demonstrasse o contrário.
Demorou alguns minutos para que Joseph se acostumasse com o ato e quando pareceu que ele já estava bem com aquilo, Nathan introduziu outro dedo, alargando-o o suficiente para que o desconforto do que viria a seguir não fosse tão ruim. Ele foi cuidadoso, atencioso, calmo e apenas quando sentiu que o garoto já estava preparado foi que aproximou seu próprio pau da entrada de Joseph, que se retesou um pouco pelo contato estranho.
— Vai doer um pouquinho — ele avisou —, mas me diga caso eu te machuque e você não queira continuar, ok? Podemos parar a qualquer momento que desejar.
Joseph assentiu, um pouco assustado, mas também curioso e, então, Nathan se forçou para dentro dele e o garoto praguejou em voz alta e apertou a pele de seus ombros com força por causa da dor. Foi ruim, mas não foi insuportavelmente doloroso como na noite em que seu tio o havia estuprado no banheiro de seu quarto e o fato de que Nathan o havia preparado antes ajudou bastante, assim como o fato dele ter parado e esperado que Joseph se recuperasse um pouco antes de arremeter contra ele novamente.
— Tudo bem? — Nathan perguntou enquanto Joseph tentava controlar sua respiração descompassada. Ele apenas assentiu, ainda com o cenho franzido e os olhos duramente cerrados por causa da dor inicial. — Olha para mim, Joe. — Nathan pediu e Joseph se obrigou a abrir os olhos e encará-lo, viajando um pouco no olhar penetrante do outro. — É comigo que você está agora, ok? Eu te amo. Quero que se lembre disso.
— Não vou me esquecer — Joseph garantiu. — E eu também amo você.
Então, Nathan o beijou enquanto arremetia dentro dele novamente e, no início, foi realmente desconfortável como ele já havia dito que seria, mas não foi ruim. A dor era suportável e, em alguns momentos, era até gostosa de sentir, até que, depois de um tempo, não doeu mais. Havia apenas a sensação de prazer crescente, que se espalhava por seu corpo como o fogo se alastrando pela grama seca e que se tornou quase impossível de se conter quando Nathan enlaçou seu pau e começou a massageá-lo com destreza.
Joseph mal percebeu quando gozou nas mãos do garoto ou o quão alto gemeu nesse momento, mas ficou muito consciente do som gostoso que a voz de Nathan produziu em seu ouvido quando ele também se aliviou dentro de si.
Foi bom, muito melhor do que ele esperava e muito melhor do que Nathan sugeriu que seria, então, Joseph finalmente entendeu o significado da expressão “fazer amor” e isso não lhe pareceu tão brega quanto ele achou que seria.
— Isso foi... — ele começou, mas não encontrou a palavra certa para concluir a frase. Nathan pareceu ter entendido o que ele queria dizer, pois apenas o abraçou forte e disse com um sorriso que ia de orelha a orelha:
— É, foi.
Eles ficaram assim por vários minutos. Abraçados. Apenas trocando alguns beijos castos que não evoluíram para nenhuma pegação mais intensa. Foi terno, tranquilo e Joseph gostaria de poder morar naquele momento para sempre, mas isso se tornou impossível quando a campainha da casa de Nathan começou a tocar de maneira insistente.
— Tenho certeza que é o Danny — Nathan se pronunciou, saindo da cama e recolocando sua calça de pijama. — Ele tem mania de aparecer aqui de madrugada. Vou chutar o rabo dele para longe dessa casa e já volto. Não saia da cama.
E Joseph realmente não saiu. Tanto que foi exatamente assim que seu pai o encontrou, segundos depois, quando invadiu o quarto de Nathan sem qualquer cerimônia.
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