Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up
11 A Coward Dies a Thousand Time Before His Death
Notas iniciais
— Vista-se. — Foi a primeira coisa que Erick disse a Joseph, desviando seu olhar para a parede do quarto após encarar o filho com total repulsa por um milésimo de segundo.
— Pai, eu...
— Vista-se, Joseph.
— Eu vou, é só que...
— Não me obrigue a repetir uma terceira vez. Faça o que estou mandando. Nós conversaremos quando chegarmos em casa.
— Senhor Hamilton — Nathan adentrou no quarto, praticamente correndo, mas Erick ergueu um dedo para ele, silenciando-o.
— Isso é entre o meu filho e eu, rapaz. Não se meta.
— Se o senhor me der um só segundo...
— Nate, tudo bem — Joseph se pronunciou, ao perceber um dos punhos de seu pai se fechando em um claro sinal de que ele estava prestes a perder toda a sua paciência. — Eu vou com ele, ok?
— Joe.
— Tudo bem — Joseph o tranquilizou, abrindo um sorriso tímido para o garoto enquanto alcançava suas roupas no chão e começava a se vestir. — Está tarde, eu preciso mesmo ir.
Nathan se aproximou dele e segurou seu braço, trazendo-o para mais perto e baixando seu tom de voz.
— E se ele te agredir de novo? — Perguntou.
Joseph engoliu em seco, mas disfarçou o melhor que pode.
— Ele não vai — mentiu. — Prometeu que iríamos apenas conversar.
— E você acredita nisso?
— Ele é o meu pai, Nate, eu preciso acreditar — Joseph terminou de vestir sua camiseta e se afastou do namorado, tentando não deixar transparecer toda a inquietação que sentia naquele momento. — Eu te ligo assim que eu chegar em casa, ok?
— Joe — Nathan tentou segurá-lo outra vez, mas Joseph afastou a mão dele de si, gentilmente.
— Eu vou ficar bem.
— Você promete?
Joseph fitou seus olhos castanhos brevemente e tentou, nesse meio tempo, absorver o máximo de detalhes possíveis daquele rosto bonito que ele já conhecia tão bem.
— Eu amo você — foi o que ele respondeu e, então, saiu do quarto sem olhar para trás.
Nathan fez menção de segui-lo, mas Erick se intrometeu em seu caminho, barrando sua passagem.
— Escute bem, rapazinho, não é da minha conta se você gosta de dar o rabo ou se gosta de comer alguns degenerados por aí, mas você não vai arrastar o meu filho para esse tipo de merda, entendeu? — Erick se pronunciou, mantendo seus olhos frios sobre o garoto o tempo inteiro.
Nathan olhou para ele.
Nas vezes em que havia visitado a casa de Joseph, quando criança, ele sempre tinha achado Erick um homem muito sério e até mesmo um tanto ranzinza, mas aquilo nunca o havia preocupado antes. Agora, depois de conviver com Joseph por tanto tempo e saber dos horrores diários aos quais seu pai lhe submetia, a simples menção ao nome daquele homem despertava em si um sentimento misto de pavor e raiva.
— Eu não tenho certeza de que entendi bem o que está insinuando sobre mim, Sr. Hamilton.
— Então, permita-me esclarecer as coisas com você — Erick se aproximou um passo. — Eu não me importo com as suas escolhas de vida, tão pouco quero saber há quanto tempo isso está acontecendo entre vocês ou em que nível chegou, mas toda essa palhaçada que você e o Joseph vinham protagonizando acaba aqui e agora. Não tenho intenções de entrar com medidas judiciais contra você e sua família nesse momento, mas se eu souber que você chegou a menos de dez metros do meu filho novamente, vou me certificar de que você seja preso e de que os seus pais jamais sejam bem vistos nessa cidade outra vez. Eu fui claro, Nathan?
Nathan sentiu seu sangue ferver de raiva.
— Vai se certificar de que eu seja preso? — Questionou entre dentes. — Por qual crime exatamente, Sr. Hamilton? Amar e cuidar do Joseph de uma maneira que o senhor jamais foi capaz de fazer?
— O tipo de amor que você nutre pelo meu filho é doentio.
— É apenas amor. Simples e puro. Não há nada de doentio nisso.
— Em uma relação entre dois homens? Essa prática por si só é nojenta e absurda, mas piora se levarmos em consideração o fato do Joseph nem ter completado dezesseis anos ainda, garoto. Qualquer juiz me daria razão.
— Eu sou apenas dois anos mais velho que o seu filho, Sr. Hamilton. Joseph e eu estudamos juntos, praticamente crescemos juntos e agora estamos namorando. Não há nada de errado nisso e tenho certeza de que nenhuma lei desse país nos proíbe de estarmos apaixonados um pelo outro.
— Isso não é paixão, Nathan, é perversão. E eu não o quero contaminando o meu filho com essas práticas homossexuais. Estou criando o Joseph para ser um homem, não essa vergonha.
Nathan riu alto, apesar de não achar graça em nada do que ouvia. Na verdade, ele sentia tanto ódio das palavras de Erick que estava com as unhas enterradas no fundo de suas palmas, numa tentativa ferrenha de não partir para cima daquele homem e acabar sendo processado por agressão.
— O que eu sinto pelo Joseph não é errado, tão pouco é uma perversão. Eu o amo e isso é puro, mas eu não espero que alguém como você entenda. Não espero muita coisa de um homem que sabe que seu filho foi estuprado pelo próprio tio e não fez nada a respeito.
Uma veia saltou no pescoço de Erick e seu olhar sobre Nathan se tornou ainda mais duro, mas sua voz soou bastante estável quando ele disse:
— Não fale sobre o que não sabe, garoto. As consequências para você poderiam ser terríveis.
— Sei exatamente do que estou falando, Sr. Hamilton. E, acredite, só não tomei providências porque o Joseph me pediu, mas se o senhor o machucar de novo ou se deixar aquele porco imundo do seu irmão encostar um único dedo nele, eu farei questão de trazer tudo isso à tona.
— Você não sabe com quem está brincando — Erick o ameaçou.
— Graças ao Joseph, eu sei muito bem o tipo de monstro com que estou lidando aqui, mas não tenho medo de você — Nathan replicou, encarando-o de forma a deixar claro que não estava blefando.
Erick o olhou de cima a baixo.
— Pois bem — ele ajeitou seu terno caro e se dirigiu até a porta do quarto. — Espero que também esteja ciente de tudo o que tem a perder, Nathan. Boa noite.
Então, ele saiu da casa e encontrou Joseph esperando-o perto do carro, com uma expressão tristonha e o rosto manchado por lágrimas que o garoto tentou secar assim que o viu.
— Poderia ser mais patético? — Erick reclamou tirando-o do caminho. — Recomponha-se e entre no carro, não quero ouvir uma única palavra sua até chegarmos em casa — ele estipulou antes mesmo que Joseph tivesse a chance de abrir a boca para dizer qualquer coisa e, sem ter outra opção, Joseph fez conforme o pai ordenou e se instalou no banco do passageiro.
Ele olhou com ares de nostalgia para a fachada iluminada da casa de Nathan, evitando propositalmente a parte onde ficava o quarto do namorado, pois sabia que o garoto estaria lá, observando-o da varanda, e não queria começar a chorar na frente do pai já que tinha certeza de que isso apenas deixaria Erick mais enfurecido.
Joseph sentiu o coração se comprimir e doer a cada quilômetro que se afastava e, por um instante, ele se perguntou se não estaria morrendo. No fundo, sentia como se uma parte de si realmente estivesse o deixando, pois sabia que Erick jamais permitiria que ele e Nathan se encontrassem de novo e aquilo era como uma espécie de morte também. Pensar que voltaria a ficar sozinho, que seus dias voltariam a ser tão vazios e sem cor como eram antes de Nathan aparecer e acolhê-lo o deixava com essa sensação e, por mais que estivesse decidido a se conformar com essa nova realidade quando saiu do quarto do garoto naquela noite, falar era bem mais fácil que fazer.
A verdade é que seria uma tortura não poder mais abraça-lo, ouvir sua risada contagiante e suas piadas ruins, no entanto, Joseph tentava se concentrar no fato de que talvez, assim, pudesse manter Nathan protegido da ira desmedida de seu pai. Nunca mais vê-lo era melhor que prejudica-lo, foi o que disse a si mesmo repetidas vezes durante a viagem de volta para casa, mas saber disso não fazia com que seu coração doesse menos.
— Você não cansa de me decepcionar, não é? — Erick disse assim que estacionou o carro na garagem de casa e retirou a chave da ignição. — Nunca esperei muito de você, Joseph, mas isso? Eu sequer tenho palavras. Jamais senti tanto desgosto.
Como Joseph permaneceu em silêncio, apenas encarando suas próprias mãos sobre o colo, Erick segurou seu rosto e o forçou a encará-lo.
— Uma maldita bicha, hum? No fundo eu sempre suspeitei, mas me recusava a acreditar que você realmente me submeteria a mais essa vergonha! Eu lhe dou tudo de que precisa, Joseph. Tudo! As melhores escolas, as roupas mais caras, uma mesada alta...
— Você nunca me deu amor — Joseph confessou antes que o pai terminasse seu discurso e Erick o encarou como se quisesse cuspir em sua cara.
— Amor? É isso o que acha que está recebendo enquanto trepa com aquele marginal?
— O Nathan não é um marginal.
— Você me toma por idiota, Joseph? Acha que já não mandei investiga-lo? Os amigos mais próximos desse garoto são um traficante de drogas e um organizador de festas clandestinas. Quer mesmo que eu acredite que ele não é como essas pessoas?
— Ele não é — Joseph afirmou com convicção. — O Nate conheceu os amigos ainda na infância, eles cresceram juntos, sempre moraram próximos. Alguns deles seguiram caminhos errados, é verdade, mas só porque ele não os abandonou não significa que seja igual a eles. Além disso, eu conheci o Danny e o Lee, pai. Você fala como se eles fossem os piores criminosos do mundo, mas eles são apenas garotos que viram uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra com esse tipo de coisa. Estão fazendo tudo errado, sim, mas não são perigosos. Nunca machucaram ninguém.
— Isso não os torna menos delinquentes, Joseph. E o seu querido Nathan é tão delinquente quanto eles já que é conivente com suas ações.
Mesmo irritado e mais triste do que jamais estivera na vida, Joseph riu. Seu pai realmente achava que estava em posição de julgar alguém?
— O que é tão engraçado?
— Esse seu discurso hipócrita — Joseph respondeu sem pestanejar. — Os magnatas com quem você negocia estão envolvidos em todo tipo de coisa, desde transações com mercadoria ilegal até trafico de mulheres e crianças e você acha que pode julgar o Nathan por que ele nunca denunciou os amigos que fazem festas clandestinas ou vendem algumas gramas de maconha para os colegas de escola?
Erick o encarou e Joseph o encarou de volta, petulante.
— Se eu descobri isso apenas analisando alguns papéis da sua empresa nas tardes em que você me arrastava para lá, então, é pouco provável que você também não saiba, pai. E, como você mesmo disse, já que é conivente com essas práticas, então, isso te torna tão criminoso quanto os seus parceiros comerciais, não é?
Uma veia saltou no pescoço de Erick e ele encarou Joseph com ainda mais raiva que antes.
— É melhor você medir bem o que vai me dizer daqui em diante — ameaçou.
— Por quê? — Joseph questionou, desafiando-o. — Só você pode falar o que quer aqui?
— Não me responda, Joseph!
— Eu não vou ouvir tudo isso calado, pai! Você pode falar o que quiser sobre mim, pode me insultar e me tratar como lixo, já estou acostumado, mas não espere que eu engula em silêncio toda essa merda que está dizendo sobre o Nathan. Você não o conhece como eu.
O tapa que Joseph recebeu no rosto já era esperado, mas o que ele não esperava era que Erick fosse segurá-lo pelos cabelos e acertar seu rosto contra o painel do carro, abrindo um talho no alto de seu nariz, antes de praticamente arrastá-lo para fora do carro segurando-o pelo colarinho da camiseta.
— O que está fazendo?! — Joseph esperneou, tentando escapar das mãos firmes de Erick enquanto ele o arrastava, mas só o que conseguiu com isso foi fazer com que seu pai o atirasse contra a parede da garagem, sem se preocupar com o fato de sua nuca ter batido contra o concreto com força suficiente para deixa-lo zonzo.
— Você não vai me desrespeitar dentro da minha própria casa — Erick o jogou conta a parede de novo. — Você não é ninguém, Joseph, não possui nada sem mim, entendeu?! Até mesmo as suas roupas foram compradas com o meu dinheiro — Erick puxou uma das mangas e a gola da camiseta que Joseph usava até rasga-las e depois o estapeou no rosto de novo. — Um monte de lixo! É isso o que você é sem mim, seu moleque!
— Para! — Joseph implorou tentando se desvencilhar das agressões que se tornavam mais intensas a cada golpe. — Por favor, pai, me deixa ir.
— Você acha que pode falar mais alto que eu aqui dentro? — Erick continuou, sem dar a mínima importância para os apelos do filho ou para o sangue que agora escorria de seu nariz e lábios, respingando em sua camiseta rasgada. — Acha mesmo que pode bater de frente comigo?
— Eu não quis... — Joseph começou, mas nem pode concluir a frase antes de ganhar outro tapa forte.
— Seu monte de merda! — Erick o segurou pelo pescoço e o garoto engasgou um pouco pelo fato de já não estar conseguindo respirar pelo nariz machucado e de ter sido privado do escasso oxigênio que ainda conseguia sorver pela boca. — Maldita hora em que sua mãe decidiu te trazer ao mundo.
— Para, por favor... — Joseph resfolegou, sentindo sua visão escurecer pela falta de ar e só quando ele titubeou para o lado, quase inconsciente, foi que Erick o soltou, permitindo que ele respirasse de novo, mas ele nem teve tempo de se sentir grato por isso antes que Erick voltasse a agredi-lo.
Ainda desnorteado, Joseph nem conseguiu reagir direito a tudo aquilo. Ele apenas ergueu as mãos tentando proteger o rosto dos socos que seu pai disparava contra ele e tentou não vomitar cada vez que o punho de Erick atingia seu estômago desprotegido, que já estava enjoado o suficiente devido a dor de cabeça.
— Você vai aprender a me respeitar — Erick disparou para ele entre um soco e outro. — Vou te ensinar a ser homem nem que para isso eu tenha que te quebrar inteiro, seu moleque!
— Pai... por favor... eu não aguento... por favor, para... — Joseph balbuciou já sem forças para fazer muito mais que isso. O sangue escorria de várias partes de seu rosto e ele mal conseguia respirar por causa do nariz quebrado. Além disso, suas costelas doíam por conta dos chutes com os quais Erick tinha começado a acerta-lo depois que ele se desequilibrou com os golpes e foi parar no chão.
— Eu te deixei muito confortável, não foi? Deveria ter te dado uma surra como essa na primeira vez em que você achou que poderia me responder!
— O que está fazendo? — A voz preocupada de Aaron se fez ouvir de algum lugar atrás deles e Erick tirou seus olhos de Joseph apenas por tempo suficiente para olhar sobre o ombro e responder:
— Não é da sua conta, moleque.
Então, ele voltou sua atenção novamente para o filho caído no chão e recomeçou com as agressões, deixando Aaron espantado com tamanha violência. Erick nunca tinha sido um homem calmo ou amável e já havia lhe agredido mais vezes do que poderia contar nos dedos de uma só mão, mas nunca tinha chegado àquilo. O que ele estava fazendo com Joseph naquele momento era desumano.
— Você vai mata-lo — Aaron insistiu, ignorando o alerta do padrasto e se aproximando para tentar afastá-lo de Joseph.
— Eu disse para você não se meter — Erick o empurrou para longe, fazendo o cair de bunda no chão, mas Aaron se levantou e voltou a investir contra ele.
— Se não parar, vou chamar a polícia!
— Vai? — Erick se voltou para ele, mas antes de pudesse fazer qualquer coisa a voz aflita de Brianna se ouvir atrás deles.
—Erick, por favor, não o machuque — disse ela e, com o pouco de consciência que ainda tinha, Joseph a viu tentar puxar o filho para longe dali, mas Aaron não parecia disposto a cooperar.
— Faça alguma coisa — ele exigiu, resistindo as tentativas da mãe de tirá-lo da garagem. — Você sabe que precisa fazer alguma coisa, mãe! Ele vai mata-lo desse jeito!
— Eu sei, meu amor, eu sei. Mas você precisa entrar.
— Olha o rosto dele!
— Aaron, por favor, vá para dentro. Eu resolvo isso!
— Ele nem consegue mais ficar de pé, seu desgraçado!
— Aaron, por favor! — Brianna insistiu empurrando-o para fora dali com toda força que tinha.
— Precisa fazê-lo parar!
— Eu sei.
— Então porque não está fazendo nada?! — Aaron bradou enquanto ainda tentava se desvencilhar da mãe e voltar para a garagem. — Ele vai matá-lo desse jeito! Alguém precisa ajudar.
— Eu vou ajuda-lo, Aaron, mas você precisa voltar para dentro e ficar com o Christopher. Não quero que se envolva nisso — Brianna pediu, ainda barrando o seu caminho. — Precisa confiar em mim.
— Mãe...
— Pelo menos uma vez na sua vida, me obedeça! Eu vou cuidar disso. Agora, vá para dentro. Por favor, Aaron.
Ainda relutante Aaron se afastou e voltou para a casa, deixando Brianna sozinha para lidar com a situação. Ela sempre teve receio de se intrometer nas brigas de Erick e Joseph e acabar piorando tudo ou acabar atraindo a fúria do esposo para si, mas não podia simplesmente ficar parada ali enquanto o enteado era agredido com tamanha brutalidade. Embora Joseph fosse um jovem difícil de lidar, às vezes, ninguém merecia sofrer aquele tipo de violência, principalmente por parte do próprio pai. Ele era apenas um garoto, afinal, e ela seria um ser humano horrível se fechasse os olhos para o que estava acontecendo.
— Erick — Brianna se aproximou dele, cautelosa. Já tinha visto o marido furioso algumas vezes, mas nunca daquela maneira.
— Isso é entre o Joseph e eu, Brianna. Não se intrometa.
— Não quero me intrometer, mas olhe o estado dele, meu amor.
— Você sabe como eu o encontrei?! — Erick a encarou com raiva. — Eu o encontrei completamente nu na cama daquele marginal! Totalmente entregue. E ele sequer teve a decência de tentar disfarçar o que estavam fazendo antes de eu chegar, Brianna.
— Eu sei que tudo isso é um choque, mas é assim tão ruim que ele esteja se relacionando com outro garoto? — Brianna tentou.
O olhar de Erick sobre ela se tornou ainda mais duro.
— Esse filho de uma puta carrega o meu sobrenome! É a minha reputação que vai para o lixo se alguém souber que o meu filho anda por aí dando a bunda para um delinquentezinho de quinta categoria. Além disso, eu tinha planos para esse imprestável! Ele poderia se tornar dono de um império se quisesse, mas, em vez disso, ele foge para trepar com aquele moleque! — Erick chutou o abdômen de Joseph que grunhiu de dor e se encolheu um pouco mais.
— Tenho certeza de que deve haver outras formas de resolver tudo isso — Brianna olhou para o garoto, praticamente inconsciente, com pesar. — Espancá-lo até a morte não é a melhor saída, Erick. Olhe bem para ele. Como vai explicar tudo isso aos médicos e a policia?
— Pessoas são espancadas o tempo todo em tentativas de assalto — Erick deu de ombros como se já tivesse pensado em tudo e Brianna sentiu o estômago embrulhar. Como era possível que aquele homem fosse o mesmo com quem havia se casado? Como nunca tinha notado que Erick era assim tão frio?
— Mesmo que consiga convencer a todos de que isso foi decorrente de uma tentativa de assalto — ela insistiu —, acha mesmo que o Joseph não falaria toda a verdade para as pessoas depois? Ele não tem porque não contar, Erick.
— Ele sabe que tem muita coisa a perder — Erick retrucou pensando nas ameaças que havia feito à família de Nathan mais cedo, então, lembrou-se de como o filho havia fugido logo em seguida, alegando que não seguiria mais suas ordens e se deu o benefício da dúvida. — Mas você pode ter razão. Preciso reavaliar algumas questões.
— Que questões?
— Ligue para o Dr. Connor — Erick estipulou, pegando o filho semiconsciente nos braços e rumando para o carro. — Diga que estou indo a clinica e que preciso que ele desmarque qualquer atendimento que tenha para hoje e que dispense qualquer funcionário que não seja essencial. Avise que pagarei a mais pela discrição dele.
Demorou um instante para Brianna entender a ordem, mas quando enfim percebeu as intenções do marido sentiu a ânsia se espalhar dentro de si. É claro que Erick levaria o filho para ser atendido por um médico que não lhe faria perguntas e que ainda o acobertaria se necessário e não havia ninguém que se encaixasse melhor nesse perfil que o corrupto Dr. Connor. Era ultrajante a forma como o dinheiro e o poder de Erick compravam o silêncio de profissionais que juraram, durante sua formação, zelar pela vida de outros seres humanos, mas ainda assim, Brianna não podia julgá-los. Pessoalmente, ela também não tinha coragem de ir contra as ordens do marido.
— Vou ligar — foi o que ela respondeu, por fim, rezando para que Joseph se recuperasse bem e tentando ignorar a vergonha que sentia de si mesma por não fazer nada mais que isso.
— Ele está bem? — Aaron a encurralou assim que ela colocou os pés dentro de casa para usar o telefone. Ao lado dele, Christopher também a encarava com um olhar meio apavorado, sem entender porque todos pareciam tão tensos.
— Que tal pegar um pouco de suco e alguns biscoitos? — Ela sugeriu ao filho mais novo que rapidamente abandonou a expressão preocupada e abriu um sorriso esperto.
— Antes do jantar?
— Só hoje — Brianna confirmou e Christopher logo correu para a cozinha temendo que a mãe pudesse mudar de ideia caso ele demorasse muito.
Sem sua presença na sala, Brianna procurou na agenda pelo número do Dr. Connor, enquanto Aaron a observava, esperando.
— Ele vai ficar bem — ela finalmente respondeu. — Erick vai leva-lo ao hospital.
— Os médicos vão fazer perguntas — Aaron deduziu, como se realmente esperasse que a equipe médica fizesse perguntas suficientes para justificar uma ligação para a polícia.
Brianna fez que não com a cabeça, sentindo ainda mais vergonha de si mesma.
— Ele irá a um médico de confiança — disse ela, sem olhar para o filho mais velho.
— E por “médico de confiança” você quer dizer o que? Um médico que vai cuidar muito bem dele ou um médico que não vai denunciar a barbárie que o Erick fez naquela garagem?
— O importante é que o Joseph vai ficar bem, certo? — Ela respondeu sem responder a coisa alguma e o vermelho vívido que tomou conta do rosto de Aaron deixou claro sua raiva e indignação.
— Certo? — Ele questionou irritado. — Acha mesmo que tem algo de certo nisso, mãe? O Erick poderia ter matado o Joseph essa noite se eu não tivesse escutado a coisa toda e corrido até a garagem. Você realmente quer esperar que ele morra antes de tomar uma atitude?
— Não é tão simples assim, Aaron.
— Para mim, parece bastante simples. É só pegar o telefone e fazer uma denúncia anônima.
— E o que acontece depois? — Brianna o encarou. — O Erick será preso e eu terei que submeter o seu irmão à vergonha de visitar o pai dele na cadeia? Ou, então, o nome da White Run vai parar nos tabloides e as ações da empresa despencam, destruindo anos de trabalho e um legado que o seu pai também ajudou a construir?
— O meu pai está morto — Aaron respondeu pegando a mãe de surpresa. — Para os tabloides, ele é apenas o cara que enfiou uma bala na própria cabeça na frente do filho de seis anos, não um dos fundadores da White Run. O único legado que ele deixou para o mundo lá fora foi o de ser um suicida e, aqui dentro, parece que a única pessoa que ainda se lembra do homem que ele era antes disso sou eu.
— Aaron...
— Não, me escuta. O meu pai pode ter feito a maior besteira de todas aquele dia, mas ele nunca feriu ninguém além de si mesmo — continuou. — Nunca encostou um dedo sequer em mim ou em você ou em quem quer que fosse e, mesmo assim, quando falam sobre ele, tem sempre aquela entonação ruim, como se ele fosse um monstro ou coisa do tipo. E isso não é justo, mas eu vou ter que conviver com isso pelo resto da minha vida, mãe! Aceitar as pessoas falando sobre ele dessa forma, mesmo que ele nunca tenha feito nada para merecer isso, além de tirar a própria vida. É diferente com o Erick. Ele sim é um monstro. E talvez seja vergonhoso para o Christopher ter que visitar o pai dele na cadeia, mas quando deitar a sua cabeça no travesseiro essa noite espero que esteja ciente de que se algo acontecer com o Joseph da próxima vez que o Erick decidir espanca-lo, será porque você permitiu que acontecesse. E eu espero que você consiga conviver com a culpa — Aaron concluiu e saiu da sala, deixando Brianna sem palavras.
Ela sabia que o filho tinha razão, sabia que não podia confiar que aquela seria a ultima vez que Erick o agrediria, mas também não tinha coragem de tomar uma atitude. Mesmo que Erick fosse preso, com o dinheiro e a influência que possuía era bastante provável que ele sequer passasse mais que 24 horas detido e ela não conseguiria lidar com sua fúria ao sair. Infelizmente, era uma covarde.
Então, terminou de discar o numero do Dr. Connor e avisou que Erick e Joseph estavam a caminho.
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