Shadows - Uma Side Story de Wake Me Up
12 Little Puppet
Notas iniciais
A primeira coisa que Joseph percebeu quando acordou foi que não estava em seu quarto. A segunda é que todas as partes do seu corpo — sem exceção— doíam. Seus lábios estavam feridos e ressecados, os olhos tão inchados que ele não conseguia abri-los direito e, até mesmo, respirar tinha se tornado um tarefa árdua e dolorosa, não importava se ele o fazia pela boca ou pelo nariz.
Joseph estava deitado sobre uma cama hospitalar confortável e havia um acesso de soro em seu braço esquerdo, além de alguns aparelhos conectados ao seu corpo e que preenchiam o silencio do quarto com sons de “bip” baixos e ritmados. Ele olhou para o grande relógio de parede à sua frente e depois para a imensa janela de vidro à sua direita, coberta por uma cortina de tecido branco e fino, que deixava entrar um pouco de luz do sol e ventilação natural, constatando que realmente estava claro lá fora, então, o horário no relógio devia estar certo.
Eram 10h15 da manhã.
A questão era: de que dia?
A ultima coisa da qual ele se lembrava era de Aaron tentando defende-lo das agressões de seu pai na garagem, mas essas lembranças estavam meio nubladas, algumas ele sequer sabia se tinham sido apenas devaneios causados pela surra ou não. A única coisa que Joseph sabia com certeza é que, se Aaron não tivesse aparecido para ajuda-lo naquele momento, talvez estivesse morto agora.
— Que bom que está acordado — uma enfermeira de meia idade e expressão amistosa entrou no quarto, trazendo consigo uma bandeja com algumas medicações e um copo de água. — Nós o retiramos dos sedativos há algum tempo, mas acho que você ficou com preguiça de acordar — ela sorriu para ele e se aproximou para checar os monitores ao seu lado. — Como está se sentindo, Joseph?
— Como se eu tivesse levado uma surra — Joseph respondeu com sinceridade, virando-se apenas um pouco para tentar olhar o que estava escrito no crachá da mulher. “Enf. C.J. Wilson” diziam as letras em negrito. — Onde eu estou?
— No hospital St. Valerie, querido — a enfermeira C.J. Wilson injetou uma medicação amarelada na mangueira do soro e conferiu se a vasão do líquido estava correta. Joseph imaginou que se tratasse de algum analgésico, mas não perguntou. — Seu pai o trouxe para cá depois que você caiu da varanda. Estava bastante machucado. Foi sorte não ter rompido nenhum órgão importante, mas tivemos que mantê-lo sedado por três dias para que pudesse se recuperar direito. Foi uma queda e tanto.
— Foi isso o que ele disse?
— Foi o que aconteceu, não foi?
— Eu não caí da varanda — Joseph respondeu firme.
Ainda com aquele sorriso bondoso e olhar sereno estampados em seu rosto, a enfermeira Wilson se aproximou de sua cama e arrumou seu travesseiro com todo o cuidado, antes de olhá-lo nos olhos e dizer:
— Caiu sim, querido.
— Acho que você não ouviu, eu disse que eu não... — Joseph começou a explicar, mas a mulher pousou o indicador levemente sobre seus lábios, interrompendo-o.
— Você me parece um bom menino, Joseph, por isso vou avisá-lo: se não quiser sair desse hospital direto para um internato no meio do nada, essa é a história que você vai contar para todo mundo, ok? Não importa qual é a verdade, querido. Você estava bêbado, se desequilibrou e caiu. Isso é tudo — disse a enfermeira.
Joseph a encarou totalmente sem palavras depois disso. Não é como se não soubesse o tipo de homem que seu pai era ou do que ele era capaz, mas ainda o surpreendia ver como o dinheiro dele podia comprar o silêncio das pessoas, não importava a situação. Além disso, embora se esforçasse muito para não deixar transparecer, a verdade é que o machucava perceber o quão insignificante sua existência era para seu próprio pai ou o quão rápido Erick podia despachá-lo para longe dali sem sentir qualquer remorso por isso.
— Ah, o nosso garotão finalmente acordou — um médico, também de meia idade, com cabelos grisalhos e óculos de grau, entrou no quarto e Joseph não precisou ler o nome em seu crachá para saber quem ele era. Já havia se consultado com ele antes. Sempre que Erick extrapolava nas surras, o Dr. Connor cuidava do resto. — Você nos deu um baita susto, hein Joseph? Aquela foi uma queda e tanto, rapaz.
Joseph relanceou seus olhos para a enfermeira Wilson no canto do quarto, lembrando-se das palavras dela, depois voltou-se para o Dr. Connor.
— Foi sim — respondeu simplesmente. O Dr. Connor pareceu satisfeito.
Ele se aproximou da enfermeira Wilson para dar uma olhada nas anotações que ela havia feito e Joseph deixou sua mente viajar enquanto os dois conversavam sobre sua recuperação e as medicações que precisaria tomar. Ele ouviu as palavras antibióticos, vitaminas, cálcio e algo sobre analgésicos mais fortes, mas não se importou. Pensava no que a enfermeira Wilson havia dito sobre o terem deixado sedado por três dias e imaginou se Nathan estaria surtando a essa altura. Havia prometido que ligaria para ele assim que chegasse em casa, mas não tivera sequer a oportunidade de fazer isso.
— Você parece estar se recuperando bem — O Dr. Connor concluiu após suas considerações. — Vou pedir mais alguns exames e uma tomografia computadorizada, para ter certeza de que está tudo certo, mas é provável que em dois ou três dias você já receba alta. No entanto, não vai poder fazer nenhuma estripulia por algum tempo. E nada de bebidas de novo, rapazinho. Você ainda é muito novo para isso.
Joseph resistiu à vontade de revirar os olhos para o conselho, já que o médico sabia que seu estado atual não tinha qualquer relação com embriaguez, muito menos com uma queda, então apenas assentiu, concordando.
— Ótimo. Seu pai está na recepção, acertando alguns detalhes financeiros, mas deve subir em breve. Ele vai gostar de te ver acordado — disse o Dr. Connor e Joseph sentiu uma sensação gelada correr através de sua espinha. Depois do que Erick tinha feito, ainda não se sentia pronto para encará-lo de novo, mas não era como se tivesse outra opção estando preso àquela cama de hospital.
Após o Dr. Connor e a enfermeira Wilson se retirarem do quarto, pareceu ter se passado uma eternidade antes de Erick colocar os pés ali, mas Joseph sabia que, na verdade, não havia se passado tanto tempo assim, era apenas o seu nervosismo falando.
— Você está péssimo — foram as primeiras palavras que saíram da boca de Erick quando ele se aproximou da cama de Joseph, mas o garoto não esperava nada diferente vindo de seu pai. Certamente Erick não entraria ali com um pedido de desculpas ou agradecendo aos céus por ele não estar em coma.
— Ao que parece, é um milagre que eu ainda esteja vivo depois de cair da varanda do meu quarto.
— De fato é — Erick concordou, sem se importar com o sarcasmo presente nas palavras do filho. — O Dr. Connor me disse que você receberá alta em dois ou três dias, mas acho que eu não preciso te avisar que a sua rotina mudará um pouco quando estiver de volta em casa.
— Vai me colocar de castigo de novo? — Joseph revirou os olhos.
— Você pode chamar assim, se fizer com que se sinta melhor, mas nós dois sabemos que um simples castigo não é mais suficiente para você, certo?
Aquilo fez com que Joseph prestasse um pouco mais de atenção à conversa. Ele já esperava por um castigo milenar e cheio de restrições quando voltasse para casa, mas pelo visto seu pai tinha coisas piores em mente.
— O que está planejando?
— Isso vai depender de você — Erick abriu uma pasta e retirou dela duas cartas de demissão impressas que colocou sobre a cama de Joseph. O garoto viu os nomes dos pais de Nathan escritos em negrito no topo de cada uma.
— Não pode fazer isso.
— Ah, não é tudo — Erick depositou outro papel no canto da cama e pediu que Joseph o lesse.
Tratava-se de uma denuncia formal, feita pela diretora de seu antigo colégio, sobre o tráfico de drogas que vinha sendo praticado por alunos dentro das dependências escolares e o nome de Nathan vagava por ali, apontado como um dos principais fornecedores.
— Isso é mentira — Joseph retrucou logo. — O Nathan nunca fez nada disso.
— O depoimento da sua ex-diretora diz o contrário.
— Só diz o contrário porque você a subornou.
— Você pode provar isso em um tribunal? — Erick o alfinetou e Joseph não respondeu, afinal, ele não podia. — Foi o que imaginei. Eu, por outro lado, consigo provar cada coisa que está escrita nessa denúncia e posso colocar seu namoradinho atrás das grades com apenas um telefonema.
Joseph o encarou com raiva.
— Quais seus termos? — Perguntou sabendo que seu pai não estava lhe contando tudo aquilo apenas por contar.
Erick recolheu as folhas da cama e as guardou de volta na pasta, retirando um celular do bolso e o estendendo a Joseph. O garoto reconheceu o aparelho como sendo o seu próprio.
— Para começar, eu quero que ligue para o Nathan e que diga a ele que está bem, mas que pensou muito a respeito e não quer mais vê-lo — Erick ditou. — Avise-o que vai passar algum tempo em um retiro na Suíça, descansando, e que mudará o número do seu celular em breve. Peça que ele não te procure mais.
— Você vai me mandar para a Suíça?
— Não importa para onde vou manda-lo ou quando, Joseph. Apenas pegue o telefone e faça o que eu mandei.
Joseph não se moveu. Seus olhos se fixaram no telefone como se o aparelho fosse algum tipo de explosivo prestes a detonar e ele sentiu o ardor característico do choro começar a se espalhar por trás de seus olhos, mas fez o possível para não deixar as lágrimas rolarem. Não queria demonstrar fraqueza diante de Erick, muito menos queria fazer aquela ligação.
— Você pode me obedecer e fazer isso do jeito fácil ou pode se recusar e deixar que eu lide com a situação do jeito difícil — Erick o avisou. — Você tem trinta segundos para se decidir.
— Mesmo que eu escolha fazer do seu jeito, ele não vai acreditar em mim — Joseph concluiu. — O Nathan é esperto, vai saber que eu estou mentindo e não vai parar de me procurar até conseguir falar comigo pessoalmente.
— Então, para o bem dele, eu espero que você o convença do contrário.
— Eu posso convencê-lo, mas será mais fácil fazer isso se eu puder falar com ele cara a cara, pai. Então, se você me deixar encontra-lo quando eu me recuperar...
— Você não vai encontra-lo, Joseph. Isso está fora de cogitação.
— Mas eu sei que se eu falar com ele pessoalmente...
— Me parece que você já se decidiu — Erick recolheu o celular e se afastou da cama, ameaçando sair do quarto. — Vou lidar com ele nos meus termos então.
— Não! Espera! — Joseph se esticou para alcança-lo e isso fez suas costelas doerem como o inferno, mas ele tentou ignorar a dor enquanto estendia a mão, pedindo o celular de volta. — Tudo bem, tudo bem. Eu ligo para ele, tá? Eu faço o que me pediu.
— Você teve a chance de escolher, Joseph.
— Eu sei! Só... por favor, tá bom? Deixa que eu falo com ele. Por favor, pai.
Erick o encarou por um instante, avaliando.
— É melhor você não fazer nenhuma besteira — alertou antes de lhe devolver o telefone e puxar uma cadeira para se sentar próximo à cama. — Se sair da linha, Joseph, mesmo que seja por um milímetro, eu faço da vida do seu querido Nathan e da família dele um inferno, me entendeu?
— Entendi, sim — Joseph confirmou com um leve aceno. Ele sabia muito bem que seu pai não estava blefando e não se perdoaria se Nathan e os pais dele ficassem em apuros por sua causa. Não era justo com eles.
— Ligue para ele e coloque a chamada no viva-voz — Erick ordenou. — Quero ouvir a conversa toda.
Joseph assentiu, procurando pelo contato de Nathan e desejando que nunca tivesse se envolvido com o garoto. Era bem verdade que os melhores momentos de sua vida tinham sido aqueles que havia passado ao lado de Nathan, mas sabendo agora que iria arrastá-lo para o furacão que era sua família e torna-lo um alvo para Erick, sentia que seria melhor nunca ter lhe dado a chance de se aproximar.
Após discar o numero de Nathan, Joseph aguardou na linha, um toque após outro, torcendo para que o rapaz não atendesse e ele não precisasse enfrentar aquele diálogo. Talvez, assim, até conseguisse convencer seu pai a lhe dar um pouco mais de tempo ou, quem sabe, a oportunidade de encontrar o garoto pessoalmente depois, mas para a sua total infelicidade Nathan atendeu após o quarto toque.
— Joe? — A voz dele surgiu preocupada e hesitante do outro lado da linha e, mais uma vez, Joseph precisou se esforçar para conter o choro. Ele logo percebeu que aquilo seria ainda mais difícil pelo fato de saber que seu pai estava sentado, bem ali ao seu lado, ouvindo tudo de camarote.
— Oi, Nate.
— Oi? Joseph! Meu Deus, onde você estava?! — Nathan praticamente suspirou de alívio. — Eu te procurei feito um louco nos últimos três dias. Por pouco não fui à delegacia abrir uma ocorrência! Você não pode me deixar preocupado assim. Cheguei a pensar que você estava morto.
— Não estou.
— É. Eu sei disso agora — Nathan sorriu brevemente, mas era óbvio que ele estava tenso. — Como você está? Seu pai não te bateu de novo, bateu?
O olhar de Joseph recaiu sobre Erick que o olhou de volta, alertando-o de forma silenciosa.
— Não — Joseph baixou o olhar, envergonhado. — Ele não me bateu. Nós só tivemos uma longa conversa sobre o relacionamento que tenho com você e, claro, ele me colocou de castigo, por isso não pude te ligar nos últimos três dias, estava sem o celular.
— Entendi — Nathan não pareceu muito confiante, mas não retrucou. — Será que podemos nos ver amanhã? Acha que consegue burlar a vigilância aí e me encontrar no parque?
— Na verdade — Joseph respirou fundo, tomando coragem para enfrentar o que precisaria fazer a seguir —, é exatamente por isso que estou te ligando, Nate. Nós não podemos nos ver.
Houve um instante de silencio antes de Nathan dizer:
— Tudo bem, talvez não amanhã, mas podemos marcar em um dia que o seu pai não esteja na cidade? Ele deve ter alguma viagem de negócios marcada, certo?
Joseph engoliu em seco e a expressão que passou pelo rosto de Erick deixou claro que, agora, ele faria questão de não se ausentar de Londres por um bom tempo...
— Não é pelo castigo, Nate. É que... eu conversei com o meu pai e ele me fez ver a situação de uma nova perspectiva, entende?
— Na verdade, não. Do que está falando, Joseph?
— Eu te liguei para terminar com você — Joseph disse rápido. Da mesma forma como arrancar um curativo, ele achava que as coisas seriam menos dolorosas assim.
Ele esperou por uma resposta, qualquer contestação fervorosa por parte de Nathan, mas o garoto não disse nada. A linha permaneceu tão silenciosa que Joseph desconfiou que a ligação pudesse ter caído.
— Nate? Você ainda está aí?
— Desculpe — Nathan disse meio perdido —, eu acho que não entendi direito. Você disse que está terminando comigo, foi isso?
Joseph sentiu um nó se formar em sua garganta, mas o olhar gélido de Erick fez com que ele prosseguisse:
— Eu sei que isso, provavelmente, não é o que você quer ouvir agora — continuou, se segurando para não cair no choro bem ali, no meio daquela mentira —, mas eu não posso mais continuar com isso, Nate. Não posso continuar magoando o meu pai e a minha família desse jeito.
— De que merda você tá falando, Joe?! Você tá brincando comigo, é isso? Porque se estiver, não tem graça, ok? Que história é essa agora de magoar o seu pai?! Esse filho da puta nunca deu a mínima para você! Você mesmo disse isso.
— Eu sei que eu repeti essas coisas sobre ele muitas vezes — Joseph tentou contornar a situação —, mas eu ainda não tinha ouvido o lado dele, Nate. Nunca tínhamos nos sentado e conversado a respeito...
— Porque ele nunca se importou em conversar com você, Joseph! — Nathan o interrompeu, quase aos gritos. — Meu Deus, não acredito que deixou que ele fizesse essa lavagem cerebral em você, onde ele se torna o pai incompreendido e você o filho ingrato. Mas que merda!
— Será que você pode me escutar? — Joseph pediu e, a essa altura, ele já não se importava em conter as lágrimas. Não tinha como passar por aquilo sem chorar e dane-se que seu pai estava ali assistindo a tudo. — Não é tão simples assim, ok?
— E o que isso quer dizer, Joseph? Ele está te ameaçando por acaso?! — Nathan parou por um instante, parecendo finalmente compreender o porquê de tudo aquilo. — É isso, não é? Ele está ameaçando você. É por isso que está terminando tudo.
— Não, Nate. Não é nada disso. — Joseph se apressou em negar, mas a vontade de contar toda a verdade a ele parecia querer rasgar o seu peito. — Ele não está me ameaçando. Ninguém está. Sou apenas eu, a minha decisão. Nada além disso!
— Eu não acredito em você — Nathan disse firme. — E não vou acreditar até poder olhar nos seus olhos e ouvir você me dizendo essas coisas cara a cara.
— Porque você tem que tornar tudo tão complicado? — Joseph questionou angustiado. — Não pode apenas aceitar que acabou e que eu não quero mais nada, Nate?
— Porra, mas é claro que não! — O garoto respondeu indignado. — Você disse que me amava naquela noite, Joseph! Na minha cama, enquanto fazia amor comigo, se lembra disso? Aí o seu pai te arranca da minha casa, você some por três dias e, agora, aparece me dizendo que quer terminar? Como você espera que eu acredite nisso?
— Mas essa é a única verdade, Nathan!
— Então, fala na minha cara — Nathan pediu. — Me encontra amanhã no parque e fala na minha cara que acabou e que não sente mais merda nenhuma por mim! Se me mandar embora e eu vou, Joseph, não sou nenhum moleque. Mas não vou aceitar uma porcaria de término por telefone, quando eu não posso nem olhar para você e saber que realmente está bem e que está fazendo isso porque quer e não porque o seu pai está aí do seu lado te obrigando!
— Eu... Nate, eu não posso ver você.
— Porque não?! Se vai terminar comigo, então, o seu pai não deve se importar de te liberar do castigo por alguns minutos, certo? Tenho certeza que ele até te daria uma carona.
— Eu estou indo embora — Joseph mentiu. Aquela era sua ultima carta, se Nathan não acreditasse, não sabia mais o que poderia usar para convencê-lo. — Meu pai e eu concordamos que seria melhor eu sair de Londres por algum tempo. Ele me matriculou em uma escola na Suíça.
— O que? — Nathan quase soou sem fôlego. — Quando você vai?
— Agora — Joseph engoliu em seco. — Estou no aeroporto.
— Como assim no aeroporto? Você não pode estar falando sério.
— Sinto muito, Nate. Achei que seria mais fácil assim.
— Mais fácil para quem, Joseph? Você está me ligando do aeroporto para terminar comigo! Não vai nem me dar a chance de me despedir de você! Sabe que isso não é justo, caralho.
— Me desculpa.
— Eu vou até aí — Nathan disse e Joseph pode ouvir o tilintar de chaves do outro lado da ligação, o que o deixou em pânico. Se Nathan fosse até o aeroporto, descobriria que estava mentindo e, se descobrisse, não sossegaria até esclarecer tudo, algo que Erick não deixaria passar sem retaliação.
— Nate, me escuta. Você não precisa fazer isso, ok? Eu já estou no portão de embarque.
— O aeroporto não é longe, Joe. Vou pegar o carro da minha mãe emprestado e chego aí em dez minutos.
— Nate, não...
— Só não entra no avião até eu chegar, tá?
— Eu disse que não, Nathan! Será que você não entende que eu não quero te ver? Nem em dez minutos, nem nunca mais, porra! Por favor, apenas pare de tentar, ok? Acabou! — Joseph se exaltou e, do outro lado da linha, Nathan ficou mudo.
Aquilo foi como uma adaga atravessando seu coração. Joseph tinha certeza de que havia alguma coisa o perfurando, porque a dor em seu peito era bastante real apesar de seus batimentos continuarem ressoando em seus ouvidos com normalidade.
Não podia acreditar que tinha dito aquelas coisas, que tinha sido tão duro com Nathan e o magoado daquela forma. Imediatamente quis voltar atrás e dizer a ele para esquecer toda aquela conversa estúpida. Contar toda a verdade e implorar para que fugissem para bem longe, como em um daqueles filmes de romance super clichês, mas Erick foi mais rápido e tomou o celular de suas mãos, encerrando a ligação antes que ele pudesse fazer alguma besteira.
— Muito bem — Erick o parabenizou. — Não achei que você seria capaz, mas até que a sua atuação me surpreendeu.
— Ele vai me odiar para sempre — foi o que Joseph sussurrou, sem dar muita atenção para o que seu pai dizia.
— Você não é tão especial assim, Joseph. Em uma semana, no máximo, ele já vai ter encontrado outro idiota para aquecer a cama dele. Supere. — Erick se colocou de pé e guardou o celular. — Nos vemos em casa assim que receber alta e, até lá, eu espero que você não faça a bobagem de tentar ligar para ele de novo e desmentir tudo, pois eu não estava brincando quando disse que tornarei a vida desse marginalzinho um inferno se você sair da linha.
Erick esperou por uma resposta ou qualquer aceno por parte do filho que mostrasse que ele estava de acordo, mas Joseph sequer ouviu o que ele disse. Sua mente estava focada apenas nas palavras duras que havia proferido para Nathan e no silêncio absoluto que se formou depois.
Era isso, Joseph pensou. A única coisa boa que tivera na vida tinha se perdido e, agora, não lhe restava nada além de uma vida de merda à sombra dos caprichos de seu pai, como uma pequena marionete.
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