Notas iniciais
Olá, Como prometido, aqui estou eu com mais uma atualização dessa side-story. Já aviso para prepararem o estômago porque um personagem muito odiado por todos nós vai dar às caras por aqui. Boa leitura!

Cada dia naquela casa era mais entediante que o anterior. Joseph não tinha muitos passatempos além de assistir TV e desenhar até que seus dedos estivessem dormentes, então, era exatamente isso que ele fazia dia após dia ali dentro. No início, ele também se aventurava pelo jardim, mas depois de quase um mês explorando os mesmos lugares e vendo as mesmas plantas, a brincadeira já tinha perdido a graça.

Ele também tentou ligar para sua mãe algumas vezes, mas ela nunca o atendia. Provavelmente ainda estava brava por causa de toda a situação com Andrea e, embora Joseph achasse que o cara havia tido o que merecia, não podia negar que às vezes sentia falta da mãe.

Celine era louca e, normalmente, bebia mais do que deveria, mas ao menos nos momentos em que estava sóbria e não estava agarrada com Andrea ou reclamando sobre seu pai, ela até que lhe dava alguma atenção. Sua primeira aquarela, por exemplo – aquela que Andrea havia destruído com tanta determinação –, havia sido um presente inesperado dela. Talvez por isso ele tenha ficado tão chateado ao ver tudo quebrado e espalhado pelo chão quando voltou do hospital.

Outra coisa que o havia chateado foi ver o desenho do Wolverine aos pedaços e, por um instante, ele até tentou cola-los novamente, mas não conseguiu encontrar todas as partes e algumas estavam rasgadas em pedaços tão pequenos que ele nem conseguia encaixá-las com as demais, então, desistiu e atirou tudo no lixo, quase chorando de raiva.

Joseph vinha trabalhando em outro desenho desde então, mas sua consciência o dizia que, mesmo colocando bastante empenho naquilo, este não ficaria tão bom quanto o anterior. Ele dizia a si mesmo que isso não tinha tanta importância, afinal, Aaron nunca tinha visto o primeiro desenho e não tinha como saber que ele estava muito melhor que o atual, mas, ainda assim, Joseph preferia ter lhe entregado o primeiro.

— Uau, quem é esse aí? — Seu tio Andrew parou as suas costas, avaliando o desenho que ele coloria calmamente por cima de seu ombro.

— Wolverine — Joseph respondeu, concentrado.

Andrew apoiou as mãos em seus ombros.

— Ficou muito bom, carinha. Porque não faz um para mim depois?

— O senhor gosta de quadrinhos?

— Gosto de coisas bonitas — Andrew acariciou a bochecha do sobrinho.

Joseph pensou a respeito.

— O que quer que eu desenhe então?

— Me surpreenda — seu tio sorriu e apertou seus ombros, gentilmente, antes de se afastar. — Eu venho buscar quando estiver pronto.

— Tudo bem — Joseph assentiu.

Tentaria desenhar um pirata dessa vez.

***

Nos dias que se seguiram, Joseph conseguiu finalizar o novo desenho do Wolverine e se perguntou se algum dia Aaron iria até sua casa para que pudesse entrega-lo. Ele estranhava o fato de que nem Aaron nem Brianna tinham colocado os pés ali durante todo aquele tempo, afinal, era de conhecimento público que seu pai e Brianna estavam namorando sério — e, até onde ele sabia, namorados visitavam a casa um do outro —, mas ele não se atreveu a fazer perguntas. Seu pai já andava de péssimo humor e ele não queria irritá-lo ainda mais com questionamentos inúteis.

Na maior parte do tempo, Joseph tentava se manter invisível em casa e Erick o tratava como se ele realmente fosse. Ele não se importava, na verdade, preferia não receber nenhuma atenção a receber uma atenção indesejada do pai, pois sempre que Erick se enfurecia com ele, Joseph tinha medo de ganhar uma nova surra já que ainda tinha os vergões da última marcando suas pernas e costas.

Diferente de sua mãe, Erick não era de muita conversa. Ele nunca tentava explicar a Joseph o que ele havia feito de errado antes de lhe aplicar uma punição, talvez porque os motivos pelos quais era punido não fossem lá grande coisa. Joseph só não sabia se seu pai odiava ter crianças em casa ou se apenas odiava que ele estivesse ali. De todo modo, embora aquele fosse seu lar, ele nunca se sentiu realmente acolhido.

— Sua mãe telefonou — Erick o avisou numa noite, enquanto ele se preparava para dormir. — Ela quer te ver. Combinei de te levar a clinica, para visita-la, na próxima semana.

— Clínica? — Joseph parou de arrumou a cama e o encarou confuso. — Ela está doente?

— Mais ou menos — Erick entrou em seu quarto e ele não pode evitar recuar um passo para trás, intimidado pela presença do pai que raramente se aproximava dele sem um cinto na mão. Se Erick notou o pavor estampado no rosto do filho, não comentou. — Você sabe que a sua mãe costuma beber demais, certo? — Joseph assentiu, tentando controlar seu coração acelerado após perceber que o pai estava ali apenas para conversar. — Ela está na clínica para cuidar desse problema. Está se tratando para não beber tanto.

— E, quando ela sair — Joseph começou hesitante —, eu vou voltar a morar com ela?

— Você quer voltar? — Seu pai o encarou.

Ele não sabia a resposta. Sentia falta da mãe, às vezes, mas não da bebedeira, dos surtos e dos incontáveis namorados que entravam e saíam de sua casa. Olhando por esse lado, a casa de seu pai lhe oferecia um ambiente bem mais seguro e estável, mas o fato de se assustar com cada mínimo movimento de Erick deixava claro que ele não se sentia tão seguro assim.

— Não sei — foi sua resposta final.

Erick assentiu.

— Vou tentar ajustar meus horários no trabalho, mas se eu não puder te levar até a clínica na próxima semana, pedirei que o seu tio Andrew faça isso por mim, ok?

— Ok — Joseph concordou. Na verdade, estava torcendo para que seu tio pudesse leva-lo em vez de seu pai, pois, aos seus olhos, Andrew era bem mais divertido – e menos assustador – que Erick.

Joseph só não imaginava que estivesse tão enganado quanto a isso.

***

Na manhã em que visitaria sua mãe na clínica de reabilitação, Joseph acordou animado. Na verdade, “acordar” nem era a palavra certa já que ele estava tão ansioso que sequer dormiu direito.

Como ele já imaginava, seu pai não conseguiu organizar seus horários no trabalho, então, seu tio Andrew concordou em leva-lo.

— Pegou tudo? — Erick questionou quando o levou até a porta, onde Andrew já o esperava.

Joseph apontou para a mochila.

A viagem de Londres até Amesbury não era tão longa. Duraria cerca de duas horas se o trânsito estivesse bom, mas ele tinha preparado a mochila com alguns passatempos e um lanche para o caso de sentir fome na estrada.

— Certo. Nos vemos a noite e, por favor, tente não causar problemas.

— Vou me comportar — Joseph garantiu, então, se despediu do pai e entrou no carro.

— Pronto para cair na estrada? — Seu tio perguntou assim que ele se acomodou no assento ao seu lado. Joseph assentiu. — Ok, então, vamos nessa.

A viagem até a clínica foi tranquila. Joseph se distraiu com algumas HQ’s e seu videogame portátil, enquanto seu tio ouvia músicas no rádio. Eles não conversaram muito, Andrew fez apenas algumas perguntas sobre sua nova escola, mas Joseph não tinha muito a dizer. Ele assistia às aulas, participava da oficina de desenho uma vez por semana e era só. Não tinha feito muitos amigos ainda.

Quando chegaram, Joseph esperou que seu tio os registrasse na recepção da clínica e após alguns instantes um dos funcionários do lugar veio recebê-los e leva-los ao encontro de Celine.

Eles a encontraram sentada em um dos bancos do jardim.

— Mãe — Joseph a cumprimentou com um sorriso tímido. Ela parecia bem. Seus cabelos tinham voltado ao tom castanho natural e sua pele estava mais corada do que Joseph se lembrava.

— Oi, anjinho — Celine girou o corpo em sua direção, mas seu semblante assumiu uma expressão confusa quando viu apenas Joseph e Andrew parados ali. — Onde está o seu pai?

— Ele não pode vir. Tinha coisas para fazer no trabalho — Joseph se adiantou para abraça-la, mas Celine se afastou o observando com uma expressão estranha.

— Então, porque você veio?

O garoto sentiu seus braços pesarem e os deixou cair ao lado do corpo, desanimado.

— Você disse que queria me ver.

— Eu não disse.

— Mas o meu pai falou...

— Eu disse ao seu pai que queria vê-lo — Celine o interrompeu. — Ele. Não você, Joseph. Eu queria conversar com ele, resolver uns assuntos, não entendo porque ele te mandou vir sozinho.

Joseph comprimiu os lábios e baixou os olhos. Ele tinha perdido uma noite de sono e passado duas horas dentro de um carro apenas para ser rejeitado. Patético.

— Entendi — ele engoliu o choro que ameaçou brotar por sua garganta e se afastou da mãe. — Vou embora, então.

Celine não protestou, mas seu tio Andrew o segurou gentilmente pelo braço tentando impedi-lo de ir.

— Tudo bem — Joseph garantiu, então, lançou um ultimo olhar para a mãe e saiu pelo mesmo lugar pelo qual entrou.

Ele não sabia se precisava passar novamente pela recepção, assim como fez quando chegaram, mas não se importou. Queria ir embora dali. Queria se trancar em seu quarto e desenhar até que suas mãos doessem e, então, continuar desenhando até que elas sangrassem ou até que ele estivesse cansado demais para continuar.

— Tudo bem, carinha? — Seu tio Andrew o encontrou encostado ao carro poucos minutos depois.

Joseph sacudiu a cabeça de maneira afirmativa.

— Que tal a gente ir almoçar em algum lugar?

— Não estou com fome.

— Tem certeza? Já está quase na hora do almoço e são duas horas de estrada até em casa.

Joseph pensou a respeito. De fato não estava com fome, mas um milk shake até que cairia bem.

— Podemos comprar um milk shake e uma porção de batatas fritas?

— Claro — Andrew sorriu e bagunçou seus cabelos. — Vem. Vamos procurar uma lanchonete legal — então ele e Joseph voltaram para o carro e saíram em busca de um lugar para comer.

Encontrar uma boa lanchonete na cidade não foi difícil e Joseph se deliciou com um milk shake de caramelo e uma porção de fritas enquanto seu tio almoçava. Quando terminaram, eles fizeram seu caminho de volta a Londres e nenhum deles falou sobre a tragédia que havia sido a visita a Celine, embora Joseph tivesse certeza de que seu pai já estava a par de toda a situação. Ele preferia assim. Não queria ter de reviver aquele momento enquanto explicava para o pai porque a visita tinha sido uma droga.

— Seu pai disse que sua babá chega em meia hora — Andrew avisou quando eles chegaram em casa. — Vou entrar e esperar com você, tudo bem?

— Tudo bem. Quer ver o seu desenho enquanto isso?

— Você já terminou?

— Não, mas tá quase pronto. Se quiser ver, eu te mostro.

— Acho que eu quero sim.

— Tá ok. Espera aqui que eu já trago — Joseph se livrou da mochila assim que cruzou a porta e subiu as escadas, apressado, para buscar o desenho. Já dentro do quarto, ele se livrou do casaco e dos tênis e voltou a descer.

Encontrou seu tio na cozinha, se servindo de um copo de água gelada.

— Olha só — Joseph colocou o desenho sobre o balcão americano e esperou por uma opinião. Era a primeira vez que ele desenhava um pirata, mas tinha gostado do resultado, embora ainda não tivesse terminado de colorir.

— Está muito bom — Andrew se aproximou por suas costas e depositou uma das mãos no balcão, prendendo Joseph entre ele e o móvel. — Parece um tanto sombrio, mas acho que combinou.

— É por que é um navio pirata fantasma — Joseph explicou, concentrado no desenho. — Vê os olhos da tripulação? São negros assim porque eles não têm mais alma.

— E o que aconteceu com a alma deles?

— Eles perderam durante o naufrágio no Triângulo das Bermudas. Foi assim que o navio se tornou um navio fantasma — Joseph se virou para ele, sorrindo.

Andrew o encarou.

— Você é muito criativo — então, ele levou sua mão livre até o rosto do sobrinho e acariciou sua bochecha levemente com polegar.

Joseph não se moveu, mas quando a mão do tio deslizou de seu rosto para seus lábios, ele se sobressaltou um pouco.

— Tio Andrew...

— Shhhhh — Andrew se aproximou um pouco mais, extinguindo o espaço entre eles e pressionando as costas de Joseph contra o balcão. — Você vai gostar.

Então, ele selou seus lábios aos do sobrinho e Joseph não conseguiu reagir.

Ele não entendia porque seu tio o estava beijando. Aquilo era permitido? Eles podia se beijar daquela forma, assim como sua mãe beijava seus namorados ou como seu pai havia beijado Brianna durante o fim de semana no chalé? Era certo?

Mesmo sem saber a resposta, Joseph sentiu o estômago embrulhar ao ter a língua do mais velho empurrando seus lábios como se pedissem passagem. Ele não abriu a boca, mas isso não importou quando Andrew a mordeu levemente, antes de sugar seus lábios uma ultima vez e se afastar.

— Porra, isso foi bom — o mais velho comentou olhando de maneira predatória para Joseph que ainda não tinha se mexido.

— Joe, você está na cozinha? — A voz de sua babá se fez ouvir lá da sala e finalmente Andrew se afastou, mantendo uma distância segura entre os dois.

— Esse vai ser nosso segredinho, tá? — Ele limpou a umidade do beijo dos lábios avermelhados do sobrinho e arrumou a camiseta de modo a cobrir parte da ereção que tinha surgido em suas calças. — Não pode contar para ninguém, Joe. Nem mesmo para o seu pai ou ele vai ficar bravo com você.

Joseph estremeceu. Não queria Erick bravo.

— Eu volto para buscar o desenho quando você terminar — Andrew avisou e sorriu para a babá de Joseph antes de ir embora.

Então, quando a porta da sala se fechou às suas costas, a primeira coisa que Joseph fez foi correr até o banheiro mais próximo e vomitar todo o milk shake e batata frita que tinha comido algumas horas antes.

Notas finais
Ah o ódio chega a rugir em nossos ouvidos, né? Mais alguém aí sente vontade de vomitar sempre que o Andrew é citado na fic? Porque Joseph e eu sim! Ser humano imundo! Mas espero que tenham gostado do capítulo e me deixem saber o que estão achando da fic até aqui ^^ Eu voltarei com um novo capítulo no sábado. Então, até breve!