Notas iniciais
Olá, gente! Mil desculpas por estar totalmente fora dos meus prazos. Eu já devia ter postado uns três ou quatro capítulos nesse meio tempo, mas não tive tempo de me sentar na frente do computador e me concentrar nessa fic nas ultimas semanas. Felizmente, agora estou de férias do trabalho e terei 30 dias maravilhosos para me concentrar na escrita e finalizar essa side story e, se universo permitir, Wake Me Up também. Então, vamos lá! Eu espero que vocês gostem desse capítulo e, assim que eu terminar de revisar, postarei o próximo que também já está pronto, ok? Boa leitura.

Apesar de Brianna ter começado a visitar sua casa com certa frequência, Joseph e Aaron só se reencontraram novamente quase seis meses após o suicídio de Anthony Greed e as circunstâncias que os levaram a isso não poderiam ter sido mais estranhas. Na verdade, Joseph duvidava que pudesse haver um momento pior para reencontrar o garoto.

Ele havia acordado, alguns dias antes, com uma discussão acalorada ecoando dentro de casa. Inicialmente, não entendeu o porquê, já que seu pai não alterava a voz daquele jeito mesmo quando precisava resolver algum problema do trabalho, mas quando viu sua mãe entrar em seu quarto como um raio e praticamente o puxar para fora da cama, Joseph entendeu o motivo de toda a gritaria. Sua mãe nunca foi uma mulher muito discreta mesmo.

— Levante-se e vista-se, você vai para casa comigo — ela ordenou e Joseph a encarou confuso, ainda meio grogue por ter sido acordado de supetão.

— Você não detém mais a guarda do garoto, Celine. Não pode chegar aqui no meio da noite e arrancá-lo de casa como bem quiser — seu pai retrucou, entrando no quarto logo após a ex-esposa.

— Eu sou a mãe dele, Erick. Acha mesmo que vou deixar aquela vaca cria-lo no meu lugar? Vocês podem ter se casado e ela pode estar esperando um filho seu e, francamente, que vocês se fodam com essa porcaria de família feliz, mas não vou deixar que ela tire o Joseph de mim como tirou você.

— Acha que é isso que a Brianna quer? Te substituir como mãe?

— Aquela vaca quer tudo que é meu!

— Você é louca. Deveriam ter te internado em uma clinica psiquiátrica em vez de uma clínica de reabilitação.

— Você só teria a ganhar com isso, não é mesmo? Afinal, eu sei uma ou duas coisas que podem te ferrar — então, ela se voltou novamente para Joseph. — Troque-se, criança. Precisamos ir.

— Você não vai levar o garoto, Celine.

— Você não vai me impedir de sair dessa casa com o meu filho!

— Chega. Eu vou chamar a polícia — Erick saiu do quarto para dar o telefonema e Celine aproveitou para empurrar Joseph na direção do armário, apressando-o.

— Ele acha que vai tirar tudo de mim, esse desgraçado. Não vai! Nem ele, nem aquela cadela traidora a quem um dia eu chamei de amiga.

Então, Celine enfiou algumas roupas de Joseph dentro da mochila e ele só pode seguir o ritmo dela, saindo do pijama e se esforçando para vestir uma calça de moletom e uma camiseta rapidamente em meio à névoa de sono que ainda pairava sobre o seu corpo.

— Espera, mãe, as minhas coisas — Joseph tentou alcançar seu kit de desenho, mas Celine o impediu, praticamente arrastando-o para fora do quarto.

— Deixe aí, compramos outro depois.

Eles já estavam praticamente no portão quando Erick os alcançou e tentou puxar Joseph das mãos de Celine, fazendo a mulher largar a mochila do garoto de qualquer jeito, no chão, para não perdê-lo naquele cabo de guerra com o ex-marido.

— Ele vai comigo, Erick. Solte!

— Eu já disse que você não pode leva-lo. Eu assinei um termo no Conselho Tutelar, Celine. Sou responsável por tudo que acontece com ele.

— E eu sou a mãe dele! Eu o carreguei por nove meses dentro de mim e o coloquei no mundo. Acha que alguma lei desse país ou de qualquer outro supera isso?

— Você deveria ter pensado nisso antes de deixar seu ex-namorado agredi-lo ao ponto do hospital precisar acionar a justiça.

— Eu cometi um erro, Erick. E daí? Quer dizer que isso anula tudo o que eu represento na vida dele?

— E o que, exatamente, você representa para ele, Celine? Estava bêbada na maior parte do tempo.

— E você sequer estava em casa!

— Parem! — Joseph gritou, cansado de ser puxado para lá e para cá pelos dois adultos da sua vida. — Eu não aguento mais isso. Me deixem em paz!

Então, ele apenas se soltou das mãos dos dois e saiu correndo para a rua, sem ter um rumo certo. Só queria se afastar daquela discussão sem fim, daquela guerra de egos que nunca dava em nada. Joseph correu tanto que se perdeu, mas não importava que estivesse em um bairro desconhecido ou que a noite estivesse fria demais para que ele circulasse pelas ruas apenas de camiseta e calça de moletom, qualquer lugar era melhor que estar preso no meio daquela bagunça que era o relacionamento de seus pais.

Além disso, ele precisava processar as novidades daquela noite. Seu pai tinha se casado com Brianna e teria outro filho. Pelo que entendeu, a mulher viria morar com eles em breve e Joseph não sabia como se sentia com relação àquilo. Queria um irmão? Queria dividir a pouca atenção que ainda recebia do pai com outras pessoas? Ele não estava certo sobre isso.

Joseph perambulou pelas ruas desertas de Londres pelo que pareceram horas, mas foi encontrado pela polícia em algum momento da madrugada e levado de volta para a casa do pai. Sua mãe já não estava mais lá e ele não sabia se a mulher tinha simplesmente ido embora ou se havia sido presa por tentar raptar o filho cuja guarda já não lhe pertencia, mas ele não se importava em saber também. Perceber isso o deixou triste. Era estranho não amar mais seus próprios pais. Era estranho que ele sequer soubesse se ainda havia algo no mundo que pudesse amar.

— Você ficou louco? — Seu pai reclamou assim que os oficiais da polícia foram embora. — Sabe a quantidade de explicações que precisei dar por causa dessa sua fuga ridícula?

— Quando ia me contar que se casou? — Joseph ignorou a bronca e focou no que realmente queria saber. — E que vai ter um filho? E que, em breve, não seremos mais só nós dois aqui dentro?

— Você tem sete anos, Joseph. Eu não preciso me justificar para uma criança.

— Eu tenho oito.

— Não faz diferença.

— Porque eu não fui convidado para o seu casamento?

— Não fizemos uma cerimônia, está bem? Você sabe que o pai do Aaron cometeu suicídio há poucos meses, seria de mau gosto realizar um casamento agora. Nós só decidimos oficializar a união por causa do bebê. Não foi nada grandioso ou público.

— E eu não merecia saber que vou ganhar um irmão?

— Eu não quero ter essa conversa com você a essa hora.

Joseph bufou.

— Como se você quisesse ter qualquer conversa comigo seja lá em que horário for.

— Abaixe o seu tom de voz comigo, moleque. Eu não sou como a bêbada da sua mãe.

— Verdade — Joseph concordou, tomado por uma coragem súbita. — Você é pior.

O tapa que recebeu pela ousadia já era esperado, mas não doeu menos por causa disso. Joseph sentiu o rosto formigar no local em que seu pai o acertou e sabia que um hematoma surgiria ali muito em breve. Ele queria se importar um pouco mais, queria sentir a indignação que sentia antes, mas era difícil quando ser agredido física e verbalmente havia se tornado quase uma rotina em sua vida.

— Obrigado — foi tudo que disse antes de voltar para o quarto e se trancar lá dentro. Não que seu pai fosse perder o sono por causa disso.

Durante pouco mais de uma semana Erick se ocupou em organizar os detalhes da mudança de Brianna para aquela casa e Joseph tentou não se aborrecer com o fato do pai ter contratado uma empresa especializada para reformar e decorar o quarto que, em breve, seria do bebê, mas era um pouco difícil quando o quarto escolhido para ele ficava logo ao lado do seu e toda aquela barulheira e movimentação o impedia até mesmo de se afundar nos desenhos como sempre fazia.

Quando o dia da mudança finalmente chegou, Joseph estava uma pilha de nervos, mas seu pai o forçou a se arrumar e descer para receber os novos moradores da casa como se ele não fosse vê-los todos os dias a partir dali.

Brianna já ostentava uma bela barriga de grávida e Joseph se perguntou em qual mês de gestação ela estava, mas perdeu o foco quando viu o garotinho loiro parado atrás dela, observando tudo ali como se estivesse com medo.

Um pequeno sorriso se abriu em seu rosto.

Até aquele momento, ele não havia se dado conta de que Aaron também viria morar com eles, mas quando o viu ali percebeu que havia ao menos uma coisa boa naquela mudança: agora ele teria companhia e não seria apenas a de um recém-nascido chorão.

— Oi, Joseph — Brianna sorriu para ele, mas Joseph apenas sacudiu a cabeça em resposta, ignorando seus braços abertos quando ela se inclinou para abraça-lo. Em vez disso, ele se aproximou de Aaron e estendeu a mão na tentativa de ajuda-lo a carregar a pequena mala de rodinhas que ele arrastava para dentro de casa com certa dificuldade, mas se assustou quando Aaron puxou a mala para longe e manteve distância.

Joseph não entendeu o porquê.

Brianna pareceu notar a confusão em seu rosto e disse:

— Desculpe, Joseph, tem sido um período difícil para ele — então, ela mesma retirou a mala das mãos de Aaron e acariciou seu rosto. — Porque não vai buscar o Screapy no carro, amor? Eu cuido das malas.

Aaron concordou e saiu. Joseph ficou ainda mais confuso.

O que diabos era um “Screapy”? Se fosse algum ursinho de pelúcia sem o qual o garoto não conseguia dormir, ele certamente faria uma piadinha a respeito. Ou talvez não. Joseph não tinha certeza.

Mas para o seu espanto, Screapy não era um ursinho.

— Um cachorro? — Os olhos de Joseph voaram para Erick, mas ele se surpreendeu quando em vez de encontrar o pai com uma expressão irritada, encontrou-o com um sorriso gentil.

— Oh, ele cresceu rápido. Com quantos meses está?

— Uns oito, eu acho — Brianna explicou —, mas essa raça não cresce muito.

Aaron puxou a barra da blusa da mãe e cochichou algo no ouvida dela quando Brianna se inclinou em sua direção.

— Aaron quer saber onde o Screapy vai ficar — ela verbalizou. — Ele geralmente passa o dia correndo por aí, mas se pudermos deixa-lo dentro de casa a noite, seria melhor. Aaron é muito apegado ao cachorro, sabe?

Erick nem hesitou.

— Ele pode ficar com o Aaron no quarto, não tem problema — sorriu para o garotinho que trazia o inquieto filhote de Beagle atado a coleira. — Aliás, porque não sobe e vai conhecer o seu quarto, Aaron? Joseph pode te mostrar onde fica.

Joseph relanceou os olhos para o pai.

Mas que porra era aquela? Desde quando Erick era tão amável?

— Você me faria esse favor? — Brianna lhe sorriu novamente. Seu pai lhe encarou como se fosse mata-lo caso ele dissesse não.

Joseph assentiu.

— Vem comigo — disse a Aaron que mesmo não parecendo muito animado com isso, o seguiu em silêncio, ainda mantendo certa distância.

Eles subiram as escadas, com Aaron sendo praticamente arrastado por Screapy ao longo do caminho e Joseph achou adorável a maneira como os olhos assustados de Aaron tentavam absorver cada detalhe da casa.

— Você vai dormir aqui — Joseph anunciou quando chegaram ao novo quarto do garoto, que ficava de frente para o seu. — É bem grande e tem uma varanda. Você gosta de varandas?

Aaron não respondeu. Joseph engoliu em seco.

— Você não parece muito feliz de estar aqui — concluiu.

— Eu gostava da casa antiga — Aaron finalmente respondeu e Joseph não entendeu porque sentiu como se um peso tivesse sido tirado de seu peito ao ouvir a voz dele.

— Eu também gostava da minha casa antiga — ele confidenciou.

— E por que não mora mais lá?

— É complicado.

Aaron pensou um pouco a respeito, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta do quarto bateu por causa do vento e o barulho alto o fez soltar a coleira de Screapy e levar as duas mãos às orelhas instantaneamente. Seus olhos claros perderam o foco e ele se encolheu no canto praticamente choramingando.

Joseph não entendeu porque uma simples porta batendo parecia tê-lo assustado tanto, até que se lembrou do que havia acontecido ao garoto seis meses antes: seu pai havia tirado a própria vida na sua frente e o barulho alto da porta devia se assemelhar bastante ao barulho de um tiro para um garoto traumatizado.

Merda.

— Ei — Joseph se aproximou cautelosamente dele e se abaixou a sua frente, mas sem tocá-lo. — Não fica assim, Aaron. Já passou, ok?

Mas em vez de tranquiliza-lo suas palavras só fizeram com que ele começasse a gritar e a se debater, como se alguém o estivesse torturando.

—O que aconteceu? — Brianna surgiu na porta do quarto, um tanto ofegante por ter subido a escada rapidamente e com aquela barriga enorme.

— Eu não sei. A porta bateu e ele ficou assim.

— Oh, meu amor — a mulher se apressou em amparar o filho e enquanto ela tentava trazer Aaron de volta de seu surto, Erick puxou Joseph para fora, praticamente empurrando-o até o próprio quarto.

— O que você fez com ele?

— Eu não fiz nada.

— Será que eu não posso confiar em você nem por um instante! — Erick segurou seu braço com força, atirando-o na direção da cama.

— Mas eu não fiz nada, pai. Eu juro! Ele só se assustou com o barulho da porta — Joseph se defendeu.

Erick não quis ouvi-lo.

— Se aprontar mais alguma coisa, eu vou te dar uma surra tão grande que você vai esquecer até o seu próprio nome, Joseph — alertou e saiu do quarto, deixando-o lá dentro.

— Que droga — Joseph murmurou para si mesmo, enquanto ainda ouvia os gritos e o choro de Aaron no cômodo em frente.

Aquilo se estendeu por minutos infinitos, mas Brianna finalmente conseguiu acalmá-lo e decidiu passar aquela primeira noite com ele, para tornar mais fácil sua adaptação. Erick concordou com o arranjo sem reclamar, mas passou o resto da noite encarando Joseph como se aquilo fosse sua culpa.

As coisas não melhoram muito no dia seguinte, já que Aaron continuou tão introvertido quanto estava no dia anterior, optando por ficar apenas com Screapy e longe da companhia de todos. Joseph viu o garoto passeando com o cachorro no jardim e lembrou-se de quando ele próprio visitava o lugar diariamente para brincar. Ele esperava que Aaron não se cansasse dali como ele havia se cansado após alguns dias.

À noite, quando Aaron estava em seu quarto, Brianna pediu que Joseph fosse até lá e tentasse se aproximar dele de novo. Erick não gostou nada da ideia, mas disfarçou bem na frente da atual esposa e foi assim que, após o jantar, Joseph se viu parado diante da porta do garoto, com os desenhos que havia feito, sem saber se entrava ou não.

Respirou fundo e tomou coragem para bater na porta, tentando não pensar na surra que levaria caso Aaron entrasse em parafuso de novo.

— Quem é? — A voz do garoto ecoou lá de dentro junto a alguns latidos finos de Screapy.

— Sou eu. Joseph — anunciou.

Aaron caminhou até a porta e a abriu apenas o suficiente para espiar do lado de fora.

— O que você quer?

— Eu te trouxe uma coisa.

— O que? — Ele examinou as mãos de Joseph, tentando decifrar o que havia nas folhas que o garoto segurava.

— Eu posso entrar?

Ainda meio receoso, Aaron abriu a porta um pouco mais e deixou que Joseph entrasse, o que ele fez rapidamente com medo de que o garoto mudasse de ideia e o pedisse para sair.

— Eu te fiz uns desenhos — comunicou.

Aaron franziu o cenho.

— Porque?

— Gosto de desenhar — Joseph deu de ombros. Ele depositou os desenhos sobre uma mesinha baixa no canto e Aaron se aproximou para ver.

— Eu conheço esse.

— É o Wolverine — Joseph sorriu para ele. — Você se lembra?

Aaron assentiu.

— E esse é o que?

— Um pirata.

— Não parece um pirata. Cadê o tapa-olho dele?

— Nem todos os piratas usam tapa-olho.

— Usam, sim.

— Não usam, não.

— Usam! — Aaron insistiu e Joseph deu o braço a torcer, pois não queria chateá-lo logo agora que ele tinha começado a interagir.

— Está bem, eles usam. É que eu me esqueci de fazer nesse.

— Ah. E você consegue desenhar o Screapy?

Joseph olhou bem para o cachorrinho que tentava destruir algum brinquedo que Aaron havia jogado para ele.

— Acho que sim.

— Pode desenhar agora?

— Posso. Eu vou pegar as coisas — Joseph concordou animado. — Me espera aqui e não tranca a porta.

— Tá bem.

Joseph correu até seu quarto e pegou seu kit de desenho, voltando para o quarto de Aaron rapidamente. Ele se sentou na mesinha e começou o esboço, enquanto Aaron observava o desenvolvimento.

Não foi tão difícil desenhar o cãozinho apesar de Joseph não ter muita experiência desenhando animais e, após colorir, ele entregou o desenho para Aaron que aprovou a arte.

— Eu quero colocar ele aqui — apontou para um espaço vazio na parede. — Você me ajuda?

— Vou pegar um pouco de fita.

Então, ele voltou ao seu quarto, pegou a fita adesiva e ajudou Aaron a colocar o desenho de Screapy e alguns outros do Wolverine em sua parede.

— Eu queria saber desenhar também.

— Eu te ensino.

— Sério?

— Hora de ir para a cama, mocinhos — Brianna estipulou entrando no quarto, sorridente. Aaron correu direto para os braços dela.

— Você ouviu, mamãe? Ele vai me ensinar a desenhar.

— Sim, amor, mas amanhã. Está tarde e o Joseph precisa dormir. Ele tem aula amanhã cedo.

— Quando eu vou voltar para a escola? — Aaron quis saber.

— Em breve — Brianna bagunçou os cabelos dele. — Estamos encontrando uma nova escola para você.

— Mas eu gostava da escola antiga, mamãe.

— Ela fica muito longe, meu amor. Vamos encontrar uma mais próxima e você vai gostar dessa também. Você vai ver.

Aaron não pareceu muito animado, mas concordou.

— Agora diga boa noite para o Joseph e vá escovar os dentes. Vou te colocar na cama.

— Boa noite, Joseph — Aaron desejou e seguiu quase correndo para o banheiro para escovar os dentes.

— Boa noite, Aaron.

— Obrigada por brincar com ele hoje — Brianna agradeceu. — É bom vê-lo se divertir depois de tudo que ele viveu nos últimos meses.

Joseph assentiu, recolhendo suas coisas.

— Eu te vejo amanhã? — Aaron questionou se apoiando no batente da porta do banheiro com uma escova de dentes pendurada na boca.

A cena foi engraçada.

— Sem falta — Joseph garantiu, mas as coisas não ocorreram como ele queria.

Ao chegar da escola no dia seguinte, Joseph descobriu que Brianna tinha ido a uma consulta médica de rotina com Aaron e que eles só voltariam no final da tarde. Então, ele brincou um pouco com Screapy no quintal, pensando no quanto o pai ficaria bravo ao descobrir que o cãozinho havia cavado alguns buracos na grama e, depois, voltou para o quarto para organizar todas as coisas que usaria para tentar ensinar Aaron a desenhar mais tarde.

Foi enquanto organizava os lápis de cor que a porta de seu quarto se abriu e ele sentiu o coração parar ao ver seu tio Andrew entrar ali.

— Seu pai me pediu para pegar uns documentos no escritório dele — anunciou como se pudesse ler os pensamentos de Joseph. — Aproveitei para dar uma olhada no meu sobrinho favorito. Você voltou a desenhar?

Joseph apenas o encarou. Queria que o tio fosse embora, mas Andrew apenas fechou a porta com cuidado e se aproximou dele.

— Você cresceu bastante desde a ultima vez que eu te vi. Faz o que? Uns quatro meses.

Joseph não fazia ideia, mas desejava que fossem mais. Bem mais.

— Eu fiquei com saudades suas. Você não sentiu minha falta? — Andrew extinguiu o espaço entre eles e enlaçou sua cintura, deixando-o sem muitas opções de fuga além de virar o rosto para não sentir a respiração do outro tão de perto. O movimento não passou despercebido a Andrew. — O que foi? Agora que você tem um amiguinho decidiu me evitar? — Ele questionou usando uma das mãos para segurar o queixo de Joseph e fazê-lo voltar a olha-lo.

Joseph até tentou resistir, mas ele tinha oito anos e não tinha força para lutar contra um homem adulto de trinta e poucos. Seu tio mal deve ter notado sua resistência, até mesmo porque não era algo que ele estava interessado em notar.

— Eu pensei em você esse tempo todo, sabia? Estava doido para te ver. — Então, ele uniu seus lábios aos de Joseph e o garoto não pode fazer nada além de aceitar a língua do outro se metendo em sua boca já que seu tio ainda segurava seu rosto, impedindo-o de desviar do ato.

— Tio Andrew — Joseph se debateu um pouco, tentando livrar-se do aperto do homem, mas Andrew não pareceu entender aquilo como uma recusa. Em vez de soltá-lo, ele o imprensou contra a parede e Joseph ficou tão chocado ao sentir a mão do tio se enfiar em seus shorts e acariciar seu membro que sequer conseguiu gritar.

Ele sentia a barba áspera de Andrew arranhar a lateral de seu rosto e a língua teimosa do homem percorrer seu pescoço e seus lábios. Estava com tanto medo e com tanto nojo que apenas fechou os olhos e rezou para que aquilo terminasse logo, então, a próxima coisa que conseguiu registrar foi o momento em que seu tio depositou um ultimo selinho em seus lábios e se afastou, saindo do quarto após lhe dizer alguma coisa que Joseph sequer conseguiu ouvir.

Ele apenas ficou ali, parado no mesmo lugar no qual seu tio o havia deixado, com o uniforme da escola pendendo desleixadamente em seus quadris. Por um longo tempo, não sabia dizer quanto, sentiu que nem ao menos podia respirar direito, mas em algum momento tomou a iniciativa de se arrastar até o banheiro e se enfiar embaixo da ducha com roupa e tudo.

Geralmente, Joseph usaria a banheira, mas ele não tinha forças para espera-la encher. Queria se livrar daquela sensação horrorosa que era ter o corpo de seu tio pressionando o seu, suas mãos percorrendo sua intimidade, sua saliva grudando em seu rosto, então, praticamente arrancou o uniforme molhado do corpo, jogando-o de qualquer jeito pelo box e esfregou seu corpo com a esponja.

Mas não importava o quanto esfregasse ou quanto sabão e quanta força usasse para isso não se sentia limpo. Por isso, quando começou a usar as unhas não foi tão doloroso quando deveria ser. Ver sua pele em carne viva era quase um alívio, como se desse modo sim pudesse se livrar dos resquícios daquela tarde.

Quando saiu do banheiro, sua pele estava vermelha e irritada e havia vergões profundos de unhas marcando seus braços, ombros, peito e parte das pernas. Aquilo ficaria feio depois, ficaria dolorido, mas Joseph não sentia. Não ainda.

Ele simplesmente se enfiou em um pijama folgado e se arrastou até a cama, enfiando-se sob o edredom como se aquilo pudesse ajuda-lo a se esconder do mundo também.

Ele acabou adormecendo em algum momento, não soube dizer por quanto tempo, mas acordou com Aaron parado ao lado de sua cama, observando-o com seus olhos verdes e curiosos.

— Estão te chamando para jantar — o garoto disse, simplesmente.

Joseph relanceou os olhos para a janela. Estava escuro lá fora, então, ele provavelmente havia dormido por um longo tempo.

— Não estou com fome.

— Você vai me ensinar a desenhar agora? — Aaron questionou.

As coisas estavam arrumadas sobre a mesa, prontas para serem usadas, mas Joseph simplesmente não queria sair da cama.

— Hoje não, Aaron.

— Porque não? — Os olhos verdes do garoto o fitaram demoradamente. Joseph sentiu vergonha. Era como se Aaron pudesse ver o que havia acontecido com ele naquela tarde e Joseph não queria que ele o visse daquela forma. — Você tá doente?

— Acho que sim.

— Minha mãe tem remédio. Ela sempre me dá quando eu tô doente. Não é gostoso, mas você toma e sara. Você quer?

Joseph o encarou. Queria que algum remédio o curasse do que estava sentindo naquele momento, mas não sabia se tal coisa existia.

— Eu só quero descansar um pouco, tudo bem?

Aaron assentiu, não muito satisfeito com isso.

— Pode fechar a porta para mim quando sair?

Um novo aceno afirmativo.

Então, o garoto lhe desejou boa noite e encostou a porta ao passar. Joseph fechou olhos e voltou a dormir. Sentia-se doente de fato, mas não da maneira como deveria. Ele esperava que as coisas estivessem melhores na manhã seguinte, mas não elas não ficaram. Nem na manhã seguinte, nem na próxima ou na outra. E depois de cinco dias se sentindo um lixo e adiando as aulas de desenho de Aaron uma após a outra, ele já não tinha certeza se em algum momento da sua vida as coisas voltariam a estar bem novamente.

Provavelmente não.

Notas finais
E então, como estamos até aqui? Todos tranquilos? O que estão achando da fic? Estão gostando? Me deixem saber a opinião de vocês, pois ela conta muito para mim. E, nessa fase da fic, vocês já tem alguma teoria sobre onde foi que a história do Aaron com o Joseph começou a dar errado ou vão esperar um pouco mais para dar algum palpite? rsrs Vejo vocês no próximo capítulo. Obrigada por acompanharem.