Coloquei agua em Godofredo e voltei pra cama. Já havia terminado de ler o livro que comprei na quarta-feira e já era sábado novamente. Eu não consegui juntar coragem para voltar ao DASA, nem mesmo coragem de fazer comida. Eu estava vivendo de hambúrgueres, pizzas e luz.

Quando foi por volta de quatro horas da tarde de sábado minha campainha tocou, me lembrei de que a ultima pessoa que a tocara antes foi Marcelo e meu coração doeu. Caminhei com dificuldade até a porta e para minha surpresa era Veronica. Ela usava um vestido branco com flores rosadas, sem alças. Seu cabelo longo e preto pendia sobre suas costas e em seu rosto ela trazia um misto de tristeza e surpresa.

O que meu porteiro estava fazendo hein?

– Como você esta? – Me perguntou antes de subitamente me abraçar. Um abraço forte e sincero. Eu a apertei com força e comecei a sentir as lagrimas vindo aos meus olhos – precisando de um banho com certeza.

Eu a xinguei mentalmente ­– desculpe por não te encontrar – disse a ela ainda tentando conter as lagrimas.

Ela me deu um soco no braço e em seguida me empurrou – malandro pervertido, cretino, idiota. Não me esqueci disso – essa era Veronica, sempre carinhosa.

Então fui até a cozinha que estava um caos e cavando entre a pilha de louça e sacos de lixo, encontrei minha cafeteira. Sentamos na varanda e ficamos olhando para a rua enquanto conversávamos finalmente. Eu nem ao menos havia ido ao consultório fazer o exame.

Mas Veronica não estava nervosa, muito pelo contrario, estava calma e relembramos bastante dos nossos poucos momentos juntos. Falamos sobre como eu a levei pra jantar e a ilude dizendo que queria algo sério. Lembramo-nos de como foi ótimo o sexo da única vez que acabamos indo pra cama e que causou sua gravidez e isso supondo que o bebe era meu. Eu ainda não acreditava.

Foi extraordinariamente bastante agradável. Cheguei a não pensar em Marcelo pelas duas horas que se passaram, mas então finalmente Veronica teve de ir embora. Marcamos nossa próxima conversa para terça-feira da semana seguinte.

E então voltei ao mesmo processo de sempre. Desci com os sacos de lixo para a lixeira do prédio, junto com a louça suja se você realmente quer saber. Limpei o resto da pia e fui fazer a barba e tomar um banho daqueles. Meu cabelo estava grande de mais também, então marquei mentalmente de ir ao cabeleireiro no dia seguinte.

No dia seguinte acordei com a ligação de um numero desconhecido e como imaginei talvez poder ser o advogado de Veronica atendi, mas eu estava plenamente enganado, ao contrario de minhas expectativas era Marcio no telefone, o cara que se senta ao meu lado no DASA.

– Como vai cara? – Me perguntou ele normalmente, como se me ligar fosse uma tarefa cotidiana.

Demorei um pouco para responder, em um misto de surpresa e curiosidade. E se quer saber e eu sei que quer, sou ótimo para reconhecer vozes, principalmente de pessoas que já falaram perto do meu ouvido. – E ai Marcio, estou bem e você? – Respondi tentando parecer o mais casual possível.

– Eu estava preocupado contigo, espero que não se importe, mas roubei seu telefone da agenda de Douglas ­– exclamou ele. Bom, ele não era tão idiota quanto pensei – quer sair pra tomar uma cerveja?

– Não tem problema, mas não estou muito no “pique” – respondi já acabando com aquela palhaçada toda.

– É uma pena, porque eu não posso aceitar não como resposta ­– respondeu ele ­– eu também peguei seu endereço e já estou na sua porta ­– disse ele para minha surpresa.

Eu dei um salto da cama me sentando de súbito, passei a mão nos cabelos desarrumados e suspirei – Marcio eu acabei de acordar.

– Não tem problema, vamos a um café então – ele realmente sabia ser bem insistente, agora eu entendi a proibição cautelar que a namorada dele havia conseguido.

­– Eu tenho que cortar cabelo – intervi antes de qualquer coisa. Ele respondeu positivamente com um ronronado irônico. Suspirei e respondi ­– desço em quinze minutos.

– Não precisa correr, só chego ai em vinte minutos – afirmou ele.

– Você não estava na minha porta? – Perguntei indignando.

– Eu não. E se você não aceitasse? – respondeu ele rindo e desligou na minha cara.

Tomei um banho de dez minutos, escovei os dentes e sequei o cabelo. Coloquei uma bermuda bege com bolso faca e uma camisa gola polo preta. Quando estava calçando o tênis meu celular tocou, já haviam se passado meia hora sim, mas o banho nunca, realmente dura, apenas dez minutos.

O elevador demorou um pouco e por fim cheguei à rua. Marcio estava com óculos escuros, preto. Sorrindo de dentro de um carro popular prata. Era realmente a cara dele.

Assim que entrei ele estendeu a mão e nos cumprimentamos desnecessariamente em minha opinião – então, o que vamos fazer? – Perguntei curioso.

Ele sorriu e arrancou o carro. Conversamos sobre o grupo de apoio no caminho. Nosso único assunto possível até então. Quando finalmente chegamos a um dos bairros nobres da cidade, paramos em uma lanchonete que eu apenas conhecia de vista.

– Você disse que não havia tomado café da manha – ele afirmou se sentando na minha frente.

O obvio às vezes é tão intrigante, sarcasticamente falando – certo – disse a ele sem graça.

Comemos alguns mistos e então finalmente reparei no Marcio. Ele era até bem bonito, olhos castanhos, sorriso fácil, cabelos cacheados e barba bem arrumada. Era muito novo pra mim, mas quase pensei em investir.

– Eu tenho que perguntar – disse a ele ­– por que o súbito interesse em mim?

Ele me olhou e ficou calado por um tempo e finalmente respondeu – porque eu conheço a dor de querer alguém por perto e não poder tê-la, mesmo nem de longe poder vê-la.

Senti um nó na garganta, mesmo as situações sendo diferentes pude sentir a dor dele, ou talvez fosse só a minha, mas naquele momento não parecia importar de quem era a dor ou de quem deixava de ser.

– Como ela é? – Perguntei me referindo à ex-namorada dele.

– A mulher mais doce e incrível que já tive a sorte de conhecer um dia – ele disse olhando para seu suco de melancia – quando eu perdi minha mãe ela me abraçou e disse que estaria sempre lá comigo, bom, não esta não é.

Eu balancei a cabeça negativamente – não existe para sempre, o que temos é um montante de escolhas que nos garante mais ou menos tempo. Você tem o direito de viver esse tempo como quiser, lamentando pelo que nunca mais vai ser seu, ou vivendo cada instante como se eles realmente fosse o ultimo – disse a ele. Nem eu sabia como continuar, mas essa era a verdade, as escolhas que nos fazemos não definem quem somos.

Podemos sobre pressão matar um agressor ou um assaltante se tivermos oportunidade e/ou nos sentirmos acuados, mas o que define quem somos é o comprometimento com as nossas escolhas.

Isso quando você decide seguir em frente depois de uma tragédia, ou quando decide largar um vicio por exemplo. Não somos definidos por escolhas, mas sim pela nossa certeza de que é assim que devemos agir.

Passamos bastante tempo conversando, Marcio era bem engraçado e tinha ideias inteligentes sobre muitos assuntos que eu nem imaginava que ele pudesse conhecer também. Nos vimos muito mais parecidos do que nós dois podíamos imaginar.

Quando a tarde estava quase acabando ele me deixou em casa. Ele tinha conseguido uma folga do trabalho e por isso resolveu me chamar para sair, agora só o veria novamente no DASA.

Cheguei em casa e me deitei no sofá, acabei acordando horas depois com dor no pescoço. Eram oito da noite e tomei outro banho, vai lá se saber por que acordei todo suado.

Coloquei uma camisa gola “V” branca, uma calça jeans normal e um tênis. Dirigi meia hora e por volta de nove e quinze cheguei ao shopping. Tinha bastante gente, mães com filhos, casais, pessoas cheias de sacolas.

Gente de todos os tipos e estilos. Era engraçado como eu nunca tinha parado para olhar para as pessoas nesse lugar. Subi as escadas rolantes e cheguei a livraria, na porta colocando um livro em exposição estava ele de uniforme preto.

– Acho que ficou torto – disse ajeitando o livro o fazendo dar um salto, era obvio que eu o havia assustado.

Quando ele percebeu que era eu, sorriu. Sorri de volta automaticamente, ele tinha esse poder sobre mim – acho que temos que te contratar por um período de experiência – disse ele fazendo uma cara séria, franzindo a testa.

– Pois é, eu estou desempregado – contei-lhe rindo – vamos continuar com a jornada do tigre? – Perguntei a ele. Frederico tinha aquela coisa magica que me dava vontade de apenas ficar o olhando sem parar.

Alguns sapos nasceram para se tornarem príncipes.

O segui até a estante, que agora comportava a coleção do tigre. Ele puxou um livro onde havia um dragão na capa – a viagem do tigre – disse ele me entregando o exemplar. Eu o peguei e segurei com força olhando para o vendedor de livros – e depois disso será esperar até fevereiro para descobrir qual é o “destino do tigre”.

­– Bom, acho que isso me da tempo suficiente para conhecer outros títulos – logo afirmei. Não queria nem pensar na possibilidade de não vê-lo mais.

Ele caminhou mais um pouco e me mostrou mais uma coleção de livros – O jogo do infinito – disse ele me olhando.

Caminhei até a mesa e vi a pilha de livros, Doutrina da morte – parece interessante, já terminou de ser publicada? – Ele sorriu e seus olhos brilharam.

– Na verdade não, é do mesmo autor de Maze Runner, correr ou morrer – disse ele contendo o máximo que conseguia a sua satisfação.

– Por que esta fazendo isso comigo? – Perguntei balançando a cabeça negativamente, todos os movimentos, todos os sorrisos, todos os olhares, tudo perto dele era mais intenso.

Então ele mordeu o lábio e franziu as sobrancelhas. Era uma mania, ele sempre fazia – talvez eu queira te dar um motivo para continuar voltando aqui.

Engoli a seco, senti um frio na barriga e uma ansiedade inexplicável tomou conta de mim. Abri a boca duas vezes, mas as palavras não saíram – talvez, talvez, eu não... Você não precise de livros pra isso – gaguejei. Eu era mesmo ridículo.

– Saio em vinte minutos – ele me disse se virando e indo em direção a um cliente que havia acabo de entrar.

Eu fiquei parado mais um pouco ali, só tentando ter certeza de que aquilo também não se tratava de um devaneio meu. Olhei para a capa do livro em minhas mãos “A viagem do tigre” e corri para a fila do caixa.

Depois de oito pessoas na minha frente finalmente paguei e fui em direção à saída. Ele não estava lá, pensei em dar um volta na livraria atrás dele, mas desisti, então corri para o banheiro, queria lavar meu rosto.

Quando eu estava no espelho vi que faltavam apenas cinco minutos e então me perguntei por que eu fui lavar o rosto, e não houve resposta logica. Corri de volta para a porta da livraria, dois rapazes estavam fechando as portas.

Fiquei a alguns metros de distancia sentado em um banco esperando, se passam cinco minutos, dez minutos, quinze minutos e por fim ele saiu de lá. Agora usando uma camisa polo vermelha, uma calça jeans escura e um tênis branco.

Me levantei correndo e cheguei perto dele. Quando ele me viu abriu um sorriso – achei que não iria me esperar mesmo.

– Eu ainda te devo uma bebida não devo? – Indaguei. Minhas mãos estava suando, eu estava muito nervoso, mas do que me lembro de ficar nos últimos três anos.

– Homem de palavras – disse ele sério – e pra onde vamos? ­– Me perguntou e só então percebi que estávamos ali parados.

– É uma surpresa – disse sorrindo e realmente seria. Fomos até o estacionamento e pegamos meu carro. Dirigi até um barzinho que eu costumava ir, mas assim que cheguei lá tive uma ideia muito interessante. Comprei uma garrada de Jack Daneils e ele me perguntou se eu queria embebeda-lo, eu pensei por algum tempo, mas não respondi o que realmente passou pela minha cabeça.

Dirigi por cerca de mais quarenta minutos até chegar finalmente ao lugar, primeiro tive que seguir para um bairro distante, uma grande subida por ruas desertas e por fim chegamos alto o suficiente para ver.

Belo Horizonte é uma cidade cercada por montanhas e em alguns bairros da cidade são em regiões muito altas, mas esse em especial era o mais alto da cidade. Quando se estava nessa rua em especifico se é possível ter uma vista da cidade incrível, vendo quilômetros e quilômetros de luzes bem abaixo de nos.

Ele desceu do carro e correu para a beirada do passeio, que levava a uma queda bem alta, se não se tomasse cuidado. – Isso aqui é incrível – disse ele olhando para a imensidão de luzes abaixo dele. Era linda como ele e era magico estar em um lugar como aquele apenas com ele.

Caminhei até o lado dele e vi a vista incrível ­– passei uma virada de ano aqui, não há lugar melhor para ver os fogos – disse a ele.

Voltei e sentei no capo do meu carro, logo em seguida ele se sentou do meu lado. Ficamos calados olhando aquela imensidão durante algum tempo, apenas o braço dele tocava o meu, então eu o olhei, a luz da noite deixava sua pele mais branca.

Seus lábios pareciam mais vermelhos, talvez de frio, ali ventada bastante. Então passei meu braço por trás dele e o abracei, senti medo que ele não correspondesse o abraço, mas ao contrario disso ele apenas deixou seu corpo se recostar sobre o meu.

Ele tinha cheiro de shampoo e livros novos. Meu coração parecia ter subido a boca – obrigado por me trazer aqui – disse ele ­­­­­– esse é o lugar mais incrível que eu já estive.

– Só retribuindo a viagem pela índia, conheci pessoas e lugares incríveis também – respondi. Ele se levantou devagar e me olhou dentro dos olhos.

Senti um frio na barriga, ele sempre me causava isso e então não resisti, joguei meu corpo para o lado e fiquei de frente para ele, com as duas mãos ainda no capo do carro, em volta da cintura do vendedor de livros, mas ainda sem toca-lo.

– Talvez eu não devesse, mas... ­– comecei a dizer, e então ele me beijou. Seus lábios eram macios e doces. Ele ficou em pé e então coloquei minhas mãos em sua cintura, ele passou o braço sobre meu ombro e segurou a parte detrás da minha cabeça, me puxando para ele.

O beijo se tornou quente e forte. Eu passei minha mão direita pelas costas dele o puxando contra mim e pude sentir o corpo do vendedor de livros todo colado ao meu. Os dedos dele entraram sob meus cabelos, enquanto eu apertava sua cintura.

“O que é o futuro além de um montante de ‘agoras’?”(Cidades de Papel), e minha única certeza era que eu não queria que esse agora tivesse fim.

Notas finais
Espero que tenham gostado, não deixem de comentar,