Sexo, Amor e Livros
6 Literalmente
Notas iniciais
Então no outro dia acordei com ele deitado ao meu lado, o ar frio da manha, o cheiro de shampoo do cabelo dele, meu corpo nu e relaxado em baixo do edredom. Fazia tempo que eu não me via tão sereno quanto essa manha, mas como sabemos a realidade não é nunca como queremos.
A verdade é que já eram oito horas da noite do dia seguinte e eu estava sentado na porta do antigo apartamento de Marcelo chorando como um bebe. O que aconteceu? Bom, já vou contar.
Depois que nós dois nos beijamos senti como se todo o mundo a minha volta não existisse, era como estar em um universo só nosso. Seus lábios eram macios e quentes, sua língua esperta e fugas. Eu o segurava forte pela cintura, trazendo o corpo dele contra o meu com força, enquanto um dos braços dele se enrolava em meu pescoço e o outro agarrava forte meu braço.
O corpo dele era exatamente como em todos os meus devaneios, firme e definido. Mas ainda sim não grande como o de alguém que vai a academia todos os dias e ou toma esteroides, de certa forma gostei muito disso. Talvez isso dissesse mais sobre ele do que eu poderia imaginar.
De súbito ele parou de me beijar e olhou dentro dos meus olhos, ele estava sério e eu senti borboletas no meu estomago. Você não pode imaginar o quão lindos eram aqueles olhos, profundos como... Não sei e na verdade tanto faz, eram incríveis.
– Eu queria muito fazer isso – disse ele em meio a um sussurro.
Meu coração batia a mil no peito, talvez mais do que já houvesse batido – talvez eu seja areia de mais pro seu caminhãozinho – sussurrei de volta.
Ele riu alto quebrando toda a quarta dimensão em que estávamos imersos. As luzes da cidade tomaram foco a minha volta, pude sentir a brisa fria da noite e finalmente percebi o carro que havia estacionado ao lado do nosso.
Ele caminhou até a beirada da calçada e abriu os braços – talvez não exista essa de areia – disse ele rindo.
Fui até próximo dele e olhei para toda a imensidão debaixo de nos – veremos vendedor de livros.
O mais engraçado é que há muito tempo eu não sentia essa alegria boba. Então uma lembrança faiscou em minha mente. Meu melhor amigo havia acabado de morrer e eu estava aqui, surtando de alegria. Feliz ou infelizmente, eu arranquei com força esse pensamento da minha cabeça, me forçando a simplesmente olhar para Fred.
Cheguei mais perto ainda do vendedor que olhava o lindo horizonte e passei meu braço por trás das costas dele. Ele me olhou com um sorriso lindo e voltou a encarar a imensidão iluminada. Era um misto estranho de sentimentos, isso era impossível negar.
Bom, mas vamos para a parte em que as coisas deram errado. O universo quer ser notado, amigo.
Bem, do carro que estava estacionado ao nosso lado desceram três homens. Dois deles com cigarros duvidosos nos lábios e outro com uma garrafa de bebida. Não me pergunte, só podia ser mijo do diabo, eu sinceramente não sei.
E quer saber o melhor de tudo? Eles levaram apenas um minuto para perceber que nos éramos um casal gay. Eu levei cerca de dois para perceber que eles eram malditos homofônicos.
– Acho melhor irmos – falei baixo para Fred que fez um movimento com a cabeça confirmando. Nós viramos devagar. Estávamos nos movendo como se estivéssemos sendo espreitados por leões, cada passo deveria se lento e calmo.
Idiotice achar que daria certo, mas a esperança é a ultima que morre. Quando alcancei a maçaneta do carro, do lado oposto ao dos babacas, um deles resolveu começar a “brincadeira”. – As princesas já vão embora? – O mais alto deles perguntou em um tom sarcástico.
Fred deu um sorrisinho irônico que fez meu estomago congelar – achou graça gazela – perguntou o segundo dos idiotas. Os três marmanjos caíram na gargalhada juntos. Gargalhadas barulhentas e vindas do fundo garganta, chegavam a ser ásperas.
Senti a tensão em Fred subir, seus olhos se comprimiram e suas sobrancelhas franziram. Ele não faria isso, faria? – Vamos – o chamei abrindo a porta do carro. Tirar ele dali o quanto antes era a melhor ideia.
Assim que me sentei ao volante houve mais um gracejo dos idiotas lá fora, mas desta vez não consegui entender. Eu só me dei conta do tumulto quando escutei o baque surdo do choque do corpo do homem mais baixo na lateral do meu carro. Frederico estava aos socos com os três lá fora.
E se quer saber e eu ia querer, ele era excepcionalmente sexy surrando aqueles caras. Pena que depois de trinta segundos eles começaram a ganhar. Sai do carro correndo e balançando minhas mãos, comecei a gritar pra eles pararem. Eu não sei brigar, ok?
Mas esse fato não impediu que o mais baixo aparecesse de só Deus sabe onde e me acertasse um soco no meio das fuças. Cai de imediato, quando vi o filho da mãe estava vindo pra cima de mim. Virei-me depressa e comecei a correr engatinhando.
O homem agarrou minha perna esquerda me fazendo comer poeira, eu o chutei com a direita com o máximo de força que consegui o fazendo largar. O idiota não esperava meu contra ataque e acabou perdendo o equilíbrio e indo ao chão. Em um instante fiquei de pé e ajeitei minhas roupas cheias de poeira, ergui meus punhos como um pugilista e me pus em posição de guarda.
Assim que o cara se levantou ele fez uma cara engraçada, na hora não achei, e depois indagou – sério?
Eu dei de ombros, ué o que ele esperava? Então ele veio correndo em minha direção como um touro. Legal, me senti em uma toura, olé. Só que eu não consegui desviar, ele agarrou minha cintura e meus pés saíram do chão. Ele deve ter corrido comigo por cerca de um ou dois metros até que ele começou a cair junto.
Sim, o precipício lá em baixo. Primeiro houve a sensação de queda, depois foi tudo muito rápido; senti uma dor absurda nas costas quando cheguei ao chão e depois comecei a rolar vegetação abaixo. Vi o cara baixinho voar sobre mim, grama, céu, luzes, mato, céu e “bum”. Agora eu estava todo dolorido estirado em uma trilha no meio do mato a beira do precipício.
– Ai – exclamei me arrependendo. Até pra reclamar doía.
Demorou um minuto ou meia hora não sei, mas depois de algum tempo o vendedor de livros estava em cima de mim gritando meu nome. Os dois homens também gritavam por seu amigo, mas foda-se eles.
– Você esta bem? – Ele me perguntou. O rosto dele era nítido mesmo no meio da escuridão. Havia um bocadinho de sangue na beirada da boca dele, mas assim que ele sorriu por me ver vivo pareceu desaparecer. Eu estava rindo também, eu estava começando a ficar irritado com o superpoder dele, estava doendo até pra isso.
Agora depois de negar ir para o hospital, estava eu na porta do apartamento de Marcelo chorando de dor, mas alguém tinha de doar as roupas do maldito bêbado e eu não queria deixar isso pra mãe dele. O cretino mesmo depois de morto ainda me amolava.
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