Sexo, Amor e Livros
4 Despedida
Notas iniciais
Aquela foi à noite mais longa da minha vida até então. A ambulância chegou em menos de quinze minutos, mas eu sabia que ele já estava morto, o peito dele havia sido esmagado e a cabeça pendia sobre os ombros imóvel, com os olhos fixos no nada.
Todos do grupo desceram correndo. Eu estava ainda no chão, chorando, sei que é dramático, mas eu não tive forças pra me levantar. Ficaria ali a noite toda se não fosse a ultima pessoa que eu pensaria no mundo, vir me ajudar. Douglas se agachou ao meu lado e me abraçou, no começo senti repulsa, mas o calor do peito dele me deixou confortável.
Eu o abracei e chorei aos berros, ensopando o peito dele com as minhas lagrimas. Ele só me disse que ficaria tudo bem, mas por mais que eu soubesse que aquilo não era verdade eu me senti seguro ali.
O enterro de Marcelo acabou sendo dois dias depois, na manha de segunda feira. O dia estava nublado e frio, acho que os anjos estavam derramando lagrimas, o melhor sapo que já conheci estava indo embora pra sempre.
Muitas pessoas compareceram, muito mais pessoas do que eu imaginava que Marcelo pudesse conhecer. Vi seus pais se acabando em lagrimas, vi pessoas que não ligaram pra ele nos últimos anos lá, fingindo se importar, discursando que o amavam e que sentiriam sua falta e eu senti raiva.
Éramos apenas ele e eu, ligando um pro outro de madrugada pendido ajuda, chorando junto bêbados, rindo um do outro quando quebrávamos a cara. Ele foi o melhor irmão de mentira que alguém já teve e eu gostaria de ter dito isso a ele antes de... você sabe, dele partir.
A angustia tomou conta de mim quando o padre começou a ler algumas passagens da bíblia “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.” (Salmo 23.4)
Vi o caixão dele ser depositado na terra e não houve ninguém que viesse falar comigo, eu parecia um fantasma ali, uma pessoa insignificante, mais um qualquer dentre dezenas que ele conheceu durante a vida, mas eu tinha certeza que me importava muito mais que vários ali.
O pai dele caminhou até a beira da cova e jogou a primeira pá de terra em cima do filho. Eu virei o rosto, não me senti forte o bastante para vê-lo partir assim, para chegar perto da cova. Imaginei tudo o que ele e eu deixamos de fazer e lembrei-me de todas as promessas que fiz a ele e nenhum delas tive força para cumprir.
A cerimonia não demorou muito, os pais de Marcelo já eram idosos e a dor de ver o único filho debaixo da terra deve ter os partido completamente por dentro. Caminhei sozinho pelo cemitério durante horas, pensando em cada pessoa que estava enterrada ali, em suas experiências de vida, nos amigos que eles deixaram para trás.
Senti pena dos mortos e mais ainda daqueles que já haviam sido esquecidos. Jurei a mim mesmo nunca deixar as lembranças do meu melhor amigo desaparecerem.
E quando finalmente voltei ao ponto de partida vi o tumulo dele, agora não mais que uma cova entre o mar dos esquecidos. Já haviam colocado grama artificial sobre seu tumulo e a única coisa que remetia a lembrança dele era uma plaquinha de pedra, com seu nome escrito em Arial.
Sentei-me no chão, em cima da grama mal colocada e comecei a olhar para a plaquinha – por que você me deixou? – Perguntei a ele mesmo sabendo que não haveria resposta – eu ainda preciso de você seu anão maldito – as lagrimas voltaram aos meus olhos, eram quentes e salgadas, só uma pequena parte da dor que estava dentro de mim.
– Eu vou andar de bicicleta em cima do seu tumulo. – Gritei por fim antes de sair de cima dele.
Caminhei até a saída e dirigi até o primeiro bar que achei. Dirigi rápido e ferozmente. Se eu fosse atrás dele quem sentiria a minha falta? O vendedor de livros porque perdeu um cliente? Douglas com certeza não, ele se sentiria aliviado. Talvez um filho que eu nunca fosse ver crescer ou a mãe dele, mas falta da pensão.
Comprei uma garrafa de tequila e voltei ao cemitério – você vai precisar disso se foi para o inferno – disse a ele virando a garrafa em cima da grama mal colocada. As lagrimas escorreram junto a bebida e mesmo depois da garrafa estar vazia fiquei ali, parado de pé em frente à placa imaginando o rosto dele na escuridão.
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