Sexo, Amor e Livros

1 Dependentes de amor e sexo anonimos


Notas iniciais
Bom dia/boa tarde/boa noite. Esse é o começo do romance controverso de Paulo, espero que gostem.

Existem milhões de definições para o amor, todas de certa forma corretas de acordo com aquilo que cada um acredita. Alguns esperam que o príncipe encantado apareça descendo de seu carro conversível magico e os salve de sua vida monótona. Alguns esperam um romance como o de um livro, onde o cara perfeito, lindo e engraçado aparece e que por força do destino se apaixone por eles. E a outros que só esperam ir até o mercado da esquina e trombar o carrinho com o homem ou a mulher de seus sonhos.

Isso tudo é muito legal e eu também sonho com isso, só que sejamos francos, não acontece assim.

Eu sou o tipo de cara que não espera príncipes encantados, eu espero sapos melhores. Bom, pra ser sincero, ultimamente não espero nada, a verdade é um pouco mais complicada que isso. Vou contar a você um pouco da minha antiga realidade e os fatos que mudaram minha vida.

Não me julgue mal, eu estou em um grupo chamado DASA. O que é isso?

Dependentes de amor e sexo anônimos, sim, vou todos os sábados e domingos, em reuniões de duas horas onde cada um de nos compartilha suas experiências e ajudamos uns aos outros a superar a dependência excessiva de amor, ou de sexo como no meu caso.

Meu melhor amigo hoje é meu tutor. O cara mais louco que já conheci na face da terra. O nome dele é Marcelo, baixinho, loiro, fortinho, o tipo de cara que graças a Deus não me atrai, mas vai por mim, ele chega a ser um incomodo de tão charmoso. O importante é que ele me disse que, apenas posso ter um relacionamento, depois de conseguir criar uma plantinha até que ela floresça.

Ele me deu um saquinho com sementes e eu plantei aquela coisa em um vaso que coloquei na sacada do meu apartamento. Levou uma semana até que a plantinha brotasse e levou mais uma semana até eu descobrir qual planta era.

O cretino me deu uma orquídea. Você sabia que essas coisas só florescem uma vez no ano? E em outubro ainda, faltam três meses para outubro.

Certo, estou desempregado, fui demitido no mês passado, depois de passar dois anos da minha vida me dedicando aquela empresa. Sou publicitário e vou curtir meu seguro desemprego um pouco antes de voltar a procurar outro trabalho.

Mas chega de falar sobre os detalhes, o resto eu conto com o tempo. Vou começar a historia a partir do ponto em que as coisas começam a mudar.

***

Era domingo e como sempre fui até o DASA. O grupo ficava em um prédio de oito andares no centro da cidade. Um prédio pequeno e feio com a fachada cinzenta, bem no meio de dois prédios residenciais, em um lugar que se eu não tivesse seguido o mapa da primeira vez que fui, não saberia nem mesmo que existia. Acho que eles gostavam mesmo dessa coisa de anonimato.

Subi as escadas até o terceiro andar pra gastar mais energia. Um dos conselhos de Marcelo era “Se não consegue segurar o que tem entre as pernas, então não tenha energia para conseguir usar” sábio não? Depois de dez minutos me deparei com a porta de vidro fosco com o logotipo em caixa alto do DASA, um desenho de um bote salva vidas cinza com as letras SLAA dentro, que imagino ser a sigla em inglês visto que o DASA é uma corporação internacional.

Quando entrei já estavam todos sentados nas cadeiras, que sempre formavam um circulo que Douglas, o guia do grupo, fazia questão de manter perfeito.

Ele me olhou com um sorriso no rosto e disse – olha só pessoal, temos mais um filho pródigo voltando. – Todos me olharam e me cumprimentaram sem graça. Douglas sempre fazia isso, mesmo eu indo todos os finais de semana initerruptamente ele fazia questão de elevar minha presença sempre que eu chegasse atrasado. Ironicamente, era algo constante.

Sentei-me ao lado de Marcio, um garoto de vinte anos, que foi obrigado pela justiça a frequentar o grupo depois que recebeu um mandado para se manter a, no mínimo, vinte metros de distancia da ex-namorada e descumprir isso cerca de sete vezes. Ele nos contou que na sexta vez, o juiz afirmou que o deixaria atrás das grades se isso acontecesse de novo. Na sétima o advogado dele o livrou alegando que o que ele tinha era uma doença.

– E ai cara? – Disse ele me cumprimentando pela segunda vez.

– E ai? – Respondi fazendo um sinal positivo com a cabeça. Esse era nosso único dialogo sempre, mas que parecia realmente significar alguma coisa.

– Já que a atenção do grupo se voltou para você – disse Douglas com um sorriso afetado – então por que não compartilha sua historia com a gente?

Segurei minha cara de tedio e a mascarei com um sorriso forçado, então me levantei frente ao grupo e comecei o meu relato, por sei lá, a decima vez só esse mês. – Boa tarde – disse cumprimentando a todos pela terceira vez. Um coro de vozes entediadas me respondeu. – Meu nome é Paulo Coélio, mas não como o escritor, C.O.É.LI.O – disse separando as silabas para máxima fixação – não Coelho. Tenho vinte e quatro anos e sou magro assim, mas não tenho nenhuma doença sexualmente transmissível.

Passei a mão nos meus cabelos pretos tirando alguns fios da testa e continuei a explicação – vim até o grupo sozinho quatro meses atrás depois que minha mãe me pegou nu na lavanderia da minha casa. Eu estava bêbado, junto a mais dois caras também nus. Haviam algumas garrafas de tequila e Jack Daniels junto de nós, eu não me lembro o que aconteceu, mas minha mãe nunca mais me visitou.

– Então decidi que tinha um problema e vim para o grupo. Chegando aqui fui assediado por Douglas – disse apontando a mão para o nosso Guia, que tentou desesperadamente concertar o que eu disse, mas continuei falando para impedi-lo. – Mas graças ao bom Deus, descobri que ele tinha HPV antes de consumar o fato e hoje estou limpo há um mês e meio, até mesmo sem masturbação.

Todos na roda olharam para Douglas, desconcertados. Então me sentei de volta na cadeira e todos me aplaudiram, chocados. Douglas se levantou e passou por mim, agarrando meu braço com força e me arrastando até o canto onde nos colocávamos os salgados, em cima de uma mesa velha, coberta por uma toalha xadrez azul.

– O que você esta pensando Paulo? – Disse ele com uma rispidez impressionante na voz pela altura que ele estava falando. Baixo o suficiente para que nenhum outro participante do grupo ouvisse, mas alto o suficiente para que a vibração fizesse com que saliva saltitasse para fora de sua boca. – Porque sempre se esforça em querer me humilhar, me ridicularizar na frente de todos?

Eu ri baixo e peguei uma empada – você faz isso sozinho – e caminhei de volta para o meu lugar. Ele demorou mais um pouco, provavelmente tentando se acalmar e se sentou em seu lugar, mas antes fazendo uma observação.

– Eu não tenho HPV.

As pessoas do grupo se entreolharam e Douglas começou a contar a historia de como perdeu o amor da sua vida, Raquel, depois de trai-la simplesmente por esporte. Eu fiz o que na maioria das vezes faço, fiquei pensando em como minha vida sexual era antes de entrar para aquele grupo, quando eu tinha uma vida sexual.

Em dado momento Marcio se inclinou para o meu lado e perguntou, falando quase no meu ouvido – aquilo tudo que você disse era verdade?

Cheguei mais perto dele e cochichei – nenhuma palavra.

Ele olhou pra mim meio indignado e cochichou antes de voltar a prestar atenção em Douglas – por que todos os finais de semana nos últimos três meses você vem aqui e conta uma historia diferente? Por que não simplesmente desabafa?

Acho que ele não esperava resposta.

Passei o resto da tarde ali, ouvindo historias de pessoas que eu apenas via ali, sobre como amar uma pessoa possessivamente e transar com qualquer um pode te levar ao fundo do poço. Eu nunca amei ninguém de verdade e acho que esse é um dos grandes motivos que me levou a me tornar o que eu sou.

Cada um ali já havia pegado alguma doença, traído o marido/mulher, namorado/namorada, mas eu nem se quer havia pegado doença nenhuma e muito menos perdido ninguém, porque na verdade, ninguém nunca foi realmente meu.

Eu fui um desses caras que não dizia não. Uma troca de olhares, uma piscada, uma troca de telefones, uma indicação de um amigo. Homens e mulheres, eu simplesmente não os distinguia.

Então íamos para um quarto de motel e lá eu realizava os desejos deles. Os fazia sentir prazer e dizia que eu era deles e assim sentia que, pelo menos ali, a meia luz eles eram meus.

Não cheguei a passar uma noite inteira com ninguém, quando a pessoa adormecia ao meu lado eu me vestia e ia embora, já me sentindo vazio novamente e pensando em quem seria o próximo(a) para que eu pudesse voltar a sentir aquilo.

Meu celular costumava tocar pelo menos seis vezes por dia, com pessoas diferentes me querendo pela primeira vez e pessoas apaixonadas querendo apenas mais uma noite. Mas a regra era clara na minha cabeça “se eles tem enchem o saco por uma noite imagine por duas”. Acredite, eu não fui com ninguém pra cama duas vezes.

E então quando finalmente terminou aquela tortura eram oito da noite, liguei para o Marcelo porque achei que senti uma ereção e ele como sempre me xingou.

– E o que eu tenho haver com isso criatura? – Perguntou ele exaltado.

– Você foi designado como meu tutor, não tem escolha – respondi como sempre fazia.

Ele bufou do outro lado do telefone – vai assistir a um filme – me aconselhou.

– Você esta bêbado? – Perguntei só por desencargo de consciência – você já me mandou fazer isso umas cinquenta vezes só essa semana.

– Devo estar um pouco – respondeu ele agora com a voz baixa – andar de patins?

Eu era bom nisso, gostava muito de andar, mas já não aguentava mais olhar pra eles – já andei a tarde toda.

– Bicicleta – sugeriu ele.

Eu ri alto – eu odeio bicicletas e você sabe disso.

– Vai ler um livro – disse ele indignado, como um xingamento, não verdadeiramente como uma indicação.

Parei e olhei em volta – pode ser. Estou perto do shopping, o ultimo livro que eu li foi do C.S Lewis, acho que posso procurar algo novo.

– Você é pateticamente chato e Geek – disse ele – dessa vez eu estava sendo sarcástico.

– Certo Marcelo, até mais – disse desligando na cara dele, mas pude o ouvir pedindo um agradecimento enquanto afastava o telefone da orelha.

O shopping não era nada de mais, não era nem o mais luxuoso da cidade, nem tão pouco o maior, mas não importava. Subi logo para o quarto piso onde ficava a livraria evitando olhar para os lados.

Sempre gostei muito de ler, tive que parar por falta de tempo, mas a ideia de Marcelo me pareceu genial.

Domingo a noite não era um dos dias onde as livrarias estão mais lotadas, então pude perambular entre as dezenas de estantes sem trombar com ninguém, sem ouvir aquele tumulto de vozes ou tão pouco ter que brigar por um titulo.

Eu estava junto aos livros da Cassandra, havia parado no terceiro onde Jace e Clary finalmente descobrem que não são irmãos e que podem ficar juntos, mas o livro acaba com os dois ainda virgens se quer saber. Por infelicidade não havia o quarto livro, apenas o quinto.

Xinguei alto e me assustei quando ouvi a voz masculina atrás de mim – procurando pela Cidade dos anjos caídos?

Virei-me nervoso e esbravejei – isso que da, eu não consigo nunca terminar uma saga. – Eu ia continuar reclamando, sempre gostei de reclamar, mas quando vi de quem era à voz não consegui continuar.

– Oi, meu nome é Frederico, eu acertei? – Disse ele estendendo a mão. A apertei e confirmei com a cabeça. Ele era branco e tinha mais ou menos a mesma altura que eu, cabelos castanho claro e de brinde usava costeletas. Eu sei, ouvir que um cara usa costeletas faz você pensar, “que merda”, mas nele ficou bacana.

– Eu vou procurar pra você – ele se dispôs, chegando perto de um dos computadores despojados pela loja e digitando o nome do livro. Eu me aproximei da tela e o vi digitando, depois de alguns segundos, zero, nenhum na loja – putz, não tem nenhum mais cara.

– E você vai me deixar na mão? – Perguntei a ele com um sorriso safado no rosto.

– Eu posso te ajudar de outra forma se quiser – disse ele sorrindo de volta.

No segundo seguinte estávamos nos beijando nervosamente. Ele segurou minhas pernas e me jogou para cima de uma das mesas jogando dezenas de livros no chão, enquanto eu puxava seu cabelo castanho e mordia seu lábio.

– Senhor? – Ele chamou minha atenção. Acordei do meu devaneio sexual em um instante. Isso era normal, mas com o tempo de acompanhamento estava ficando bem menos presenta na minha imaginação.

Estendi minha mão e sorri tentando aliviar a situação – Paulo – me apresentei. Ele olhou pra mim um pouco sem reação e então apertou minha mão novamente – então Frederico, o que você me indica? – Perguntei a ele tentando me focar em seus olhos. Não na sua boca, não no seu peito largo, não em nada que não fossem os olhos, olhos azuis e estranhamente atraentes.

– Se estava olhando os livros da Cassandra gosta de sagas – disse ele caminhando até outra mesa.

– Na verdade – eu ia dizer que não, mas mudei de ideia, deixar pra lá às vezes é melhor. ­– Gosto bastante.

– Então você precisa ler isso aqui – disse ele virando um livro pra mim. O livro era claro e na capa havia a imagem de um tigre branco, Frederico estava com um sorriso no rosto, parecia satisfeito por me mostrar o livro.

– Pela sua cara, já leu – disse a ele apertando os olhos, então ele abriu um sorriso escancarado.

– Sim só falta o ultimo – respondeu ele me oferecendo o livro, eu o peguei e li seu titulo.

– A maldição do tigre – disse em voz alta – ­ sobre o que é a historia? – Perguntei curioso, mais porque foi ele quem me indicou do que propriamente pelo livro.

– Faremos assim, eu não vou te contar a sinopse e você vai compra-lo – disse ele fingindo uma expressão séria ­– se você gostar, daqui pra frente você só compra livros comigo, se não eu te reembolso.

– Tenho uma ideia melhor – disse, no segundo seguinte me arrependendo, a voz de Marcelo veio na minha cabeça na hora, “nada de relacionamentos antes da planta florir”. Eu já tinha a frase pronta “se eu gostar te devo uma cerveja e a partir de então só compro contigo, se não gostar, você me deve uma cerveja, mas ainda sim continuo comprando contigo”, respirei fundo e sorri – nos trocamos o livro por outro, nada de reembolso, você ganha comissão não é?

– Ganho, mas não fazemos trocas – disse ele parecendo desapontado.

Eu devolvi o livro a ele e disse – eu fico com ele e compro outro, preciso mesmo ler.

Ele fez uma notinha e me entregou – entregue isso aqui no caixa e pode pegar o livro na saída – disse ele saindo sem se despedir, no final ele só queria vender. Fiquei um pouco decepcionado e quase não levei o livro, mas como eu precisava me distrair fui ao caixa e paguei.

Quando estava na saída haviam duas pessoas esperando para pegar livros, demorou uns cinco minutos e então quando finalmente peguei o meu, Frederico apareceu. – Espero mesmo que goste, esses são meus livros preferidos – disse ele vindo em minha direção com um sorriso largo e bobo, que me fez sorrir de volta.

– Vai por mim, eu já gosto ­– disse olhando nos olhos dele, mas acho que algo na sonoridade da minha voz, ou meu jeito de olhar o deixou sem graça.

– Tenho que ir – ele respondeu com o olhar baixo, então saiu andando em passos largos, sumindo no meio das enormes estantes cheias de livros.

Eu continuei com aquele sorriso no rosto, achei engraçada a situação dele ficando sem graça, nunca antes isso tinha acontecido. Então fui pra casa ler o segredo do tigre, mas com o tigrão na cabeça.

Notas finais
Espero que tenham gostado, deixei seu comentario, ele é muito importante.