Seus Olhos
19 Capítulo XVIII
Notas iniciais

Dezembro de 2020
Alicia olhou para seu relógio no pulso, marcava 18h. Estava em frente a hamburgueria que se encontraria com Pedro, se perguntando se realmente deveria entrar ou se dava meia volta e voltava para casa. Do lado de fora ela conseguia ver ele lá dentro sentado de costas pra porta. Não havia nada que a impedia de ir lá e conversar. Não podia deixar que o medo de conhecer alguém novo a dominasse, poderia ser que dali surgiria algo ou não. Ela não tinha como ter certeza e jamais teria se não tentasse. Olhou mais uma vez para o relógio, seis e um da tarde. Respirou fundo e abriu a porta da hamburgueria. Ela podia dar aquela chance a ele, a ela.
Se aproximou da mesa e assim que Pedro a viu, ele sorriu mostrando as covinhas.
— Olá. — Ela sorriu e se sentou.
— Pensei que por um momento não viria mais.
— Jamais deixaria você na mão. Seria falta de educação com alguém que é tão educado comigo. — Forçou um sorriso.
— Ah que bom que pensa assim.
Eles pediram algo para comer que chegou rápido. Se concentraram em seus lanches assim que chegaram, mas depois começaram a conversar sobre as séries que tinha visto ultimamente. Pedro falou para ela o que ele fazia, era estagiário em um escritório de arquitetura. Estava no primeiro ano de faculdade cursando arquitetura.
— E você o que pretende fazer? — Ele perguntou.
— Ainda não tenho certeza, gosto de letras, mas jornalismo é legal também.
— Gosta de escrever?
— Gosto, por isso que acho que me daria bem em alguma dessas. — Ela levou uma batata a boca.
— Com certeza. Se precisa de ajuda, posso te ajudar. A faculdade que vou é muito boa e tem um ótimo curso de jornalismo.
— Nossa, sério? Seria legal ir lá, fazer uma visita. — Ela sorriu esperançosa.
— Sim, se quiser podemos ir qualquer dia. — Ele sugeriu.
Alicia o olhou feliz. Pedro era a certeza de que ela podia ter um futuro ali. Algo normal.
— Trouxe um presente para você. — Pedro contou contente.
Lici o olhou surpresa.
— Não precisava. — Ela disse sem graça.
— Claro que precisava, foi seu aniversário. Espero que goste. — Ele colocou uma caixinha prata pequena em cima da mesa.
Alicia pegou e abriu. Dentro da caixa havia um pingente dourado de lírio. Lici olhou para o presente e olhou para ele sorrindo.
— Combina com a sua pulseira de rosa.
Ela olhou para sua pulseira com um único pingente de rosa. Colocou o pingente próximo e realmente combinava. Mas não sabia se queria colocar ali. Era bonito, mas aquela pulseira era algo muito íntimo para ela.
— É lindo, obrigada. — Forçou um sorriso.
— Você não gostou? — Ele reparou no sorriso forçado dela.
— Eu gostei, mas não consigo usar com a pulseira. É um outro presente muito pessoal para mim. — Explicou.
— Eu entendo. Uma pena, ficaria lindo em você.
A jovem suspirou pesado. Não queria decepcioná-lo, mas sabia que não podia fazer aquilo.
— Espero que fique. Sei que irá encontrar uma utilidade. — Ele sorriu confiante.
— Claro. Quando chegar em casa, sei um lugar lindo para ele.
— Me mande foto.
— Não está chateado? — Lici analisou a reação dele.
— Não, sei que com você tenho que ir aos pouco, Ali. — Ele sorriu mostrando as covinhas e pegou na mão dela em cima da mesa.
Alicia olhou para mão dele junto a sua e entrelaçou seus dedos nos dele sorrindo. Ela sabia que podia confiar nele e conseguia perceber que ele queria algo mais com ela do que só transar, ou ao menos era o que ela esperava.
— Obrigada. — Ela saiu do seu local e se sentou na cadeira ao lado dele.
— Você está linda. — Ele encaixou sua mão na nuca dela.
Lici olhou para os olhos castanhos dele, tão lindos e confiantes. Se aproximou mais dele, encostando suas testas e sentido a respiração dele, era calma, diferente da dela que estava ofegante. Como se a todo momento temesse o que poderia acontecer, mas ele era confiante o tempo todo.
Ele a puxou para perto e seus lábios se tocaram, se beijaram intensamente, mas um beijo rápido. Logo Alicia se afastou e ficaram ali ainda com as testas encostadas, um sorrindo para o outro. Com ele as coisas poderiam ser simples. Pensou.
Terminaram seus lanches e Pedro se levantou para ir ao banheiro. Alicia procurou na bolsa o dinheiro para poder pagar o lanche, deixou o dinheiro em cima da mesa e viu Pedro retornando. Enquanto ele andava em direção a mesa, Alicia reparou numa mancha em sua camiseta. Ao longe, ela pensou que era água, já que ele estava vindo do banheiro, mas quando foi chegando mais perto, percebeu que era sangue.
— Pedro. Isso é sangue? — Ela se preocupou se levantando para chegar mais rápido a ele.
Pedro baixou o olhar para sua camiseta e se amaldiçoou.
— Não é nada. — Ele disse colocando a mão em frente a mancha.
— Com certeza é algo. Vamos lá em casa, é mais perto. Posso olhar isso com cuidado.
— Ali, não precisa. — Ele protestou.
— Eu digo se precisa ou não depois de olhar o que tem ai. — Ela colocou mais dinheiro em cima da mesa e chamou o garçom.
Ela não esperou ele vim e saiu com Pedro. Sua casa ficava perto e então foram andando rapidamente. Pedro não reclamou de dor, o que significava que o corte não seria grave. Ele não explicou a ela, mas ela apenas queria cuidar, troca os curativos o quanto antes seria melhor.
Chegando em casa, ela percebeu que eles estavam sozinhos. Pediu para ele sentar na cadeira da mesa e ela foi atrás de uma caixa de primeiro socorros que ficava no banheiro.
— Como isso aconteceu? — Questionou voltando com a caixa em mãos.
Ela colocou a caixa em cima da mesa e pegou um algodão com água oxigenada para poder limpar.
— Me cortei. — Ele foi ríspido.
Alicia estranhou, mas ignorou. Ela levantou a camiseta dele e viu um corte feio e aberto, não tinha nem sequer um curativo decente. Parecia mais algo feito em casa, com apenas um bolo de algodão colocado com esparadrapo, que já estava caindo.
— Como você se cortou? — Ela começou a limpar o corte e sentia ele se encolhendo.
Limpando o corte, ela percebeu que a barriga dele era realmente definida, mas que ele também tinha pequenas cicatrizes pela barriga. Estranhou. O que esses meninos andam fazendo por aí? Perguntou a si mesma.
— Deixei a faca cair sobre minha barriga enquanto cortava uns legumes. — Respondeu.
— Conta outra, Pedro. Ninguém se corta dessa forma deixando uma faca cair. A não ser que a faca caiu e dançou pela sua barriga né. — Ela revirou os olhos e limpou o machucado com um pouco mais de força.
— Ai! — Reclamou.
— Desculpas. — Pediu.
Ela tirou o curativo mal feito e colocou gases em cima com esparadrapos. Se perguntando se não seria melhor ir ao hospital dar pontos.
— Talvez seja melhor dar pontos nisso. — Sugeriu.
Pedro a olhou analisando seus movimentos. Vendo que ela não estava muito feliz por ele ter mentido para ela.
— Entrei numa briga com uns caras que estavam tentando abusar de uma mulher. — Contou analisando a reação dela.
Alicia o olhou surpresa.
— Por que você não foi a delegacia?
— Achei que não era necessário.
— E ao hospital? Acho que isso precise de pontos. — Ela olhou o machucado e puxou a blusa dele para baixo.
— Eu limpei. Não acho que seja tão profundo assim.
— Com certeza você não sabe fazer curativo. Mas você que sabe. — Ela deu de ombros e fechou a caixa de primeiro socorros.
— Pelo menos isso serviu para eu conhecer sua casa. — Ele forçou um sorriso.
— Esperamos que você não seja um sequestrador. — Ela riu e foi até a cozinha pegando um copo de água para Pedro. — Tome.
Ele pegou o copo e bebeu.
— Faça um curativo decente, ao menos. Vá a farmácia se não tem as coisas. — Ela puxou uma cadeira e sentou ao lado dele.
— Pode deixar. Obrigada. — Ele sorriu. — Mas acho melhor ir embora.
— Você tem certeza? — Ela se levantou num pulo.
— Sim. Você já cuidou muito bem de mim. — Ele se levantou e deu um beijo na testa dela.
Alicia o abraçou com força, antes que pudesse pensar direito. Pedro se surpreendeu com a ação dela, mas entrelaçou os braços em volta dela.
— Por favor, se cuide. — Ela disse com a cabeça enterrada no peito dele.
— Pode deixar, Ali. — Ele beijou os cabelos dela e se afastou.
Se olharam nos olhos e deram um beijo rápido.
Alicia o levou até a porta e ele se despediu com um beijo na bochecha dela. A jovem viu ele indo embora e ficou ali na porta sorridente.
Fale com o autor