Seus Olhos
8 Capítulo VII
Notas iniciais
Junho de 2088
Matheus piscou muito para ter certeza que estava naquele local, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram uma peça. Mas ele concluiu que realmente estava no tempo dele. Brasil em 2088. Ele olhou para Alicia que analisava tudo com muita atenção.
— Sério? Você me trouxe de volta para cá? — Ele perguntou furioso.
Ele não queria esta ali, nem um pouco.
— Você disse que eu ia conhecer o futuro. — Alicia tentou contornar.
— Não esse futuro. — Matheus saiu andando. — Vem comigo, vou te levar a algum lugar seguro, ninguém nem pode ver você nessas roupas.
Alicia olhou para suas roupas e ainda estava ala festa junina. Ela desfez o nó da camiseta xadrez e tentou limpar as bolinhas no rosto, mas não tinha muita certeza se aquilo iria ajudar.
O futuro era completamente diferente do que ela imaginaria que seria, ou nem tanto. Mal se dava para ver o céu, pois havia uma grande nuvem de fumaça preta que o encobria. Provavelmente devido a poluição. Havia muito prédios, mais altos que Alicia já havia visto na vida dela, olha que ela morava em uma das maiores metrópoles do Brasil. As poucas pessoas que estavam na rua andavam apressadas, concentradas em seus celulares, mas mesmo assim não se distraiam pelo caminho.
Matheus olhou para trás e viu uma Lici admirada pelo seu mundo. Ela não parecia encantada, mas surpresa, talvez surpresa pelo que o mundo dela se transformaria.
— Alicia, vamos? — Matheus chamou.
Alicia voltou atenção para ele e o alcançou. Eles foram andando rápidos pelo caminho. Alicia se distraia facilmente vendo as pessoas e as coisas pelo caminho.
— Você precisa andar mais rápido. As pessoas vão começar a reparar em você e com isso pessoas que não deveriam reparar em você vão também. — Matheus a puxou com força.
Alicia cerrou os olhos para ele. Droga! Ela só queria entender as coisas e como elas ficaram. Ela tentou andar mais rápido, mas uma câmera a chamou atenção. Estava posta em um poste de luz na calçada.
— Merda! — Matheus falou ao ver a mesma câmera que Alicia via.
Ele saiu correndo dessa vez o que obrigou que Alicia corresse também. Eles entraram em um beco muito escuro e continuaram correndo. Alicia apenas não tropeçava nas coisa, porque Matheus era quem guiava ela. Eles pararam e Matheus abriu uma grande porta de metal que fez barulho ao ser aberta. Alicia não conseguia ver nada ainda, pois do outro lado também não havia iluminação. Ela sentiu um degrau e começou a subir as escadas, torcendo para não cair. Eles foram subindo, até que ela viu uma luz fraca vermelha no topo da escada.
A escada dava para um corredor muito mal iluminado, pois havia apenas aquelas luzes vermelhas que não iluminavam quase nada. Alicia conseguia distinguir várias portas. Seria um apartamento?Eles andaram pouco pelo corredor, até Matheus para em frente a uma porta de metal enferrujada. Havia o número 155 na porta e um olho mágico. Ele bateu na porta, o que fez um barulho horrível naquele corredor silencioso.
Alicia esperou tudo quieta. Ela ainda não entendi o porquê deles terem corrido daquela forma, mas estava com medo de perguntar qualquer coisa e algo pior acontecesse. Esperaria está em algum lugar que considerasse seguro, se é que era possível achar algum lugar assim ali. Barulho de fechadura foi ouvido e a porta se abriu um pouco.
Quem estava lá dentro não abriu muito a porta, o suficiente para a pessoa puxar Matheus e Alicia para dentro. Assim que eles entraram Alicia viu um homem baixo, de ombros largos e olhos verdes. Ele olhou para ela horrorizado, mas não abriu a boca, apenas olhou para Matheus exigindo uma explicação.
A casa dele era minúscula, havia apenas uma cama de casal que dividia espaço com uma televisão que estava pregada à parede e uma cozinha com apenas a bancada da pia e do fogão. Havia uma porta logo ao lado de Alicia, que ela concluiu ser o banheiro. Não havia quadros ou decoração na casa. As paredes eram pintadas de branco, mas uma sujeira verde subia por elas, mofo. A iluminação via de uma luz branca do teto, que devido o espaço ser pequeno, deixava tudo bem iluminado, diferente da escuridão que Alicia havia acabado de sair. Havia uma janela em cima da cama, mas estava fechada.
— Henrique. — Falou Matheus com animação na voz.
Apesar do homem olhar muito sério para Matheus, ele não se conteve e puxou o amigo para um abraço. Ele pensou que jamais fosse ver o amigo de novo e sentia saudades, mas ali estava ele com uma garota vestida de modo peculiar. Mas ele não se atreveu a ficar olhando muito pra menina, ela era estranha para ele. E ele não estava acostumado a reparar em estranhos ou ficar analisando-os.
— Você pode me dizer o que está fazendo aqui? — Perguntou Henrique quando se afastou do abraço.
— Longa história, mas precisamos de um lugar para ficar. — Matheus pediu.
— Sintam-se a vontade. — Henrique foi irônico ao estender o braço pelo espaço e apresentar a casa.
— Preciso de roupas para ela. — Matheus apontou para Alicia
— Quando alguém vai me explicar as coisas? — Disse a jovem por fim.
Henrique voltou a olhar para ela.
— Agora você precisa de explicações? Simples, você me trouxe para o meu tempo e precisamos ficar escondidos antes que o Governo consiga localiza-la e matá-la por está no tempo errado. E antes que eu seja pego. — Explicou Matheus irritado.
— Agora a culpa é minha? Como eu ia imaginar que seu futuro era tão ruim?
— Talvez porque eu não estava aqui e nem queria estar. — Matheus jogou as mãos para o alto desistindo de tudo.
— Você é um ladrão, por isso não está em lugar nenhum. — Alicia jogou na cara dele e se virou para o outro lado.
— Parabéns — ele bateu palmas em deboche — eu te salvo é assim que você retribui?
— Vai a merda, Matheus! Você me arrastou de novo para essa loucura. — Ela voltou a olhar para ele e o encarou.
Eles ficaram se encarando sem dizer mais nenhuma palavra. Henrique que via toda a discussão ficou admirado de ver aquela troca de olhares tão frenética, como se eles estivessem discutindo pelo olhar.
Encarar aqueles olhos verdes tão cheio de fúria era desconcertante para Matheus. Ele via um outro modo do que era encarar as pessoas. Mas ela não desviava o olhar o que mostrava para Matheus que ela não estava com vergonha ou desconfortável como ficou na praça no passado, mas sim que não baixaria o olhar como forma de derrota.
— Desculpas. — Matheus pediu e desviou o olhar para baixo.
Lici olhou incrédula, ela não esperava aquilo.
— Vamos trocar de roupa. — Disse Henrique para tirar aquele clima ruim do ar.
Lici olhou para Henrique. Seus cabelos negros estavam bagunçados e havia olheiras profundas abaixo de seus olhos, o que mostrava que ele não dormia muito bem. Ele foi até abaixo da cama e pegou uma muda de roupa, entregou para Alicia e indicou a porta ao lado dela.
Matheus se dirigiu até a cozinha sem olhar para Alicia.
A jovem abriu a porta ao seu lado e entrou no banheiro. Era menor ainda, havia apenas espaço para uma pia pequena, com um espelho pequeno em cima. Onde Alicia conseguia ver apenas o seu rosto e o quanto ele estava manchado de preto e rosa. Havia um vaso sanitário que algum dia foi branco, mas estava bem preto. O que fez Alicia ficar com nojo de usá-lo. E tinha um chuveiro com um box bem pequeno. Ela trocou de roupa rapidamente, era uma camiseta preta de manga longa e uma calça preta. Arrumou os cabelos em um rabo de cavalo e lavou o rosto o deixando limpo. Ela secou o rosto e as mãos na própria camiseta xadrez. Quando saiu do banheiro viu Henrique e Matheus conversando animados, como velhos amigos.
Alicia não queria incomodar os dois, mas também não sabia onde se encaixar. Não queria ir sentar na cama, pois achava aquilo muito pessoal, então ficou em pé perto na cozinha o que acabou por chamar atenção dos meninos que pararam de conversar.
— Apenas um dia teremos que esperar aqui. — Matheus passou por ela e entregou o que parecia uma lata de refrigerante. — Depois você estará em casa.
— No meu tempo exato? — Ela perguntou pegando a lata.
— Sim, consegui aprimorar algumas coisas e no máximo podemos chegar algumas horas depois.
— Você conseguiu aprimorar? — Perguntou Henrique curioso.
Alicia abriu o refrigerante e o tomou, tinha gosto de Coca-Cola, pelo visto aquilo havia se mantido. Ela ouviu a conversa dos meninos, que pareciam bem entusiasmados. Ela entendeu que o Matheus fazia era muito ilegal, mas o Governo ficaria entusiasmados pelas descobertas que ele havia feito sobre a viagem no tempo e como havia aprimorado. Henrique deu a ideia de que ele podia trocar aquilo depois por sua liberdade, mas Matheus não estava afim de parar ainda. Prometeu ao amigo que ainda tinha muita coisa para ver no passado e que iria voltar.
— Qual o seu nome? Matheus ainda não quis me contar. — Henrique se dirigiu a Alicia.
— Alicia. — Ela respondeu forçando um sorriso.
— Prazer, sou o melhor amigo do Matheus, praticamente fomos criado juntos, até o dia que ele resolveu bancar o rebelde. — Henrique se lembrando da história do amigo.
— Você deveria vir comigo, você iria amar as coisas e as pessoas e o modo como elas interagem. É lindo. — Matheus parecia admirado.
— Imagina se minha família me pega nessa história, melhor não. Perderíamos a chance de um futuro melhor para nossos filhos. — Comentou Henrique. — Falando em minha família, preciso voltar.
Henrique se levantou da cama onde estava sentado conversando com Matheus e se dirigiu para porta de metal. Alicia olhou confusa para ele. Mas ele apenas de um tchau, abraçou o amigo como se fosse a última vez e saiu fechando a porta de metal atrás de si. E Lici se viu sozinha com o Matheus que estava sentado na cama.
— Essa casa não é dele? — Ela perguntou.
— É nossa, é nosso refúgio para fugir de nossas famílias e ainda bem que ele estava aqui, perdi as chaves.- Matheus explicou.
— Por que vocês fogem das famílias de vocês?
— É complicado e é melhor que você não saiba muita coisa do futuro, você já viu demais.
Alicia apenas assentiu. Apesar de sua curiosidade gritar querendo saber mais, ela achava melhor daquela forma mesmo. Se soubesse pouco, teria apenas que esquecer pouco e não sofreria tanto com tudo aquilo. Afinal ela havia visto um mundo todo novo. Como você volta para casa depois de tudo aquilo?
— Há apenas uma cama, então se acomode senhorita. — Matheus deu batidinhas no espaço vazio ao seu lado.
— Vamos dividir a cama? — Ela perguntou um pouco surpresa.
— Ou você dorme no chão.
— Muito cavalheiro da sua parte. — Alicia debochou e foi para cama.
Não era uma cama de casal muito grande, mas ela conseguia manter distância dele, ela só esperava que fosse assim a noite toda, afinal ela se mexia muito enquanto dormia. Eles se cobriram e Matheus desligou a luz, o que tornou o quarto um breu.
— O que você vai fazer com aquelas pessoas que estão atrás de mim? — Perguntou ela olhando para cima.
— Cuidarei deles. — Matheus respondeu se virando para ela.
— Você vai matar eles? — Alicia perguntou surpresa.
— Tem medo, Alicia? — Matheus se aproximou dela.
Ela conseguia sentir a respiração quente dele no pescoço dela.
— Eu não quero que pessoas morram por minha conta. — Justificou ainda olhando para cima.
— Eles não irão morrer por sua culpa, te garanto.
— Por que você não gosta daqui? — Alicia se virou para ele.
Ambos não viam nada e Alicia temia que se mexesse mais um pouquinho era capaz de que ela beijasse ele ou alguma parte do seu rosto.
Matheus sentiu a respiração quente dela no rosto dele e quase podia dizer onde estava cada parte do rosto dela, até as três pintas. Durante todo aquele tempo ele pensou nela e as coisas que havia visto com ela. E como os olhos dela lhe davam esperanças.
— É um futuro destruído por pessoas gananciosas. — Ele respondeu.
Seu hálito tinha cheiro de coca, pensou Alicia.
— Você prefere o passado?
— Sim, as pessoas são outras pessoas. Você viu, ninguém aqui aqui mais interagem com as pessoas.
— Você interage muito bem com o Henrique.
— Somos amigos desde crianças, é fácil. Aqui se as amizades não nascem na infância dificilmente as pessoas terão amigos adultos, tudo é por interesse ou negócios.
Não era muito diferente do tempo de Alicia, mas ela sabia que algumas pessoas eram diferentes no tempo dela. Foi ser amigas da Bia e Mel apenas no Ensino Médio.
— Você arrasta outras pessoas para isso? — Perguntou por curiosidade.
— Sinta-se privilegiada, você foi a primeira. — Matheus riu.
Alicia tinha certeza que ele devia esta com aquele sorriso torto que tinha.
— Você sentiu saudades? — Matheus perguntou antes que sua consciência fosse mais rápida e fizesse ele se calar.
Alicia pensou naquela palavra. Saudades? Ela não sabia distinguir o que tinha sentido naquela um mês. Afastava aquela ideia para o fundo de sua mente, mas se lembrava da sensação do salto temporal e de Matheus algumas vezes, mas não como saudades. Ou ela poderia definir aquilo como saudades?
— Eu só quero voltar pra casa, logo. — Ela falou por fim, se virando para o outro lado.
E Matheus não sentiu mais o hálito quente dela sobre seu rosto.
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