Seu Mordomo, Amor Secreto II
8 Seu mordomo, Demônio Familiar
Notas iniciais
“-- Não foi para esse tipo de coisa que chamei você aqui. Quero que me conte porque fez o contrato com o Claude. -- fui direto.
–- Para que você quer saber sobre isso? Não acredito que seja do seu interesse.
–- Vamos, Alois. Não se faça de difícil. Você provavelmente sabe o porquê fiz. Não há nada de estranho em querer saber por que outra pessoa vendeu sua alma ao demônio em troca de um favor.
–- Há Há Há. Por favor, Phantomhive. -- passou a mão nos cabelos dourados. -- Está bem, -- olhou-me firmemente, mantive a compostura para não deixar as íris cor rosa de demoníaco. -- contarei a você.
Um arrepio me correu na coluna. Depois dessa frase eu poderia levantar uma especulação sobre o porquê de aquela coisa estar na mansão dele. Eu esperava que esse fato fosse confirmado, se não, todas as minhas expectativas sobre o Alois ser ou não realmente o motivo da minha vingança estaria sendo jogado no chão e pisoteada.
Só me resta ouvir... E se possível ter uma confirmação de toda aquela ‘verdade’ que o Sebastian havia me dito.”
–- Estou ouvindo.
–- Posso dizer que não fiz o pacto diretamente.
–- Explique isso direito.
–- Claude é uma espécie de demônio da família Trancy. Assim como os outros da mansão. Porém, ele só aparece somente quando necessário.
–- E qual foi esse momento?
–- A morte de meu pai. Eu ficaria sem ninguém para tomar conta de mim. Então, antes de morrer foi à última ordem do velho. Salvo que para ele continuar ao meu lado seria obrigatório alguém vivo que tivesse o contrato. E assim eu fiz quando tinha a mesma idade sua. E não me arrependo. Porque, além disso, mesmo que o Claude não fizesse esse tipo de coisa, eu chamaria qualquer outro que fosse, já que nossa família tem trabalhos inacabados, quando firmei o contrato fiquei sabendo de coisas. -- semicerrou os olhos.
–- Que tipo de coisas?
–- Coisas para outra conversa, outra ocasião. -- passou a mão nos cabelos.
–- O que sua família fazia para necessitar da ajuda de demônios?
–- Queríamos roubar o seu trono, Phantomhive. E sou o único que pode completar esse desejo. Veja, estamos em um impasse, ou eu. Ou você. Veremos qual contrato tem a maior firmeza, qual demônio é mais fiel. Qual — -- ele olhou para o lado quando seus olhos já tomavam um brilho louco. -- Claude!! -- sorriu largo enquanto gritava e erguia os braços para abraçar o outro mesmo que fosse contra a sua vontade.
Sebastian abaixou-se ao meu lado deixando seus lábios na altura de meu ouvido.
–- Irá pegar um resfriado se ficar muito tempo aqui fora, Bocchan. -- jogou o grosso casaco por cima dos meus ombros.
Claude arrumou a armação dos óculos que desta vez estavam fora do lugar por conta da euforia do loiro. Sebastian e ele se entreolharam, aquele mesmo olhar de desaprovação que eu vi na mansão. O olhar de quem se pudesse interferiria e desfaria o que não pode ser desfeito. Um sorriso de canto foi impossível não brota nos meus lábios.
–- Não acho que a lateral da mansão seja um lugar apropriado para se ficar, ou vamos para os fundos ou voltemos para o salão. -- o demônio do outro sugeriu.
–- Claro, ele está certo, decida-se Bocchan, onde pretende ficar?
–- Vamos voltar para dentro, está esfriando. -- eu ainda encarava firmemente o Alois quase empoleirado no pescoço do mordomo.
–- Vamos ficar mais um pouco, Claude. Vamos acompanhar o Ciel. -- sorria.
Não lhe respondi, apenas dirigi um olhar para Sebastian que andava atrás de mim enquanto voltávamos. O salão estava cheio quando o adentramos novamente. Elizabeth dançava com um desconhecido para mim, e parecia divertir-se, tentarei ficar feliz por ela. Trancy vinha logo atrás, havia se desempoleirado do pescoço de Claude, mas ainda mantinha-se unido a ele.
–- Você sabia que o Claude era uma espécie de demônio quase particular?
–- Foi isso o que o Alois disse?
–- Sim, e ele ainda disse que quando fez o contrato ficou sabendo de coisas. Que o desejo da família dele é roubar o trono de Cão de Guarda dos Phantomhive. E que agora o único que pode tornar isso real é ele. Como o próprio disse, estamos em um impasse. E somente um sairá vivo.
–- Estou aqui para garantir que não pereça.
–- Isso não será necessário. É um assunto direto entre herdeiros. Você fica responsável pelo demônio, assim como fez com o Anjo. -- o observei. Franzi a testa, ele continuou impassível em emoções. -- Anjo?
–- Talvez esteja confundindo as memórias Bocchan. Deveríamos ir para casa?
–- É. Eu acho que sim. -- fitávamos os olhos um do outro
–- Ciel. -- foi um chamado cantarolante, mas nem isso fez com que perdêssemos aquele contato de conversa muda. -- Ciel. -- Lizzy passou a palma da mão em frente da minha visão, fui obrigado com esse movimento a encará-la.
–- O que foi? -- esperei que a minha pergunta não saísse com tanta impaciência quanto em minha mente estava gritada.
–- Está começando outra música, gostaria de me acompanhar? -- sorriu mínimo.
–- Será uma honra. -- dei uma última olhada no mordomo, o mesmo apenas inclinou a cabeça em uma fraca reverência.
Aquela conversa ainda não estava encerrada. Isso é mais do que uma certeza.
Segurei na mão delicada da garota. Não estava envolta em luvas e por isso deixava a mostra o claro esmalte cor de pêssego. Seus cabelos estavam armados atrás, com cachos exuberantes e loiros. O vestido em seu corpo pequeno combinava em tons com o pigmento na ponta de seus dedos, assim como a leve maquiagem; ela dançou de olhos verdes fechados e com sorrisos nos lábios, isso quando não deixava escapar uma fraca risada em um giro.
Me despedi de todos após essa última coreografia. Alois acompanhou a minha partida, seguindo com sua carruagem atrás da minha, mas partindo para a esquerda em uma bifurcação no caminho. Enquando estava indo para o meu lado contrário sua cabeça se projetou para fora do automóvel, acenando frenético e com gritos eufóricos de despedida.
A chegada em casa ocorreu pouco antes do badalar da meia noite. Um banho fora me dado, e finalmente a cama era o meu aconchego.
Em meu sonho vi anjos manchados de sangue. (–- Isso mesmo, sou o ser a qual a sua espécie imunda odeia.) Rainhas jovens. (–- Não se assuste, Phantomhive. Isso aqui é para que eu possa viver e viver.) Torres maravilhosas de grande altura e luzes capazes de cegar. Espadas tilintando, e gritos sobre mudanças e manipulação no mundo.
Mas claro que Sebastian estava lá, eu também, fisicamente.
Não seria incomum, não, não seria. A não ser quando esses sonhos são tão lúcidos que parecem reais. E você acorda em um sobressalto, suado, com coração palpitante, e ainda assim... Durante o restante do dia sua mente nunca terá a certeza de que aquilo verdadeiramente passou apenas de uma ilusão enquanto seu sono era profundo, ou se fora visão do passado.
–- Sebastian! -- sentei na cama, estava escuro ainda, meu lençol úmido, a testa colando os fios de cabelo pela sudorese. -- Sebastian! -- pus a mão esquerda sobre o olho do contrato, eu estava tremendo, apertando com força desnecessária o pano branco sobre minhas pernas.
–- Bocchan?!
–- Me diga a verdade! A droga da verdade sobre esse meu maldito corpo de agora. -- o encarei com fúria, sua testa franzida, o olhar de surpresa. -- Anda!
–- Não há verdade alguma, Bocchan. Tudo o que precisa e o que deveria saber já lhe foram dito quando abriu os olhos.
–- E o que é isso? -- apertei os cabelos nas mãos, meus olhos estavam vidrados e com flashes que não deixavam de passar sobre a cama que parecia ter virado uma tela de projeção. -- O que eu vejo?!
–- O senhor bebeu. Mesmo que pouco. Deveria descansar. -- caminhava devagar até mim. -- Provavelmente havia algum alucinógeno na bebida. -- puxou meu ombro devagar para que eu deitasse novamente. -- Deve dormir. -- esticou o cobertor até meu peito. -- Ficarei aqui, estarei presente caso tenha mais sonhos inquietos. -- passou a mão por minha testa, eu me sentia febril, de respiração ofegante, rosto corado.
–- Espero que não esteja mentindo para mim. -- segurei a mão que deslizava em minha bochecha, beijei seus dedos, colocando-a novamente onde fazia carinho. -- Seria uma pena ter que matar você.
–- Isso não será necessário, nosso contrato requer fidelidade e verdade, e é apenas isso o que faço.
–- Que assim se mantenha. -- fechei os olhos, não antes de vislumbrar o sorriso malicioso que adornava sua boca.
Fechei os olhos, não antes de vislumbrar o sorriso malicioso que adornava sua boca.
És o mesmo que eu agora, saberia qualquer mentira minha. E se isso for uma mentira? E se ele estiver se aproveitando do fato de que não conheço e muito menos sei como usar direito essas novas forças físicas e mentais. Olhando por esse lado meu mordomo não passa de alguém está tentando me manipular tanto quanto eu tento fazer o mesmo com ele durante todo esse tempo. Eu já me mandei acordar e fazer algo contra isso, mas a força invisível imposta sobre mim é tão forte que cedo sem nem ao menos ter tido a consciência de que o fiz. E é melhor que continue assim... Ao menos tenho a ilusão de estar sempre no controle, mas não por completo. A não ser que presencie com os próprios olhos nada até então é uma verdade ou uma mentira, são apenas palavras que para o orador farão algum sentido. E tudo vai depender de como irei me utilizar do conhecimento do fato passado adiante.
Noite passada rolei na cama. Girei para todos os lados, sentindo o lençol bagunçar cada vez mais, e a presença contínua do outro na cadeira ao pé da cama, observando e divertindo-se com todo esse show circense de agonia que ele mesmo armou.
–- O jornal de hoje. -- entregou em minha mão. -- Uma carta da Rainha e do Visconde.
Da Rainha Jovem.
–- Deixe-as aí. Logo mais quero discutir o que faremos com Alois.
–- Estarei ao dispor.
–- Pode ir fazer o que tenha de ser feito. Chamarei se necessário. Conversaremos na hora do Chá.
“Caro Cão de Guarda da Rainha,
O demônio pode até ser dominado por você, e a você quem domina?!
Não seja ingênuo, Phantomhive. Desmascare aquele a quem você serve enrustidamente.
Acabe logo com toda essa farsa criada em picadeiros.
xxx.”
Os dedos seguraram a caneta que deslizava frenética pelo papel a fim de copiar todos aqueles pensamentos, frases conectadas que passavam depressa pela mente. Isso já havia estado em minhas mãos. Não são apenas palavras ou frases aleatórias. Oh, claro que não. E talvez seja isso que me leve a descobrir se o que esta sendo dito a mim é real ou totalmente uma mentira de cara dura.
Encarei a letra garranchada pela pressa. Transferindo tudo em letra legível para uma nova folha. Não eram estranhas, mas também não pareciam certas, mas talvez adaptadas ao momento, o que faz a confusão ser ainda maior. Estou alucinando?
Passei a mão pelos fios, sentindo o nó atrás da cabeça. Tirei da primeira gaveta da mesa de trabalho a fotografia encontrada na casa do Trancy. Encarando-me, ao meu pai, e a minha mãe.
“Veja, estamos em um impasse, ou eu. Ou você.”, sim, Trancy. Estamos em um impasse. Em um empate. Na reta final de um legado. De apenas um que perpetuará. Mas em breve, ah, em breve tudo isso irá ser enterrado. Prepare-se para encarar a morte de perto, ou Ciel Phantomhive do jeito que está verdadeiramente agora. E não acredite que sairá vivo depois de um vislumbre desta atual verdadeira identidade adquirida.
“–- Talvez o fim de Ciel Phantomhive esteja próximo...
–- Não estou certo disso, Bocchan. Talvez, Ciel Phantomhive seja um nome eterno.”
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