Seu Mordomo, Amor Secreto II
5 Seu mordomo, Auto-suficiência
Notas iniciais
“Em minha mente há uma clara contradição quanto a meus atos. Penso em me revoltar, mas não tenho nada que possa me servir de base para que eu mantenha algo como isso em prova. Penso em sucumbir, como antes vivíamos, mas não vejo mais isso como algo que me faria pensar diferente, o sentimento de enganação assobia para mim; puxei o ar fortemente oxigenando o cérebro para tentar manter os pensamentos mais claros. Por enquanto, seja como sempre foi, aja como sempre agiu. E no momento certo, faça o que deve ser feito. Com isso eu pude sorrir. Meus meios poderiam ser complicados, mas a certeza de um resultado, viria.”
Há uma semana fomos em uma visita ao Trancy, e faz esse mesmo tempo que venho forjando minhas estratégias. Não posso dizer que estou bolando algo de incrível nem nada parecido, não posso dizer nem que bolei algo; um profundo suspiro de pura insatisfação deixou meus lábios.
–- Bocchan. -- a porta foi aberta, um carrinho com bule decorado de margaridas e xícaras em igual estava sobre ele. -- Seu chá. -- como não, o teatro da tarde. Dadas as apresentações e serviu o líquido imaginário.
–- Está delicioso, como sempre. -- pausei a porcelana vazia sobre o pires. -- Sebastian, diga-me. O que encontrou na casa do Alois?
–- Achei que nunca fosse perguntar.
–- Estive pensando muito. Essa questão, apesar de importante me fugiu a mente.
–- Posso saber o que anda ocupando tanto a fértil imaginação do Bocchan?
–- Não, para você não é absolutamente nada. Nada de seu interesse.
–- Imagino que tenha razão. -- sorriu de lado. -- Minhas desculpas pela intromissão. -- pôs a mão sobre o peito esquerdo curvando levemente a cabeça.
–- E então?
–- Nada que tenha alta relevância aos acontecimentos.
–- Mas que droga! -- bati com força na mesa. -- Não sei se devo encarar isso como incompetência ou o quê!
Como isso pode ser verdade? Depois de tanto me afirmar que quem eu buscava era Alois Trancy, ele me vem com essa de não achar nada que possa realmente me ajudar a confirmar essa história?
–- Lembre-se, Bocchan, Londres fora incendiada, e você dormiu por meses.
–- Não quero saber. Você tinha que encontrar algo! Isso não está certo!! Você disse que foi ele! -- levantei bruscamente, meu coração batia forte pela tensão. -- Estou começando a achar que está me fazendo de idiota. E eu não suporto pensar assim. -- seus olhos se estreitaram junto aos meus, minha arcada dentária roçando uma na outra.
–- Sim, eu disse. E mantenho a minha palavra.
–- Então procure. Não quero ficar a ver navios! Qualquer coisa e não volta aqui sem uma agulha. -- passei a mão na testa ao me jogar para trás na poltrona.
–- Deveria extravasar as tensões. -- sorria descaradamente apesar da situação. Mas que cretino.
–- Faça o que deve ser feito, e nós dois seremos recompensados. -- meu indicador ia e vinha em meu queixo.
–- Com sua licença.
–- Espere. -- no meio do caminho, virou-se. -- O que disse Claude?
–- Sobre o que exatamente?
–- Sobre isso. Sobre mim. -- eu quase vangloriava na voz.
–- Achar um absurdo era o mínimo. “Era a alma perfeita, Michaelis. E você a maculou.” Suas palavras. Sabemos que o mordomo de lá queria sua alma tanto quanto eu.
–- Fez isso mais ainda para prevenção?
–- Não, e não faria. Acabaria com ele antes que tivesse a chance de tocar em sua essência.
–- Acabaria com um demônio. -- experimente a frase. -- Porém não teve capacidade de me proteger de um incêndio.
–- Bem, é o que parece, não?
–- Sim, é o que parece. Agora vá. Faça seu trabalho, como deve ser feito, com êxito. Eu desejo ainda mais essa recompensa do que quem irá receber.
–- Farei o possível para ser bem sucedido. -- sorria.
–- O impossível também deve lhe acompanhar. -- movi a mão para a porta, por ela ele seguiu, levando consigo o carrinho, bule, xícara, pires. Tudo intocado de qualquer sujeira.
“Nós dois seremos recompensados.” “A devassidão é o que aflora no Bocchan?!” Talvez ele tenha razão. Não que Sebastian não tenha feito um exemplar trabalho em me fazer conhecer o que era perversão quando eu ainda era humano. E agora isso?! Um riso debochado de mim e minha atitude foi bastante audível pela sala.
Deuses. O que me tornei?
O que esperar como prova? Melhor, o que eu espero como evidência? Nada, a verdade é que qualquer coisa meu consciente estará aceitando. Mesmo que esta não faça um total sentido.
Afastei mais a mesa da poltrona, de forma que minhas pernas ficassem esticadas quando as pus sobre. Tenso, era como eu estava. Não somente devido às circunstancias, mas também as faltas, que meu físico já sabe quais são. Ah, Michaelis há de me pagar por transformar meu corpo em um templo de pura perversão. E porque não pagar na mesma moeda? Isso que torna tudo tão divertido. O Alois talvez esteja certo, talvez o que ele e eu façamos seja a mesma coisa. Nos vender de corpo e alma para eles. Querendo ou não. Eu riria novamente, se isso não fosse algo tão angustiante de se perceber. Quem me dera eu continuasse leigo a tudo, quem me dera eu fosse apenas um órfão inocente que não se deixou corromper pela luz negra que banhava o quarto em luas cheias. Bem, vai ver estava destinada a esses acontecimentos. Apenas coisas que se tornariam ossos do ofício.
O mordomo está fora, então me virar sozinho para um banho era a única coisa que eu poderia fazer para não ter mais um dominante em minha vida, o tédio. Segui pelo silencioso corredor até meu quarto. Aquela falta de som toda, certas horas me incomodavam, às vezes tudo o que desejo é que Bard exploda a cozinha, Meirin quebre louça e Finnian destrua meu jardim. Mas nada é como antes. É como se eles soubessem que não sou eu, que não sou o que era. Não como antes.
A cama estava impecavelmente arrumada com lençóis amarelados. As cortinas vermelhas balançavam levemente pela brisa úmida da noite. Observei o clarão do luar a clarear parte do chão próximo a cama, quase alcançando aonde vai os meus pés quando deito. Divagando em coisas bestas e que passam sempre despercebidas baixei a cabeça, soltando um riso de lado a caminho do banheiro. Não deve ser tão difícil assim, digo, preparar meu banho e fazer todo o resto. Auto-suficiência nunca foi algo compartilhado comigo pelos meus pais e muito menos pelo demônio que me trata como a criança que ainda sou, em aparência. Já dentro do banheiro, abri ambas as torneiras quentes e frias.
–- Eu deveria ficar e esperar encher? Ou... Pegar a roupa e voltar? -- mordi o lábio pela dúvida. -- Que seja. -- voltei ao cômodo em busca das vestes, porem só peguei uma toalha, e a primeira que vi.
O vapor saía da banheira, deslizei os dedos pela superfície, não estava tão quente quanto à fumaça nos enganava. Sentei no banquinho de madeira de três pernas que o mordomo usa, tirando os sapatos, ficando de pé mais uma vez para tirar as partes de baixo, cima e finalmente adentrar na água.
–- Acredito que estou fazendo algo errado. -- suspirei. -- Ele faz parecer tão fácil. -- passei a mão na testa em sinal de desaprovação a mim mesmo, encarando meu reflexo na água com pouca espuma.
Pisei com cuidado do lado de fora da banheira, fazendo uma pequena poça com a água que escorria de meu corpo. Uma nota para mim mesmo: Nunca mais tomar banho sozinho.
Saí do cômodo sentindo a sola vez ou outra colar no chão. E ao me virar vi as pegadas em forma de meus pés.
–- Que ele limpe. -- segui meu caminho jogando meus ombros para cima em desdém.
Meu torso estava envolto na toalha branca de mais cedo, e enquanto eu tentava pegar minhas roupas era meio difícil mantê-la ali, por isso optei por ela apenas descer ao chão. Pisei sobre o pano para evitar o frio do solo e assim me vesti. Tentando abotoar de forma simétrica o pijama de linho azulado.
Fiquei de frente par o espelho na penteadeira, eu não parecia nada com um Conde. Meus cabelos estavam revoltos e pingava em algumas mechas, além da falta do tapa olho para o contrato. O pijama estava casado errado, mas nem por isso eu iria desfazer todas as casas a fim de tentar pôr em ordem as coisas. Além de isso soar como minha vida, não era meu trabalho.
–- Bocchan. Deveria fechar a janela quando for se vestir. Não queremos um resfriado, queremos?
Virei em um salto para a voz.
–- Sebastian!
–- Mas ora o que vejo. Seu pijama não está nada bonito. -- apoiou a mão sobre a cabeça, à negatividade era balançada. Seus cabelos negros voavam ao vento.
–- Desça daí. O que faz aqui? Já achou alguma coisa?
–- Eu não estaria de volta se não estivesse feito meu trabalho bem feito, estaria? Agora me deixe arrumar seu pijama.
–- Não.
–- O que não exatamente? -- sua descida da altura foi um leve pisar felino.
–- Não, você não estaria. E não precisaremos de roupas para minha recompensa.
–- Bocchan...?!
–- Você diz que tenho que me alimentar. -- caminhei a ele, erguendo-me na ponta dos pés, e mesmo sendo complicado alcancei seu ouvido esquerdo, colando minha bochecha a dele. -- Então, -- acariciei seus cabelos agora no lugar. -- estou faminto, mate a minha fome.
O vermelho vivo em seus olhos foi o tom na paleta de cores mais sexy que já me fora exposto.
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