Seu Mordomo, Amor Secreto II
1 Seu Mordomo, Meu Pela Eternidade
Notas iniciais
*Demônio; Gênio do mal ou Espírito sobrenatural que procura incitar o pecado nos homens.
*Contrato; acordo de vontades, capaz de criar, modificar ou extinguir direitos.
*Eternidade; tempo infinito.
Ao folhear as páginas brancas encharcadas de letras negras de um dicionário pouco velho, os olhos não se limitaram a frisar essas palavras. Me lembrando algo que por mais que eu tente esquecer... Torna-se impossível. Está em mim.
Ainda lembro de suas palavras. O tom arrogante. Tentando confundir minha mente mais do que a mesma já estava no momento.
Eu deveria estar morto. Foi à única coisa que pude pensar, gritar. E era a verdade. Em um momento estou sendo guiado à morte. No outro acordo em minha mansão e cama como se nada do dia anterior estivesse acontecido. Seria apenas um sonho ruim...! Tornei a pensar, tentando aliviar os sentimentos que me invadiam. Mas não. Não foi apenas um sonho ruim. Lembro de tudo... Tudo como se fosse ontem.
–- Bom dia, Bocchan. -- um sussurro, seu costumeiro sussurro.
Meus olhos se abriram, pesados. Encarei com a visão ainda turva o teto do quarto amplo. A cortina fez seu rotineiro barulho quando foi arreganhada.
–- O-Onde?
–- Algum problema? -- o sorriso em seus lábios me assustou brevemente.
Saltei da cama, correndo em direção ao banheiro, arreganhei a porta, olhando-me no espelho. A marca do contrato ainda estava ali, mas o tom avermelhado que meu olhar antes azul era assustou-me completamente. Toquei meu rosto, notando então o esmalte de coloração negra em minhas unhas.
–- SEBASTIAN! -- meu grito foi desesperado.
–- Pois não?
–- E-Eu deveria estar morto! -- o tom foi alto novamente. -- Morto!
–- E está. -- sua voz era natural, calma como o mar em dias mansos. Aproximou-se lentamente de mim. -- Vê?! – me ergueu um espelho pequeno, dando-me o cabo dourado para que eu segurasse defronte ao meu rosto. – Seu rosto é delicado, sua pele macia e seu sorriso angelical. – andava ao meu redor. – Mas... Você por dentro é tão sujo quanto o núcleo do próprio inferno. Os pecados agora correm em sua veia, Ciel. – sussurrou em meu ouvido. – Você agora é um demônio, aceite a sua atual natureza.
Eu poderia simplesmente surtar, mas apenas levei uma mão à cabeça que abaixou, uma risada estridente começou a deixar meus lábios, quase psicótica, devo admitir.
–- E eu achando que você não seria idiota o suficiente para fazer uma besteira dessas. -- olhei para o mordomo que aparentava surpresa. -- O que eu faço com você? -- um sorriso de canto ainda dançava em mim. -- O contrato ainda está aqui, o que sou seu, agora?
–- Meu Mestre.
–- Por onde?
–- Pela eternidade. -- as palavras saíram com gosto de sua garganta.
–- Só não se arrependa. -- meu olhar o advertiu.
O senti acompanhar meu corpo até a porta do banheiro.
–- Vai ficar aí parado? Você tem trabalho a fazer.
Por um breve momento eu me deixei abater por aquilo. Um breve, muito breve momento. Eu não pedi por isso, apenas foi abençoado com uma segunda chance, e por que não agarrá-la?
Pouco mais de um mês se passou depois disso. E por mais incrível que pareça ser, eu não me lembro muito bem do que aconteceu quando eu supostamente morri, nem o motivo, só sei que meu corpo não deveria estar de pé, com a minha consciência tomando conta dele... E nisso ainda tenho as minhas dúvidas se consegui ou não completar aquilo que eu almejava. Quando perguntei a Sebastian o porquê dele ter me transformado, sua resposta fui curta e objetiva; “No tempo certo você saberá”. Seguida de um sorriso, um mais maléfico do que seu habitual sorriso.
–- Sebastian. -- o jogo a nossa frente estava acirrado, cada peça movimentada era uma nova armadilha, qualquer descuido seria o fim.
–- Pois não?
–- Quando será esse tempo certo, ao qual você se referiu? -- o olhei, mas seus olhos permaneciam sobre o tabuleiro.
–- Acha que já é hora?
–-Diga-me você. -- franzi a testa.
–- Ora, ora, vamos do começo. -- suspirou profundo.
–- Do começo...?
–- Fui convocado para que pudesse auxiliar o seu alcance às pessoas ou à pessoa que destruiu a sua família. Porém, com tudo o que acabamos vivenciamos em Londres, você acabou morrendo, por um descuido meu. Por i-. -- o interrompi.
–- Descuido?! SEBASTIAN! A única coisa que me lembro é que eu deveria estar morto! E nada mais! É como se parte da minha memória tivesse sido apagada! Você, demônio desgraçado, fez isso comigo! O que esconde de mim? -- levantei da cadeira, a calma estampada em meu rosto, assim como no dele. -- O que está acobertado? -- meus braços caíram sobre seus ombros, cruzando-se em seu peito quando fiquei às suas costas. -- Sou seu Mestre, não deverias esconder nada, absolutamente nada de mim. -- minha voz era nada mais que um sussurro em seu ouvido. -- E então? O que me diz?
–- O que digo? Do que se lembra? Qual a sua última lembrança antes de tudo parecer perdido?
–- De Paris, uma noite nossa. -- minha língua deslizou sobre sua bochecha. -- Uma ótima noite. Estava com gosto de última.
–- Hum. -- ele riu fundo na garganta. -- O que aflora no Bocchan é a devassidão?
–- Talvez. Agora, o que fazíamos em Paris? Por que fomos para lá? -- minhas mãos lhe acariciavam o peitoral, os dedos roçavam os botões da roupa em uma insinuação de abri-los.
–- A pedido da Rainha, tínhamos trabalho a fazer aqui.
–- Era de suma importância a ponto de ela precisar da minha pessoal presença?
–- Nos encontramos na Torre Eifell, a Rainha junto a seu mordomo, Ash. Recebemos nosso trabalho e voltamos a Londres, isso é tudo, Bocchan.
–- E quanto ao trabalho?
–- Nada pôde ser feito, Londres queimou, antes que pudéssemos fazer algo. E nesse trágico acidente, você morreu.
–- Não está me escondendo nada? -- segurei seu queixo, virando seu rosto para mim.
–- Como eu poderia? És o mesmo que eu agora, saberia qualquer mentira minha. -- sua língua deslizou sobre seus lábios.
–- Oh... E a minha alma? Não a terá mais. Nunca.
–- Conviverei com isso, pela eternidade, é a minha punição por não ter sido o guarda que deveria.
Suas palavras são sempre assim, de uma enorme capacidade para confundir tanto homens quanto seres que não pertencem a esse mundo, e eu sou capaz de perceber nitidamente isso agora.
–- O que farei com você se estiver me enganando? -- meus olhos se estreitaram.
–- Há um leque de coisas. -- ele conseguiu sorrir.
Talvez, por todo esse tempo que ainda estou a me adaptar com todas as mudanças que meu corpo acabou por sofrer em prol dessa sua súbita decisão de me fazer um dos seus, definitivamente ainda não abandonei totalmente a minha humanidade, o que é um completo erro.
–- Afinal de contas, eu cumpri com a minha vingança?
–- Bocchan... Não percebeu que essa sua segunda chance é para que possa cumprir com aquilo que deveria?
–- Ora vejam só, demônios sabem dar uma segunda chance. -- meu polegar trilhou seus lábios.
–- Quando necessário. -- sua mão segurou firme meu braço, puxando-me para seu colo.
Eternidade é um tempo infinito. Tempo demais, verei pessoas que convivem comigo morrer. Verei pessoas nascerem e morrerem. E ele se manterá firme ao meu lado, até que eu pereça, se caso algum dia isso acontecer.
–- E qual o meu objetivo, nesse novo mundo? -- acariciei sua bochecha, passando os dedos da outra mão por seus fios.
–- Trancy, Alois Trancy. -- seu sorriso novamente era malévolo.
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