Seu Mordomo, Amor Secreto
10 Seu mordomo, Peça de Xadrez
Notas iniciais
O som rotineiro das cortinas se abrindo soou no quarto. Em consequência a janela aberta o sol veio em meu rosto. Ainda de olhos fechados puxei o lençol de meu peito e cobri minha cabeça, na tentativa, inútil, de afastar aquela luminosidade que tanto me incomodava.
–- Bom dia, Bocchan. -- a suave voz do mordomo se dispersou no ar, chegando a meu ouvido e me despertando por completo.
Segurei as bordas do lençol e o abaixei até a altura do meu nariz, deixando somente meus olhos de fora. Como sempre acontece pela manhã, com exceção do dia anterior, a primeira coisa que meus olhos fitaram foi o rosto calmo de Sebastian, com aquele sorriso infame nos lábios.
–- Sente-se bem?
–- Sim...
–- Nada dói?
–- Não muito. "Tenho certeza de que você foi mais gentil dessa vez... Por isso não incomoda."
–- Irei trazer o seu café da manhã, com licença.
O acompanhei com os olhos até que ele saísse. Tirei o lençol de meu rosto e sentei na cama. Quando apoiei completamente o peso do meu corpo no colchão apertei o olho do contrato pela curta dor que desapontou lá trás.
–- "Eu ainda não esqueci sobre a pessoa que ele disse que ama ou amou... Tenho uma grande curiosidade em saber quem é, mas meu receio de perguntar com certeza é maior."
A porta se abriu e o mordomo quando entrou cortou minha linha pensamento.
–- Eu o acordei um pouco mais tarde pelo ocorrido de ontem, e em consequência modifiquei a data de seus afazeres de hoje. -- falou enquanto servia o suco, logo apoiando a bandeja em meu colo.
–- Tudo bem. -- levei a primeira garfada da torta de baunilha à boca. -- "Delicioso."
–- Vou preparar o seu banho. -- curvou um pouco a cabeça e saiu em direção ao banheiro.
Poucos minutos se passaram até que o mordomo voltou. Retirou a bandeja de meu colo, pondo-a sobre o carrinho. Me sentei a beira da cama. Apoiando-se somente sobre um joelho elevou as mãos aos botões da camisa de meu pijama. Descasando um a um lentamente, não demorou para que a peça branca estivesse sobre a cama. Fiquei de pé, deixando a sola de meus pés descalços tocarem o chão frio, meu short foi lentamente retirado de meu corpo. Sebastian me pegou no colo e seguiu para o banheiro.
Me pondo no chão próximo a banheira, tirou, por fim, minha cueca. Entrei lentamente na banheira, gemendo baixo quando meu corpo foi coberto pelas águas mornas. E então começou, aqueles velhos novos toques estavam de volta. Me acariciando com leveza e maestria, me fazendo devanear com o simples correr da água de seus dedos ao cair em meu corpo nu.
Um pequeno arrepio passou passageiro por meu corpo quando Sebastian correu seus dedos por entre minhas coxas, seguindo para meu peito, indo a meu queixo e ali parando. Seu polegar correu em meu lábio inferior. Acariciando minha bochecha guiou os dedos aos cabelos por trás de minha orelha. Deixei minha cabeça tombar para o lado como se apoiasse na palma do mordomo. Seus olhos me olhavam, encaravam os meus, que se perdiam naquele leve avermelhado. Ergui minha mão das águas e pousei-a sobre o rosto do moreno, ele também tombou a cabeça, repousando-a sobre minha palma. Seus lábios se abriram em um pequeno sorriso. Não de deboche, não de sarcasmo, não de ironia, apenas um simples sorriso. Algo que eu, quase, nunca via nesse ser de aura escura. O clima estava propício para a curta frase "Eu te amo", mas como de costume, nenhum dos lados daria o primeiro passo para que isso acontecesse. Uma frase tão pequena, tão aparentemente simples, mas que entala no fundo da garganta na hora de ser dita. Se bem que o orgulho ainda atrapalha um pouco... E ele é um demônio, provavelmente palavras como essas são difíceis de sair de sua boca.
Aquele clima de tentação acabou rapidamente eu já estava vestido e me encontrava sozinho em meu escritório. A mansão estava vazia e silenciosa. Os empregados tinham ido à cidade, por ordens minhas, para comprar a reposição de mantimentos. Eu estaria só se não fosse pela presença de sebastian, não em meu cômodo, mas por algum lugar da casa. Meu queixo apoiado nos dorsos de meus braços dobrados sobre a mesa de madeira e os constantes suspiros não deixavam transparecer nem metade do meu tédio.
–- Sebastian! -- sem delongas o mordomo estava ali, estávamos a sós não havia necessidade de se esconder seus poderes.
–- Pois não?
–- Estou entediado, prepare o tabuleiro de xadrez para jogar comigo.
Sem demoras o tabuleiro já estava a postos e nós jogávamos. Um jogo acirrado, com peças marcadas, capturadas e checks. Mas Sebastian tinha a vantagem, era um demônio e enxergava muitas jogadas a minha frente. Até que o cavalo, de cor negra, do mordomo se pôs a frente do meu rei. Levantei meus olhos para ele. Uma cena tão peculiarmente descrita de como estamos. Eu poderia derrubar-lhe o cavalo, se não fosse pela sua rainha duas casa atrás em sua defesa, seria mate. O cavalo no momento não me fazia ameaças. Sem intuito de ataque ou defesa, movi um peão, que não ameaçaria e nem atacaria.
–-Check Mate, Bocchan.
Não acreditei em suas palavras e voltei meus olhos para o tabuleiro. A movimentação de um peão, dele, foi o causador do mate. Eu não poderia recuar, havia uma torre a minha espera, caminhar para o lado ou diagonal me traria de cara para um bispo ou o cavalo a espreita, atacar seu peão resultaria em minha perda, sua segunda torre o protegia. Check Mate, Phantomhive.
Me pus de pé, com as mãos apoiadas sobre a mesa, pretendia protestar, minha evidente derrota, se não fossem os lábios de Sebastian causadores do meu silêncio. Mas assim como ele me beijou se afastará, pondo-se de imediato a meu lado, em um salto sobre a mesa.
–- CIIIEEELLL!!! -- a jovem e loira Lady adentrou a sala praticamente arrombando a porta.
–- "Elizabeth?!" -- o formigamento em meus lábios e a sensação dos dele ainda estarem ali me deixaram estático. Lizzy estava pendurada em meu pescoço, mesmo com a mesa nos separando quase completamente, ela apertava cada vez mais, até que finalmente acordei de meu devaneio e protestei;
–- Lizzy!! O que faz aqui? Por que não me mandou uma carta avisando que vinha?!
–- Ora, Ciel, sou sua noiva não acho que preciso dessas coisas. -- cruzou os braços e fez um bico, logo virando o rosto para o lado.
Soltei um suspiro e olhei para Sebastian. Voltando minha vista para Lizzy, que permanecia estática. Desenhei o lábio superior com a língua e pus o inferior para dentro da boca, deixando que o superior deslizasse sobre ele e o umedecesse ao sair, no intuito de aproveitar o leve gosto dos lábios do mordomo sobre os meus.
Um momento tão estranho estava acontecendo, minha noiva e meu amante na mesma sala. "E o que a Lizzy faria se descobrisse?" "Iria ficar mais brava por ser com um homem?!". Perguntas desse tipo rondavam a minha mente, mas meus pensamentos foram cortados quando vi a loira esticando Sebastian para fora do escritório, enquanto murmurava coisas como "Você não está nada fofo com essa roupa." e coisas do tipo. Bem o gênero dela.
Me joguei para trás, sentando de qualquer jeito sobre a cadeira, pus a mão na testa e balancei a cabeça, me negando algo, soltando um longe e pesado suspiro logo em seguida.
Por que eu caí na tentação de fazer amor com o Sebastian? A armadilha já estava lá e eu fui idiota o suficiente para não percebê-la?! Ele é um demônio, tem suas artes, me seduziu sem que eu ao menos percebesse, e quando fui ver já estava em minha cama, e em seus braços. O que fariam comigo se descobrisse que eu traí minha noiva com meu mordomo? Para onde ia à reputação dos Phantomhive?
–- CIELL!! -- Lizzy novamente adentrou a sala. -- O que está fazendo ai sozinho? Venha para sala conosco!
–- Estou bem aqui. -- me ajeitei sobre a cadeira.
–- Não, não, não, não, não. Você vem comigo. -- se aproximou de mim, segurou minha mão e começou a puxar-me para fora do escritório.
Tentei resmungar e soltar minha mão da dela, mas acabei deixando para lá quando vi não daria certo. E se desse provavelmente iria fazê-la chorar, isso é a última coisa que eu quero, não por ela ser minha noiva, mas por ser garota.
Chegando a sala os meus empregados estavam transformados, provavelmente haviam acabado de chegar e já haviam sido atacados por ela, e Sebastian não ficara de fora da brincadeira da garota. A sala estava totalmente infestada de bolas de assoprar coloridas, junto com uns fitilhos, uma mesa decoradas com peças para chá, entre outros ornamentos.
–- O que vai acontecer aqui?
–- Nós vamos tomar chá. -- olhou para mim sorrindo. -- Sebastian, por favor. -- voltou os olhos para o mordomo.
Sebastian fez uma pequena reverência e seguiu para a cozinha.
–- Onde está a Paula? -- estiquei uma cadeira para que Elizabeth sentasse.
–- Na cidade, fazendo compras.
O mordomo logo voltou com um carrinho, contendo uma chaleira cor de rosa, juntamente com umas xícaras da cor branca, detalhas em flores Sakura. O chá foi servido, e o tomamos enquanto papeávamos sobre aleatoriedades. Após o chá convidei Lizzy para dar uma volta pelo jardim da mansão. O convite foi aceito pela loira com um largo sorriso nos lábios. Ela realmente gosta de mim... E me sinto até um pouco mal por não retribuir seus sentimentos da mesma forma, sinto como se a estivesse engano e às vezes tenho vontade de expor para ela tudo o que está acontecendo, tudo, de Sebastian ao nosso falso futuro casamento, mas acho que uma garota, mimada, como ela não suportaria receber uma notícia dessas, pelo menos não agora.
–- Ciel. Como você quer que seja a nossa cerimônia de casamento?
–- Casamento? -- tentei parecer o menos surpreso possível no timbre de minha voz e em minhas feições, mas tenho quase certeza de que eu não consegui.
–- É... Quero que seja uma cerimônia linda.
–- Lizzy, acho que está muito cedo para ficarmos pensando nessas coisas. Não sejamos precipitados, certo?
A loira parecia um pouco desapontada com a minha resposta, provavelmente ela esperava que eu concordasse e que dissesse detalhes do que eu queria, mas a verdade é que eu quero acabar logo com isso. Trair a noiva não é algo que um cavalheiro deveria fazer. Mas mesmo assim ela sorriu em disfarce das emoções e aceitou o que eu disse.
O vento bateu, balançando as flores e folhas ao nosso redor e fazendo um fraco barulho de assobio em nossos ouvidos, os cabelos balançavam e a pele se arrepiava com o roçar do vento úmido em nosso corpo.
–- Está começando há ventar um pouco frio, vamos entrar para não pegarmos um resfriado.
Caminhamos de volta pra a mansão. Paula estava à espera de Lizzy, que correu de encontro à moça assim que a viu. Quando as duas se despediram, segui novamente para meu escritório, enquanto eu manuseava o cavalo em minha mão, de vez enquando fazendo o "galopar" sobre as cores alternadas do tabuleiro, tentando afastar ao menos de leve o tédio que novamente já dominava a minha mente. Será que não tinha nada para fazer nessa mansão? Desde quando ela ficará tão imersa nesse sentimento incomodo?!
Soltei um suspiro e ouvi a porta se abrir, logo depois de umas leves batidas na porta.
–- Bocchan...
–- Sim?
–- Deseja algo?
–- Não... -- o mordomo virou-se em direção a saída. -- Sebastian...
–- Sim?
–- Por que fez aquilo?
–- Aquilo o quê? -- se fez de desentendido, mas lógico que ele sabia do que se tratava.
–- O beijo que você me deu antes da Lizzy chegar... "E interromper tudo!!" -- sei que minhas bochechas ficaram foram do seu tom normal.
O mordomo apenas sorriu de leve e começou a caminhar em minha direção, apoiando as mãos sobre a mesa chegou o rosto próximo ao meu.
–- Às vezes eu não controlo os meus impulsos, os desejos afloram e eu simplesmente faço. -- sua língua correu sobre seu lábio superior. Apertei o cavalo em minha mão.
Os olhos dele estavam magnetizando os meus, perder o contato visual parecia ser o pior dos pecados. Mas aquela proximidade toda, que perigo... Seu hálito acariciava a pele de meu rosto de maneira leve, e o silêncio predominado no lugar deixava o clima ainda mais propicio a caricias quentes. Mas não vamos ceder, Phantomhive, não vamos deixar que a aura de perversão dele chegue até você. Apenas resista, mesmo que pareça ser impossível.
Ergui minha mão até seu rosto, acariciando sua bochecha, seu couro cabeludo. Tudo com calma, apenas deixando rolar o momento.
–- Sebastian, eu não quero mais continuar a enganar a Lizzy...
–- E o que pretende fazer?
–- Eu não sei. Quando penso em contar a ela me preocupo com sua reação, não quero lhe causar mal.
–- Lizzy te ama... O Bocchan deverá ter consciência de que ela não aceitará muito bem, e irá querer todos os detalhes do por que do termino do noivado.
–- Você sabe... Que eu não gosto dela, isso é apenas por causa dos nossos bens. Mas mesmo assim ainda sinto como se fosse uma traição, mesmo com a minha falta de sentimentos.
–- Faça o que o senhor achar melhor, para ela e para você. E quanto a mim? Sou apenas uma peça importante do seu xadrez, não se preocupe comigo...
–- Vamos esquecer isso por um momento...
–- Sim...
–- Agora jogue comigo. -- apoiei o cavalo sobre a mesa.
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