Setembro de 94'
4 Teclados.
Notas iniciais
Setembro de 94’
Por ProngsPink
“Poderia até pensar que foi tudo sonho. Ponho meu sapato novo e vou passear sozinho, como der, eu vou até a beira. Besteira qualquer nem choro mais.
Só levo a saudade, morena. E é tudo o que vale a pena.”
– Sapato Novo, Los Hermanos.
Quando aquelas palavras saíram da minha boca admito não estava pensando, mas você faria o mesmo no meu lugar, tenho certeza. – O garoto estava tão parecido com o irmão. Era como se o tempo tivesse voltado e meus olhos contemplassem mais uma vez aquele dia. O modo como estava ali ao meu lado pedindo permissão para ficar era do mesmo jeito que aconteceu a mais de cinco anos com o mais velho deles. O sorrisinho, o jeito que acendia o cigarro. Acredita que ate o modo como andavam eram iguais?
Não pude fazer nada alem de deixar que meus pensamentos fossem soltos.
Lucas apenas olhou para mim e sorriu. Um sorriso que mostrou todos os dentes perfeitos e que me parecia bem mentiroso também. Apenas pude sorrir de volta, claro, um sorriso bem mais discreto, mas sem nenhum significado assim como dele.
Enquanto continuava fumando e olhando para aquela imagem, que hoje me dava raiva, eu aproveitei para passar meus olhos por ele. – Os cabelos negros pareciam tão selvagens, curtos ate mais ou menos a orelha, todo despenteado. Típico cara que acordava e já ia colocando as calças para ir atrás de garotas no colégio. Os ombros eram largos e as curvas do peitoral iam descendo em sintonia, os braços fortes, mas nada exagerado. Pernas longas e que mesmo com a jeans dava para perceber que eram ‘turbinadas’. Eu sei, eu sei. Já disse como ele era, mas desta vez pude ver cada canto dele sem me preocupar quem era o estranho na porta.
Traguei uma última vez o cigarro amassando sua ponta no parapeito da sacada, jogando a bituca num cinzeiro velho por ali. Suspirei. Fazia menos de vinte quatro horas que o menino havia chegado e cá estou pensando em como ele é parecido com o irmão mais velho que me deu um fora. Ótimo.
Dei meia volta indo para o corredor, não havia terminado de arrumar o quarto dele e tinha muito que fazer. Não queria que aquele perfume saísse de lá, mas infelizmente Lucas não podia viver com aquilo. O cheiro já tinha diminuído bastante, a janela do quarto agora estava aberta e as cortinas para fora. – Comecei tirando os lençóis e cobertores de cima da cama, estava tudo como Guilherme havia deixado, não tive coragem de mudar depois que foi embora. Bufei alto, sou um idiota de caso perdido mesmo!
Joguei qualquer roupa de cama no meio de um lençol no chão, junto com algumas roupas que estavam no guarda-roupa. Assim amarrei a trouxa a deixando ao lado da maquina de lavar na varanda, peguei a vassoura e fui varrer. A cada poeira que ia embora daquele quarto mais o meu peito doía, era como se o Gui estivesse indo embora para sempre, sem volta. Não queria isso, mesmo sendo patético... Ter pelo menos uma linha de escape de fingir que ele estava ali ainda morando comigo, sendo mentira ou não, aliviava alguma coisa dentro de mim. E com mais um movimento da vassoura todo o resto de Guilherme daquele quarto se foi.
Levantei meus olhos cansados para aquele lugar. Nenhum pôster, nenhum disco ou CD. Nenhuma roupa ou cheiro. Não tinha nada dele mais ali, tudo dentro de uma trouxa e um saco preto de lixo na varanda.
– Grande merda de cara que eu sou! – Só eu mesmo para ficar me recriminando por ter tirado o vírus que restava de um passado dolorido. Eu nem cheguei a ficar com ele, imagina se tivesse? Estaria me drogando dentro do banheiro e pedindo pelo amor de Deus que me levasse, é? – Sou patético. Um baita filho da puta sem felicidade nenhum!
Irritado comigo mesmo, deixei a vassoura no lugar dela e corri a sala, onde provavelmente o meu convidado não convidado estava. Parei na porta. Ele estava sentado em frente ao piano o olhando como se fosse alguma beldade santa.
Não resistir a minha curiosidade e perguntei: “Sabe tocar?”, já ele apenas olhou para mim e se voltou ao piano abrindo-o.
Passou os dedos pelo teclado deixando alguns sons escaparem. Fui ate em um dos vários pufes e me joguei. Queria ver o que iria fazer, provavelmente não sabia tocar, o pouco que me lembro dele na época que frequentava a sua casa era que nunca havia gostado de me ouvir tocar ou do irmão. O máximo que deveria fazer era soltar uma oitava* e nada mais. – Admito que fiz uma pergunta besta.
Ele posicionou os dedos e tocou. Uma nota ia se soltando atrás da outra e rapidamente meus ouvidos perceberam o que tocava. Belive, da Cher, invadia o meu apartamento. Suas notas iam ficando maiores na minha cabeça. Não tive capacidade de fazer mais nada além de olha-lo. Seus digitais viajavam sobre o teclado de um modo que parecia que fossem acostumados com aquilo. – Era uma indireta para os meus pensamentos, um acredite.
Suas costas estavam retas e seu rosto centrado no que fazia. E oh merda, ele estava mais parecido ainda com o irmão. Mais uma vez pensei que havia voltado no tempo, como na época de escola, quando sentávamos no piano da sua casa com Dona Mônica na cozinha preparando o almoço ou quando ele veio para cá e fazíamos o mesmo.
Aos poucos o som ia se acabando e dando lugar ao silêncio. Foi só quando tudo ficou calmo que percebi que já havia escurecido, mas não me levantei, continuei a olhar para ele.
Lucas fechou o piano e cravou suas orbitas cinzas em mim e mais uma vez naquele maldito dia sorriu mostrando todos os dentes. – Se aquele garoto continuasse ali eu enlouqueceria. Nem um dia se passou e tive mais viagens ao passado do que nesses últimos três anos sozinhos.
Balancei a cabeça para que quem sabe assim os pensamentos me escapassem e me deixassem em paz. “Você toca muito bem.” Elogiei me levantando e parando a sua frente. “Já arrumei o seu quarto, não tem mais nenhum vestígio de Martins mais velho por lá.” Dei uma risadinha apenas para descontrair e sai para a cozinha.
Ouvi passos atrás de mim. Ignorei isso, não estava com saco para ficar olhando para ele e lembrando do Guilherme a cada segundo. Estava na minha casa, não que o fato dele não estar ali fosse mudar alguma coisa como deu pra perceber com o quarto, ter ele ali definia muito mais as lembranças.
Argh! Sou um homem ou um rato?
Abri a geladeira e comecei a pegar as coisas para fazer algo para comemos. Só pude ver de canto que ele sentou em um dos bancos do balcão e apoiou um dos lados do rosto na mão e outra brincava com a cabeleira preta.
“Então...” comecei, puxando assunto, “em que ano você ‘ta, sabe, na escola?”.
Antes de me responder Lucas passou a mão do cabelo ate o rosto deixando os fios mais bagunçados. “Hm... Eu abandonei a faculdade antes mesmo de entrar.”
“Não passou?” perguntei como quem não quer nada.
“Não, eu passei, passei em primeiro lugar em uma federal...” – Okay, o garoto era algum tipo de gênio. Que coisa legal, pelo menos ele era inteligente. Não, pensando bem ele não era inteligente, se fosse não teria abandonado os estudos, ainda mais passando em primeiro e pra piorar em um federal.
“Isso não foi muito esperto da sua parte” comentei, para ver o que havia levado a isso, mas depois de alguns segundos em silencio percebi que não teria resposta. Continuei a conversa, “Ia fazer o que?”.
“Medicina.” Foi à resposta simples que o moreno me deu. O que passou pela minha cabeça quando ouvi isso foi um bom e grande ‘Filho da puta ignorante!’. – Isso foi a maior burrice a qual já ouvi. Quem é que passa em primeiro lugar em uma faculdade federal para medicina e não cursa? Tem que ser muito burro mesmo!
“Por que desistiu?” tive que ser direto. Afinal, eu iria conseguir dormir se não soubesse o motivo que levava a alguém fazer um negocio desse. “Medicina não é fácil, você tem que ser muito inteligente para ter passado em primeiro.”
“Hm. Esse o problema.” Um suspiro escapou, “Eu só sou inteligente. Só estudava que nem um demente e pronto.” Deu pra perceber que ele segurava isso há bastante tempo, pois assim que começou nem parou para respirar e continuou a tagarelar, “Sempre tive notas ótimas em qualquer matéria, minha pior nota era matemática e eu tirava noventa e quatro na soma total. Ninguém nunca me perguntou se eu estava cansado ou algo do tipo, simplesmente só queriam ver que eu era o gênio e ponto. Assim que entrei no último ano da escola a Mônica espalhou para vizinhança toda que o seu filho e futuro medico já estava praticamente na porta da faculdade.”
“Nem me perguntaram se era isso que eu queria. Não tenho paciência para com ninguém, imagina ter que ficar de bla bla bla com um paciente ate que ele entenda o que tem? Provavelmente eu o mataria na primeira pergunta que eu considerasse idiota!” enfim parou e respirou fundo. Peguei um copo no armário e enchi com água gelada ate a boca e o entreguei. Em um galo único acabou. Sorriu fraco para o tampão do balcão e prosseguiu: “Que merda seria da minha vida se nesse exato momento eu tivesse fazendo aquele curso idiota? Não seria o que eu queria, seria infeliz para o resto da vida tendo que dar péssimas noticias para os outros. – Não nasci para isso.”
Não fiz nada. Como responderia aquilo? O cara praticamente desabou as palavras na minha cabeça. Provando-me que chama-lo de idiota e burro antes de saber os motivos foi bem retardado da minha parte.
Mas eu conseguia imagina-lo vestido todo de branco com um jaleco e prancheta na mão. Não me parecia improvável ou algo do tipo, pelo contrario, estava escrito na testa dele. – Claro que não falaria isso para ele.
Sorri, mais uma vez mentiroso e continuei a preparar a comida. A conversa depois daquilo fluiu calmamente. Falamos de tudo um pouco, entre coisas serias a banais, de política a musica. Descobri que ele não sabia tocar piano, apenas aquela musica, mas que se dava muito bem com o violão. Lucas ate deu uma pala da sua voz e cantou, e pude ouvir que era bem afinada, cantava bonitinho.
Na verdade, mesmo que parecesse que ele tivesse no máximo uns vinte anos, ele tinha dois a mais que isso. Que não trabalhava – isso me incomodou, mas por hora deixei passar -, falava inglês e espanhol fluentemente. E o principal, era um vagabundo que não queria nada com nada.
Depois de jantarmos e arrumamos as suas coisas no antigo quarto do Guilherme já passava das duas da manhã e como teria que trabalhar em algumas horas as luzes da casa foram desligadas e Morfeu deu a graça dos seus poderes por ali.
...
Notas finais
- Por favor, deixe seu recadinho ai embaixo. ;)
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