Notas iniciais
Boa leitura! :)

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Setembro de 94’

Por ProngsPink

Betado pela Jess.

“Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer que não existe razão?”

– Eduardo e Mônica, Legião Urbana.

Tomando um gole curto do café amargo na xícara olhei mais uma vez o jornal daquele dia. Abrindo nos classificados, ignorando até mesmo o caderno de esportes, fui logo à procura de um novo lugar para morar. Claro que tudo era culpa minha, mas mesmo assim... Pensar que teria que mudar porque ninguém poderia viver com o meu ‘eu’ era muito triste. Melancólico. – Está se perguntando, não é? Tudo bem, isso pode ser explicado.

O garoto – sim, eu não passo de um garoto, obrigado – que não tinha mais de vinte dois anos estava sendo expulso de casa. Motivo? Mamãe havia me pegado anteontem com outro cara na mesa da cozinha, a mesma a qual minha xícara com o líquido negro que já estava pela metade se encontrava em cima. Nem precisa dizer que minha mãe estava exagerando, certo?

Nome do expulsado é Lucas, eu no caso. Abandonei a faculdade antes mesmo de entrar, já que assim que fui aceito em uma federal desisti. Bebo, fumo e ando de cueca pela casa sem me importar se alguém está vendo ou não. De acordo com a mulher que me colocara no mundo: “Um imprestável sem serviço. Que só sabe comer e dormir!”, na maioria das vezes logo após essa fala muito gentil vem um ‘levante desse sofá’, mas tudo bem.

– Agora ali estava eu atrás de um lugar barato para enfiar minhas cuecas sujas. Suspirei em uma tentativa de ignorar a porta do cômodo sendo aberta de modo brusco.
“Levanta essa bunda daí e saia logo da minha casa!” resmungou a mesma mulher que me flagrara na noite retrasada.

“Fala serio né, mãe!” – Okay. Estava pegando um pouco pesado, mas porra, ela já sabia que sobre as minhas preferências entre um homem a uma garota. Ela já havia me visto várias vezes com outros caras, ai vê uma única vez comendo um e fica toda chocada. Não era como se ela não imaginasse...

“Olha o jeito que fala comigo, moleque.” antes mesmo de começar uma frase para rebater Mônica, minha mãe, me atropela nas palavras. “Arrumei tudo para você, garoto ingrato!”

“Perdão?”

“Liguei para aquele amigo do seu irmão. Aquele que mora na cidade.” Mônica franziu as sobrancelhas querendo lembrar-se de algo “Não me lembro do nome...”.

“Diego, mãe.” lembrei por ela.

Diego. Lembrava-me muito bem dele. Ôh, se lembrava... Um cara mais velho, com cheiro de cigarro e colônia. Tinha um apartamento na capital, morava sozinho e se não estivesse enganado esse tal de Diego não valia a comida que comia.

Meu irmão vivia resmungando pela casa na época do ensino médio que Diego sempre o deixava na mão depois que ambos aprontavam alguma. – Acho até estranho o fato de Mônica ligar logo para ele, já que ela deixava bem claro que Diego não era uma influência muito boa para seus filhos. Mas quem sou eu para reclamar? Se o cara tiver aceitado o convite da mamãe, isso significa que minha vida melhoraria e muito!

Ah, posso até imaginar esse meu corpo branco (mas saudável okay?) deitado num sofá o dia inteirinho com uma lata de cerveja numa mão, um cigarro no outro, a televisão ligada num filme qualquer. Para melhorar tudo, um cara bem gostoso deitado com a cabeça no meu peito, com a cintura encaixada na minha, nossos membro—

“Ouviu o que eu disse garoto?” a voz grossa da minha mãe me chamou para mundo real. Graças a Deus, minha imaginação já estava indo para onde não devia. Tsc, e eu aqui nada além de uma Box preta. E se eu ficasse duro aqui? Argh! Quero nem imaginar.

“Que foi Mônica?” antes de responder resmungou algo sobre chamá-la de mãe, mas ignorei.

“Arrume suas coisas e caia fora daqui, o endereço do amigo do seu irmão esta na mesinha do quarto”. Ótimo. Legal isso, amor que essa mulher tem pelos filhos é lindo de se ver. Só que não.

Bufei alto como resposta a ela e marchei até o meu quarto no fim do corredor. Assim que passei pela porta a bati com toda a força que tinha. Raiva, só podia sentir a raiva correndo pelo meu corpo. – Como ela podia fazer isso? Com toda essa frieza? Sou o filho dela caralho! Será que ela não tinha nem um pouco de amor ou carinho por mim?
Engraçado essa raiva que estou sentido agora. Era para estar acostumado com isso, afinal desde que ela descobriu que eu era gay qualquer tipo de carinho foi anulado. Tudo bem que ela é uma mulher muito religiosa, frequenta a igreja toda terças, quintas e domingos, mas poxa! Se ela ainda reclama pelo fato de chamá-la de Mônica e não de mãe, isso ainda significa que na cabeça preconceituosa dela que ainda sou seu filho mais novo. Então pra que demônios ela me trata com tanta frieza? – Ah desisto de querer saber.

Peguei a mala debaixo da cama colocando-a em cima da mesma e virei nos calcanhares. O guarda-roupa velhos cheio de adesivos de bandas, propagandas e movimentos hippies passados.

Se você pensa que a década de noventa e algumas passadas foram as melhores épocas da música, principalmente do rock alternativo, concordo com você. – Iria sentir saudade dessa madeira descascada. Minhas bandas favoritas estavam ali.

Legião Urbana, Engenheiros do Hawai, Los Hermanos, Barão Vermelho, Mutantes, Beatles, Guns’n’Rose, Ramones, Cher, entre outros. Infelizmente não poderia levar os discos e CDs comigo já que estes pertenciam ao meu irmão também. Realmente sentiria falta das minhas músicas, mas sobreviveria.

Abri o móvel e joguei as primeiras roupas que via pela frente, depois algumas cuecas, sapatos e por fim de higiene pessoal no banheiro da porta ao lado.

– Como será que o Diego é, hein? Não o vejo desde a época do ensino médio do meu irmão, isso faz um bom tempo. Guilherme, meu irmão, fez faculdade por lá. Na verdade ele morou quase dois anos com o Diego, mas eles brigaram por algum motivo desconhecido até hoje. – Não que eu ligue muito, sabe, mas bem que seria legal se alguém me falasse como ele esta agora. Sei lá, vai que o cara é algum tipo de drogado hoje? Putz, dona Mônica é louca ‘tá’ vendo!?

Sério, que mãe que faz um troço desses, manda o filho mais novo para casa de um desconhecido que quando adolescente ela considerava um baita de um filho da puta? Mônica é claro!

Fechei a mala de qualquer jeito e a coloquei no chão. Peguei o pedaço de papel com a letra horrível da minha mãe, lá estava o endereço do tal. E seja o que Deus quiser. Amém! Antes de sair e despedi da casa a qual morei por toda a minha vida vesti uma camiseta preta com gola ‘v’, uma calça jeans da mesma cor e tênis brancos.

Passei pela última vez pela porta avermelhada do meu, agora, antigo quarto e fui novamente à cozinha. Mônica estava sentada na cadeira que antes eu ocupava tomando café em um copo transparente muito parecido com o de massa de tomate. “Estou indo...” sussurrei fraco, mas sem deixar minha voz quebrar. Iria embora sim, mas não de cabeça baixa, foi uma escolha dela, não minha.

“Vai tarde.” A voz baixa e chorosa dela rebateu de volta. Fechei os olhos fortes tentando a todo custo não cair de joelhos ali e pedir para ficar. – Eu podia sentir de longe que mesmo com toda a frieza que ela me tratava nos últimos anos a tristeza a envolvia pela minha ida.

“Então... Até um dia aí, mãe.” Me despedi saindo pela cozinha para o quintal, fechei a porta de vidro quebrada na parte de baixo.

Ainda fiquei ali por um tempo. Aquele rachado no vidro da porta me chamava para entrar e implorar para ficar. Mas não faria, ela escolhera atirar o filho para fora de casa. A briga havia sido feia demais para agachar aos seus pés e implorar. Viadinho de merda que só sabe dar a bunda. Será que ela não percebeu que eu estava comendo uma e não dando? – Ri uma risada sem humor que surpreendeu até a mim.

Eu a amava. É claro que amava. Minha mãe.

Eu ainda voltaria para ela assim que tudo passasse. Ficaria um tempo longe, um ou dois anos e depois voltava, tenho certeza que estaria morrendo de saudade e arrependimento. Ou assim eu acreditava.

Respirei fundo virei para rua caminhando decidido. Teria dinheiro o suficiente para chegar até a capital, mas não para pegar um ônibus até a casa do Diego, mas daria um jeito, nem que tivesse que ir a pé.

...

Notas finais
Bom, perdão pelos erros de português que pode haver durante o capítulo. Um aviso, a estória se passa na década de 90', mas em país e cidade, tudo fictício, não real. Então se algo que não deveria estar ai, pois foi feito ou só aparece depois desta data, ignore.
Vale review? :)