Setembro de 94'
2 Retratos.
Notas iniciais
Setembro de 94’
Por ProngsPink.
“Deixa ser. Como será quando a gente se encontrar?
No pé, o céu de um parque a nos testemunhar. Deixa ser como será!
Eu vou sem me preocupar. E crer pra ver o quanto eu posso adivinhar.”
– Retrato de Iaiá, Los Hermanos.
O cigarro na minha boca estava quase a tombar no pano do sofá antigo. Não que ligasse muito, não passava de um móvel velho caindo aos pedaços. Posicionei a droga corretamente na minha boca, traguei puxando o máximo do gosto para a mim, soltando a fumaça branca no ar. Continuei a olhar as fotografias que havia feito de um parque daqui da Capital.
Eram belas fotos, tinha que admitir, mas estavam vazias. Mesmo que tivessem arvores, flores e pessoas sorridentes nelas. Não havia vida nenhuma ali. Suspirei. – O que diabos eu faria para voltar a fotografar como antes?
Não sei o que estava dando em mim. Um dia estava marcando os momentos da vida em uma ótima posição na lente no outro dia, lá estava sem foco.
Deixei que o book escorregasse dos meus dedos ate que caíssem no chão em um silencioso puft. Estava cansado e de saco cheio daquilo. Era só fotografar, tirar fotos. Fazia isso há anos, mas não é tão simples assim...
Mudando complemente de assunto. Ontem a dona Mônica, mãe de um velho amigo meu, ligou pra cá pra casa implorando que eu hospedasse o seu filho. Parece que o idiota andou fazendo sexo na mesa da cozinha. – Nunca comeria em cima dela novamente. Não que eu fosse convidado a fazer outra vez.
Eu respondi a ela sem pensar. Aceitei na lata, pelo simples fato de que adoraria que Guilherme voltasse a essa casa. Ele morou comigo por dois anos, os dois últimos anos da faculdade, mas acabamos brigando e ele se foi. Ainda posso ouvir a batida da porta quando fechos os olhos.
Escorreguei pelo sofá ate que esteve completamente deitado, um dos meus braços apoiados nos meus olhos e outro pendido para fora do espaço, o cigarro de modo frouxo na boca. Sorri com a lembrança, eu tinha a horrível mania de entrar no quarto de Guilherme sem bater na porta e varias vezes durante essas ocasiões, assim que entrava, ele saia do banheiro completamente nu e ainda molhado. Já casei de ver aquele corpo branco e bem trabalhado desfilando a minha frente sem pudor algum. Nunca reclamei pelo fato dele não se enxugar depois de sair do banho, pelo contrario, sempre estive feliz com isso – deste modo eu podia olhar toda aquela beldade sem ser julgado ou descriminado.
Quando ele foi embora o mundo meio que perdeu sua cor, eu sei que coisa mais clichê e gay para se pensar. Mas é a verdade. Naquele dia eu havia me declarado para ele, o beijei. Na real, eu estuprei a boca dele com a minha língua sem nenhuma vergonha e fui empurrado, xingado e humilhado. Eu amava aquele homem mais que as minhas obras de arte. Eu o amava mais que tudo, ate mais que viver e fui rejeitado como um nada.
Uma risada sem humor escapou pelos meus lábios.
Agora ele viria para cá, voltaria para mim. Mas uma boa parte de mim acreditava no contrario, ele não voltaria, provavelmente ficaria em um hotel barato por aí, mas jamais entraria pela aquela porta mais uma vez. – Desejava isso, desejava muito isso, mas sabia que a chance era minúscula.
Levantei-me e fui ate o som o ligando e deixando que a música que tocava invadisse todo o apartamento. A voz suave do cantor acariciava o meu momento melancólico. Los Hermanos tocava mais uma ótima musica e a letra dela gravava na minha mente.
“Ouvi dizer do teu olhar ao ver a flor. Não sei por que achou ser de um outro rapaz.
Foi capaz de se entregar, eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim.
Mas mesmo assim...”*
Sim, eu fiz de tudo par que ele olhasse para mim, para tê-lo. Não consegui. Eu queria do fundo do meu coração, com todo poder dele que uma flor qualquer me trouxesse alguém para amar, mas que esse amor fosse correspondido. Porque te digo uma coisa, a pior dor é a de ser rejeitado.
Olhei em volta e pude ver que a infelicidade morava ali a um bom tempo. Os quadros que antes eram floridos e coloridos, agora eram monocromáticos e mortos. Fotos sem vidas bagunçavam o chão, meu violão estava em um canto juntando poeira e meu tão precioso piano estava fechado, sem saber o que é luz há anos. – Eu estava em decadência, numa novela de baixa audiência. Aquilo era algum tipo de depressão, certo?
Quando é que aquele apartamento aberto e sempre alegre iria voltar? A janela que eu tanto amava a visão estava trancada e com duas cortinas grosas escorriam por ela, eu gostava da cor da madeira dela. A estante de livro que sempre estava desarrumada, pois sempre havia um livro ou disco fora do lugar estava intocada. Os pufes e almofadas estavam gelados.
Direcionei meus olhos para cima. As lâmpadas que desciam pelo teto junto as garrafas coloridas que brilhavam quando tinha luz tocando-as estavam apagadas e toda a magia de ficar ali em baixo não me apreciava tanto mais.
Prendi a respiração e fui à cozinha preparar um chá, mas antes que eu pudesse fazer a campainha soou. Dei um pulo de susto no lugar e logo me recompus indo atendê-la.
No olho mágico vi um garoto, que estranhamente me lembrava alguém, que parecia cansado. Abri a porto em um click e pude o ver melhor. Parecia ter uns dezenove ou vinte anos, por ai, era alguns poucos centímetros menor do que eu. Usava jeans e blusa preta com tênis estilo colegial brancos. Mas o que me chamou atenção foram seus olhos e cabelos. As madeixas eram negras, os fios brilhavam em um reflexo castanho e seus olhos eram cinzas, mas tinham invisíveis linhas de azul... Como o céu durante o dia. A boca, o nariz, o formato do rosto me lembrava a ele.
Limpei a garganta abrindo a porta um pouco mais e disse “Pois não?”.
O garoto trocou o peso dos pés parecendo desconfortável, coçou a parte de trás da cabeça e respondeu baixo, se eu não estivesse tão perto provavelmente não teria o ouvido, “Ei. Hm... Sou Lucas”.
“Perdão?”
“Sou Lucas, irmão do Guilherme, minha mãe te ligou.” Como? Abri a portal completamente, ficando frente a frente com ele.
Este é o irmãozinho do Guilherme? Do que me lembrava dele era um garotinho magricela e cheio de espinhas e não esse cara. Ele pode parecer ter dezenove, mas te descrevo que não tem nada magricela aqui na minha frente. O corpo, mesmo com a roupa, da para ter uma boa noção de ser bem trabalhado, não como do mais velho, mas deve ser bom. “Você quem vai ficar aqui?” perguntei. Não me leve a mal, mas eu estava esperando o cara a qual me declarei e não o seu irmão mais novo.
“Hm, sim.” Eu teria que viver com um adolescente? Não posso hospedar um garoto na minha casa. Olhe essa muvulca, não há nada que um adolescente pode conviver. Tem garrafas de bebida espalhadas pelo apartamento, restos de cigarros e ainda o cheiro.
Sabe o que sinto agora? Que toda a esperança de ter Guilherme aqui foi ao lixo...
“Desculpe, ela não te ligou, não foi?” Lucas soltou do nada, parecia que entrava no começo de um chilique. “Ela não fez isso! Aquela velha!”.
“Ela ligou.” Eu havia prometido a Mônica que o receberia, mesmo que ela não gostasse de mim. Sem escolha, já que ele havia tocado na mãe me lembrando do telefonema dela, o deixei entrar. Quem sabe ele desistiria e iria embora depois do que visse nesse breu.
Por breves horas tive que jogar todos os meus lamentos em um baú na minha cabeça e dei atenção ao garoto. Não o deixaria na rua.
...
Notas finais
- Como assim você vai embora sem me dizer o que achou? Por favor, deixe o seu review ai em baixo. ;)
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