Sete reinos

2 1 - Antes do medo


O TEMPO AINDA não era medido por calendários. Não havia o senso matemático e frívolo das horas e dos minutos. As pessoas aproveitavam seu tempo apenas sentindo os dias amanhecerem, o calor do Sol, seu entardecer e a Lua surgir no céu era o sinal de que crianças precisavam estar em suas camas, dormindo em segurança. Famílias em suas casas simples, mas cheias de sossego, sem que nada lhes faltasse. Os mais velhos sentavam às portas das casas e tomavam o sereno para alivio de dores, pois nele vinha sempre um cheiro de mato, flores, terra e chuva, ainda que não tivesse chovido. A terra produzia tudo o que era plantado, as pessoas trocavam itens de sobrevivência umas com as outras, e nem dinheiro era pensado na maior parte dos povos. Mas já se sabia rumores terríveis.

Em algumas civilizações – se é que dominar um povo pode ser chamado assim – o senso sobre valores foi destruído pela ganância. Nestas partes do mundo, tão remotas e distantes, a ambição sobre o ouro, a prata, as riquezas, consumiram o que corações humanos viveram tantos anos tentando crescer desde crianças: altruísmo, honradez, amor, proteção e empatia. Conquistadores ferozes tornavam-se cada vez mais poderosos usando de armas violentas e de vilania para, derrubando tudo o que encontrassem em seus caminhos, tornarem-se cada vez mais poderosos e dominadores. Para estes, nem quilômetros de oceano poderia impedi-los de caçar riquezas e de escravizar.

Em lugares mais afastados, como dentro das florestas e em clareiras, havia ainda povoados onde essa destruição não havia chegado. Apesar disso, alguns líderes, pensando em proteger seus amados, cercaram-se erguendo torres de vigilância e enviando mensageiros a diversas partes da mata, para que, ao menor sinal de perigo, voltassem o mais rápido para avisar aos vilarejos próximos e que pudessem fugir.

Não tardou para que estes povoados tão protegidos pela Natureza acabassem descobertos. Mensageiros e espias apareceram mortos, pois eram descobertos por hordas de guerreiros e caçados dentro das matas! Os líderes, vendo que seus enviados não retornavam, passaram a dispersar seus povos em grupos separados a vários destinos: embarcavam famílias inteiras em charretes carregadas com víveres e mantimentos e estas buscavam as estradas mais próximas para fugir mais depressa! Não poderiam olhar para trás, nem desviar-se; sabia-se que conquistadores haviam espalhado seus caçadores pelas florestas, fortemente armados e prontos para saquear tudo o que encontrassem, raptando mulheres e crianças. Nas estradas e hospedarias no caminho, rumores de devastação.

Em sóis e luas muito breves, os povos mais pacíficos e hospitaleiros haviam desaparecido. Suas vilas e vilarejos estavam vazios... A mata cresceria ao redor. Logo, não haveria mais nada ali. A não ser o silêncio.