Sete reinos

3 2 - Nas sombras e na luz


TUDO HAVIA sido deixado para trás. Casas, culturas, criação de animais, propriedades, sonhos. De um instante para o outro, famílias inteiras viram-se em comboios no meio da estrada, num nevoeiro de terra que não parava nunca, sem saber o que pensar. E sem lar. E sem saber que destino teriam.

Não sabiam se poderiam voltar. Nas carroças, adultos e crianças se apertavam entre pacotes de roupas, cobertas, mantimentos. Homens resmungavam, mulheres lamentando, idosos silenciavam em sua consternação. Os pequeninos às vezes choravam, às vezes sorriam... Em volta, tudo parecia ser sempre noite. Olhavam ao redor, e tudo o que viam era a estrada que parecia não ter fim. De cada lado, a floresta; que agora, parecia expressar dor por ter perdido a paz, parecendo sombria e escondendo ameaças para se proteger de quem antes a preservava... Havia animais ferozes ali, e muitos outros mistérios.

Era arriscado parar a carroça para pedir ajuda em algum lugar. Naturalmente, haviam lugares como albergues e abrigos. Mas agora, ninguém mais parecia ser de confiança como antes. Ademais, tentar entrar na mata para colher algum alimento ou caçar poderia levar horas e colocar em risco a quem estivesse naquela carroça e as outras.

O tempo, sem nenhuma medida, parecia agora muito mais lento, às vezes parecia parar ali, no cansaço dos cavalos, nas roupas sujando de poeira, na secura das gargantas que falavam muito pouco agora, por medo de ser descobertas e por desilusão.

Uma destas famílias era a do comerciante Haniel. Era um homem já vivido, seus pais já haviam falecido havia muito tempo e ele herdara um armazém de secos e molhados na vila onde crescera. Casado com Nélida, a filha da artesã Cora – que também viajava com eles, já muito idosa e segundo sua filha e genro, parecia não ser mais muito lúcida, pois sempre falava coisas que pareciam não ter sentido – o casal tinha três filhas: Lygia, Hilda e Vigna, a quem a avó sempre chamava como Salém e esta sempre atendia como se recebesse melhor a este nome do que o de nascimento.

Lygia era parecida com o pai em temperamento: forte, parecia ser rude nos tratamentos, mas era apenas sua defesa. Talvez acreditasse que ser corajosa para ajudar os pais no sustento da casa lhe exigisse ser muito dura, consigo mesma e com as pessoas ao redor. Era sempre a que mais reclamava com as posturas inquietas de Hilda, contudo, era de amor devoto à avó e extremamente protetora a Vigna Salém. Aliás, era a única ali que chamava a caçula pelo nome composto. Achava engraçado quando Dona Cora reclamava: “Salém não é para ser chamada de Vigna, esse nome é pequeno demais para ela...”. E Lygia respondia:

— Ora, vó! Salém também é nome curto e a senhora sempre usa... – E ria-se sempre disso. Era das poucas vezes que ria. Depois da fuga, Lygia vinha chorando escondida dos pais. Temia não poder nunca se casar e ter sua família, como sonhava. Mas nada dizia.

Hilda era jovem, adolescente voluntariosa. Vivia perguntando porquês ás ordens dos pais e da irmã mais velha. Mas aquela conduta era na verdade por insegurança, por medo do que vivia, medo de perder seus pais, a avó, a pequena Vig, como apenas ela a chamava. “Aah, tá bem, Salém!”, enfadava-se sempre que a caçula não respondia quando chamada pelo apelido. Hilda era corajosa, queria sair pelo mundo, ver se era verdade que havia reinos e castelos! Queria ver pessoas e ouvir histórias de outras vilas como aquela onde nasceu. Na verdade, embora tivesse medo da viagem sem rumo, a empolgava a possibilidade de novos lugares.

Vigna Salém. Sua irmã mais velha a chamava assim, mas ela apenas a encarava em silêncio.

Ou Vigna, como seus pais a chamavam. Nunca os atendia na primeira voz, eles já haviam se acostumado, talvez...

Ou Vig, como chamava-lhe Hilda. E ela apenas sorria.

Ou Salém, como a batizou sua avó, a quem sempre obedecia imediatamente. Às vezes, tinha-se a impressão de que a obedecia antes mesmo que lhe chamasse.

A pequena era muito parecida com sua avó quando criança: esguia, rosto muito redondinho e pele amorenada, cabelo farto e longo, de um castanho muito escuro. Era o amor das vidas naquela família, tudo girava em torno dela. A chamaremos de Salém durante toda esta história.

Salém era o tipo de criança atenta, observadora e esperta. Falava pouco, mas parecia sempre dizer algo relevante e definitivo em conversas. Hilda certa vez, lhe disse:

— Você fala como se fosse um adulto, dizendo a eles o que fazer. O estranho é que eles nem continuam a conversa quando você fala...

Salém sempre se lembrava disso. Ali, contava nove renovos. Como não houvesse calendários, não havia como contar aniversários, e datas de nascimento na verdade eram as fases do crescimento: o primeiro dente que nasce na criança, a primeira fala, o aprender a andar... Para Salém, quando trocou o primeiro dentinho, a avó deu-lhe um relicário de cobre para usar ao pescoço. Dentro, o dente estava guardado, junto com uma ponta de seu cabelo quando foi cortado pela primeira e sua primeira unha aparada. Salém nunca o tirava, nunca. A avó lhe dera esta ordem, apenas uma vez:

— Sempre o tenha em seu pescoço, jamais o tire. Estas lembranças dentro dele são para avisar você de que crescerá em breve e será uma mulher forte. Você vai proteger sua família, sua vida, e os que você amar. O colar deve estar sempre em seu pescoço para que fiquemos todos com você onde quer que esteja. Quando crescer, se tiver filha, então os lembretes poderão ser trocados pelos dela. Até lá, ele é como se eu, sua mãe e suas irmãs estivéssemos sempre com você. Nunca se esqueça disso.

Salém não se esquecia. Sem ser vista, abria o relicário todos os entardeceres e observava o dente, a mecha de cabelo e o pedacinho minúsculo de unha. E sempre pensava em quando eles foram parar ali. Seus olhos âmbar, da mesma cor que os de sua avó, pareciam acender quando ela olhava para o pequeno coração de metal rosado.

E sempre fechava os olhos ao fechá-lo, deixando suas intuições renovarem. Ela sabia que algo mudaria a vida de todos. Mas silenciava.

Aquele era seu ritual. Nunca se escondia para realizá-lo. Mas nunca a notavam quando o fazia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.