Sete Dias
1 Primeiro dia
Seus passos lentos, cuidadosos e estudados o levaram de mansinho e sem nenhum ruído ao pequeno corredor escuro da casa. Havia quatro portas à sua frente. Lentamente levantou seu braço direito e esticou seu indicador.
- Uni duni, tê. – Fez ele apontando para uma porta a cada sílaba. – A escolhida foi você… — Seu dedo indicador parou na primeira porta do corredor e ele mostrou seus dentes, numa forma de sorriso — aquele sorriso gélido e macabro em seus lábios que causavam o terror de quem o via.
Abriu a porta sem nenhum barulho, devido sua constante prática nisso, e entrou no quarto.
O relógio digital em cima de uma prateleira dizia que eram exatamente duas horas da manhã.
Enfim chegou à cama, onde uma pessoa estava coberta até a cabeça, dificultando assim, a visão de seu rosto.
A mão livre dele foi de encontro com o cobertor, tirando-o suavemente da cabeça da pessoa. Quando o rosto foi descoberto, percebeu que se tratava de uma menina, cujas feições eram inigualáveis (Nosso maníaco sabia disso devido sua vivência no escuro – com o tempo sua visão foi acostumando-se com o escuro e agora ele podia ver tudo claramente, como se ainda estivesse de manhã). Ele gelou, não conseguia levar sua afiada faca até o rosto dela e dizer sua famosa e mórbida frase “Vá dormir”. Era como se sua humanidade estivesse lutando para voltar.
Como se percebesse que alguém a observava, a menina lentamente abriu os olhos e fitou aquele rosto macabro do maníaco. Mas apesar de as expectativas dele serem de que, ao acordar ela começaria a gritar, a menina apenas fitou-o curiosa e silenciosamente, como se quisesse saber se era real ou se ela ainda sonhava.
Levantou-se então da cama rapidamente, causando um espanto do maníaco, e correu até o interruptor, acendendo a luz e revelando que aquilo estava realmente acontecendo com ela.
Ela fechou lentamente a porta atrás dela, trancando-a, e foi andando bem devagar até o conhecido menino parado à sua frente observando-a com olhos curiosos.
“Por que ela ainda não correu gritando? Por que eu não consigo matá-la?” Ele se perguntava.
- Jeff! — Exclamou ela, emocionada.
Ela levantou seu braço direito e com os dedos, acariciou a face de seu assassino favorito, sentindo sua pele branca e queimada e sua cicatriz em forma de sorriso na ponta de seus dedos.
Ele permaneceu parado, sentindo o toque dela com um estranho conforto e ansiedade.
- Você é tão… horrivelmente bonito. – Sussurrou ela. — Não sabe o quanto eu esperei por esse momento. Muitos dizem que eu sou maluca por amar um psicopata – Desdenhou a palavra – como você. Mas eu não ligo para eles. Eles são uns idiotas. – Riu baixinho, fazendo o coração de Jeff, que até então parecia estar morto, bater forte, como um tambor em um ritmo acelerado.
Inesperadamente, e para espanto de Jeff, ela o abraçou.
Jeff não reagiu, apenas ficou parado, sem saber se correspondia ou não.
- Não se preocupe. – Sussurrou ela em seu ouvido, causando-lhe um tremor gostoso no corpo. – Eu não mordo. – Ela riu deliciosamente e soltou-o.
Ela sentou-se em um pufe macio no canto do quarto e puxou Jeff pela mão para sentar-se em outro.
Eles começaram a conversar, ou melhor, ela começou a falar e Jeff apenas ouvia sem querer interrompê-la. Apenas queria ouvir sua voz e sua deliciosa risada quando achava algo engraçado.
Naquela noite ele descobriu praticamente tudo sobre ela (Sem precisar perguntar nada, pois ela não parava de falar um segundo sequer). Descobriu que seu nome era Mary Anne; ela tinha 17 anos iguais a ele; que ela o conheceu pela internet, pois ela adorava pesquisar sobre histórias de terror e um dia acabou por encontrar uma sobre ele e simplesmente se apaixonou. E falou em tantos outros assuntos sem precisar de incentivo da parte de seu estranho amor.
Jeff, além do motivo já citado à cima, não falava também, pois ele tentava entender porque não sentira o seu lado assassino na hora em que a viu. Tentava entender porque o seu lado humano e sentimental voltou a tomar posse de seu consciente. Mas não havia respostas para suas perguntas. Quanto mais ele perguntava, menos tinha respostas e mais perguntas surgiam, como que automaticamente a respeito disso.
Ele queria entender. Ele precisava entender, mas sentia que não tinha essa capacidade por enquanto.
Era estranho para ele ter sua parte humana de volta depois de tanto tempo tendo o prazer de matar; agora sentia repulsa, nojo e raiva de si mesmo por ter matado tantas pessoas inocentes sem motivos óbvios, apenas por prazer.
“E que droga de frase eu inventei!” Exclamou ele com seus botões “ ‘Vá dormir’ de onde eu tirei isso?”.
Foi quando ele percebeu que Mary já dormia tranquilamente ao seu lado. Ele levantou-se e pegou-a nos braços, levando-a até sua cama e cobrindo-a.
Ficou alguns minutos ao seu lado, vendo-a dormir e ainda indagando-se a cada segundo. Foi quando olhou para o relógio e viu que agora constavam cinco horas e quinze minutos da manhã.
- Já está na hora. – Suspirou e foi embora, mas não sem antes depositar um selinho nos lábios de Mary Anne. – Meu último primeiro beijo. – Murmurou já fora do quarto.
Aquela era uma promessa de nunca mais voltar. Ele sentiu-se estranho esta noite e não queria passar por isso novamente. Era uma novidade incômoda para ele.
Enfim saiu da casa, deixando-a como se não tivesse estado ali há alguns poucos segundos, um pouco frustrado por perceber que seu lado “humanóide” ainda tomava conta de sua mente. Ele pensava que sair daquele lugar e se distanciar um pouco de Mary faria seu lado psicopata voltar e tudo seria como deveria ser. Porém não foi assim.
Em seu esconderijo, sentiu-se mais incomodado ainda ao se olhar no espelho e ver, pela primeira vez, o quanto suas cicatrizes eram horrendas e perguntava-se o que havia de tão encantador nele que chamou a atenção de Mary.
“Mary… Mary… Mary…” Não parava de pensar ele e assim passou a maior parte do seu tempo. Descobrindo o que era amor e vendo esse sentimento expandir-se a ponto de fazê-lo sentir saudades de Mary.
“Não!” Pensou ele, discutindo com seu lado que queria intensamente voltar naquela madrugada para vê-la novamente. “Eu sou um assassino! E assassinos não amam pessoas. Assassinos amam matar pessoas.”
Mas ele sabia que não era exatamente assim com ele, ele já não se considerava um assassino mais. Tudo em que ele pensava girava em torno de Mary Anne…
Fale com o autor