Sete Dias

2 Segundo dia


No dia seguinte, quero dizer, algumas horas depois do encontro inesperado, Mary Anne acordou feliz, causando um espanto de sua família. Ela costumava ser mais fechada com todos e nunca acordava de bom humor, mas hoje era diferente e mal sabia seus pais o motivo dessa felicidade toda. Não argumentaram com ela, porém, e resolveram aproveitar enquanto durasse esse comportamento estranhamente… estranho.

Nada foi mencionado também da parte de Mary sobre o motivo de sua súbita felicidade, não queria passar por uma louca para seus pais e esperava, sinceramente, ver Jeff novamente.

Essa esperança foi tão alimentada no decorrer do dia que à noite deixou a porta de trás destrancada propositalmente e foi dormir, tendo um pouco de dificuldade devido sua enorme ansiedade – mas depois de alguns minutos rolando de um lado para o outro na cama, o sono a venceu, deixando a madrugada encontrá-la adormecida.

Além da madrugada, Jeff também a encontrou alguns minutos depois de ela pegar no sono.

Ele se sentia confuso, ainda tentava saber por que estava ali novamente. Com certeza aquilo foi contra sua vontade maior, mas ele sentia prazer em vê-la de novo e não se arrependeu de voltar.

Ele pensou em acordá-la, mas não foi preciso. Logo ela acordou e sorriu ao vê-lo parado observando-a. Mais uma vez correu até o interruptor e acendeu a luz do quarto. Jeff olhou-a de cima a baixo, e se ele pudesse, estaria de olhos arregalados, porém seus olhos já eram arregalados por si só.

Mary Anne olhou seu corpo e corou. Ela havia esquecido que estava somente com um sutiã e calcinha pretos.

– D-desculpe. – Sussurrou ela olhando para baixo e andando lentamente na direção da cama. – Eu costumo ficar assim em dias quentes, e hoje estava mais quente que o normal.

Ela finalmente olhou para Jeff, após ele ter impedido sua chegada à cama.

– Como você não está sentindo calor com este casaco? – Indagou ela, sentindo um pouco de sua claustrofobia atacar por ver ele naquele moletom super quente.

Ele, sem pensar direito (assim como sempre fazia quando estava perto dela), tirou o casaco, vendo que aquilo a incomodava um pouco, e viu o rosto dela ganhar uma cor mais vermelha ainda com tal ato.

A mão de Mary foi até o corpo definido e queimado de Jeff, passando os dedos por algumas cicatrizes – como havia feito na véspera com o rosto dele – e sentiu os pelos de seu braço eriçar.

Logo se viu envolta nos braços de Jeff, sentindo seu cheiro de pele queimada e outro perfume doce e suave que não conseguiu identificar. O abraço de Jeff, apesar de sem jeito, era confortavelmente alucinante para ela, que sentiu seu coração palpitar cada vez mais rápido ao perceber o quão íntimo aquele abraço estava sendo. Ela correspondeu ao abraço, ajeitando sua cabeça no peito esquerdo de Jeff e ouvindo seu coração bater em uma incrível sintonia com o seu.

Ele fechou seus olhos fortemente, gostando da nova sensação que havia dentro dele, e inalando o cheiro delicioso de morango que vinha dos cabelos de Mary.

Jeff traçou um caminho de ida e volta com movimentos tímidos de seus dedos nas costas de Mary, deixando-a mais arrepiada que já estava. Ela estava gostando disso e Jeff mais ainda.

Ela já havia tido essa experiência, mas Jeff não. Ela estava disposta a mostrar todas as experiências gostosas que conhecia a ele e também a ensinar coisas que seu lado assassino não lhe permitiu aprender. Ele viveria de uma maneira diferente de agora em diante com Mary ao seu lado.

Mary virou o rosto até encostar seus lábios carnudos contra a pele queimada de Jeff e ficou com eles ali, sentindo-se incapaz de se imaginar longe. Jeff percebeu esse gesto e um pequeno e gostoso tremor percorreu seu corpo, fazendo ele estreitar mais ainda seu abraço, trazendo Mary para mais perto do que pensaríamos ser possível.

Ele sentia que ela fazia parte dele, apesar de não conhecê-la por tanto tempo. Mas ele era capaz de saber que se ele se afastasse dela, poderia estar perdido no mundo. Ela o completava. Talvez ela fosse tudo o que ele sempre precisou para entrar no eixo. Talvez ela tenha nascido para ser sua âncora. Seu porto seguro. Sua alma gêmea.

Ele suspirou, inalando mais daquele delicioso cheiro que emanava do cabelo dela. Deu alguns passos para trás às cegas, ainda sem ousar se distanciar um centímetro sequer de Mary, até chegar à cama. Deitou-se cuidadosamente de lado, aninhando ela ao seu lado, entre seus braços.

Eles não falaram nada, apenas ficaram em um confortável silêncio enquanto pensavam em diversos assuntos.

Àquelas perguntas que se repetiam incansavelmente na mente de Jeff, ele já tinha uma respostas, mas não tinha coragem de admitir isso. Ele não se via tendo esse tipo de sentimento. Tendo uma vida normal. Mas, apesar dessa relutância, ele não podia negar que a resposta para tantas perguntas, para toda essa confusão dentro dele se resumia em uma pequena, porém cheia de significados – até então desconhecidos para ele -, palavra. Amor.

Ele não ousava admitir que estivesse amando Mary Anne, apesar de saber que era exatamente isso.

Amor, para ele antes, era uma pequena, simples e ingênua palavra que todos usavam, mas que não tinha um significado e que não era um sentimento. Ele sentia repulsa, nojo só de ouvi-la. Mas agora era diferente.

Ele estava sentindo, apesar de nunca ter o sentido antes, esse sentimento se alastrar perigosamente por todo seu corpo, chegando de mansinho ao seu coração. Era fácil reconhecê-lo, talvez mais fácil do que ele imaginava. Era quente, alucinante, enlouquecedor, ligeiro e… perigoso. Ele podia senti-lo quando via, ouvia, sentia ou até mesmo pensava em Mary Anne. Com certeza, ele era muito perigoso.

Mas Jeff adorava perigo.

Mary olhou o relógio e suspirou tristemente.

– São cinco horas já. – Sussurrou ela. – Você tem que ir.

Apesar desse aviso, ela apertou seus braços em volta de Jeff e escondeu seu rosto em seu peitoral nu.

Jeff suspirou também e afrouxou os braços a fim de sair da cama. Logo ele estava de pé perto da porta, já vestido com seu moletom branco e sua faca na mão, abrindo a mesma.

– Você vai voltar amanhã? – Mary ouviu sua voz perguntar, antes mesmo que pudesse se controlar.

Ela não queria deixar transparecer o quanto ela estava precisando dele junto a ela. Ela o amava, mas tinha certo receio de dizer isso em voz alta para ele e ele acabar se espantando.

Ele nada respondeu, apenas lançou-lhe um último olhar antes de sair de sua casa.

Ela suspirou e se encolheu, abraçando-se para tentar manter o calor de Jeff em seu corpo.

“Será que ele vai voltar?” Indagou-se inúmeras vezes até pegar no sono.