Sete
10 Não leve tudo o que eu digo ao pé da letra!
Notas iniciais
Capítulo 10 – Não leve tudo o que eu digo ao pé da letra!
Pedro, assim que ouviu tais palavras saindo da boca de Paulo, ele se benzeu, provocando uma risada escancarada de Paulo.
— Se pensa que vou puxar seu pé à noite ou quebrar uns copos na sua casa no meio da madrugada, está muito enganado. — Paulo se conteve — Sou um demônio do bem— Ele fez sinal de aspas com os dedos, pondo ênfase em “do bem”.
— Você é um demônio? — Pedro apontou para o mais alto. – Tipo... Você é bicho ruim? Capiroto? O-do-avesso?
Paulo voltou a rir.
O telefone de Pedro começou a tocar e ele, no mesmo instante, atendeu o mais rápido que pode, embolando-se com o aparelho em mãos.
— Alô? — Pedro falou com uma leve falta de ar.
Paulo não conseguiu ouvir a outra pessoa que falava ao telefone; a ligação não durou muito.
— Ok. Assim que eu chegar, visualizarei. – Pedro disse e, logo, desligou o telefone, guardando-o novamente em seu bolso.
— Quem era? — Paulo perguntou curioso.
— Amanda — Pedro disse com um sorriso no rosto em simpatia. — Com suas maluquices de sempre; nada demais...
— E, então... — Paulo parou um pouco, dando suspense no que iria falar. – Desde quando é apaixonado por ela? — Ele perguntou em tom natural.
Pedro se engasgou com a própria saliva, tossindo nervoso.
— Eu “o quê”? – Ele disse entre uma tossida e outra, contendo-se logo em seguida.
— Não minta pra mim. – Paulo deu uma risada de canto. – Eu sei que gosta dela.
— Fomos criados juntos. É óbvio que gosto dela. — Pedro disse com um sorriso sem graça.
— Não desse jeito— Paulo disse pondo ênfase em “desse jeito” – Você é apaixonado por ela.
Pedro riu.
— Por deus! Não! — Pedro retrucou. — Seria como beijar minha mãe.
Paulo riu baixo.
— Entendo... — Paulo fala com os olhos fixos na estrada — E sua sexualidade é?...
Pedro riu novamente.
— Por que está tão interessado na minha vida afetiva? — Pedro perguntou rindo, respondendo a pergunta com outra. — Quer me dar uns pegas?— Ele disse em tom brincalhão e descontraído. – É só pegar.
Paulo parou o carro com uma freada brusca, fazendo Pedro ir para frente.
— Por que parou? – Pedro desfez o tom brincalhão. — Aconteceu al-...?
Antes que Pedro pudesse completar a frase, Paulo segurou o moreno atrás de sua nuca, o virou para o lado e beijou.
Pedro arregalou os olhos.
— O que você ‘tá fazendo? — Pedro ficou histérico, corado.
— Ué, você disse "Quer me dar uns pegas é só pegar" — Paulo respondeu. – Eu peguei.
— Eu estava brincando! — Pedro corou, pondo as mãos à frente no rosto, sentindo suas bochechas queimarem. — Não leve tudo o que eu digo ao pé da letra!
André levantou-se devagar, gemeu de sono e, espreguiçando-se, abriu os olhos.
— Por que a gritaria? — André disse com voz de sono. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada! — Pedro esticou a mão em direção a André por reflexo; uma luz branca, projetada da mão do mesmo, fez com que André desmaiasse, voltando a deitar no banco do carro.
Paulo olhou para trás assustado, em seguida, voltou o olhar para Pedro.
— O que você fez? — Paulo perguntou assustado.
— Eu não sei! — Pedro respondeu no mesmo to
— Como você fez isso? — Paulo perguntou assustado
— Eu não sei! — Pedro respondeu no mesmo tom
— Você matou ele? — Paulo perguntou assustado
— Eu já disse que não sei! — Pedro respondeu assustado e histérico.
Paulo colocou os dedos indicador e médio no pescoço de André.
— Ainda está pulsando... — Paulo disse aliviado — Ele está vivo.
Pedro respirou, aliviado, sabendo que o amigo estava vivo; logo, o silêncio toma o lugar por alguns instantes.
— Eu nunca tinha feito isso antes... – Pedro olhou para Paulo com uma expressão cansada. — Você conhecia outras pessoas que tinham os mesmos poderes que eu, não é? – Pedro perguntou enquanto fitava suas próprias mãos. — Elas tem alguma diferença, além da cor?
Paulo sorriu; como se ficasse feliz com a pergunta.
— A energia branca representa o Escudo do Arcanjo Miguel e a energia negra sua Espada; seu amigo, católico, deve conhecer bem estas coisas. — Paulo olhou para trás, conferindo se o mesmo ainda estava ali. — São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate, cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. — Ele disse em tom de oração.
— Eu acabei de desmaiar André com essa luz branca. – Pedro enrugou a testa, confuso. – Não acha isso meio contraditório?
— Mas acho que você não o machucou. – Paulo parou para pensar. – Talvez você só tenha posto o pra dormir; não é uma forma de feri-lo.
— Será?
— Não sei... – Paulo respirou fundo. — Eu mal consigo sentir a energia de Rafael em você agora. — Paulo coçou a cabeça — É como se estivesse bloqueado...
Paulo fitou Pedro com olhar confuso; logo, voltou a dirigir.
— O Fernando gosta de você. — Pedro comentou enquanto olhava para a janela, iniciando outra conversa. — Não devia ter me beijado.
— Ele gostar de mim é um particular dele.— Paulo respondeu pondo ênfase em “dele” — Não é recíproco; além do mais, meu coração pertence à outra pessoa...
— Quem? — Pedro perguntou curioso.
Paulo desviou seu olhar para estrada.
— Ninguém — Ele o desconversou.
Um tempo depois, Paulo parou o carro no ponto de ônibus, agora deserto, próximo à casa de André.
— André — Pedro o cutucou tentando acordá-lo, mas o mesmo não se manifesta — Levanta.
Paulo ligou o rádio do carro no volume máximo; "Bang Bang" no último volume fez com que André desse um pulo.
— Meu deus do céu! — André falou assustado.
Paulo desligou o rádio.
— Consegui. – Ele disse orgulhoso.
— Levante e saia do carro; você está atrasado. — Pedro disse com um sorriso, contendo-se a dar risadas.
André abriu a porta e deu a volta no carro, ficando de frente para a janela de Pedro.
— Depois nos falamos. – Ele disse com o cabelo bagunçado e os olhos ainda fechados. — Tchau. — Ele foi andando em direção a sua casa.
— Quer ajuda? – Paulo gritou, tentando chamar a atenção de André.
O mesmo balançou a cabeça em sinal negativo.
— Ele está bêbado ou com sono?
— Bem... – Pedro coçou a cabeça – Ele representa bem a expressão “bêbado de sono”.
Paulo continuou a dirigir, depois de alguns minutos.
Eles chegaram a rua de Pedro mas, assim que se aproximaram da casa, Paulo acelerou mais o carro, passando dela.
— Ei, minha casa é ali. — Pedro disse apontando em direção à janela de trás.
— Me empresta seu telefone? — Paulo pediu, ignorando o enunciado anterior. — Preciso ver uma coisa.
Pedro hesitou, mas entregou o telefone. Paulo olhou rapidamente a lista de contatos, e, logo, pôs o telefone em seu ouvido.
— Está ligando para quem? — Pedro perguntou curioso.
— Alô? Sr. Carla? — Paulo atendeu. — Aqui quem fala é o Paulo! – Ele deu uma risada simpática. — Gostaria de perguntar à senhora se Pedro pode dormir aqui em casa hoje?
Pedro arregalou os olhos.
— O que?! — Pedro ficou histérico — Você não!...
— Ah sim! — Paulo tampou a boca de Pedro – Levarei de manhã cedo. Um beijo. Até. — Ele desligou o telefone.
—O que foi isso? — Pedro falou.
— Sou bem persuasivo quando quero. — Paulo se gabou. – Charme de demônio.
— Para onde vamos? — Pedro perguntou
— Para minha casa. — Paulo respondeu — Não fica muito longe daqui.
— Você tem casa? — Pedro perguntou espantado.
— Moro de baixo de uma ponte próximo à vala. — Paulo o fitou com olhar sério.
Pedro se calou por vergonha, fazendo Paulo rir novamente.
— Estou brincando! – Paulo disse rindo. – Moro debaixo da ponte Rio Niterói.
Pedro riu, o que fez Paulo ficar sério.
— Está rindo do que? – Paulo perguntou sério.
— Da piada, ué. – Pedro respondeu entre o riso.
— Você, por um acaso, está rindo do lugar onde eu moro? – Paulo o olhou nos olhos, o que desfez o sorriso do mais novo.
— Não, não! – Pedro balançou as mãos, demonstrando ser inofensivo.
Paulo caiu na risada novamente.
— Eu já estou vendo que vou adorar implicar com você.
Não demorou muito para que Paulo estacionasse o carro, parando em frente a um prédio de 12 andares; a vizinhança não era de prédios muito diferentes, o que fez Pedro ficar boquiaberto, o prédio era lindo, algumas árvores e luzes davam um realce no local.
— Você mora aqui? — Pedro disse boquiaberto.
— Viver mais de cem anos te dá tempo para juntar uns trocados — Paulo brincou e, logo, abriu a porta do carro. – Vamos subir.
***
A casa era, sem dúvidas, um lugar luxuoso. O piso de madeira lustrada era, parcialmente, coberto por um tapete branco felpudo, que era da mesma cor do sofá de três lugares que ficava de lado à TV de 60” que ficava no suporte de madeira que tomava metade da parede branca que dava um ótimo contraste na sala com as outras paredes amarelo-mostarda. Havia uma mesa de quatro lugares próximo a parede esquerda que dava na escada para o segundo andar do apartamento.
Algumas roupas e embalagens estavam jogadas pelo chão, mas nada muito alarmante, porém a mesinha de centro estava submersa de calças, camisas e cuecas, formando um montinho de roupa a lavar.
— A casa está meio desorganizada, mas sinta-se em casa. — Paulo disse enquanto tirava sua jaqueta e a jogava no montinho.
Pedro ficou parado, perplexo, olhando cada canto da sala. Estava tão distraído que nem percebia que Paulo o olhava.
Paulo sentou no sofá, e ficou o olhando por um tempo, admirando sua expressão facial, logo, Pedro notou.
— Por que está me olhando assim? — Pedro perguntou sem graça
— Por que você é bonito — Paulo respondeu com carisma.
Pedro riu alto, fazendo Paulo olhá-lo esquisito.
— Você tem câncer de quê mesmo? — Pedro perguntou ironicamente.
— Ah! — Ele mudou a expressão — Eu entendi a referência — Paulo soltou uma risada leve.
Logo, os dois se olharam, mas Pedro desviou o olhar.
— Enfim — Pedro se aproximou — Onde eu devo ficar?
— Você pode ficar aqui no sofá enquanto eu preparo algo pra comer. – Paulo sugeriu. – Há muitos lugares pra se ficar aqui; Na sala, no quarto, no banheiro, ou comigo.
— O que?
— Está com fome? — Paulo desconversou.
Pedro sorriu educadamente.
— Bastante.
— Eu também. – Paulo coçou a cabeça, incomodado. – Gosta de macarrão?
— Gosto. – Pedro respondeu.
— Ainda bem, por que é só isso que eu sei cozinhar. – Ele tirou as luvas de couro e, rapidamente, mexeu no cabelo de Pedro. – Volto já. – Ele disse saindo em direção à cozinha.
Assim que Paulo saiu da sala, Pedro sentou-se no sofá, sorrindo.
— O que está acontecendo comigo? – Ele passou a mão no cabelo – Eu devo estar ficando maluco.
Fale com o autor