Sete
11 Sonho ruim
Notas iniciais
Capítulo 11 – Sonho ruim
A morena rasgava o cadáver vorazmente, como se quisesse achar algo dentro do corpo morto. A faca de açougueiro não estava mais trabalhando tão bem quanto horas atrás.
Ela estava insana; ficando pior a cada homicídio. Seu vestido branco de saia curta estava sujo de sangue, lama e poeira. Seu cabelo, molhado, não estava muito diferente.
— Quarenta e cinco... — Ela parou todo e qualquer movimento para sussurrar as palavras pra si — Quarenta e cinco...
***
Paulo sentou-se no sofá, já alimentado, e fitou o mais baixo; o mesmo sabia que estava sendo observado, mas distraiu-se mexendo em seu colar, não retribuindo o olhar.
— Porque você insiste em dizer "Não"? — Paulo disse.
— Como assim “Não”? – Pedro sorriu educadamente.
— Pra mim. – Paulo se recosta no sofá, pondo as pernas mais a frente e os braços pra trás do mesmo. – Eu sou muito gato, sabia?
Pedro riu.
— Você não me pediu nada em relação a isso.
— E nem preciso! – Paulo se pôs em postura novamente. – Seu corpo está me dizendo que não.
Pedro gargalhou.
— Sua boca diz não! — Pedro começou a cantar. - Mas seu corpo diz sim!
Paulo deu uma risada de leve.
— Falo sério. – Paulo retrucou a brincadeira. – Não sabe o que é linguagem corporal?
— Acho que tenho uma leve noção do que seja... – Pedro comentou baixo, seguido de um bocejo.
— Está cansado? – Paulo disse preocupado
— Eu preciso dormir... — Ele balbuciou entre outro bocejo.
— Tudo bem. – Paulo se espreguiçou enquanto ia em direção as escadas. – Suba. Vou arrumar um canto pra você se deitar.
***
— Eu não sei onde eu coloquei aquele colchão... – Paulo revirava o armário.
Já fazia algum tempo que os dois estavam procurando um colchão inflável que Paulo dizia ter em algum canto da casa. Todos os quartos em que eles viram estavam ocupados com coisas completamente desnecessárias e que apenas faziam ocupar o espaço; roupas, móveis, até mesmo plantas. Pedro estava com os olhos quase fechando de sono, desistindo de procurar seu colchão.
— Você tem uma casa de quatro quartos. – Pedro falava com a cara fechada. – E o único que não está tão imundo é o que você dorme? – Ele arqueou a sobrancelha.
— Eu não venho pra cá nunca! – Paulo retrucou a queixa.
— Olha... – Pedro começou a falar – Posso dormir no chão tranquilamente.
Paulo parou de remexer as coisas empilhadas e entulhadas.
— Eu tive uma ideia. – Paulo bufou em cansaço.
Ele se levantou, coçando a cabeça como quem se esforça pra pensar em algo.
— Vamos pro meu quarto. – Paulo deu um sorriso cansado. – Eu vou por você pra dormir na minha cama. Eu vou dormir no sofá.
Pedro sorriu de canto.
— Não, não precisa. – Pedro sorriu em agradecimento. – Eu vou ir pro sofá.
— Não vem com essa-... – Paulo se levantou bruscamente.
Antes que Paulo pudesse completar, uma pilha de jornais e revistas caiu em cima de sua cabeça, fazendo-o cair no chão.
— Meu deus... – Pedro foi rapidamente socorrê-lo.
Ele pôs o mais alto, que estava imóvel, de barriga pra cima; Pedro começou passar a mão pela cabeça de Paulo à procura de alguma ferida.
Paulo gemeu baixo; incomodo.
— Paulo? – Pedro chamou pelo mesmo. – Você tá bem? O que eu faço? – Ele perguntava preocupado.
— Respiração... — Paulo disse baixo, gesticulando com dificuldade. — Boca-boca...
Pedro levantou-se, cruzou os braços e revirou os olhos; desfazendo a expressão de preocupação.
— Pode morrer ai mesmo.
Paulo riu, erguendo-se e sentando no chão.
— Nossa. – Paulo voltou seu olhar para o chão, pensativo. — Você é muito pequeno pra tanto ódio assim.
***
— Foi ótimo. — Agatha limpou o suor da testa e sorriu. — Está progredindo!
Ainda era manhã; Amanda, Agatha e Carlos estavam no matagal dos arredores da Capital treinando a novata. Amanda, mesmo desconfortável com a calça legging e top preto, conseguia movimentar-se bem para quem nunca havia lutado antes. Agatha, não diferente do traje da morena, não demonstrava desconforto algum.
— Você estão muito sexy lutando pesado. – Carlos sorriu, deitado debaixo de uma árvore.
— Obrigada. – Amanda sorriu em agradecimento.
— Eu sei. – Agatha respondeu brincalhona.
Carlos levantou-se, batendo levemente na sua bermuda preta para tirar a terra.
— Eu estou surpreso com a forma que vocês foram da água para o vinho numa rapidez absurda. — Ele pôs a mão à frente da boca, bocejando. – Ficavam juntas e soltavam faíscas.
— Onde aqueles três se enfiaram? — Agatha perguntou preocupada — Paulo não dormiu na Capital hoje...
— Paulo foi dormir em casa, junto com Pedro — Amanda respondeu — E André dormiu na sua própria casa.
Carlos riu.
— Como sabe disso?
— Liguei pro Pedro ontem. – Ela mexeu na mecha de cabelo que estava grudando em sua testa, pondo-a para trás. – Ele sempre foi muito falante comigo, exceto quando ia fazer algo... – Ela pôs a mão no queixo, pensando em uma forma de expressão. – Libidinoso. – Ela fez sinal de aspas com os dedos.
— O príncipe é gay? – Agatha disse abismada. – Está brincando, não é?
— Ele não é gay. – Amanda pôs ênfase na palavra “gay” — Porém, ele também não afirma ser hétero.
Agatha fez expressão de desapontamento.
— Logo quando pensei que ia conseguir um novinho pra mim... – Ela pôs a mão esquerda na bochecha.
— Vamos continuar? — Amanda perguntou, mudando o rumo da conversa.
— Acho melhor pararmos por hoje — Agatha respondeu, animando seu tom de voz.
— Tem notícias do seu amigo loiro? — Carlos perguntou – José?
— Quis dizer “André”? — Amanda perguntou retoricamente. – Não... Mas tenho quase certeza de que foi pra casa em segurança.
— Ele não foi treinado ainda. — Ele virou a cabeça para o lado e estalou o pescoço. — E não sei se ele está apto para uma luta; precisaremos dele quando formos lutar contra Gabriel.
— Entendo... — Amanda assentiu
— Vamos entrar? — Agatha sorriu — Já está bom por hoje.
***
— Bendita sois Vós entre as mulheres — O Padre rezava, ecoando para toda a Capela. — e bendito é o fruto...
O terno estava um pouco mais apertado do que de costume; a camisa social estava muito justa ao seu torso. André logo imaginou que engordou; o que fez com que ele repousasse a mão sobre seu pescoço, onde o número 1 coberto por algumas camadas de maquiagem.
Ele estava suando mais do que o de costume, engolindo em seco devido à desidratação. O loiro começara a tremer a perna em sinal de ansiedade, sem motivo algum.
— Algo está errado... – André, mordendo o lábio, resmungou para si mesmo.
Ele fechou os olhos na tentativa de se acalmar, porém as coisas ainda pareciam claras.
Ele escutava os passos das pessoas no corredor, as pessoas sussurrando umas com as outras, o teclado de um telefone, um senhor tossindo...
— Aquele garoto está bem?... – Uma senhora sentada no final da capela sussurra para a outra.
André virou-se para a senhora de cabelos brancos com um olhar macabro, ofegante, o que fez com que a mesma levasse um susto e voltasse sua atenção para à reza.
O loiro sentia-se quase a sufocar.
A missa já estava quase no fim, em seu rito final.
— Pai nosso que estás no céu...— Todos da igreja começaram a rezar em uníssono. — Santificado seja o vosso nome...
André tapou os ouvidos com as duas mãos com força, sentindo-se incomodado de ouvir cada palavra do Pai Nosso.
— Amém... — Eles completaram a oração.
André, empurrando algumas pessoas, andou o mais rápido possível em direção à porta, onde duas freiras benziam cada um que passasse com água benta que seguravam em taças médias douradas, molhando a ponta dos dedos e desenhando uma cruz na testa de cada um.
— Que deus o abençoe. — A freira fez um desenho de cruz com água benta na testa do rapaz que estava na frente de André.
Ela olhou para André e sorriu gentilmente, molhando um pouco mais os dedos dentro da taça.
— Que deus o abençoe. – Ela pôs a mão na testa de André, que rosnou de dor logo em seguida.
Ele pôs a mão na testa, curvando-se, ainda de pé, em direção ao chão.
André sentiu sua testa queimar, como se a freira tivesse jogado água fervente em sua testa; ele empurrou a freira, onde a mesma caiu no chão, derramando a água.
— Por deus... — A freira do lado disse assustada, olhando para André.
André percebeu o que fez, arregalando os olhos em pânico.
— M-me perdoe... – Ele se desculpou gago, não conseguindo gesticular muito bem.
A marca do desenho da cruz estava em sua testa, marcada em vermelho por irritação da derme.
— Desculpem-me! — André correu em direção a sua casa, tentando desesperadamente sair daquele lugar o mais rápido possível.
***
— O tempo está passando — A voz grave e pesada ecoou por todo o espaço — Corra...
Pedro estava só num espaço completamente escuro. Ele vestia as mesmas roupas que trajava na noite anterior, mas elas não estavam lhe aquecendo.
Ele soava frio, ofegante, boca seca, trêmulo, como se estivesse à beira de um ataque de pânico...
Ele estava com medo.
— Você devia tentar se conhecer melhor, Pedro...
Pedro sentiu uma respiração em sua orelha, o que o fez olhar para trás, mas não viu ninguém.
— Sétimo Príncipe...
Pedro olhou para frente e gelou. Um rapaz, branco, com o cabelo castanho e olhos fundos de um castanho não muito diferente. Ele estava sem camisa, usando apenas uma calça preta, descalço naquele frio. Mesmo cabelo, mesmo rosto, mesmo físico...
Era ele mesmo; um reflexo vivo de sua pessoa.
Aquela sua versão mais pálida estava com um escudo branco reluzente em seu braço direito que emitia uma luz não muito forte de si; Um escudo redondo, com alguns detalhes em prata. Em sua mão esquerda uma espada, tão escura quanto aquele breu, que emanava uma energia arroxeada.
— Você?... — Pedro deu um passo para trás — Quem é você?...
O outro girou a cabeça, alongando-se, estando seu pescoço. Asas começaram a crescer de suas costas; asas negras e grandes, maiores que seu corpo, esticadas de ponta a ponta, o que fez com que o olhar de Pedro fixasse no do outro.
— Eu sou você... – Ele disse com seu olhar macabro; esclerótica completamente negra e íris branca, ecoando por todo aquele frio espaço até que Pedro acordasse.
— Não! — Pedro gritou assustado, quase dando um pulo da cama.
Ele se sentou, pondo a mão em sua testa. Fechou os olhos e parou para respirar um bocado. Ainda com sono, tirou o lençol de cima de seu corpo e pôs os pés no chão.
— Espera aí... – Pedro parou um pouco e começou a olhar ao redor.
O quarto tinha a maior parte dos seus móveis brancos, todos de tom mais claro do que o branco do carpete. À direita da cama de casal com seus lençóis brancos e azuis, tinha uma estante planejada, onde tinham espaços para livros e uma mesa para o computador e alguns pequenos porta-retratos. O carpete felpudo branco acinzentado dava passava conforto devido ao contraste com a parede de um branco mais claro.
— Pedro? — Paulo o chamou do corredor, deu alguns toques ritmados na porta do quarto e entrou.
Ele estava sem camisa, usando apenas uma calça escura e segurava uma bandeja com alguns dois pães, metade de uma barra de chocolate, um copo de suco de maracujá e uma xícara de café.
— Bom dia. – Ele se aproxima da cama, onde o mais novo estava sentado.
— Bom dia. – Pedro boceja e tenta passar a mão no seu cabelo bagunçado. – Isso é pra mim.
Paulo assentiu.
— Vou pegar a minha lá na cozinha pra tomar café contigo.
— Não tem problema. – Pedro agradece. – Se quiser, pode ficar pela cozinha mesmo.
Paulo pôs a bandeja no colo de Pedro, aproximando-se suficientemente pra reparar em suas olheiras.
— Não, não. – Ele coçou a cabeça. – É que é meio chato tomar café sozinho, sabe? – Ele sorriu. – Então, isso está mais pra um pedido do que um favor.
— Se é assim, tudo bem.
— Quer bacon? — Paulo perguntou convidativo enquanto saída do quarto. — Ovos? Café? Eu?
Pedro riu.
— Aceito Bacon. – Pedro disse educadamente. – Mas, pão com manteiga pra mim está bom também.
***
— Está muito bom. – Pedro dizia ainda com metade do Bacon na boca.
— Obrigado. – Paulo agradeceu enquanto passava manteiga no pão. – Mas... Diga-me...
— Digo. – Pedro terminou de comê-lo.
— Você não está com cara de quem dormiu bem...
Pedro desfez o sorriso educado, convertendo-o em um sorriso modesto.
— Só tive um... – Pedro parou um pouco, como se pensasse numa palavra para descrever. – Sonho ruim. – Ele esfregou a mão na testa, como se o assunto o incomodasse. – E o pior é que tem uma coisa que não sai da minha cabeça.
Paulo ficou sério, porém, ainda compreensivo.
— Pesadelos? — Paulo perguntou – Eles geralmente são normais pra seres sobrenaturais. – Ele tentou acalmá-lo. – Mas... O que não sai da sua cabeça?
Pedro deu um riso frouxo.
— Pode parecer maluquice, mas... – Ele respirou fundo. – Tive um sonho comigo mesmo. – Ele pôs ênfase em “comigo mesmo”. – E eu, digo, o outro eu, disse algumas coisas...
— Coisas do tipo?
— Nomes. – Ele pôs a mão no rosto, expressando com dificuldade suas palavras. – Digo... Não eram nomes, sim tratamentos. Se referindo a mim de maneira cerimoniosa.
— Tratamentos do tipo?... – Paulo o fitava quieto, escutando com atenção.
— Príncipe.
Paulo deu um sorriso de canto em ironia.
— O que foi? – Pedro perguntou intrigado
— Já estava demorando. – Paulo respondeu em tom calmo. – Geralmente, eles aparecem quando a marca surge.
— Eles quem? – Pedro perguntou seriamente.
Paulo o olhou nos olhos, tentando ser o mais sério possível.
— Os Sete Príncipes Infernais. — Paulo respirou fundo, como se fosse começar uma longa história.
— O quê? – Pedro desfez a expressão séria, misturando-a com medo e curiosidade.
— No Inferno, existem sete grandes seres, anjos que, tentando trazer o mal à tona, foram expulsos do céu e receberam a alcunha de caídos, sendo que os sete principais são chamados de Príncipes, que são responsáveis, cada um, por um pecado capital.
Pedro engoliu em seco.
— Cada pecado tem seu príncipe, e cada príncipe tem seu pecado... Que vive dentro de nós, fazendo parte de nossa existência... — Paulo esticou a palma de sua mão em direção a Pedro, deixando à mostra o número dois de sua mão. — O meu é Mammon, o segundo príncipe do Inferno.
— Todos nós temos isso, não é? – Pedro passou levemente a mão sobre seu ombro. – André, Amanda, Agatha, Carlos, Gabriel... – Pedro respirou fundo, hesitante em continuar a falar. – Quem é esse que está dentro de mim.
Paulo parou um pouco, tentando ser o mais cauteloso possível com as palavras.
— Lúcifer... — Paulo disse pausadamente em tom baixo. — O líder da Rebelião.
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