Será?
28 Amanhecer
Notas iniciais
Meu dia não tinha começado tão bem e eu já estava saturada em relação a tudo. Não via a hora de chegar em casa, "na minha casa" e cair no mar, mas depois de conversar com minha madrinha por telefone eu decidi que seria melhor fazer o dia valer a pena tendo uma boa noite.
Por um momento só pensei em uma pessoa para ajudar a salvar meu dia. Pedro! Ele que tem sido minha válvula de escape nessa cidade grande e cheia de poluição, ele que tem me escutado com a mesma ladainha de sempre sobre a saudade que estava de casa, das minhas amigas e do mar...
Aqui estou eu, com uma bola pesada de boliche na mão, ainda sem entender muito bem o que fazer. Fui algumas vezes no boliche, mas nunca fiz questão de jogar se quer uma vez.
— Só mira nos pinos e joga! – Disse Pedro.
Sim, era o que estava fazendo, porém olhar aqueles pinos e saber que serão derrubados por uma bola me faz pensar na vida, em como somos frágeis. Já parou para pensar que você pode ser um pino de boliche? Um pino que tem sempre alguém querendo derrubar?
— Betina, está bem? – Perguntou Pedro.
— Estou sim, só estou pensando em uma coisas aqui. – Respondi me virando para Pedro, a bola ainda estava em minha mão e eu olhava fixamente para ela.
— E o que seria? – Perguntou ele.
— Ah, estava pensando aqui sobre como nós somos como esses pinos. – Respondi.
— Como assim? – Perguntou ele.
— Sempre tem uma pessoa querendo nos derrubar, assim como esses pinos. –Respondi.
— Mas você sabe que isso aqui é só um jogo né?! – Falou ele preocupado.
— Sim, sim, eu sei. – Falou sorrindo. – Ok, eu sou um pouco louca. – Sorri.
— Isso eu já sei. – Disse Pedro.
— Ótimo! – Falei. – Bom, vamos lá! – Falei, me alinhei e joguei a bola.
***
Já passava das 05:30, o sol já estava quase nascendo. Eu e Pedro estávamos em uma praça na esquina da Consolação e a Augusta.
Não havia ninguém além de nós lá, deitamos no chão da pista de skate. Nossas pernas estavam para lados opostos, nossas cabeças estavam na mesma direção e separadas apenas alguns centímetros.
— Pedro, você tem algum apelido de infância? – Perguntei olhando para o céu.
Havia algumas estrelas ainda no céu azul escuro.
— Tinha o clássico Pedrinho, mas meu pai me chamava de Pedroco. – Falou um pouco mexido com a pergunta.
— Entendi, eu gosto de Pê. Simples e direto. – Falei.
— Gostei, ninguém nunca me chamou assim. – Falou ele sorrindo e virando para me olhar.
— Perfeito! Gosto de ser única. – Falei olhando para ele. –Me fala mais sobre você Pê. – Pedi.
— O que exatamente você quer saber? – Perguntou ele.
— Tudo, pode começar pela infância, família, essas coisas. – Respondi.
— Ah, não tenho muito a dizer. – Falou ele olhando para o céu agora. – Nasci aqui, tive uma infância normal. Era arteiro, mas também um ótimo aluno, um bom filho e um bom irmão. Aliás eu te contei que tenho um irmão né?! –Disse ele.
— Sim, falou. – Respondi.
— O nome dele é Adriano, tem 22 anos e mora comigo. Moramos sozinhos desde que nossos pais morreram em um acidente de carro a 7 anos atrás. – Falou ele um pouco incomodado com o assunto. – Trabalho no hotel por que gosto de lá, meu irmão segurança de uma boate. Apesar de tudo somos bem diferentes, mas nos damos bem. – Completou ele.
— Entendi, me desculpe te fazer entrar nesse assunto. – Falei.
— Tudo bem, eu não ligo. – Falou ele.
Ficamos em silêncio, um encarando o outro por algum tempo. Me perdi naqueles olhos azuis.
— Por que quis ser meu amigo? – Perguntei ainda encarando Pedro.
— Porque desde o momento em que você abriu aquela porta e eu te vi pela primeira vez te achei linda, fui te conhecendo aos poucos e percebi que além de linda é inteligente, esperta, verdadeira, engraçada e muito mais. – Falou ele me olhando nos olhos. – Betina, quando te vi pela primeira vez percebi que tudo que já vivi até hoje valeu a pena, quando você sorri meu coração se enche de alegria e te ter como amiga foi a melhor coisa que aconteceu nesses últimos anos. – Completou Pedro.
Fiquei sem reação.
Não sei lidar muito bem com emoções e isso que Pedro disse me deixou abalada. Esses elogios, dizer que eu fui uma das melhores coisas que aconteceu na vida dele...
— Nossa...! – Falei.
— Tive que falar, não aguentava mais segurar esses sentimentos e lá no hotel não posso falar essas coisas. – Falou ele. – Me desculpa!
— Não peça desculpa, você entrou na minha vida e me faz muito bem. – Falei.
— Obrigado! – Falou ele.
— Obrigada você! – Falei.
Pedro olho para o céu e sorriu.
— Vem, levanta que irá começar o melhor da festa. – Falou ele.
Pedro estendeu uma mão e eu peguei. Levantei e ele me levou para o lado Leste da praça.
Ao longe conseguia ver o sol começando a nascer e abaixo de nós uma avenida bem movimentada, mas que no momento só tinha alguns carros.
— É lindo aqui! – Falei.
— Eu sei que é uma visita bem mais poluída que na praia, mas é uma das melhores. – Falou Pedro.
— Obrigada! – Falei abraçando–o.
— Não tem de que. – Disse ele me apertando mais.
Ficamos assim por algum tempo, abraçados e olhando o sol nascer.
— Hora de levar a madame para dormir. – Falou Pedro.
— Preciso? – Perguntei.
— Você está quase dormindo aqui no chão. – Respondeu ele.
— É que está bom aqui, sem falar que tenho uma das melhores companhias de SP. – Falei.
— Mas precisa descansar. – Falou ele.
— Ok, ok. Vamos voltar para a realidade. – Falei.
***
Por volta das 06:15 paramos em frente ao hotel.
Desci da moto e tirei o capacete, Pedro levantou o dele e me observava sem dizer nada.
Suspirei profundamente e entreguei o capacete para ele.
— Acho que chegamos. – Falei olhando para o hotel.
— Sim, está entregue. Quer ficar com ele? – Perguntou Pedro se referindo ao capacete.
— Não tenho moto. – Falei.
— Fica com você até nossa próxima saída, aí você me devolve. – Falou ele.
— Acho que entendi. – Disse piscando.
— Entendeu o quê? – Perguntou ele.
— Entendi que você quer que eu fique com o capacete para poder ter uma desculpa de me encontrar outro dia. – Falei.
— Quase isso. – Falou Pedro.
— Tá bom. Bom, vou subir. – Falei.
— Vai lá, sobreviva um dia sem mim. – Falou Pedro sorrindo.
— Que audácia! Quem vai levar meu sanduíche natural no quarto? – Perguntei mostrando a língua.
— Não sei, mas com certeza não será eu. – Respondeu ele.
— Aff! Sobreviva sem a melhor hóspede desse hotel! – Falei.
— Vou tentar. – Falou ele. – Qualquer coisa me liga. – Disse ele.
— Tá bom. – Falei.
Deu um beijo em seu rosto e dei tchau.
Pedro foi embora e eu subi para meu quarto.
***
Deixei as cortinas fechadas para não entrar a luz do sol.
Estava deitada na cama usando uma camisola rosa clara e meu cabelo ainda estava um pouco molhado.
Virei para o lado contrário da janela, peguei um travesseiro e agarrei. Sorri por lembrar da noite.
Minha madrinha estava certa, eu era muito nova para ficar escondida em plena sexta–feira.
Fiquei pensando em como foi a noite, em Pedro, em como ele me fez esquecer tudo por um tempo e acabei caindo no sono.
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