Seres Contra A Ultra

2 Capítulo 2 — Conheço Alguns Seres do Amanhã


ASSIM QUE STEPHEN E EU ATERRISSAMOS NO CHÃO DA ESTAÇÃO DE METRÔ abandonada, ele soltou sua mão de mim e não começamos a andar. Olhei para onde estávamos e ali parecia à entrada da estação de metrô.

Andamos por alguns segundos e me surpreendi com o que vi. Assim que olhei para frente e vi várias coisas legais. Eles tinham várias poltronas, sofás, mesas espalhados por toda, digamos, recepção da estação de metrô. Ali não parecia um lugar imundo, apesar de ser abandonado. Ele não tinha a aparência imunda, parecia totalmente limpo. Claro, exceto alguns resíduos de poeira trazidos pelos teleportes e algumas folhas também trazida pelos teleportes.

Andando mais um pouco, comecei a avistar pessoas, cada uma mais surpreendente que a outra. Todos os adolescentes — exceto um rapaz de pele cor de café que parecia ter uns vinte anos, mas eu sabia que era mais velho que ele —, todas as mentes que eu tinha tocado e me conectado estavam ali. Eu não precisava perguntar o nome delas, bastava eu me concentrar nelas e eu já sabia tudo o que eu precisava saber, ou mais, delas. Sorri ao ver aqueles adolescentes, eles eram apenas... crianças.

— Incrível — disse eu admirando o local. — Muito melhor do local em que eu ficava com meus amigos em Chicago.

— Você é de Chicago? — perguntou ele.

Assenti com a cabeça.

— Tinha muito de nós por lá — confirmei. — Porém, eu fui o único que restou.

— Sinto muito — disse ele.

— Sem problemas — levantei o polegar para ele. — De qualquer forma... incrível!

Olhei para Stephen e ele riu para mim.

— É, aqui é bastante incrível — disse ele. — Tem que conhecer o Tim. Ele é realmente incrível.

— Tim? — perguntei franzindo a testa.

Eu não tinha registrado nenhum Tim em minha mente. Não tinha nenhum Ser do Amanhã chamado Tim em Manhattan. Tinha um Thomas, mas não Tim. Fechei meus olhos e tentei procurar por esse tal Tim, mas nada de achá-lo.

Aquilo me deixou completamente frustrado. Eu nunca tinha perdido uma mente sequer em minhas procuras, nunca me esqueci de nenhuma mente quando eu me conectava com todos os Seres do Amanhã da cidade em que eu estava. Como eu poderia esquecer esse Tim?

— Tim é um computador que temos aqui — disse ele. — É bastante inteligente e às vezes parece mesmo uma pessoa, pois ele interage com a gente.

— Ah, um computador... — ri balançando a cabeça em negativa.

— É, ué — disse ele. — O que pensou que fosse?

— Nada, só pensei que eu...

— Stephen? — disse a voz de uma menina à nossa esquerda.

Olhei para lá e vi uma bela jovem de cabelos castanhos até as costas e de olhos claros, juntamente com um louro de olhos verdes e um asiático de cabelos pretos e olhos escuros e puxados.

O nome deles veio em minha cabeça de imediato quando pus os olhos neles — bem, era uma das vantagens de ter os poderes que eu tinha, não é mesmo? De qualquer forma, eu sabia quem eles eram. Cara (a menina), John (o louro) e Russell (o asiático). Todos fugitivos da Ultra, assim como todos os adolescentes que estavam ali e eu.

— Quem é esse? — perguntou Russell.

Pela segunda vez naquele dia, senti alguma força tentar penetrar em minha mente. Quando olhei para Cara, ela me olhava com os olhos semicerrados.

— Não precisa ler minha mente, Cara — falei enquanto repelia-a sem machucá-la. — Eu contarei tudo o que quiser saber.

— Como sabe o nome dela? — perguntou John aproximando-se de mim com a cara séria.

— Assim como sei o seu, John — falei olhando em seus olhos. Apontei para o asiático. — Russell.

Russell pareceu desconfiado.

— Credo... esse cara é sinistro — disse ele. — Mas meu amigo lhe fez um pergunta — ele ficou ao lado de John, tentando me ameaçar.

— Vocês não me assustam, se querem saber — rebati e me aproximei deles com os braços cruzados.

— Ei, qual é... — disse Stephen separando nós três.

— Quem é ele, Stephen? — perguntou Cara mais séria do que nunca. Parecia que ela não tinha gostado de quando eu a tinha repelido. Pena.

— Este é Garrett... — disse ele. — Meu, ahn, irmão.

Os outros três o olharam com os olhos arregalados e ri de lado.

— Irmão? — perguntou Cara, cruzando os braços.

— Pensei que só tinha um irmão, cara — disse Russell olhando de mim para Stephen.

— Seu pai nunca tinha mencionado ele para mim antes — disse John em um sussurro, porém audível.

— Isso não me surpreende — respondi. — Ele também nunca mencionou você para mim — apontei para Stephen. — Ou nenhum de vocês. Tive que descobrir sozinho.

Eles quatro olharam para mim e depois olharam entre si.

— O.K., respondo tudo o que quiserem — falei. — Tem um local mais privado? Os outros estão olhando — indiquei os outros adolescentes Seres do Amanhã com a cabeça.

— Por aqui — disse Cara, indicando o caminho de onde ela tinha aparecido.

Cara, John e Russell seguiram o caminho e foram para a sala, e eu os segui, logo em seguida, com Stephen ao meu lado.

A sala era grande, pode-se assim dizer. Tinha uma mesa com um computador no meio da sala com uma cadeira giratória e de rodinhas. E tinha uma espécie de caixa eletrônica em cima da mesa. Essa caixa tinha alguns botões, vários e vários botões, algumas luzes e era preso no teto por uma espécie de cano. Acredito que qualquer nerd ali faria a festa. Tinha algumas estantes e mesinhas atrás da mesa de centro e no canto em que eu tinha entrado. E tinha uma enorme tela branca defronte para a mesa com a cadeira giratória. Eu imaginava que ali deveria ser a sala de reuniões, ou coisa do tipo.

— Bacana — falei, admirando a sala.

Ouvi a pequena risada vinda de Russell.

Russell estava com John e Cara atrás da mesa do centro da sala. Todos estavam de braços cruzados, mas não me intimidei com isso. Na verdade, eles não me intimidavam.

— Quem é Tim? — perguntei a Stephen, que estava, ainda, ao meu lado.

Ele abriu a boca para falar, mas uma voz com um sotaque britânico disse antes:

Eu sou Tim — o computador acima da mesa do centro piscou e ficou com luzes acesas. — Eu sou um computador.

— Porém não do mau — disse Stephen com uma pequena risada e foi ficar perto de seus amigos. — E de inteligência artificial.

Obrigado, Stephen — disse Tim educadamente.

— De nada, Tim — disse Stephen.

Olhei para o computador e levantei uma sobrancelha para ele. Como um computador podia ser educado e um sotaque britânico?, quis perguntar. Mas eu sabia que se começasse a fazer perguntas sobre aquele computador, eu iria começar a me irritar com tamanha inteligência e outras coisas a mais que eu não queria perder tempo.

Eu tinha que manter o foco. Eu tinha que saber tudo do que eles sabiam sobre o meu pai, eu realmente não podia perder tempo com um mero computador e nem com Russell, Cara e John. Eu podia ter essas informações apenas lendo a mente deles, mas eu não queria ser indelicado e tampouco mal-educado. Pelo que eu poderia reparar em John, ele não deixava nem Cara entrar na mente dele, que dirá eu — bem, eu já estava na mente dele sem ele saber, então nem conta; Cara também não sabia que eu já estava na mente dela e ela não precisava saber disso agora, eu acho; Russell parecia que era o que menos se importava com isso, mas eu não queria desenterrar seu passado e saber exatamente tudo sobre ele, ou sobre os outros dois; Stephen... bem, ele era o meu irmão mais novo, mas isso não me dava o direito de saber, também, exatamente tudo sobre ele e eu nem sei se queria; eu não queria invadir a mente de nenhum deles para saber sobre seus passados.

— O que sabem sobre Roger? — perguntei a Cara e John.

— Tudo — disse John.

— Ele está desaparecido — disse Cara, mais educadamente, mas me encarando. — Não sabemos notícias dele desde então.

— Apesar de quase conseguirmos algumas respostas — disse Russell.

— E quase morrermos por conta disso — lembrou Stephen olhando para Russell e ele deu de ombros balançando a cabeça em positivo.

Saber que meu pai estava desaparecido, eu já sabia. Mas, bem... não tão desaparecido assim. Eu sabia o que John realmente havia feito ao meu pai, mas eu não citei aquilo ali. Eu não queria causar problemas para eles e nem queria desenterrar aquilo de John. Muitos seriam prejudicados se ele contasse. E tampouco o culpava, ele só estava recebendo ordens; ele era apenas um boneco da Ultra, comandado pelo meu querido tio, Jedikiah Price. Mas, afinal, todos já sabiam que John tinha atirado em meu pai, porém eu não iria apertar na mesma tecla novamente.

Assenti para os quatro ali.

— É tudo o que eu preciso saber — disse eu, um tanto pensativo.

Um pequeno silêncio se propagou entre a gente.

— Sério? — perguntou Russell. — Mais nada?

Olhei para ele e dei de ombros.

— O que eu posso fazer? — rebati. — Vocês têm alguma informação a mais?

Eles negaram com a cabeça.

— Então pronto — suspirei.

Era ruim saber que meu pai realmente tinha desaparecido, bem, na verdade, morto. Mas eu tinha esperanças de ele poder estar vivo, porém, eu não consegui captá-lo, eles não sabiam onde ele poderia estar... era frustrante. Porém, eu também sabia que eles estavam mentindo, então, eu jogaria o jogo deles. Mas eu queria meu pai por perto e ajudá-lo a salvar aquelas crianças. Mas, eu sabia que se ele estivesse ali, me mandaria fazer exatamente isso: tomar conta deles, ajudá-los e protegê-los. E assim eu faria: jogo da mentira e proteção.

— Então... — disse Cara.

— Como descobriu que seu pai estava por aqui? — perguntou John.

Virei-me para ele.

— Ele tinha me dito — falei.

— Como? — perguntou Stephen.

— Ele me visitava sempre que podia. Principalmente em meu aniversário. Disse que estava em Nova York por conta de Jedikiah...

— Como sabe sobre ele? — interrompeu Russell.

Levantei as sobrancelhas para ele e pensei um pouco.

— Ahn... eu perguntei o que meu pai fazia em Nova York e ele disse que trabalhava para a Ultra de Manhattan — disse eu.

— Você sabe que ele é nosso tio, não sabe? — perguntou Stephen.

Assenti para ele.

— E que ele é o responsável pelo seu pai desaparecer — acrescentou John.

— Mesmo? — o olhei com desprezo.

Ele me encarou.

— Parece que você não acredita em mim — disse ele.

— E não acredito nessa mentira — disse eu. — Eu sei que você o matou, John — revelei.

Os quatro pareceram não respirar e me olharam com os olhos arregalados. Bem, pelo menos uma das verdades já estava exposta.

— Não o culpo — acrescentei.

Ele pareceu envergonhado.

— P-por quê? — perguntou ele não me olhando.

— Meu querido tio tem sorte de persuadir algumas pessoas — disse eu. — Você não foi diferente.

— Como sabe disso? — perguntou Russell.

Ignorei sua pergunta.

— Como sabe disse? — perguntou Cara, repetindo a pergunta de Russell.

Suspirei e bati o indicador algumas vezes na cabeça.

— Está dizendo que você leu a mente deles? — perguntou Stephen.

Pensei por um instante.

— Sim, não... — falei dando de ombros.

— Ninguém nunca entrou na mente de John antes — falou Cara.

— Acredite, eu não queria — falei rindo ironicamente. — Não é uma coisa que eu consigo impedir.

— Mas como isso acontece? — perguntou Russell.

Suspirei outra vez.

— O.K.... — sussurrei. — Quando eu chego a uma cidade, minha mente automaticamente se conecta com os Seres do Amanhã da cidade. Foi assim em Chicago...

— Você morava em Chicago? — interrompeu-me Russell e todos olharam para ele. — Desculpe. Continue.

Assenti para ele.

— Como eu ia dizendo — continuei —, era a mesma coisa em Chicago. Todos os Seres do Amanhã de lá estavam com as mentes conectadas as minhas. Eu podia saber tudo sobre eles. Podia fazer qualquer coisa eu quisesse com a mente deles, podia ver através deles... sou uma espécie de aberração de nossa espécie — ri nervosamente.

— Mas como não sentimos você? — perguntou John.

Dei de ombros.

— Não sei — falei. — Como eu disse, sou uma espécie de aberração de nossa espécie.

— Como você não se conectou com os outros das outras cidades em que passou? — perguntou Russell.

Mexi em meus bolsos e tirei meus fones de ouvido.

— Com isso — os mostrei os fones.

Eles encararam os fones e depois a mim.

— Está brincando, não é? — perguntou Stephen.

Neguei com a cabeça.

— Por isso você estava de fones de ouvido quando chegou lá em casa? — perguntou ele, pensando.

— Sim — disse eu.

— Então... — ele continuou — quando você tirou os fones... foi por isso que você pediu para eu não te tocar, porque estava se conectando com a gente.

Apontei para ele e lhe dei uma piscadela.

— Isso, garoto — falei e ele riu.

— Demais! — disse ele e Russell juntos.

Neguei com a cabeça.

— Não é tão legal assim... — rebati.

— Você precisa sair de nossas mentes. Saia agora! — disse Cara, dando um passo à frente.

— Não é tão fácil quanto parece — falei olhando-a sério e ela recuou o passo. — Se eu simplesmente sair do nada, vocês morrem.

— O quê? — perguntou os quatro juntos.

— Pois é — disse eu. — Se eu fizer isso, vocês morrem. Posso sair, mas, com o jeito certo, durariam semanas. Eu não mexo com a mente de vocês e nem desenterro seus segredos, e nem os atormento com isso. Sei tudo sobre vocês, mas não me atrevo a presenciar cada lembrança de vocês, porque isso é invasão de privacidade e não sou um invasor — olhei para cada um e eles assentiram. — Eu não vou retirar minha conexão com vocês. Não seria um desejo do meu pai. Uso isso para ficar de olho em vocês se precisarem de ajuda.

— Cara já é nossa telepata mais eficiente — disse John.

— Creio que isso mudou quando cheguei aqui — disse eu e Cara pareceu se ofender. — Não me leve a mal — disse eu a ela —, mas só digo a verdade. Seus poderes não superam os meus. Eu sou uma aberração, já disse. Até fui preso na Citadel de Chicago...

— Você já esteve preso lá? — interrompeu-me Stephen.

Franzi a testa totalmente desconfortável por conta da lembrança das torturas, amigos de cela e a tortura deles. Chacoalhei a cabeça por conta da lembrança repulsiva.

— Sim, infelizmente sim — disse a ele.

— Como saiu? — perguntou Russell.

— Longa história — falei. — Mas, resumindo: meus companheiros de cela e eu armamos para os guardas da Citadel de Chicago e fui o único que consegui teleportar de lá. Mas eu não vi o local, então não consegui voltar para salvá-los — falei um tanto tristonho.

Um longo silêncio se propagou entre nós. Eu sabia que eles deveriam estar conversando por telepatia, mas eu não me atrevi a escutar a conversa interna. Como eu tinha dito, eu não era um invasor de privacidade; os deixaria conversar. Era até melhor assim.

— Você já matou? — perguntou John.

— Como é? — perguntei levantando uma sobrancelha.

— Não minta — disse Cara. — Você consegue matar?

O.K., não irei jogar o jogo da mentira com eles, pensei.

— Sim — afirmei.

— Já matou alguém? — perguntou Stephen.

Olhei para ele e assenti.

— Quando? — perguntou Russell.

Pensei por um momento.

— Apenas uma vez. Cerca de sete anos atrás, eu tinha conseguido fugir da Citadel e arrumar amigos Seres do Amanhã por Chicago — disse eu. — Eu e um amigo Ser do Amanhã, Dylan, estávamos fugindo de um agente da Ultra de Chicago enquanto saqueávamos um supermercado para levar comida para nossos amigos. Mas o desgraçado do agente tinha conseguido balear Dylan no peito e, quando eu voltei para impedir o agente, ele atirou em mim, mas eu parei o tempo...

— Como é? — perguntou os quatro em uníssono.

Revirei os olhos. Eu já estava me cansando de tanta interrupção.

— Você também consegue parar o tempo? — perguntou Stephen.

Assenti para ele.

— Você não? — perguntei.

— Consegui umas vezes... — disse ele sem jeito.

— Um dia te ensino — falei e ele sorriu de lado. — Enfim, como eu ia dizendo... parei o tempo e, com isso, me teleportei para trás dele e quebrei seu pescoço.

Eles não disseram nada, mas pareceram espantados.

— Não me levem a mal — disse eu sem jeito. — Eu estava com raiva e ele tinha baleado meu amigo. Mas, quando eu consegui ajudar Dylan e cuidar do seu ferimento, eu jurei que não mataria mais ninguém. E nunca mais matei e, acredito eu, que nunca mais irei.

Eles ficaram em silêncio novamente — provavelmente conversando entre si —, mas eu também não me importei. Eles podiam conversar o quanto quisessem. Quando menos eu falasse sobre o meu passado, melhor seria. Eu não queria relembrar de meus amigos vivos, sendo que eles estavam mortos; isso era uma tristeza para mim.

Eles pararam de conversar — suponho — e me encararam. Stephen olhou no relógio e pareceu intrigado.

— Precisa ir a algum lugar, criança? — perguntei.

Ele me olhou um tanto sério.

— Criança? — perguntou ele.

— Quantos anos acha que eu tenho? — perguntei.

Ele pareceu pensar por um momento.

— Hmmm... dezenove? — arriscou ele.

Bufei e neguei com a cabeça.

— Não, mas obrigado — disse eu.

— Vinte? — arriscou John.

Neguei com a cabeça.

— Vinte e um? — arriscou Cara, curiosa.

Também neguei com a cabeça.

— Vinte e dois? — arriscou Russell.

Mas também neguei com a cabeça.

— Quantos anos têm? — perguntou Stephen.

— Vinte e seis — revelei.

Ele levantou as sobrancelhas. John, Cara e Russell pareceram chocados.

— É, eu sei. Sou bem velho — disse dando de ombros.

Russell olhou de Stephen para mim, de mim para Stephen.

— Vocês não se parecem muito — disse ele.

Demos de ombros juntos e ri com isso.

— É, eu sei... — disse eu.

— Mas ele tem alguns gestos parecidos com os meus — disse Stephen. — Seus olhos e algumas manias também são iguais as minhas e de Luca — ele riu.

— Acho que agradeço por isso — disse eu.

Ri de lado. Era bom saber, de alguma maneira, que nos parecíamos. Eu não queria ser o outro irmão que não tinha nada em comum com os outros irmãos. Isso seria bem chato e completamente desconfortável. Bem, ao menos a meu ver.

Stephen olhou para o relógio e para os outros três novamente — outra conversa mental. Eu queria saber, é claro, principalmente se fosse desrespeito a mim, mas eu não iria invadir a mente deles. Isso era errado, até para alguém como eu. Mas depois eles voltaram a me olhar.

— Algum problema? — perguntei.

— Você não ouviu nada? — perguntou Cara.

Neguei com a cabeça.

— Eu disse que não iria invadir a privacidade de vocês, não disse? — rebati.

Ela sorriu de lado e assentiu para mim.

— Bem, eu... eu tenho que... — disse Stephen se ajeitando e apontado para a porta da sala. — Tenho que ir.

— Nosso tio te espera na Ultra? — perguntei e ele parou de andar.

Ele em olhou completamente envergonhado e os outros três permaneceram em silêncio.

— Não se preocupe — disse eu a ele e fui até ele. — Eu sei que você se arrisca lá para ajudar todos aqui embaixo. Mas acho arriscado — acrescentei.

Ele soltou o ar.

— Obrigado, eu acho — disse ele. — Mas sei me cuidar.

— Estou de olho — falei batendo o indicador da mão direita em minha cabeça.

Ele riu.

— Certo, certo... — disse ele.

Ri com ele e virei-me para os outros.

— Vou voltar para a casa do Stephen — disse eu.

— Por quê? — perguntou John.

— Você pode ficar aqui — disse Cara.

Neguei com a cabeça.

— Não pertenço a este lugar — falei indicando onde nós estávamos girando o dedo no ar. — Mas eu volto.

Eles assentiram.

— O que fará em casa? — perguntou Stephen.

— Luca — resumi tudo. — Não posso deixá-lo sozinho onde tudo nessa cidade é arriscado.

— Mas ele não está sozinho.

— Eu sei.

— Então porque irá?

— Por que eu tenho paranoia em proteger quem eu considero família — o olhei nos olhos.

O que era tecnicamente verdade. Mas meu objetivo era outro.

Ele assentiu.

— Tudo bem, então — disse ele.

— Até mais — disse para os outros.

Eles assentiram para mim e Stephen e eu nos teleportamos dali.

Quando eu apareci naquela rua em que eu Stephen tinha teleportado comigo para a estação de metrô, tudo estava quieto e vazio como antes. Eu estava sozinho, é claro, pois Stephen tinha ido para a Ultra.

Segui pela rua para a casa dele e não foi difícil achá-la. Subi os degraus de entrada e parei diante da porta. Eu não sabia se apenas girava a maçaneta e entrava ou se tocava a campainha. Mas eu decidi que tocar a campainha, era bem melhor.

Alguns segundos se passaram e ninguém atendeu. Quando eu pensei em tocar a campainha pela segunda vez, a porta se abriu e revelou uma senhora. Uma senhora de cabelos castanhos até a altura dos ombros, olhos claros e pele como a minha. Eu sabia quem ela era, porém não acreditei. Eu não sabia que meu pai tinha se casado... bem, com ela. E ela era o meu objetivo.

Ela me olhou com certa incredulidade, provavelmente sabia quem eu era.

— Marla — disse eu.

— Garrett — disse ela.

— Como sabe meu nome? — perguntamos juntos.

— Roger me contou sobre você — disse ela. — E você?

— Meus poderes me ajudaram descobri quem você é — resumi a história toda. — Ele não me contou sobre você.

— Acho que era melhor assim.

— Eu sei o que você é.

— Eu também sei o que você é.

Encaramos-nos por um breve momento.

Ouvi passos vindos da escada e ficarem cada vez mais altos, e Luca apareceu em meu campo de visão. Ele sorriu para mim e sorri para ele.

— Garrett! — disse ele e riu. — Mãe, esse é meu outro irmão mais velho, o Garrett. Aquele que eu te disse ainda cedo.

Marla mudou de expressão rapidamente e pôs uma expressão sorridente no rosto e olhou Luca.

— Ah, sim, querido — disse ela. — Eu e ele acabamos de ter uma pequena conversa.

— Pode entrar, venha — Luca adentrou na casa, fazendo um gesto com a mão para que eu entrasse.

Olhei para Marla e ela me olhou.

Não vim arruinar a sua família, disse eu em sua mente.

Eu sei que não, disse ela. Roger me disse que um dia você viria.

Eu não quero prejudicar meus irmãos, comentei. Quero conhecê-los. Ficar por perto. Posso ficar de olho neles quando você não estiver por perto, franzi a testa para ela, com medo que ela me reprovasse.

Eu sei disso, disse ela e sorriu de lado para mim. Seria de grande ajuda. Roger iria querer que você ficasse por perto, sei disso, disse ela. Entre.

Senti-me mais aliviado.

Obrigado, disse eu.

De nada, disse ela.

E entrei na casa.

A casa estava do mesmo jeito que antes. Não tinha mudado. Luca estava sentado à mesa jantado e vendo tevê. Aquilo fez meu estômago roncar. Ouvi a risada de Luca e Marla.

— Com fome? — perguntou ela.

— Só comi algo mais cedo, quando cheguei em Nova York — disse eu. — Desde então estou sem comer.

Ela foi até a cozinha.

— Sente-se — disse ela. — Sorte sua, porque Luca come por dois.

— Mãe! — reclamou ele, sem graça. — Sabe que estou tentando parar com isso.

— Desculpe, querido — ela riu baixinho.

Ri daquilo e sentei-me à mesa, ao lado de Luca. Pus minha mochila no chão e pus os cotovelos sob a mesa.

— Relaxa — disse eu. — Não tem com o que se envergonhar. Eu sempre comi por dois quando era mais novo. Fase de crescimento, criança — ri e baguncei seu cabelo.

Ele riu.

— Verdade? — perguntou ele.

Assenti para ele.

— Stephen não comia tanto assim — reclamou ele.

— Ei... — falei inclinando-me para me aproximar dele e disse baixinho: — Talvez isso só aconteça com os mais legais — dei uma piscadela para ele e ele riu.

Marla me serviu com lasanha e refrigerante. Agradeci a ela por ter me servido e comecei a devorar. Estava delicioso, é claro. Era bem melhor que a comida da rodoviária. Porém eu comia bastante rápido — eu sabia que fazia mal à saúde, mas era o meu jeito de comer, então, me deixem.

Luca me olhou com cara de espanto quando me viu devorar a comida rápido como ele.

— Eu disse que eu era igual — falei lhe dando outra piscadela e ele riu, e voltou a comer.

Terminamos cinco minutos depois daquilo.

Luca ficou no sofá assistindo a um jogo de beisebol, mas eu fiquei na louça com a Marla e continuamos a conversar.

Eu disse a ela que ela precisava contar a Stephen que ela era um de nós, mas ela disse que não e me assegurou para que eu não contasse, e eu não contaria, é claro. Eu não podia dizer nada a respeito sobre aquilo, pois ela não era minha mãe e não tinha de me dar satisfações alguma. Porém, eu realmente assegurei que manteria seu segredo guardado a sete chaves.

Marla e eu terminamos na cozinha e fomos para sala, onde nos sentamos com Luca para assistir o jogo.

— Por quanto tempo ficará aqui? — perguntou Luca, depois de alguns minutos.

Bem, Luca tinha feito uma pergunta que eu nem pensei a respeito quando mencionei viajar de Chicago até Nova York. Eu não tinha para onde ir, em Chicago. Não tinha casa, não tinha amigos e nem família.

Tudo o que eu tinha era a inteira Chicago para mim e era totalmente chato aproveitá-la sozinho. Dormir em um quarto de cada hotel de Chicago totalmente sozinho era completamente chato. Eu não podia me divertir com meus amigos mais e nem arriscaria fazer novas amizades lá — qualquer um poderia ser da Ultra e eu não arriscaria a minha vida... de novo.

— Não sei, carinha — disse eu. — Não tenho família em Chicago.

— E sua mãe? — perguntou ele.

Senti uma pontada no coração.

— Morta — falei tristonho.

— O que aconteceu com ela?

— Luca! — repreendeu-o Marla. — Não precisa dizer.

Luca pareceu se envergonhar.

— Desculpe, não queria ser indelicado — disse ele sem jeito.

Ri de lado.

— Não, não é nada demais — menti. Marla me olhou curiosa. — Acidente de carro. Nevava na época e o freio não funcionou a tempo de impedir o carro de prosseguir para o Lago Michigan, e ela se afogou nele — contei a maior farsa possível para ele, mas ele pareceu engolir aquilo.

Menos mal, pensei.

Isso foi verdade?, perguntou ela em minha mente.

Nem uma palavra, disse eu.

O que realmente aconteceu?

Ultra, resumi toda a história.

Ela me olhou e eu dei de ombros, completamente triste por ter aquela lembrança maldita em minha cabeça. Ela assentiu tristonha.

— Sinto muito — disse ela.

Assenti com a cabeça.

— Desculpe — disse Luca. — Não quis ser indelicado. Sinto muito.

Sorri de lado e levantei o polegar esquerdo para ele.

— Não faz mal — disse eu.

— Mas planeja ficar aqui quanto tempo? — perguntou Marla.

Pensei por um instante.

Bem, meu pai não estava ali, então não adiantava de nada a minha viagem de Chicago para lá. De qualquer forma, eu não parecia ser bem vindo assim naquela casa — não que Marla tinha me tratado mal, pois ela tinha sido até bastante acolhedora para uma mulher que só tinha ouvido falar do enteado, mas não me sentia bem morando de favor. Nunca morei de favor, para falar a verdade e era completamente esquisito. Principalmente na casa em que meu pai havia constituído uma nova família.

— Acho que volto amanhã — disse eu, por fim.

Luca me olhou espantado.

— O quê? — perguntou ele.

— Ei, para quê o espanto? — perguntei.

— Você mal chegou e já vai embora? — ele pareceu incrédulo.

— Mas o que eu posso fazer? — quis saber.

Ele pareceu pensar.

— Você podia ficar com a gente...

— Luca — o interrompi. — Não... — falei balançando a cabeça em negativa.

— Mas por que não? — interveio ele. — Você é família...

— Posso ter seu sangue, mas não o da sua mãe — o interrompi olhando para Marla. — Já estou tempo demais aqui e nem sei onde irei dormir.

— Você pode ficar conosco essa noite — disse ele.

Neguei com a cabeça.

— Eu me viro — disse eu.

— Bobagem — disse Marla. — Temos um sofá ótimo e um sótão aconchegante.

Olhei-a sem entender.

O que está fazendo?, perguntei em sua mente.

Você disse que manteria os olhos em Stephen e em Luca, lembrou-me ela.

Assenti sem que Luca visse.

Sim, eu disse, disse eu.

Você me fará um enorme favor se ficar e cuidar deles para mim enquanto eu estiver fora, disse ela. Não sabe o quanto eu estou preocupado com a hipótese da Ultra pegar um deles.

Posso imaginar, disse eu. Também não quero que a Ultra os pegue.

Nem eu.

Passei muito tempo cuidado dos Seres do Amanhã em Chicago. Posso ajudar a cuidar deles e os encobrir da Ultra. Ao menos fazer o meu melhor.

Você me ajudaria bastante se fizesse isso.

Farei, se você quiser, disse eu sério.

Eu quero, disse ela também séria. Mas sem estragar o disfarce.

Deixe comigo.

— Não quero ser um problema para você — disse eu respondendo a pergunta de Marla. — Mas não tenho para onde ir.

Ela assentiu.

— Pode ficar com a gente — disse ela e fiquei mais aliviado.

— Verdade? — perguntou Luca, feliz.

Ela se virou para ele e sorriu.

— Sim, querido — disse ela.

— Demais! — comemorou, ele e ri para ele.

Eu seria eternamente grato por Marla. Era uma mulher realmente incrível e agora eu entendia o porquê que meu pai tinha se apaixonado por ela. Ela me lembrava de minha mãe. Forte, destemida e acolhedora. Toda a qualidade que minha mãe tinha, Marla também tinha. Era como se fosse minha mãe em outra pessoa.

Eu sabia que nada e ninguém poderiam substituir a figura materna de minha mãe, mas Marla seria uma boa “madrasta”, digamos assim — bem, meu pai não estava entre nós, então eu acho que poderia chamá-la de madrasta, não?

Stephen chegou em casa momentos depois e se surpreendeu por eu estar ainda em sua casa. Mas quando Luca deu as boas-novas, ele não pareceu chateado por eu estar, digamos, morando ali de agora em diante, mas ele teve uma reação parecida com a de Luca — ou seja, ele sorriu e pareceu gostar da ideia.

Eu tinha dito que preferia dormir no sótão — onde eu me sentiria bem melhor do que em um sofá, pois se alguém chegasse, eu teria que acordar e me explicar, e eu não queria isso. De qualquer forma, quando Stephen e eu fomos para o sótão — que tinha que chegar através do quarto dele, subindo uma pequena escada —, ele me deu um colchão, travesseiros e uma vassoura para poder limpar tudo aquilo. Por sorte, ali tinha uma cama sem colchão que eu poderia usar. Perfeito!

Foi moleza. Com a ajuda dele, tiramos todas as caixas e as colocamos em um canto do sótão. A poeira e sujeira, limpamos, mas eu consegui, com o uso dos meus poderes, fazer toda a poeira e sujeira desaparecer dali e irem direto para um local que provavelmente seria a lixeira da rua mais próxima da casa. Quando ele me perguntou como fazer aquilo, eu disse que tentaria ensiná-lo. Ele pareceu gostar daquilo.

Depois de arrumado, pude reparar que o sótão era do tamanho do quarto dele, porém o teto era em forma de seta para cima. Era bem estranho, porém interessante. Tinha uma janela que me fazia olhar para a rua e ver algumas casas a frente da rua, e uma paisagem bacana à noite.

De qualquer forma, ficamos meia-hora arrumando o sótão e, quando finalmente conseguimos terminar, Stephen e eu fomos tomar um banho — ele me deu total acesso ao seu banheiro, mas ele me deixou tomar o banho primeiro — para dormirmos. Quando terminei no banho, subi as escadas para o sótão e deitei-me na cama. Fechei os olhos e tentei relaxar.

Eu tinha que relaxar um pouco, pois tinha feito muita coisa naquele dia — pode não ser para você, mas conectar-se com a mente de todos os Seres do Amanhã e com a de Luca, me deixou completamente acabado.

Garrett?, perguntou a voz de Stephen em minha mente.

Sim?, disse eu.

Dormindo?

Quase dei uma risada mental para ele.

Não, cara, disse eu. O que tá pegando?

Responderia-me uma coisa?, perguntou ele timidamente.

Qualquer coisa, disse eu com sinceridade.

Certeza?

Sim, fala aí.

Por que o nosso pai não nos disse que você existia e nem disse para você que nós existíamos?

Pensei por um momento.

O real motivo é que eu não sei, cara, disse eu. Mas, pensando melhor, seria melhor nos manter longe um do outro por conta da Ultra. A Ultra poderia me pegar e depois descobrir sobre vocês. A Ultra daqui não é como a de Chicago, é claro. Mas se a Ultra, lá, já era bastante sinistra, imagine a daqui?, perguntei. Eu não arriscaria se fosse nosso pai, eu não colocaria a vida de vocês em risco. Então, eu acho que é isso.

Ele ficou em silêncio por um tempo.

Entendi, disse ele. Eu também faria a mesma coisa. Não arriscaria a vida da minha mãe, a do Luca e nem a sua.

Temos algo em comum, carinha, disse eu. Não arrisco a minha família.

Ouvi sua risada mental.

Nem eu, disse ele.

É, realmente somos irmãos, disse eu e ri.

Mais um silêncio se propagou entre a gente. Bem, era legal ter irmãos mais novos e principalmente um adolescente e uma criança. Eu me sentia responsável por eles e eu não poderia perder esse lance de responsabilidade. Eu já tinha ficado tempo demais sem cuidar de alguém desde que meus amigos morreram e cuidar de Stephen e Luca seria bom para mim. Sem contar que eu estaria perto de meus irmãos, onde eu poderia conhecê-los melhor, conviver com eles e ajudar a Marla a cuidar deles; isso seria muito bom para mim e sabia que meu pai ficaria orgulhoso.

Estou indo dormir, disse ele.

Ah, eu também, disse eu.

Boa noite... irmão, ele riu.

Boa noite, criança, disse eu, também rindo.

Só não me chame de criança.

Não consigo. Você é muito novo para me pedir isso.

Droga!

Ri mentalmente com ele.

Boa noite, disse ele.

Boa noite, irmão, disse eu.

E minutos depois, eu adormeci.