Seres Contra A Ultra
3 Capítulo 3 — Ajudo A Encontra Um Revelado
A MANHÃ SEGUINTE FOI UM POUCO MELHOR DO QUE O DIA ANTERIOR. Bem, primeiro porque eu tinha conseguido dormir. É, isso mesmo. Eu não consigo dormir às vezes. Geralmente só consigo dormir dois dias na semana, no máximo dois dias e meio. Mas isso não vem ao caso. Segundo porque eu tinha acordado sabendo que tinha dois irmãos menores e que um deles era como eu — mesmo eu querendo que nenhum deles fosse, pois esse lance de Ultra era horrível.
De qualquer forma, levantei-me de minha cama no sótão da casa em que meus irmãos moravam, arrumei-a, desci as escadas para o quarto de Stephen — ele não estava em seu quarto — com uma toalha que eu tinha comigo, minha escova de dentes e adentrei em seu banheiro para fazer minha higiene matinal.
Ainda era surreal ter a ideia de que eu tinha irmãos. Até tempos atrás eram apenas amigos que eu os considerava irmãos e família; eles não tinham meu sangue. Agora, eu estava na casa da esposa/viúva de meu pai, com seus dois filhos, que no caso eram meus irmãos. Irmãos de verdade; irmãos de sangue.
Assim que terminei de fazer minha higiene e ter tomado um bom banho, vesti minha calça, blusa branca e casaco preto, e desci para o primeiro andar da casa. E chegando ao primeiro andar, eu vi Marla à cozinha e vestida para sair, com Luca sentado à mesa tomando seu café da manhã.
— Bom dia — disse eu, indo até a cozinha.
Baguncei o cabelo de Luca amigavelmente e sorri para ele, ele sorriu de volta. Marla se virou para mim e sorriu rapidamente.
— Bom dia — disse ela terminando de lavar a louça.
— Bom dia, mano — disse Luca e bebeu um pouco do leite que tinha em seu copo.
Marla vestia um sobretudo bege com uma roupa branca por baixo. Luca estava com uma blusa cinza, calça e um vestia uma blusa de frio aberta.
— Onde está Stephen? — perguntei um tanto desconfiado.
— Foi mais cedo para a escola — disse Marla.
Eu apenas assenti. Bem, se fosse caso tão importante — pois eu sabia que Stephen não estaria na escola tão cedo assim (eu já tive dezessete anos) —, ele teria entrado em contato, então deixei a informação passar.
Marla parecia com certa pressa, pois ela tinha lavado apenas um prato dos sete que estavam em cima da pia.
— Quer ajuda? — perguntei assim que me juntei a ela na pia.
— Não, eu consigo...
— Por favor — a interrompi. — É o mínimo que eu posso fazer.
Ela me olhou com alívio.
— Obrigada — disse ela.
— De nada — disse eu e comecei a lavar os pratos.
Ela saiu da cozinha e foi para a sala.
— Garrett, tem como você por o Luca para a escola? — perguntou ela. — Estou quase atrasada para o trabalho.
— Sem problemas — disse eu.
— Mãe, quantos anos acha que eu tenho? — perguntou Luca com certa raiva. — Nove?
Marla entrou em meu campo de visão e bufou para Luca. Prendi o riso.
Eu era rápido com louças, eu já estava no quinto prato, lavando-o, e lavar talheres também não era muito difícil e não tomaria muito o meu tempo. Daria para tomar café da manhã e...
— Ele tem futebol hoje e eu agradeceria muito se você pudesse buscá-lo... — ela prosseguiu como se Luca não tivesse dito nada e interrompendo meu blá-blá-blá mental. — Já avisei na escola que você também está responsável por ele e por Stephen...
— Marla — a interrompi e parei de lavar a louça para olhá-la. — Vai — indiquei a porta com a cabeça.
Ela sorriu aliviada novamente e moveu os lábios num “Obrigada”, passou pela porta da frente e foi trabalhar. E eu terminei de lavar os pratos e os talheres. Rápido.
Virei-me para olhar Luca e ele nem tinha terminado seu sanduíche de manteiga de amendoim e geleia de uva. Virei a cadeira para o lado oposto, sentei-me nela e pus meus braços no encosto. Era melhor sentar assim, ao menos para mim. Enfim, sentei-me a frente de Luca à mesa e comecei a me servir da mesma coisa. Aproveitei para por um pouco de suco de laranja em um copo e, após fazer o sanduíche idêntico de Luca, comecei a comer. Estava delicioso.
— Cara, quantos anos ela pensa que eu tenho? — queixou-se ele. — Nove anos?
— Mãe é mãe, maninho — disse eu após mastigar outro pedaço do delicioso sanduíche.
— Mas eu já tenho dezesseis...
— O quê? — o interrompi e o encarei.
Ele ficou sem jeito.
— Ahn...
— Você tinha dito que tinha quatorze, Luca — o lembrei.
— Eu sei...
— Então você mentiu?
— Eu só...
Ele não conseguiu interromper a frase, pois eu o olhava com muita raiva. Ele engoliu seco por um instante e bebeu um pouco do seu leite. Ele tentou falar de novo, mas não conseguiu.
— E-eu... eu só...
Cruzei os braços e ele arregalou os olhos para mim. Provavelmente aterrorizado pelo tamanho dos meus braços (sem querer me gabar, mas eu era bem musculoso). Mas eu não consegui manter aquela cara por muito tempo.
Suavizei minha expressão e comecei a rir.
— D-do que está rindo...? — perguntou ele ainda com certo medo.
— De você — disse e ri novamente.
O olhei e ele tinha fechado a cara.
— Por quê? — perguntou ele, agora com raiva.
— Por causa da sua cara — eu quase gargalhei. — Eu estava brincando com você.
Agora eu gargalhei.
— Droga , Garrett! — explodiu ele e riu nervosamente. — Isso não teve graça.
Ri novamente e tomei fôlego.
— O.K., O.K.... — disse eu. — Agora termine seu café da manhã para ir para a escola.
Ele gemeu baixinho.
— Cara, sério mesmo? — perguntou ele. — Somos irmãos. Minha mãe está fora... você bem que podia... você sabe, não é? Assim... me deixar ficar em casa?
Ele deu um sorriso esbelto e levantou os polegares.
Mas, ainda rindo, balancei a cabeça em negativa.
— Cara, qual é? — reclamou ele. — Mamãe nem iria saber...
— Eu disse não, Luca — falei sério, cruzando os braços e com a cara fechada para ele.
— O.K., O.K., está bem — disse ele. — Eu vou. Já estou terminando... — ele voltou a comer.
— Muito bem — disse eu e continuei a comer também.
Luca tinha ido para a escola dez minutos depois daquilo, eu o tinha levado até o ponto de ônibus, ele não perdeu o ônibus e voltei para a sua casa.
Eu estava naquela casa completamente sozinho e, a primeira coisa que eu fiz, foi sentar-me no sofá e ligar a tevê — fazia quase sete anos que eu não fazia uma coisa daquelas e eu precisava ver o jornal. O jornal havia dito alguns acidentes em Long Island, outros no Brooklyn e alguns em Manhattan, mas nada de tão grave assim. Como sempre, jornal sempre mostrando desgraça; típico.
Mas a agonia foi tanta que eu não consegui ficar ali simplesmente. Eu tinha que ir para outro lugar, precisava de me movimentar e eu sabia qual era o lugar perfeito para eu estar naquele momento: onde os amigos subterrâneos de Stephen se encontravam. Mas antes que eu pudesse desligar a tevê, o canal do jornal mostrou que algo de estranho tinha acontecido com mo banco de lá. Não havia vítimas, não havia assaltantes. A única coisa que tinha acontecido era que o banco estava com menos 500 mil dólares.
Desliguei a tevê, tranquei a porta da frente, guardei a chave comigo e, ainda dentro da casa dos meus irmãos, e me teleportei de lá.
Como sempre aquele chão precisava de uma varrida. Os Seres do Amanhã daquela estação de trem abandonada estavam conversando, mas alguns cochichos pararam quando me viram e as primeiras pessoas a entrarem em meu campo de visão foram Cara e John.
— Onde está Stephen? — perguntei pelo meu irmão mias novo.
— Ultra — disse-me Cara.
Eu não fiz nada a não ser assentir para ela. Ter a ideia de saber que Stephen estava nos corredores daquela organização maligna me dava arrepios. Eu não queria meu irmão mais novo no local em que poderia custar a sua vida. Principalmente nas mãos de nosso querido tio Jedikiah. Saber que Stephen lá me deixava com o coração na mão.
— Pensei que esse não era o seu lugar — disse-me John interrompendo meu blá-blá-blá mental.
Cara lhe deu uma pequena cotovelada. Ri daquilo.
— E você tem razão. Não pertenço a esse lugar — afirmei.
— Então o que faz aqui? — perguntou Cara um pouco mais simpática do que John.
— Acho que um novo revelado está usando os poderes — disse eu. — Está no Brooklyn, ele está assaltando bancos de lá.
— Como sabe disso? — perguntou John completamente desconfiado.
— Eu vi no jornal — respondi.
— Tem certeza disso? — perguntou Cara.
Assenti para ela.
— Eu não consigo senti-lo — disse ela. — Era para eu sentir algo.
Ela pôs as mãos nas têmporas e fechou os olhos. Provavelmente estava procurando alguma forma de localizar o revelado.
— Não o sinto também — disse eu. — Mas posso tentar localizá-lo.
Ela abriu os olhos e me olhou. Encarei-a por um momento e ela assentiu para mim, e eu assenti logo em seguida.
— Não me toquem... — sussurrei.
Os olhei sério e eles tomaram distância, e no segundo seguinte minha mente já estava partindo dali.
Era igualzinho da mesma forma que eu tinha tentado procurar meu pai quando tinha chegado à casa de Stephen. Minha mente saiu daquela estação de trem abandonada e foi vagando para as ruas de Manhattan, seguindo para a primeira rua ou avenida do Brooklyn que minha mente podia chegar.
Minha mente vagou e vagou. Cada ponto. A ponte do Brooklyn, a escola, o Kings, o parque, a praça... minha mente corria em uma velocidade que nem eu mesmo sabia se aquilo era possível. Ela nunca tinha atingido uma velocidade como aquela. Talvez fosse porque eu estava me conectando com mais Seres do Amanhã do que eu pensava, pensei. Minha mente passou por todos os humanos e alguns outros Seres do Amanhã, mas eu me concentrei o suficiente para encontrar apenas um... e eu encontrei.
Lá estava ele, sentado em um banco de madeira em outro parque do Brooklyn, comendo algum tipo de hambúrguer com refrigerante e batata-frita. Ele tinha mais ou menos a altura de Stephen, tinha cabelos laranja e parecia ser um tanto magricela. Ele assistia uma apresentação de mágica com um sorriso abusado na cara e uma mochila preta entreaberta e eu consegui ver os dólares ali.
Concentrei-me nele e entrei em sua cabeça. Tyler Martin. Quinze anos, sem mãe, um pai que não lhe dava valor... um sozinho, praticamente, como todos nós. Eu cheguei a sentir pena, pois eu sabia exatamente como era se sentir sozinho, mas, se o trouxesse para onde os amigos de Stephen estavam ele não estaria mais sozinho assim.
Minha mente se distanciou dali, voltando rapidamente pelo percurso que tinha percorrido e voltou para a estação de trem abandonada, onde eu abri os olhos e me fitei com um joelho, uma mão no chão, uma em minha têmpora e minha respiração ofegante.
— Garrett? — perguntou Cara.
Respirei fundo mais uma vez e me pus de pé.
— Você por um acaso está bem? — perguntou John.
Quando eu finalmente os olhei, eles me olhavam curiosos ou completamente desconfiados, pois ambos me olhavam com os olhos semicerrados. Assenti para John.
— O que você fez? — perguntou Cara.
— Nada de importante — menti. — Descobri onde ele está.
Eles dois me olharam com os olhos arregalados por um segundo, mas voltaram à expressão de antes.
— C-como...? — gaguejou Cara.
Apontei para a minha cabeça.
— Tyler Martin. Tem quinze anos e vive sozinho, vagando pelas ruas do Brooklyn atrás de dinheiro para seu pai... — falei.
Eles assentiram.
— Certo — disse John —, Russell e eu vamos atrás dele...
— Não... — peguei em seu braço antes que ele saísse. Ele se virou para mim, olhou de minha mão para mim. Soltei seu braço. — Deixe que eu vá atrás dele. Por favor. Eu levo Russell comigo — apelei olhando para Cara.
Ela olhou de mim para John e para mim novamente.
— Só... me dê uma chance? — pedi.
Cara olhou para John novamente, mas John quem se pronunciou dizendo:
— Vai.
Russell e eu pisamos no chão do Brooklyn sem sermos vistos.
Passamos pelo parque que eu tinha visto em minha mente e seguimos em direção ao parque em que Tyler se encontrava. Muitas pessoas estavam se divertindo ali. Algumas brincavam com seus filhos e algumas crianças brincavam com outras crianças. Algumas andavam de bicicleta e outras apenas estavam tomando sorvete enquanto seus pais pagavam o sorvete.
Não muito longe dali tinha um homem fazendo truques de mágica e uma pequena multidão ao redor dele. Olhei ao redor, mas não encontrei nenhum Ser do Amanhã que tinha detectado mais cedo. Tyler estava ali.
— Está vendo ele? — perguntou Russell ao meu lado olhando para todos os lados.
Neguei com a cabeça.
— Não, não estou — disse eu. — Ele deveria estar sentado naquele banco...
Apontei para o banco de madeira vazio em que tinha localizado Tyler.
Era totalmente frustrante localizar uma pessoa, chegar ao local e não encontrá-la. Totalmente frustrante! Eu tinha que encontrar o Tyler, eu não podia voltar para a estação de trem sem aquele garoto.
— Como ele realmente é, afinal? — perguntou Russell pondo a mão na testa para espantar o sol dos olhos e procurar melhor.
— Mais ou menos do tamanho de Stephen, cabelo laranja e um tanto magricela...
— Ali está ele! — cortou-me ele falando um pouco alto demais e apontando para a minha esquerda.
Virei-me para olhar para aquela direção e vi aquele garoto. Ele só tinha a mochila em suas costas e andava um pouco rápido demais.
— Vamos! — disse Russell e partiu a minha frente.
— Russell! — disse eu e corri atrás dele.
Russell começou a correr rápido demais, mas eu consegui chegar ao seu lado. Tyler olhou para trás e viu que estávamos correndo, começou a correr, porém, bem mais do que Russell e eu.
— Eu vou pegá-lo — disse Russell. — Vai ser moleza...
— Russell, não! — parei na frente dele, obrigando-o a parar de correr. Segurei em seu braço e o levei até o beco que tinha naquela esquina. — Assim você vai espantar a criança. Deixe que eu converse com ele.
Russell fez um muxoxo, mas balançou a cabeça em concordância. Suspirei aliviado.
— Ah, droga! — disse ele assim que olhou para atrás de mim. — Ele já se foi. Não vai ser mais necessário falar com ele.
Virei-me para trás.
— Não, não foi... — disse eu e fechei os olhos.
Minha mente vagou atrás de Tyler novamente e não foi tão difícil achá-lo assim. Ele estava há dois quarteirões de distância de nós, se escondendo ao lado de uma lata de lixo...
Abri os olhos novamente assim que senti um tremendo choque horrendo percorrer por todo o meu corpo. Quando vi, eram as mãos de Russell em mim.
— Droga! — reclamei e espantei suas mãos de mim.
Ele recuou por um instante e me olhou estranho.
— Foi mal, cara — desculpou-se ele. — Não sabia que não era para te tocar.
Respirei fundo.
— Tudo bem — disse eu. — Não é culpa sua. Eu também não disse nada.
Ele assentiu.
— Faremos o seguinte: vamos falar com ele — continuei. — Se ele tentar correr, você pode fazer o que quiser. Combinado?
Russell deu um sorriso de lado.
— Meu irmão, temos um acordo — ele estendeu a mão para mim e riu.
Ri e apertei sua mão.
— Certo — disse eu —, agora segure minha mão que eu nos teleportarei até Tyler.
Ele assentiu e no segundo seguinte nos teleportamos dali.
Assim que nossos pés tocaram o chão daquela rua sem saída em que Tyler se encontrava, solei minha mão de Russell.
Tyler, aquele criança de quinze anos a nossa frente, nos olhou com os olhos arregalados. Ele tentou escapar pela esquerda, mas eu bloqueei seu caminho. Ele deu meia-volta, tentou ir pelo outro lado, mas Russell se teleportou em sua frente para também bloquear seu caminho.
Russell cruzou os braços.
— Acho que não vai a nenhum lugar, amiguinho — disse ele.
Tyler se agachou.
— Quer apostar que sim? — perguntou Tyler em tom ameaçador, mas Russell apenas riu.
— Tyler... — disse eu e ele se virou para me olhar. Levantei as mãos como se me rendesse e comecei a dar pequenos passos em sua direção. — Não viemos aqui para roubá-lo ou sequer brigar com você...
Viemos apenas conversar, continuei mentalmente com ele e incluí na de Russell também para que ele visse o que realmente era para ser feito. Eu sou Garrett e aquele é o Russell.
Ele arregalou os olhos para mim novamente, pôs as mãos em sua cabeça e caiu de joelhos. Dei mais alguns passos para perto dele.
— Não, não, não... — disse Tyler. — Isso está errado...
Tyler, eu vi ajudar, continuei.
— Não... ele não toleraria... — tagarelou ele. — Por favor... não...
Esse garoto é o maior estranho, disse Russell em minha mente.
Deixe isso comigo, Russell, disse eu.
Mas Russell estragou tudo...
— Ei, criança — disse ele e deu passos rápidos até Tyler. — Não sei de quem é que você está falando, mas você tem que vir conosco... — e ele tocou em Tyler, e isso foi o que estragou tudo.
Tyler se levantou e, usando seu poder de telecinese, afastou Russell para longe, onde ele bateu com as costas na parede e caiu no chão. Tentei chegar perto dele, mas ele ouviu meus passos, olhou para mim e usou seu poder em mim também, onde me jogou longe, fazendo-me bater contra a lata de lixo e cair no chão.
No segundo seguinte em que eu o olhei, ele se teleportou dali.
Russell se levantou de onde estava e veio até a mim, oferecendo a mão para que eu levantasse.
— Droga, Russell! — reclamei completamente irritando e com raiva, e levantei sem a sua ajuda.
Minha vontade era de estrangular o asiático, mas eu sabia que eles iriam sentir falta do melhor lutador que eles tinham naquela estação de trem. Eu não o estrangulei, mas fiquei tentado a isso.
— Calma, cara — disse ele. — Era só uma criança...
— Só uma criança? — o cortei. — Era só uma criança que precisa de ajuda para com o seu pai e que está perturbada.
Ele piscou e não disse nada.
— Vai para casa — o despachei com raiva. — Eu assumo daqui — concentrei-me em Tyler e me teleportei dali.
E meus pés tocaram o chão, e a primeira coisa que eu vi foi uma visão panorâmica da cidade de Nova York. Olhei aos arredores e percebi que estava de pé bem em uma das torres da Ponte do Brooklyn.
Tyler estava sentado à minha frente, olhando Nova York como se fosse algo extraordinário — o que não era assim tão chamativo para mim, pois a Cidade dos Ventos, Chicago, era bem melhor; ao meu ponto de vista, é claro.
— Você veio para me matar, não é? — perguntou ele ainda de costas para mim.
Senti pena dele novamente.
Saber como era correr risco de vida por ser um Ser do Amanhã, eu sabia. Mas saber do risco, ser um Ser do Amanhã e completamente sozinho, eu entendia. Tinha sido horrível para mim no passado. Ser um Ser do Amanhã em plena Chicago — e Chicago era pequena comparada Nova York — não era fácil, ainda mais sozinho. Tyler era sozinho. Pelo que deu para ver em sua mente no rápido período que estive nela, seu pai só usava os poderes dele para ter dinheiro roubado.
Andei até ele e sentei-me ao seu lado.
— Não, não vim — disse eu.
Ele me olhou com os olhos vermelhos de choro, mas voltou a olhar o horizonte.
— Meu pai disse que vocês vêm atrás de nós para nos matar... — ele fungou. — Uma espécie de Ultra, ou coisa do tipo, vem atrás de seres como eu para matar ou tirar nossos poderes.
— Seu pai está totalmente enganado... em parte — disse eu com cautela e ele me olhou. — Eu não sou da Ultra, mas já fui pego por uma. Fui torturado, sofri experimentos e mais experimentos. Mas eu consegui fugir. A Ultra está atrás de nós porque tem medo de nós. Ela tenta tira nossos poderes, nos tornando humanos, para que não possamos usá-los mais. E, se caso resistimos, eles nos matam.
Ele se virou totalmente para mim para prestar atenção. Sorri de lado com aquilo.
— Eu sei sobre você, Tyler — ele se espantou um pouco. — Sei que seu pai o usa para conseguir dinheiro...
— Eu não quero mais isso! — disse ele e no segundo seguinte já estava chorando. — Ele... ele... ele me obriga a assaltar bancos, roubar carteiras de pessoas, roubar coisas valiosas de locais onde o ambiente só tem gente rica... eu não quero mais isso.
E ele se jogou em meus braços. Foi um tanto estranho, mas eu, cautelosamente o abracei.
— Por favor... — choramingou ele. — Não me faça voltar para casa. Ele me bate quando eu não levo nada, vive me ameaçando... eu não quero mais isso.
Ele fungou outra vez.
— Tudo bem, eu não farei você voltar para casa — disse eu e ele se soltou de mim.
Ele, ainda com os olhos cheios de lágrimas, sorriu. Ele enxugou os olhos.
— Verdade? — perguntou ele ainda com um sorriso no rosto.
Sorri, assenti para ele e me levantei. Ele se levantou logo em seguida.
— Sim, verdade — ele deu um pulo de alegria. — Mas você tem que vir comigo.
Seu sorriso se desfez e se afastou de mim completamente desconfiado.
— Por que eu devo ir com você? — perguntou ele.
— Não precisa desconfiar de mim — falei. — Eu não vou te sequestrar. Aonde eu o levarei terá pessoas como nós. Lá você não precisará roubar e terá um lar, uma família.
Ele voltou a contemplar o Brooklyn novamente.
— Onde é isso? — perguntou ele.
— Em Manhattan — respondi.
— Isso significa...
— Que você tem que dar adeus ao Brooklyn se quiser uma vida diferente e onde poderá aprender a sobreviver — completei por ele. — E dizer adeus ao seu pai.
Ele se virou para mim e assentiu.
— Tudo bem — disse ele. — Vamos. Só me deixe deixar isso aqui para meu pai e vamos, pode ser? — ele apontou para a mochila nas costas.
Assenti para ele e peguei em seu braço.
— Vamos — disse eu. — Vamos até seu pai e depois vamos embora.
Triste, ele assentiu e nos teleportamos dali.
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