Notas iniciais
Pessoas! Capítulo três já postado, bem bonitinho! *-*

Como aquilo poderia ser plausível? Frederich vivia em Londres. Ele não deveria ser aquele sujeito no porta-retratos, ainda que as feições sejam muito parecidas. Cocei a cabeça com a ponta dos dedos, e joguei um admirar ambíguo para a Duquesa. Ela conservava-se sossegada e observando-me. Uma parte de mim contava que aquilo não passava de uma alusão utópica. Frederich nunca havia estado em meus sonhos. Ou havia? Sim, ele havia. Estava na presença de uma lebre..

Era ele. A mesa da hora do chá. A lebre de Março. Chapeleiro Maluco.

Senti minhas bochechas arderem de ansiedade. Eu poderia reencontrá-lo e pedir explicações, embora as coisas já estarem bem claras em minha cachimônia. Devia tudo aquilo a Duquesa, que acolheu-me muito bem e explicou-me tim-tim por tim-tim. A batalha começava a partir daquele baque. Não havia prometido nada a Duquesa ou a pessoa alguma, no entanto eu fazia questão de ajudá-los. Sentia-me nessa obrigação, as únicas pessoas ou seres que me abrigaram sem preocupar-se de ser louca ou não. Talvez esta fosse a primeira vez, onde sentia-me em casa ou tive a impressão de pertencer a esse lugar.

Levantei-me da cama colocando os pés no chão. A Duquesa acompanhou-me e também se levantou da cama, porém deu de costas em direção a um pequeno gaveteiro branco. Não dei-me conta que ela trazia com si, um vestido azul semelhante aos dos meus sonhos. De certa forma, senti meu âmago vibrar de emoção. O que antes era algo surreal e não verídico, aparentava tão real.

— Pegue, Alice. — ela entregou-me a peça de roupa com delicadeza.

Quando senti o tecido sob minhas mãos, eu tive certeza; era real. Um sorriso formou-se em meus lábios. Não tinha como agradecer a Duquesa. Por que estava fazendo aquilo por mim? Por apenas ser a Marcada? De alguma forma, me senti importante. O tempo correu tão rápido ao trocar minha roupa. Pois lá estava eu, reparando no espelho o vestido em mim.

O vestido era azul claro, acima dos joelhos e não tinha mangas. Ele era todo armado.

— Bem-vinda de volta ao País das Maravilhas, Alice. — disse a Duquesa entregando-me um avental branco e vestindo-o em mim. — Eu tenho que fé que irá trazer a paz para todos nós! — ela sorriu e terminou de amarrar o laço do avental.

Eu sorri ao olhar-me no espelho. O vestido parecia ter sido feito para mim. Minhas madeixas ébano fazia contraste a minha pele café com leite, e pela primeira vez me conheci. Eu sabia que era Alice, a Marcada. O momento havia chegado. Estava na hora de partir atrás do Chapeleiro Maluco e o Coelho Branco.

— Obrigada, Duquesa de Cheshire. — eu a agradeci inclinando um pouco o corpo, fazendo uma saudação para a nobre à minha frente. — Te prometo que irei trazer paz ao País das Maravilhas. — disse simplesmente e sai batendo a porta atrás de mim.

[...]

A floresta era um lugar frígido, pacato e denso. Não deixei me intimidar, uma vez que conhecia aquele lugar como minha palma da mão. Não passou em momento algum em minha cabeça, que eu poderia ter cometido um desacerto. Nada poderia ajudar-me em determinadas circunstâncias. Pelo trabalhar das coisas, era tarde demais e arriscado demais voltar à casa da Duquesa de Cheshire. Ela havia advertido-me para tomar cuidado com os guardas da Rainha de Copas. Suspeitavam do meu retorno. Tratei de esconder meus cabelos em um coque bem feito, passando-me por uma e qualquer camponesa.

As flores olhavam-me com desprezo e de alguma forma, senti-me assustada. Tornando a correr, até ter minha atenção tomada por uma grande flor em minha frente. Uma flor de extenso caule se erguia chamando atenção das demais, mas não foi sua extensão que prendeu minha atenção. E sim outra coisa, parecia sair dela uma espécie de vapor ou fumaça. Havia interessado-me em saber o que estava acontecendo.

Apoiava-me em suas ásperas e grandes folhas, no tentame de conseguir alcançar logo a superfície da esbelta ‘flor de névoa’. Asseguro-lhe que não foi em vão, pois conseguira chegar ao topo da flor. Muitas expectativas, assim minha expressão tomou outra forma. À vigília, eu observava com surpresa a lagarta de corpo azul tragar seu narguilé.

— Quem é você? — indagou a lagarta virando-se para mim. Observando-me com cautela.

— Sou Alice. E onde está o Chapeleiro Maluco? — disse simplesmente.

— Alice, a Marcada. Lembra-se de mim? — indagou indiscreto.

Um lampejo atingiu-me com força e percebi, que havia causado um efeito dominó em minha cabeça. Para minha felicidade, nada estava perdido.

— Creio que sim. É o oráculo! — articulei enquanto me aproximava. Uma nuvem partiu para meu rosto e fiquei confusa com aquele conflito entre minha visão. — Onde está? — indaguei.

— Responda-me você. Se quiser encontrar quem quer ser encontrado, terá que perguntar por quem quer ser encontrado. Adeus, Alice. — rematou tão-somente proferindo isso e eu perdendo-me na fuligem da névoa.

[...]

Condição perturbadora, eu me encontrava. Como seria possível perguntar por que estava procurando. Simplesmente deveria chamar o Chapeleiro Maluco? Eu tinha um pepino para resolver, mas nenhumas das peças dos quebra-cabeças encaixavam-se adequadamente. Eu, meramente, deveria botar tudo a perder pela primeira pedra que achei no caminho? Eu tinha esperança, porém o horizonte estava escurecendo e o temor começou me açoitar. E mesmo que fosse sem sucesso aquela tentativa, eu temia que ficasse sozinha na floresta.

— Chapeleiro Maluco? Senhor Coelho? — perguntei sorrateiramente. — Onde estão? Hein? — permaneci perguntando ao vácuo.

Andava com prudência pela floresta, nada ouvia. Apenas o silvo dos insetos e o meu pisar nas folhas secas. As coisas permaneciam tão quietas, que fiquei na esperança de algo surpreendente acontecer. Tudo ao meu redor parecia tornar-se turvo, a temperatura teve uma drástica mudança. Luzes vermelhas pintaram o céu e uma alta e lúgubre gargalhada tomou conta de meu campo auditivo.

— Uh, Alice? Querida? — uma voz irritadiça ecoou na floresta. — Alice, onde está? Seja uma boa garota! — ao contrário de anteriormente, o pedido mais pareceu uma ordem. — ALICE! ONDE ESTÁ? MENINA TEIMOSA! — a voz começara a exigir minha localização. Temendo ser alguma criatura maléfica, escondi-me dentro de um tronco de árvore, como uma dríade. — GUARDAS! ENCONTREM-NA! E TRAGAM-NA PARA MIM! — a mesma voz exigiu e pelas pequenas frestas do tronco, ali vi.

A Rainha de Copas em um cavalo negro, acompanhada pelo seu leal exército e seu, amado Valete de Copas.

‘Não se mova, Alice. Ela logo irá embora. Não se mova!’, falei comigo mesma. Os guardas vasculhavam em todo e qualquer pequeno esconderijo, felizmente, não prestaram atenção no tronco de árvore, onde me esgueirava.

Um vulto negro com um capuz tomou minha visão. As frestas, por onde atentava a agitação foram tampadas. Vi-me em desespero. Tinham me capturado, tão facilmente. Senti meu coração parar e minhas emoções aflorarem naquele problema. Submersa ao esqueleto do tronco, intuí que ele estava sendo carregado comigo dentro. Iriam cortar minha cabeça! Não conseguiria salvar a Duquesa, nem ninguém mais.

Uma singela lágrima surgiu descendo sob meu rosto. ‘Não chore, idiota!’, gritei comigo mesma. Iria ser assim? Não iria nem tentar salvar-me? Comecei a chutar o tronco por dentro, causando um enorme desconforto em minhas pernas. Talvez pudesse romper o tronco e fugir, mesmo que não tivesse nem metade de esperança.

— Deixe-me sair! — gritei chutando. Até no décimo ou vigésimo chute, uma parte do tronco rompeu-se e consegui colocar uma parte do corpo para fora.

— Alice, acalme-se! Eles irão nos ouvir! — uma voz familiar disse calmamente. Uma voz que eu conhecia desde meus tempos mais sombrios.

Dei um pulo para fora do tronco já no chão.

— Frederich! — gritei saindo do tronco. — Frederich! Você está aqui! — eu corri abraçando-o, apesar dos recém-hematomas formados em meu corpo, isso compensaria a saudade que tive de Frederich, ou melhor Chapeleiro Maluco.

— Sim, Alice. Eu e o Coelho Branco te procuramos por todos os lugares. Até escutarmos a Lagarta Azul falar com a Rainha de Copas, que você estava atrás de nós. Viemos correndo da Toca. E encontramos você sendo quase capturada pela Rainha! — ele disse com alivio na voz. — Senti sua falta, Peu Fou. — ele disse meu apelido com gentileza.

— Por que largou-me no manicômio? — perguntei soltando-me de seu abraço. Fixando minha atenção em seus orbes castanhos.

— Alice, eu não pertenço ao mundo dos Céticos. Fui para lá por sua causa, queria ver se estava saudável e ver se era a Alice certa. — ele comentou puxando-me para um canto. Por certo, temendo um possível ataque dos Guardas de Copas.

Então ele não havia falado comigo por simpatia, e sim por necessidade de saber se eu era Alice certa? Meu coração murchou. ‘Ignore isto’, pedi sozinha.

— Certo, para onde vamos? Agora? — falei dando de costas, um pouco autoritária.

Não era meu anseio ferir Frederich, mas ele devia ter notado meu desapontamento.

— Vamos para minha casa. — ele disse puxando minha cintura e virando-me para sua direção.

— Eu não quero. Vamos atrás da Rainha de Copas...

— Uh, recém-chegada e já quer colocar a mão na massa? Parabéns, Alice. Mas não é assim que a banda toca, precisamos de ajuda. — ele disse olhando-me nos olhos.

— Eu pertenço ao mundo dos Céticos. Quando mais rápido terminar meu trabalho aqui, irei voltar para casa. — frisei em meus lábios a palavra ‘casa’ e um arrepio correu o corpo de Frederich. — Seu lugar pode ser aqui, mas o meu não! — disse torcendo o nariz.

— Alice, seja indulgente! Vamos para casa! Está muito cansada, seu dia foi longo. Quando arranjarmos apoio, logo partimos atrás da Rainha de Copas. — ele disse calmamente.

— Esse não é minha casa, é sua casa! Eu irei atrás da Rainha de Copas! — proferi um tanto esnobe.

— Você não me dar escolha, Alice. — Frederich articulou balançando a cabeça negativamente, e assim colocou me sobre seu ombro, carregando me por bem ou por mal.

— Me large! Agora! Frederich! Ou sei lá, Chapeleiro Maluco! Large-me! — esperneei.

— Se acalme, Alice...

Notas finais
E aí?