Será?
31 Lala
Notas iniciais
Pisquei os olhos para ter certeza que não era sonho.
Daniel me olhou e sorriu tímido, olhou de volta para Lala e respondeu carinhosamente:
— Por enquanto é só uma amiga Lala, trouxe ela para conhecer vocês e a tia Lu.
Oi? Por enquanto? Vamos com calma meu amigo!
Sorri timidamente.
Lala desceu do colo de Daniel e veio até mim fazendo sinal para que me abaixasse.
Me abaixei e Lala me abraçou, retribui o abraço com a mesma sinceridade.
— Você é muito bonita! – Disse ela me olhando.
— Obrigada, você também é muito bonita parece uma princesa. – Falei.
Lala sorriu e saiu correndo.
— Me desculpe, mas ela é minha melhor amiga e adora fazer questionamentos. – Falou Daniel.
— Ela é linda! Sua melhor amiga? E que história é essa de “por enquanto só amiga”? – Perguntei.
— Sim, minha melhor amiga desde quando ela chegou aqui a dois anos atrás. Vou deixar para responder a segunda pergunta mais tarde. – Respondeu Daniel.
Se tem uma coisa que eu odeio é me deixarem sem respostas, tive vontade de dar as costas para Daniel e ir embora.
— Madrinha! – Falou Daniel acenando.
Olhei para a entrada lateral que Lala havia passado um minuto atrás e vi uma senhora alta, magra, de cabelos negros com algumas mechas grisalhas e expressão feliz vir em nossa direção.
— Meu filho, que bom que veio! – Falou ela.
— Trouxe uma amiga para conhecer o orfanato. – Falou Daniel.
A senhora me olhou, sorriu e se aproximou.
— Prazer, Betina! – Falei esticando a mão.
A senhora pegou minha mão e me puxou para um abraço.
— O prazer é meu Betina! – Falou a senhora me soltando.
— Essa é minha Madrinha Luzia, Betina! – Falou Daniel.
— Venham, vamos entrar. – Falou ela.
Daniel pegou minha mão e caminhamos atrás de Luzia.
O orfanato era um casarão colorido no fim da rua, tinha uma entrada central grande e uma lateral com portão de madeira, um jardim enorme atrás do casarão com mesas e brinquedos, onde tinham aproximadamente 10 crianças entre 4 e 9 anos e todas estavam bem felizes brincando.
— Oi crianças! – Disse Daniel assim que chegamos no jardim.
— Eeeeeeh! – Gritou as crianças correndo em direção a Daniel.
Daniel saiu correndo em direção às crianças com um sorriso no rosto e isso me deixou alegre, ele parecia uma criança também.
— As crianças adoram ele! – Falou Luzia parando do meu lado e cruzando os braços.
Ela riu e acenou para as crianças e Daniel que já estavam jogados no chão brincando.
— Percebi, ele vem sempre aqui? – Perguntei.
— A alguns anos atrás aqui era tudo o que ele tinha, mas aí meu menino tomou coragem e foi ver o mundo lá fora. Agora vem de vez em quando. – Respondeu Luzia um pouco nostálgica com sorriso no rosto.
— Entendi, e os pais de Daniel? – Perguntei.
— Ele ainda não contou? – Perguntou Luzia.
Balancei a cabeça em forma de negação. Não sei por que, mas eu estava apreensiva pela resposta.
— Bom, então acho melhor deixar que ele conte tudo... – Falou ela falhando a voz.
Nesse mesmo instante Daniel olhou para mim e sorriu, pude ver em seus olhos a alegria de estar com pessoas que ele ama, o despreocupar, a criança no seu interior e a suavidade ao atender cada criancinha.
Ele levantou do chão, disse que já voltava e então voltou correndo em minha direção.
— Vamos lá, você vai gostar deles! – Falou ele me puxando pela mão.
Não protestei, fui até as crianças com ele enquanto Luzia olhava de longe, sorrindo.
— Galera, essa é a Betina! – Falou Daniel.
— A namolada dele! – Disse Lala.
— Lala! – Advertiu Daniel querendo parecer bravo.
— Oi Betina! – Falaram em uníssono.
— Oi princesas e príncipes! – Falei sorrindo.
— Agora eu vou levar ela para conhecer a casa e depois voltamos para brincar com vocês! – Falou Daniel.
As crianças saíram correndo cada uma para seu lado voltando a fazer o que estavam fazendo antes de chegarmos.
— Madrinha, vou mostrar a casa para ela. – Falou Daniel.
— Tá bom, vou pedir para Fátima preparar um bolo para nós. – Falou Luzia.
Daniel fez sinal de afirmação com a cabeça e voltamos para a entrada central da casa.
— Melhor começarmos do início. – Falou ele.
— Opa! – Falei animada.
Ele abriu a porta da sala e me surpreendi pela modernidade e sofisticação do lugar.
As paredes eram verdes clara, tinham dois sofás brancos enormes, mesa de centro redonda, uma estante colorida com várias fotos, TV e outros enfeites.
— Nossa, que lindo! – Falei.
— Eu sempre morei aqui, meus pais compraram quando minha mãe descobriu que estava grávida de mim. Aqui estão eles. – Falou Daniel.
Ele pegou um porta retrato da estante e estendeu-a.
— Essa é minha mãe. – Falou ele apontando para uma moça aparentando ter 25 anos, estava com um bebê em seu colo. – Esse é meu pai. – Falou ele apontando para um homem que aparentava ter a mesma idade da moça, ambos estavam felizes. – Esse sou eu. – Daniel apontou para o bebê.
— Seus pais são lindos! – Falei.
— Sim, eles eram lindos. – Falou ele um pouco triste.
Consegui sentir a mudança na voz e fiquei preocupada, mas ele continuou falando:
— Eles morreram quando eu tinha 13 anos. Desde sempre essa casa foi lotada, com família e amigos, meus pais tinham um orfanato em outro lugar da cidade e nós passávamos bastante tempo lá. – Falou Daniel.
— Você não precisa contar. – Falei.
— Tudo bem, eu já me acostumei e quero te contar tudo. – Falou ele.
— Você que sabe! – Falei.
— Acho que meus pais já pressentiam que iriam morrer. Um pouco antes eles fizeram testamento, me emanciparam e fizeram minha madrinha prometer que iria cuidar de mim e do orfanato. Depois do acidente minha madrinha trouxe as crianças para cá e veio morar aqui também. – Falou Daniel.
— Nossa! – Falei.
— Bom, vamos ver os quartos. – Falou ele indo em direção as escadas.
Subimos dois lances de escada e viramos à direita.
— Esse primeiro quarto é o das meninas. – Falou ele abrindo uma porta rosa e mostrando um grande quarto com várias cores e camas. – Esse é o dos meninos. – Ele abriu uma porta azul na frente do quarto das meninas.
Os dois quartos me chamaram muita atenção por serem enormes e bem alegres.
— Ali fica o da minha madrinha e mais dois de visitas, aquele último é o meu. – Falou ele indo sem direção a seu quarto.
Segui ele.
Daniel abriu a porta e fez sinal para mim. Seu quarto também era grande e estava arrumado. O quarto de Daniel não era colorido igual os outros, tinha mais cara de adulto. Uma escrivaninha, cama de casal, guarda roupas, estantes de livros e muitos desenhos em uma das paredes. Desenhos assinados pelas crianças que brincavam lá embaixo.
Na parede em cima da escrivaninha tinha um grande mapa com algumas anotações em alguns países.
— Uau! Que lindo! – Falei.
— Obrigada. Esse é meu cantinho quando quero colo. – Falou ele. – Tenho um apartamento na Paulista, mas quase nunca fico lá. Estou sempre viajando ou estou aqui com as crianças. – Completou ele.
— Entendi. Bom, você não vai se importar se eu xeretar seu quarto né?! – Perguntei.
— Não, pode ficar a vontade! – Respondeu ele.
— O lado jornalista fala mais alto e a curiosidade ataca. – Falei.
— Então quer dizer que você é jornalista? – Perguntou Daniel.
— Sim, mas depois eu te conto sobre mim. Hoje é sobre você! – Respondi.
Daniel se sentou na cama e eu comecei a percorrer seu quarto, olhei seus livros, as fotos nos quadros, na estante perto dos livros, os desenhos das crianças e por fim cheguei à escrivaninha. Olhei o mapa e vi as anotações sem entender o que estava escrito, cada anotação estava no idioma de seu respectivo país.
— O que quer dizer? – Perguntei apontando para as anotações.
— É uma frase ou algo que eu tenha gostado do lugar que visitei. – Respondeu ele.
— Ah sim! – Falei passando a mãos nas coisas da escrivaninha.
Mexi em alguns desenhos que lá estavam e comecei a folhear um por um.
— São lindos! – Falei.
— Sim, feito por artistas. – Falou ele.
O último desenho me fez parar, era uma noiva jogada no chão com as mãos no rosto e cachos volumosos.
— Você que fez? – Perguntei.
— Esse... hmm... é... – Falou ele.
— Não entendi. – Falei.
— Foi eu que fiz sim. – Falou Daniel pegando o desenho da minha mão. – Vamos para a cozinha! – Completou ele dobrando o papel e colocando no bolso.
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