Sentença de Amor
3 Capítulo 03
Capítulo 03: Ficou preso na memória
No dia seguinte Kathryn acompanhou Jenny ao shopping com um humor mais tranquilo. Não havia desespero no olhar dela e Jenny notou. Ainda não se sentia segura para dar carta branca a ela. Não queria deixar um minuto para ela ter aqueles pensamentos.
Jenny escolheu algumas roupas para si mesma e tentou convencê-la a comprar também, mas não surtiu muito efeito.
— Você conseguiu pistas do homem que te colocou lá? — Kathryn perguntou.
— Tenho alguns investigadores no rastro dele. É apenas uma questão de tempo até eu pôr as mãos nele. Quero fazer ele sofrer muito. — ela disse com raiva
Jenny fez cara de brava e imitou uma pessoa trocando socos com outra, mas fora da cadeia ela era tão delicada e doce que nem parecia alguém com um passado problemático e sombrio.
Kathryn sorriu.
— Uau. Eu nunca vi um sorriso assim? — Jenny ficou chocada.
— O que? — Kathryn fechou o sorriso e se sentiu constrangida.
— De maluca psicopata. — Jenny fez piada para não cortar o clima.
Ambas sorriram.
[...]
JC esperou ela se sentar na mesa para tomar o café da manhã, mas nenhum dos dois sequer tocou a comida. Era hora da broca e castigo.
— Porque você saiu sozinha ontem depois da escola? — JC olhou para Gwen com calma.
Ele estava com muita raiva, mas sabia que a raiva não resolveria nada com ela. Desde que ela voltou com o motorista na tarde de ontem, ela não tinha se explicado. A maldita guerra do silêncio. Qualquer castigo não adiantaria. Ele sempre tinha que ser criativo com ela, para ela confessar.
— Eu fui a um café desenhar um pouco. — ela sentou de frente para ele com a cabeça baixa. — Me desculpe por desobedecer suas ordens, eu sei que eu errei.
Porque ela era tão racional para a própria idade, que às vezes o surpreendia. Ele queria que ela fosse apenas uma criança, leve e despreocupada, explorando o mundo com a curiosidade e inocência típicas da sua idade. No entanto, cada vez que conversava com ela, tinha a impressão de estar lidando com um adulto. Suas respostas eram ponderadas, suas observações, perspicazes, e suas preocupações, maduras demais para uma menina. Isso criava um descompasso entre o que ele esperava e a realidade que encontrava, tornando cada interação um misto de admiração e frustração.
— Eu vou te pegar todos os dias na escola — ele a informou. — E como você desobedeceu vai perder o privilégio de ir e voltar sozinha, também está proibida de jogar vídeo game.
— Tudo bem! — ela aceitou sem argumentar.
Ela voltou a ficar em silêncio, e se ele não o quebrasse, poderia durar dias. Gwen conseguiria ser muito desafiadora e mesmo assim a amava demais, não permitiria que ninguém a tirasse dele.
— A professora disse que você não quer mais desenhar, aconteceu alguma coisa? — ele quis saber.
Ela levantou a cabeça e um brilho atingiu seus olhos como se ela estivesse de repente feliz demais, mesmo tendo levado uma bronca.
— Pensei mesmo em parar, eu estava chateada. — ela justificou — Eu sei que estou de castigo, mas eu posso ter uma professora de arte?
— Você está com dificuldade? — ele questionou. — Sua professora disse que você desenha muito bem.
— Lá no café eu encontrei uma artista e eu queria que ela me ensinasse. — ela tirou uma folha dobrada do bolso e entregou a JC.
Ela pegou o papel no bolso desdobrou e abriu a folha inteira e mostrou pra ele. Uma gargalhada saiu de sua boca sem que pudesse se conter. Aquela era uma cópia exata de Gwen e seu gênio forte. Os traços do rosto inocente e bonito, contrastava com a curva dos lábios e o nariz altivo. Aquele artista sabia como captar a essência de Gwen.
— Você estava falando com estranhos? — ele voltou a foco inicial.
— Não... Eu apenas ajudei ela e ela me deu um desenho em troca. — ela estendeu as mãos para ele pedindo o desenho de volta.
JC suspirou e entregando o desenho para ela. Ela não poderia mais fazer aquilo de sair sem permissão. Com Kathryn fora da prisão ela poderia muito bem rondar Gwen e leva-la dele. Isso ele não permitiria. Mesmo que ele e Gwen não compartilhasse uma gota de sangue ela era tão sua, ele a criou como uma filha. Não entregaria ela assim.
— Como você sabe como contatá-la?
— Ela disse que trabalha no café. — ela se prontificou em dizer.
— Vou entrar em contato com ela. — ele prometeu. — Agora se alimente que eu vou te levar para a escola.
Ela fez uma carreta para o prato. Não tinha vontade de comer. Mas obedeceria porque queria aprender aquela forma de desenhar. E ela sabia que seu pai nunca prometia algo que não fosse comprir.
Após deixar Gwen na escola ele foi até o café que Gwen tinha lhe falado, era próximo da escola, na mesma calçada um pouco mais pra frente. Gwen não tinha ido muito longe, mas não abaixaria a guarda assim. Qualquer coisa poderia acontecer num piscar de olhos.
Quando ele abriu a porta fez um barulho anunciando a sua entrada, ele olhou em busca de uma mulher como funcionário, mas não havia. Somente um garoto de no máximo 17 anos. E um senhor já na casa dos 60.
JC foi até o senhor. O ambiente era calmo e aconchegante. Porém vazio naquele horário.
— Como posso te ajudar meu rapaz? — o senhor pegou a caneta e o bloquinho pra anotar o pedido.
— Você tem uma funcionária mulher? — JC não perdeu tempo.
Robert o olhou na defensiva, o homem na sua frente emanava uma áurea tão feroz. Ele sabia da história de Kathryn, porque Jenny havia lhe dito antes de contratar ela, ela o tinha alertado que qualquer pessoa que procurasse por ela, não era para falar sobre ela. E essas semanas trabalhando com ela, ele criou certa afeição e não a entregaria assim.
— Hmmm... — ele negou.
JC estranhou a forma como ele negou, parecia que ele estava escondendo alguma coisa. Mas resolveu não insistir, talvez devesse contratar um profissional para ensinar Gwen.
— Tudo bem. Muito obrigado! — ele virou as costas e saiu.
No dia seguinte, quando ele foi buscar Gwen na escola, percebeu imediatamente que ela estava de mau humor. O jeito como caminhava, arrastando os pés, e a expressão carrancuda no rosto não deixavam dúvidas. Ao avistar JC esperando por ela fora da escola, seu semblante, que já estava fechado, ficou ainda mais sombrio. Ela lançou um olhar rápido e desaprovador na direção dele, antes de desviar o olhar, claramente irritada. Ele notou que algo a estava incomodando profundamente, e a recepção fria fez com que ele se sentisse ainda mais preocupado.
— Você está chateada pequena? — ele pegou a mochila dela e carregou.
— Não.
— Parece que está sim. Quer me contar? — ele foi paciente. — Você sabe que você sempre será minha prioridade.
— Papai... — ela estava triste. Ela sempre o chamava assim quando estava muito triste. — O que aconteceu com minha mãe?
JC congelou. Ele nunca falou sobre isso com ela, ele sempre desconversava ou mudava o foco da conversa para evitar falar sobre Kathryn. Ele tinha que falar alguma coisa, qualquer coisa.
— Ela me abandonou? Ela não me quer? Nem eu nem você? — ela segurou as lágrimas. — Ela jogou a gente fora?
— Não é que ela não quer, ela não pode. — ele tentou pensar em algo, mas sua mente estava em branco.
— Papai... Eu não entendo nada disso. — ela balançou a cabeça em confusão. — Eu sou abandonada?
JC pensou que sim. Kathryn a havia abandonado para cumprir a pena. Mas ele também não poderia jogar uma bomba dessas em uma criança de 5 anos.
— Quem te disse uma coisa dessas? — JC queria matar.
— A professora da turma C disse que era uma pena que minha mãe tivesse nos abandonado porque você é rico e bonito. — uma lágrima escapou.
— Não é nada disso, esqueça, eu vou falar com essas professora. — ele a puxou para um abraço. — Você quer um chocolate quente?
O sorriso dela brilhou.
— Vamos naquele café ali da esquina. — ela sugeriu.
— Achei que quisesse o meu lá em casa. — ele fingiu estar ofendido.
— Outro dia. — o olhar ansioso dela o fez se render.
JC colocou a mochila no carro e o trancou, garantindo que estava bem estacionado para poder caminhar tranquilamente até o destino. Enquanto caminhavam, ele se inclinou e pegou Gwen no colo, levantando-a no ar. Ela soltou uma risada espontânea e contagiante, que encheu o ambiente de alegria. O som da sua risada era tão genuíno que JC não pôde deixar de sorrir também. Seguiram em frente, rindo e conversando animadamente. Quando chegaram ao café, ambos estavam de bom humor, e o ocorrido ficou pra trás, por hora.
Ele abriu a porta com um sorriso no rosto. No entanto, ao perceber quem estava à sua frente, seu sorriso desapareceu instantaneamente. Chocado, ele recuou dois passos e instintivamente colocou Gwen atrás de si, como um escudo protetor. Seu coração disparou e sua mente começou a correr em várias direções. Como aquilo era possível? Ele não estava preparado para lidar com essa situação, especialmente não naquele momento. A tensão no ar era palpável, e ele sabia que isso iria complicar ainda mais as coisas.
— Kathryn... — ele se viu pronunciando o nome que ele não queria.
Ao ouvir seu nome, ela entrou em pânico, deixando cair tudo o que estava segurando. Por que ele estava ali, chamando seu nome? O desespero a invadiu, e ela sentiu seu coração disparar. Ela não queria vê-lo novamente; a mera presença dele a fazia lembrar de sua própria fraqueza e inutilidade. Pior ainda, ela lembrava de Gwen, o bebê inocente que teve que sofrer as consequências junto com ela.
Suas mãos começaram a tremer descontroladamente e seu corpo parecia não responder. Tudo ao seu redor parecia distorcido, e o único som que conseguia ouvir era um zumbido ensurdecedor em seus ouvidos, que a deixou desorientada e sem chão. Ela se sentia perdida, sem saber como reagir ou o que fazer.
— JC...
Foi tudo o que ela conseguiu falar. Ela fechou os olhos tentando respirar, mas o ar não entrava. Todos pararam para olhar os três.
— O que você está fazendo aqui?! — ele perguntou com raiva. — Está tentando chegar perto de Gwen? Você acha que vou deixar? Eu te coloco antes na cadeia que o lugar que você nunca deveria ter saído.
— Eu.... eu... — ela tentava colocar palavras na sua boca, mas elas não saiam. A mente e o coração trabalhando em direções opostas.
Kate não queria ver JC, e a simples menção do nome de Gwen a fazia tremer. Ela sentia que não tinha mais o direito de se envolver na vida deles. O peso de sua culpa era tão grande que, se soubesse mais sobre Gwen, provavelmente não conseguiria continuar vivendo. A dor e a vergonha a consumiam, e ela sabia que não podia, nem mesmo se quisesse, se aproximar de Gwen. A distância era sua única opção.
— Papai o que está acontecendo? — a voz infantil e chorosa veio de trás de JC.
Quando os olhos de Kate se fixaram em Gwen, o zumbido em seus ouvidos se intensificou até se tornar insuportável. Desesperada, ela colocou as mãos na cabeça, tentando bloquear o som que parecia vir de dentro dela. Cada vez mais, o esforço para conter aquele ruído a exauria. Suas forças começaram a fraquejar, e sua visão foi escurecendo gradualmente. O mundo ao seu redor perdeu tudo sentido, até que ela não pôde ver mais nada, sucumbindo à escuridão.
JC viu tudo acontecer como se fosse em câmera lenta. Ele observou Kate apertar a cabeça com força, o rosto contorcido de dor e desespero. Em seguida, viu seu corpo começar a ceder, inclinando-se lentamente em direção ao chão. Sem hesitar, ele se lançou para frente e a segurou, evitando que ela batesse a cabeça no chão. Seus braços a envolveram com firmeza, protegendo-a enquanto ela desmaiava. A preocupação dominou seus pensamentos enquanto tentava entender o que havia acontecido e como poderia ajudá-la..
Uma mulher entrou correndo e foi até Kate em desespero.
— Kathryn... Kathryn... — a mulher sacudiu ela e mesmo assim não obteve reposta. — O que você fez? Machucou ela? O que você fez?
JC se afastou.
— Eu não fiz nada, só a impedi de cair e bater a cabeça. — JC se fez de inocente.
— Me ajude a levá-la ao hospital. — ela ordenou e JC fingiu não ter ouvido. — Agora!
— Agora papai. — Gwen o pediu.
Sem outras opções, JC pegou Kate no colo com cuidado, tentando não agitar muito o corpo dela. Enquanto carregava Kate, Gwen e a mulher que estava com ela o seguiam, seus passos apressados ecoando ao redor. Ele rapidamente olhou para os dois lados, buscando uma solução. Seu olhar se fixou no carro, estacionado um pouco distante, perto da escola. A cena era um caos total, e JC não pôde deixar de pensar, com um misto de frustração e desorientação, "Que confusão."
Ele colocou Kate no banco de trás do carro e Gwen sentou ao lado dela. A mulher que os acompanhavam sentou no banco do passageiro e sobrou para JC dirigir o carro.
Que situação ele tinha se colocado. Era ridículo.
No hospital, JC pegou Kate ainda desacordada no carro e levou até a enfermeira o médico veio até eles.
— De novo? — o médico olhou com cara feia para a mulher ao lado de JC.
— Ela entrou em colapso — ela se justificou. — Eu não estava perto para ajudar ou impedir.
— Quanto mais tempo demorar a tratar, mais grave está ficando, Jenny. — o médico lhe deu uma bronca.
— Papai o que ela tem? — Gwen sentiu um aperto no coração que ela não soube explicar.
— Você é o marido dela? — o médico apontou para JC e não deixou nem tempo para ele negar. — Acha que o trauma vai desaparecer assim? Ela precisa de ajuda e rápido, ela está entrando em colapso cada vez mais rápido, isso pode acabar em desastre. Você não quer sua filha sem um mãe quer?!
O médico levou Kate com a ajuda de enfermeiros até uma maca. Jenny e JC ficaram para trás enquanto o médico fazia o pronto atendimento.
— O que aconteceu com ela?
— Quem é você para querer saber o que ela tem?! — Jenny apontou para JC. — Você tem uma criança...
Quando Jenny olhou para a criança, seu coração se apertou instantaneamente. A semelhança entre a menina e Kathryn era impressionante; ela era uma cópia exata, o que a fez questionar o que aquilo poderia significar. Até onde Jenny sabia, Kathryn não tinha família, o que tornava a presença daquela criança ainda mais enigmática. De repente, um pensamento atravessou sua mente como um relâmpago: o chocalho. A imagem do objeto parecia conectar-se de alguma forma com a situação, adicionando uma camada de mistério àquilo que ela estava tentando entender.
Será que era verdade? Jenny ficou paralisada pela possibilidade de que aquela criança fosse, de fato, parte da família de Kate. Se fosse o caso, isso significaria que havia uma conexão real, uma possibilidade de cura para a depressão que atormentava Kate. A ideia de que algo tão significativo pudesse oferecer uma solução para a sua dor parecia quase inacreditável, mas também esperançosa. Jenny se viu cheia de perguntas e uma expectativa cautelosa, ansiosa para entender como essa revelação poderia impactar a situação.
— Ela é de Kathryn? — Jenny perguntou a JC.
JC virou-se para Gwen e, com um tom firme, mas gentil, pediu que ela se sentasse na cadeira de espera, um pouco afastada do local onde ele estava. Queria garantir que ela não ouvisse a conversa que estava prestes a ter. Ele indicou uma cadeira um pouco mais distante, onde ela pudesse ficar confortável, e assegurou que pudesse vê-la. Com um olhar preocupado e um leve aceno de cabeça, ele a orientou a esperar ali, antes de voltar sua atenção para a situação urgente.
Jenny, compreendendo a necessidade de proteger a criança da conversa, respeitou o desejo de JC e permitiu que Gwen se afastasse. Ela observou enquanto Gwen se dirigia para a cadeira de espera, com um olhar de preocupação e um leve sinal de compreensão. Assim que Gwen se acomodou e estava fora de os ouvir, Jenny voltou sua atenção para JC, que estava agora de frente para ela. O olhar de JC estava carregado de urgência e seriedade, e Jenny sentiu a tensão no ar enquanto ele se preparava para as perguntas.
— Porque você abandou ela? Você não teve a audácia de levar a filha dela pra ver ela... Kate tem crises de ansiedade, pânico e depressão... Tudo isso porque ela segurou a dor por anos e anos, ela carregava um chocalho dentro da cela — Jenny segurou as lágrimas — Aquele chocalho a matou por dentro.
— O que quer dizer? — JC não sabia nada disso.
— Lá, naquele lugar... — Jenny começou. — Ela... ela... ela se torturava com aquilo. Kathryn não era normal quando olhava para o chocalho.
Jenny deixou algumas lágrimas caírem.
— Quando ela chegou ela não dizia uma palavra, então eu tentei conversar com ela, e ela me esmagou na grade... Por conta disso ela ficou na solitária uns dias, eu soube que alguém veio visitar ela nesse tempo, depois disso ela tinha esse chocalho. Toda vez que ela olhava aquele negócio, era como uma punição, ela se torturava e ninguém sabia o porquê, só agora eu entendi. Ela estava se torturando por causa da filha.
Jenny observou Gwen sentada sozinha no canto, com o olhar perdido e distante. A visão da menina, isolada e vulnerável, fez com que Jenny refletisse sobre o que ela poderia ter enfrentado sozinha, longe da presença confortante da mãe. A ideia de Gwen passando por dificuldades sem Kate a tocou profundamente. Jenny também pensou em quanto Kate havia sofrido, enfrentando tudo sozinha, sem ninguém para dividir o peso da dor e da responsabilidade. A imagem das duas, cada uma lidando com sua própria batalha, fez com que Jenny sentisse uma onda de empatia e tristeza.
— Ela vem tentando suicídio desde que saiu de lá. — Jenny disse olhando na fundo dos olhos de JC — Eu consegui impedir algumas vezes, tenho medo de chegar tarde demais.
— Ela não está atrás de Gwen? — JC não quis acreditar nisso.
— Eu nem sabia que ela tinha uma filha. Estou com ela na maior parte do dia. Ela simplesmente trabalha três turnos e vai pra casa. Ontem ela tinha mostrado uma melhora, mas hoje tudo foi por água a baixo. — Jenny olhou novamente para Gwen.
Se ao menos Gwen fosse uma razão para que Kate encontrasse motivos para viver, uma parte significativa do problema estaria resolvida. Jenny pensou que, se a presença de Gwen pudesse servir de ânimo e esperança para Kate, ajudando-a a enfrentar sua dor e encontrar um propósito, isso mudaria tudo.
— Deixe Gwen ficar com ela?
— Nem pensar! — JC negou. — Eu tenho uma ordem de restrição...
— Até mesmo isso você conseguiu, o que ela te fez de tão terrível que prefere que ela morra sem ver a filha. Aquela criança não é só sua é de vocês dois, como você pode fazer isso com as duas. — Jenny queria dar umas bofetada em JC.
Jenny observou o homem e pensou que ele parecia ser uma pessoa extremamente dura, com um exterior impenetrável. Por outro lado, JC estava lutando internamente. Ele pensou em desmentir o pensamento sobre ele ser um casal com Kate e ter um filho, mas algo mais forte o impediu de falar. A dificuldade em lidar com a situação o paralisava. Além disso, ele relutava em admitir que Gwen não era sua filha, uma verdade que ele preferia evitar por completo.
— Ela já cumpriu sua pena, não é mais uma criminosa! — Jenny afirmou com firmeza. — Deixe a menina ficar aqui pelo menos agora, quando ela acordar.
JC, abalado pelas palavras de Jenny e pela situação delicada, cedeu. A resistência que ele sentia foi gradualmente se dissipando diante do apelo dela. Com um suspiro profundo, ele aceitou.
— Você venceu. Gwen pode ficar, mas eu ficarei também. — ele decretou. — E quando ela ficar bem nós partiremos.
Kate acordou sentindo o cheiro e o gosto familiar de estar em um hospital. A mente dela estava em branco. Tudo era vazio.
O que mais ela tinha que passar para poder apagar tudo. Uma dor profunda a atingiu e ela reprimiu. Ela tinha batido de frente com JC, e não queria contato com ele, porque se soubesse dele, o desejo por Gwen tomaria forma e desespero. Ela não saberia o que fazer. Agora era tarde demais, aquele bebê que antes tinha ficado preso na sua memória, pertencia a um rosto, o rosto de uma criança que nunca poderia ter.
Gwen, sua querida filha, era uma visão de ternura e beleza. Seus pequenos olhos verdes brilhavam com uma vivacidade que cativava, e seu rosto delicado tinha uma suavidade que transparecia inocência e doçura. Cada traço dela parecia irradiar uma pureza encantadora, tornando-a ainda mais preciosa para Kate.
— Você acordou. — a voz grossa e rouca de JC a surpreendeu.
— Me desculpe! Eu vou mudar de lugar, eu... eu... e.. eu vou sair. — repetiu várias vezes para convencer ele e ela mesma.
— Do que você tem medo? — JC perguntou
— De você! — ela mentiu. — Nossos caminhos deveriam continuar separados.
— Você não tem saudades dela? — ele tocou a ferida dela com acidez.
Kate respirou fundo, tentando se acalmar, não queria ter outro colapso na frente dele. Ela sempre mostrava seu pior para esse homem. Queria a todo custo manter-se longe dele.
— Eu não tenho direito nem de me resentir. — ela disse friamente bloqueando todos os pensamentos sobre sua filha. — Vamos apenas desaparecer da vida um do outro.
Jenny e Gwen apareceu sorrindo uma pra outra conversando animadamente e automaticamente Kate fechou os olhos com força virando o rosto para o outro lado fingindo que estava dormindo. Porque JC estava ali e com sua filha ao alcance de suas mãos.
JC a viu se recusar a olhar para Gwen e seu coração pesou, ele sabia que tinha uma parte de culpa na separação da mãe e filha, mas Kate também tinha, não é? Mesmo sabendo disso porque ele não se sentia mais feliz em ter mandado ela pra lá.
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