Sentença Dos Seus Pecados
3 Luke
Notas iniciais
“Muitas vezes não tomamos atitudes com medo da mudança que aquilo pode causar, mas muitas vezes temos que causar mudanças para começarmos a ter atitude.”
Acordei bem cedo, por algum motivo eu estava animado, o sol forte entrava por algumas brechas da janela, mesmo não gostando muito de dias de calor, me animei com aquilo. Cocei os olhos com as costas da mão e peguei meu celular na escrivaninha do lado da minha cama, pude ver as mensagens da Diana que deixei de responder porque cai no sono. Não que eu desse importância, sinceramente, eu já estava cansando daquela garota, só que essa era mais uma das ordens que eu recebia do meu pai. Ele acha bom eu namorar uma garota envolvida com a igreja e que nosso relacionamento fosse saudável, um espelho para os adolescentes que iriam na congregação. Mas se lamentar não adiantaria nada.
Me levantei em um pulo e fui lentamente ao banheiro fazer minhas higienes matinais. Me espreguicei e olhando no espelho pude me admirar uma vez mais. Como alguém consegue ser tão lindo ? Eu me amava por fora, e, principalmente, minha personalidade por dentro, me sentia angustiado por deixá-la apenas lá dentro, em segredo, para não decepcionar meus pais.
Terminei o que estava fazendo e desci para comer algo, meus pais estavam sentados na mesa, discutindo sobre a aparência da minha mãe. Ele reclamava sobre os cabelos curtos e as roupas que ela usava, disse que daria mal exemplo. Mas se tem uma pessoa que não acata as coisas que meu pai diz e sim manda nele, é a mamãe, ela conseguia dominar o velho. A invejo.
–Bom dia.-Notaram minha presença pela primeira vez.
–Ah filho, bom dia, seu pai e eu estávamos conversando sobre…-Ela olhou nervosa pro seu marido tentando ocultar a discussão, ela era uma pessoa pacífica e calma, algumas horas chegava a dar raiva.- Sobre a nova liderança do grupo de jovens.
–Ah… O que tem ? Vão nomear um novo líder? -Disse me sentando na mesa com eles, fingia interesse.
–Sim, você.- engasguei com minha saliva.
–Nem pensar.-Disse entre tosses.
–Sem discutir com sua mãe, Luke.-Meu pai se alterou.
–Não, já chega, não vou ser mandado assim, eu faço o que eu quero, tenho livre arbítrio.
–Já chega digo eu garoto.-Ele bateu contra a mesa e se levantou.
–Meu bem, calma. -Ele se sentou quando mamãe disse isso.
–Ah, que se dane, seu velho idiota! -Disse saindo da mesa e subindo para meu quarto.
Pude ouvir ele vindo atrás de mim, mas como tranquei minha porta tudo que ele pode fazer foi bater nela. Tirei meu pijama e coloquei uma camiseta vermelha e uma bermuda xadrez em branco e verde. Abri a porta ignorando totalmente ele e me dirigi para fora de casa, não me importando com meu pai gritando , me mandando ficar.
Não sabia para onde ir, fiquei em dúvida se ia para casa de Diana, ou se ia ver o Antony, meu melhor amigo de infância, mas apenas sai andando pelas ruas, tentando esfriar a cabeça. Eu passei por ao menos dois quarteirões e já estava desistindo de ficar andando igual idiota pela rua, foi quando eu vi a janela de uma casa se abrir e sendo coincidência ou obra do destino, eu vi o garoto que visitou a igreja ontem, foi então que me toquei que nem sabia o nome dele, na verdade, ontem ele estava todo estranho, parecia uma ovelha jogada no meio de uma alcateia, todo medroso e inseguro, confuso. Acho que ele não tem amigos, bom, agora tem um.
Me dirigi até a entrada de sua casa, fiquei um pouco nervoso de bater mas o fiz depois de alguns segundos. Quem me atendeu foi a mãe dele, ela era muito jovem, tinha os cabelo cortado até o pescoço com algumas mexas loiras, pele clara, menor que seu filho, olhos pretos, ela perecia muito nova para ser mãe.
–Olá! Você é o filho do pastor não é?- Disse ela sorridente.
–Sim. Prazer, Luke.- Dei ênfase ao meu nome, odiava ser apenas conhecido como o filho do pastor.
–Ah, prazer, Katia… Entre , aposto que esta procurando por Andrew.
–Sim, ele está ai, né ? -Eu tinha acabado de ver o garoto.
–Claro, vou chamar ele.- A mulher não tirava o sorriso da cara, parecia muito animada com minha presença. Ela deu as costas e subiu para o segundo andar.
Alguns minutos depois o garoto desceu resmungando e coçando os olhos, ele estava com um pijama curioso, era branco com bolinhas… E corações também. Uma visão fofa e confortável, seu cabelo ficava magnificamente mais bonito desarrumado, melhor que aquela coisa lambida pro lado. Cada vez mais sentia curiosidade em conhecer aquele menino.
–Não é ninguém mãe! Eu não tenho ami…-Ele travou quando me viu na porta. Os seus olhos iam saltar para fora do rosto a qualquer hora, o melhor foi quando o rosto dele ficou totalmente vermelho. Sua mãe desceu em alguns segundos sorrindo e dizendo que agora tinha um amigo.
–Vou preparar algo para vocês comerem.- Disse ela se dirigindo a cozinha.
–Oi.- Disse ele descendo lentamente, ainda estava assustado.
–Oi.-Deixei escapar um sorriso no canto da boca.-Eu pensei em passar aqui para confirmar o jogo mais tarde.
–Precisava ser as 8 da manhã ?-Perguntou ele corando novamente e olhando para suas roupas. Algo me dizia que realmente ele não tinha amigos e não sabia se comunicar, ou então que ele estava interessado em mim.
–Desculpa, não tinha nada pra fazer e pensei em vir aqui.-Fiquei um pouco envergonhado quando notei que estava na casa do garoto, e vim até aqui sem ao menos saber seu nome.
–Ah…- Disse ele coçando a nuca.- Era sobre isso que queria falar, ainda bem que veio, ontem saiu sem deixar eu falar… Enfim, é que eu não posso… jogar futebol. -Corou novamente e começou a brincar com os dedos.
–Mas porque ? .-Me senti desapontado.
–Porque….-Ele sorriu sem graça.-P-porque… Na verdade eu... Não sei jogar.
Um silencio se instalou no lugar, não me contive e soltei algumas risada nasal, o que deixou ele mais nervoso. Então tive uma brilhante ideia.
–Por isso que estou aqui, e ainda bem cedo, temos o dia para te ensinar a jogar.- Disse animado. Ele pareceu ser vencido.
–Tenho mesmo que aprender a jogar ?
–Ah, qual é ? Vamos ou menos tentar ? -Ele deu de ombros e subiu as escadas. Em alguns segundo ele desceu me olhando envergonhado.
–Pode ir pra sala enquanto me troco, tudo bem ?
–Ah sim, claro.- Me dirigi até a sala de estar, ela era bem espaçosa, tinha dois sofás pretos que pareciam muito confortáveis. Uma tv grande e uma mesinha no meio da sala. Um garotinho estava sentado em um dos sofás, concentrado em um jogo de futebol no vídeo game. Me sentei ao seu lado e ele pausou o jogo me olhando curioso.
–Você é o garoto bonito que o meu irmão conheceu na igreja ontem ?- Ele me olhos nos olhos com um sorriso pervertido. Meu Deus, como assim “o garoto bonito”?
–Sim… Acho que sou eu.- Sorri meio envergonhado e logo olhei para tv quando ele continuou a jogar.- Ei, posso jogar com você enquanto seu irmão se troca ?
–Ah, mas é claro, o Andy nunca joga comigo, ele odeia futebol.- Sorri quando percebi que convenci o garoto a fazer algo que ele odeia.- A propósito, me chamo Charlie.
Ele me deu o controle e começamos a jogar, não demorou muito para o irmão mais velho chegar e sentar entediado do meu lado para esperar a partida acabar. Depois de alguns minutos que a partida ainda não tinha acabado o garoto já estava bufando de tédio.
–Finalmente!- Gritou comemorando quando acabou a partida, perdi feio para uma criança, minha maior vergonha.
–Você reclama de mais. -Disse o garotinho rindo do irmão.
–Enfim, Drew, vamos ?- O garoto revirou os olhos e levantou lentamente, o segui até os fundos, tinha duas portas grandes, que levavam ao fundos presumi, quando saímos pude ver um quinta médio, estava perfeito para ensiná-lo.
–Bom, agora pegamos alguma coisa para marcar o gol e um tem que tentar passar o outro e fazer gol, simples.
–Aposto que é simples pra você porque jogou a vida toda.- Disse ele virando a cara.
–Ah, vamos lá, você consegue.- Bati palmas e sorri tentando animar o garoto que soltou um sorriso no canto da boca.
Começamos a jogar, e realmente ele era péssimo, ele tropeçava na bola, chutava muito forte ou muito fraco, chutava o chão algumas vezes. Eu apenas ria, foi uma das tardes mais divertidas, mais legal ainda por ele rir de si mesmo junto comigo. Mas no final das contar eu consegui ensinar ele algumas coisas. O suor escorria em mim, estava um dia muito quente, Katia havia acabado de deixar dois copos grandes de um suco natural, tirei minha camiseta, peguei um dos copos e me sente.
–É-é….-O garoto se desconcertou ao me ver sem camiseta, parecia que eu estava o provocando, contive meu sorriso malicioso.
–O que ? Tem algo te incomodando ?
–A-ah… O calor, está muito quente…
–Então porque não tira a camiseta ?- Ele corou na mesma hora e andou de pressa pegando o copo e me olhando nervoso. Mordia o lábio inferior, aquilo de certa forma de inquietou.
–N-não precisa, vou tomar o suco da mamãe e vai refrescar.- Disse sentando do meu lado.- Ainda estou com medo de jogar hoje a noite.- Desconversou.
–Não tenha, os meninos são bem legais, e se não forem eu dou uns petelecos neles.- Sorri o encarando. Ele pareceu seguro com o que eu disse. Ficamos nos olhando por alguns segundo, seus olhos curiosamente tinham um brilho tão forte, pude ver suas pupilas dilatarem, aquilo era provocador. — Você é muito medroso.- Corou
–Não sou não….
–É sim, com toda certeza.
–É-é… Que eu nunca tive amigos… E-então fico, meio, nervoso, não sei como agir.- Não pude conter o sorriso enquanto via ele cutucar os dedos nervoso, tinha que assumir, ele me causava uma certa força por dentro que me fazia querer abraçá-lo ou cuidar dele, ele parecia perdido e sozinho, alguém infeliz e eu me sentia meio que obrigado a ajudá-lo a ser feliz.
–Agora você tem… Um amigo, acho pode contar comigo, estou passando a querer te ver bem.- Sorri, ele retribuiu com um sorriso amargo, o brilho de seus olhos pareciam mais forte, notei que era por causa de algumas lágrimas que se acumulavam dentro dos olhos, meu primeiro impulso foi abraçá-lo, e foi o que fiz.
Em alguns segundos, com o silencio que se instalou no local, pude me concentrar nas batidas do coração dele, estava muito rápido, pensei que ele poderia ter um infarto ou algo do tipo, mas ele havia se abrigado no abraço. Fui salvo de cometer um homicídio sem intenção quando meu celular começou tocar e eu tive que atender, pude perceber que ele esfregou as costas da mão rapidamente nos olhos, presumi que ele estava chorando. Mas dei atenção ao celular e vi que era Diana me ligando
–Desculpa, tenho que atender. — Me levantei e fui para um quanto mais afastado.- Fala guria.
–Oi amor da minha vida, você ficou o dia todo sem responder minhas mensagens, onde diabos você esta ?
–Eu tenho vida Diana, estou com um amigo, não nasci grudado com você.
–Eu sei amor, é só que eu estou sozinha em casa e aqui esta tão solitário, não quer vir aqui ?
–Não Diana, agora não da, alias, hoje não dá! -Disse me irritando com a necessidade de sempre querer minha atenção vinte e quatro horas.
–Tudo bem Luke! Não há nenhuma necessidade de ser arrogante! Vá fazer sexo com seus amiguinhos então, babaca!- Desligou a ligação sem que ao menos eu pudesse dar uma boa resposta a ela. Suspirei e voltei atenção a Andrew, que me olhava curioso, parecia um gatinho assustado, sorri.
–Tenho que ir guri, vou resolver umas coisas em casa e depois te esperar, passa em casa para irmos juntos ao futebol.- Fui em sua direção estendi a mão para cumprimenta-lo mas para minha surpresa ele me abraçou e sussurrou um obrigado, aquilo me pegou, senti meu corpo arrepiar com seu sussurro, logo depois ele afundou o rosto em meu ombro e sua respiração atingiu minha nuca e me causou excitação.
Para completar as surpresas de despedidas ele depositou um beijo em minha bochecha, o que me fez corar, rapidamente sorri desconcertado e peguei minha camiseta, dei um tchau seco e sai daquela casa o mais rápido possível.
Me sentia diferente, aquele garoto me provocou um incomodo debaixo do estômago, um frio na barriga e uma inquietação grande, confuso e temeroso mudei os planos e fui direto para casa de Diana.
Chegou momentos que até corri, senti aquelas coisas loucas se apossarem do meu corpo, de repente me vi com medo pela primeira fez na minha vida. Eu nem ousava pensar no óbvio então apenas corria e balançava a cabeça para esquecer. Calma Luke aquilo foi apenas excitação de um dia diferente, nada relacionado ao sexual, só muita adrenalina.
Cheguei na casa da Dina e bati algumas exageradas vezes na porta, abriu a porta assustada mas logo abriu um sorriso de convencida. Não pensei direito quando comecei beija-la, em alguns momentos que nossas bocas se separavam ela sussurrava um “ Eu sabia que viria”, mas a ignorei e continuei a beijar enquanto a levava ao seu quarto, deitei ela na cama delicado e fui trancar a por, e logo me voltei a ela.
Comecei a beijar o seu pescoço e deslizar minhas mãos por seu corpo, vez ou outra apertava seu ceio e sua bunda, cheguei até tirar sua camiseta mas de repente algo se reprimiu dentro de mim e eu me afastei dela.
–D-desculpa, é errado fazer isso,eu só estava com saudades… A-agora preciso ir.- Disse me virando e correndo para fora da casa.
Aquele dia estava totalmente estranho, corri direto para minha casa. No caminho só pensava na diferença de excitação que Diana e Andrew me causava, aquele garoto estava me confundindo, bem que meu pai havia falado que o diabo vem para nos confundi ou algo assim. Eu deveria te-lo ouvido mais.
Quando cheguei em casa fui imediatamente procurar me pai e quanto o achei eu o abracei e agradeci por seus ensinamentos. Quando o abraço se desfez pude ver a cara de vitorioso e logo depois uma cara de nojo.
–Garoto, mas você tá fedendo de mais!- Disse ele fazendo um gesto com a mão como que para espantar o mal odor.
–Que horas são ?.- Lembrei que o jogo começaria as dezessete e meia.
–São Seis e cinquenta, filho, porque ? Vai sair ?
–Sim, vou para o futebol. Se alguém passar aqui diga para ir e que tive que sair mais cedo.- Deixando o velho com cara de interrogação eu corri para meu quarto, me troquei rápido e sai de casa direto para o campo onde jogaríamos.
Por sorte, quando cheguei tinha apenas dois garotos te aquecendo, eu me juntei a eles. Não demorou muito para que todos fossem chegando, um por um, vi quando Antony chegou e fui cumprimenta-lo, vi Peeter também, o jogo seria emocionante, por alguns minutos esqueci o garoto de olhos verdes.
Ele foi o ultimo a chegar, tímido e inseguro novamente, como um gatinho arisco. Contive o sorriso involuntário. Quando ele me viu acenou, fingir não ter visto, então correu até mim e comentou algo sobre estar nervoso, fui totalmente seco com ele dizendo sobre focarmos no jogo naquela hora, ele meio sem graça assentiu. Ele estava bonito, usava um shorts preto curto, uma camiseta branca bem larga e seu All Star velho. Me obriguei a focar no jogo.
Logo começou, já que estavam todos prontos. Eu e Andrew caímos em times diferentes, aquilo pareceu preocupa-lo, mas relaxei por Antony estar em seu time. O jogo ocorreu bem por um certo tempo, meu time estava perdendo de um a zero, não vi Drew pegar a bola nenhuma vez, mas quando isso aconteceu ele acabou chutando o chão de nervosismo o que deu chance do meu time fazer um gol. Rimos, mas o time dele não pareceu muito feliz, isso se repetiu mais três vezes e mais um gol foi feito pela minha equipe graças a isso, na terceira vez tony pareceu irritado e furioso foi para cima do garoto, o empurrou com toda força, o que o fez cair no chão, aquilo me agoniou por dentro, então comecei a caminhar lentamente até eles.
–Sua marica, se não sabe jogar o que esta fazendo aqui? Aqui não é lugar para gays.- Disse meu melhor amigo o chutando, aquilo me tirou do serio por algum motivo, senti aquela necessidade de proteger aquele garoto medroso que parecia um gato acuado, corri até e antes que eu pudesse chegar lá o garoto riu e chutou o outro mais uma vez, eu estava perdendo a cabeça, então o empurrei com toda minha força quando o alcancei.
–Pra que isso seu otário!.- Disse para Antony que caiu no chão.
–Que foi? Vai defender esse viadinho ?- Fiquei sem reação, pude ver Andrew levantar e soltar um foda-se em baixo tom e correr para fora do campo, por um impulso corri atrás dele e enquanto corria pensei :
“Afinal de contas acho que não é apenas atração e talvez o diabo não tenha nada a ver com isso.”
“Quando você percebe que não se conhece tanto assim é como a sensação de estar perdido em um labirinto”
Fale com o autor