Sentença Dos Seus Pecados
2 Andrew
Notas iniciais
“A vida, muitas vezes te da uma chance de ver as coisas por um ponto de vista melhor, mas as vezes ela te obriga!”
Eu me pergunto, o que leva a alguém tão correto, a um estado de espírito tão perturbado ? Tão descrente em Deus ?Lembro de ser alguém tão bom e amoroso, frequentava a igreja, todos os cultos, cantava no coral e fazia parte de qualquer departamento da igreja que eu pudesse … E de repente tudo desmoronou e eu não consigo enxergar culpa minha nisso e agora tudo que eu penso é em cortar minhas gargantas e pulsos para fugir desse inferno… o que eu fiz com a minha vida afinal ?
Ver aquelas velas acesas e meus pais fingindo se amarem e me amarem… Me dava náuseas, tudo que eu queria era gritar para que parassem de ser tão falsos com eles mesmos. Toda aquela cena só me dava nojo.
Estava completando meus 16 anos, não era muito importante a não ser para meus pais, para mim já não fazia sentido nenhum, eles tentavam ocultar o fato de que eu não tinha nenhum amigo me fazendo um bolinho e esperando que eu sorrisse. Que divertido, um garoto completar 16 anos com dois velhos mentirosos e uma criança de 6 anos que provavelmente ia ser a pessoa mais mimada do mundo para que não reclamasse do lixo que estava minha casa, minha vida era na certa uma desgraça.
–Andrew, a nova escola ligou e disse que você pode começar a frequentar as aulas na segunda feira, graças a Deus eles não perguntaram o motivo de você ter saído da antiga, explicar para as pessoas que você tentou cortar seus pulsos com o vidro da janela do banheiro da escola por bobeira…
–Mãe… Pra que detalhes não é mesmo ?- Sorri forçado.-Se acha que foi por bobeira não perca seu tempo relembrando bobeiras.
–Enfim... como hoje é seu aniversario não precisamos visitar igrejas novas, mas amanhã nós vamos entendeu ? Sexta-feira sempre teve cultos na outra igreja. — Realmente, uma grande e desgraçada vida.
–Tudo bem mãe!
Comemos o bolo, que aliás estava uma delicia, de tudo que minha mãe “fazia para meu bem” o que eu mais gostava era de quando ela me lotava de coisas gostosas pra me consolar. Depois que comemos, eu subi para tomar banho e me aprontar pra dormir. Em casa era tudo muito certinho, eu ia pra cama muito cedo.
Isso foi paranoia da minha mãe, depois que cresci numa casa de bagunça e desgraça, com meu pai batendo e traindo ela, e os dois usando drogas o tempo todo, saindo e tudo mais, eles resolvem virar cristãs e mudar totalmente minha rotina.
Entrei no banheiro e me despi, antes de ligar o chuveiro eu fiquei me olhando no espelho grande do lado oposto do box. Eu tinha repulsa do meu corpo, eu não tinha nada de atrativo, nunca conseguiria chamar a atenção de ninguém, magro, ossudo, e pálido. Eu era pequeno e fraco, meu rosto era muito marcado, meus olhos, as únicas coisas que amava em mim, eles eram verdes pareciam brilhar e meus lábios, que eram rosados. Liguei o chuveiro e deixei a aguá molhar meus cabelo castanho, ele era médio, Não muito grande.
Me perdi nos pensamentos enquanto tomava banho, me fazendo mil perguntas, daquelas bem clichês…. “ O que há de errado comigo ?”, “ Por que não tenho amigos ?”. Presumi que as pessoas me odeiam, estava bem com aquilo, eu mesmo me odiava, tinha aceitado esse fato.
Saí do banho e quando terminei de me arrumar, coloquei meu pijama todo branco com bolinhas e corações. Passei no quarto dos meus pais , dei boa noite e fui para o meu. Era um quarto simples, tinha um grande janela e do lado um guarda roupa marrom pequeno na parede oposta da porta, minha cama e um computador, era bem simples. Eu me deitei e logo cai no sono.
O dia seguinte foi entediante, eu fiquei lendo algumas coisas e ouvindo música no computador, só sai do meu quarto para me arrumar e ir para igreja com a mamãe, obrigado, como sempre. Tomei um banho e coloquei uma camiseta polo listrada, uma calça jeans qualquer e um All Star, penteei meus cabelos com gel, pra um lado só, realmente parecia lambido. Eu era muito brega, meu Deus.
–Estou pronto mãe, vamos ?-Estava totalmente entediado. Ir para igreja depois de tudo que aconteceu me parecia pedir para que acontecesse de novo.
–Vamos.- Ela pegou sua bíblia e saímos somente ela e eu.
Finalmente não era uma igreja tão longe, eram dois quarteirões da nossa casa, a outra igreja era bem longe, pegávamos ônibus ou saiamos uma hora antes de casa, caso fôssemos a pé. Mas agora era só eu e minha mãe que ia à igreja, então não tinha tanto capricho. Saímos da antiga igreja depois que meu pai traiu minha mãe com a regista do coral das irmãs, eu pensei que finalmente minha mãe ia se libertar daquele mostro mas ela o perdoou, aquele negocio do setenta vezes sete…
Chegamos na igreja e sentamos no fundo, não tinha muitas pessoas, a maioria eram adultos ou idosos, tinham duas garotas que pareciam ter minha idade e um garoto, muito bonito para falar a verdade. O culto começou, com uma mulher muito bonita, com cabelos pretos curtos, o que já mostra que a igreja não era tão rígida, ela cantava alguns hinos da harpa cristã. Nem pude perceber que o garoto veio até o banco em que eu estava sentado.
–Oi, seja bem vindo…- Ele disse estendendo a mão para me cumprimentar.
–Ah, oi, obrigado.- Apertei sua mão.
–Você não quer sentar comigo e com os jovens lá na frente ?- Corei, estava nervoso, eu não conversa muito com outras pessoas da minha idade, meus amigos eram basicamente meus pais e alguns tios.
–A-ah… é que…- Olhei pra minha mãe gritando ajuda por dentro. — É que eu estou com minha mãe, não quero deixa-la sozinha.
–Não Andrew, não se incomode, pode ir.- Disse ela rindo, maldita.
–Ah, não, obrigado, prefiro ficar aqui.- Disse sorrindo forçadamente.
–Ok.- Disse ele sorrindo espontâneo, um sorriso lindo, a propósito.
Eu continuei a cantar junto com a irmã esperando que ele se levantasse e saísse, mas não o fez, comecei a ficar muito nervoso e isso piorou quando ele se inclinou até meu ouvido e disse:
–A propósito, meu nome é Luke e você canta super bem. — Meu coração parou.
–A-ah… Obrigado. — Fiquei com os olhos vidrado no altar culto todo, hora ou outra ele falava comigo mas eu sempre evitava contato visual.
Em algum momento do culto, o pastor nos mandou levantar e abraçar o irmão do lado, antes que eu pudesse virar para abraçar minha mãe, ele me puxou bruscamente e me abraçou. No mesmo momento arregalei os olhos e meu coração acelerou, o cheiro dele atingiu meu nariz, e meu Deus, era o melhor perfume que eu já tinha sentido. De repente o garoto me afastou e olhou com um sorriso de lado e uma expressão de duvida.
–Seu coração…-Ele estendeu a mão até meu peito.- Ele esta batendo muito rápido.
Os olhos dele me encaravam, e por algum motivo, mesmo não querendo, os meus pararam nos dele, pude ver sua pupila dilatar, aquilo me causou calafrios, era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
–Você esta passando mal ?. -Disse ele confuso.
–A-ah, não… Não, estou bem, estou ótimo! -Sorri, era o primeiro sincero que deixei escapar depois de muito tempo.
–Eu gostei de você, é todo medroso e desconcertado.- Agora, ele me olhava como se eu fosse uma presa, aquilo realmente me desconcertou. Corei.
–A-ah.. É mesmo ?Não sabia…
–Sim, é medroso, com toda certeza.- Ele envolveu o braço em meu ombro.
Eu não costumava me sentir bem quando outra pessoa desconhecida me abraçava ou tocava, eu estava tremendo, mas era confortável, não queria que aquele momento acabasse nunca. Mas acabou, porque eu não nasci para ter coisas boas na minha vida. Com certeza minha mãe odiaria a igreja e eu nunca mais o veria novamente.
Mas afinal de contar, porque diabos eu estava fazendo questão de alguém na minha vida? A carência era tanta assim ? Repentinamente, tirei o braço dele do meu ombro e sentei no banco, ele sentou junto. Que guri insistente. Até parece que me queria. Mas claro que não queria, ele parecia ser um cristão muito devoto e para o Deus sádico de minha mãe, homossexualidade é abominação. Mais um motivo pra ninguém me querer por perto, eu era exatamente essa abominação.
–Cara. Eu gostei que tu veio nos visitar.- Disse ele se levantando. Olhei rapidamente pro altar e percebi que o culto tinha acabado, olhei para minha mãe, e a maldita estava abraçada com outra mulher, aposto que essa mulher só me pariu para foder a minha vida.
–Eu gostei de você… Da igreja, isso, da igreja.-Meu Deus Andy, calma, respira…
–Ah, já que gostou de mim, vem aqui amanhã, todo sábado jogamos futebol em um campo muito perto daqui, ai você me chama, moro aqui do lado.
–Lu, vamos.-Uma garota loira, muito bonita o interrompeu, atrás dela esta uma garota asiática, com um cabelo vermelho, a guria conseguia ser mais brega que eu.- Ah, oi, seja bem vindo.- Ela sorriu pra mim com um cinismo tão grande, que eu explodi a cabeça dela… na minha imaginação.
–Agora tenho que ir, vamos Diana.- Disse ele saindo.
–Volte sem….- Revirei os olhos.- Me espera amor.-Ela saiu correndo atrás dele.
–A-ah… Ah…. Oi- Disse a garota ruiva.
–Não tem que seguir sua lide...Amiga? -Sorri cínico, quanta hipocrisia da minha parte.
–Ah… Ah, é verdade, obrigada, tchau, volte sempre.
–Adeus.
Olhei para frente e respirei fundo, quando cai em mim arregalei os olhos e pensei: “Mas eu nem jogo futebol!” … Não preciso voltar aqui, não preciso voltar pra essa igreja, minha mãe nem vai gostar, essa congregação é muito barulhenta.
–Filho, eu amei essa igreja, vamos congregar aqui.- VADIA! Eu realmente odiava minha mãe, do fundo do meu coração.
–Ah….Vou ter que jogar futebol.- Apoiei a cabeça no banco da frente e gemi as palavras.
–O que você disse ?
–Eu gostei de mais também mãe, isso que eu disse. -Estava sendo irônico, velha burra.
“algumas vezes você ate quer deixar passar uma oportunidade de mudar as coisas, mas sempre tem algum filho da puta para interferir.”
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