Sentença de Amor

13 Capítulo 12


Capítulo 12: Ela tem minha personalidade.


A sala de interrogatório na delegacia era fria, com paredes cinzentas e uma mesa de metal no centro. JC estava sentado de um lado, com Sebastian ao seu lado, enquanto dois detetives do outro lado folheavam papéis. Os detetives não acreditavam em uma disputa dentro da facção, mesmo que todas as evidências apontavam que esse era o caso. August Smith havia sumido do mapa.

- Senhor Carter, o senhor esteve na cena do crime ontem à noite, quando resgatou Kathryn. Pode nos dizer o que viu? — perguntou o detetive, folheando os papéis do caso.

JC respirou fundo, mantendo a calma. Tudo tinha terminado.

- Eu fui até lá porque recebi um sinal de Kate pedindo ajuda. Quando cheguei, a porta estava entreaberta. Encontrei Kate amarrada e amordaçada em um quarto. Hug estava caído no chão, com um ferimento na cabeça. Não toquei nele, apenas verifiquei se ele estava morto e corri para ajudar Kate. — JC havia recebido essa instrução de August e repetiu exatamente igual.

- E você notou mais alguém?

- Não vi senhor. Depois que soltei Kate, saímos rapidamente. Ela estava em choque, desmaiou antes mesmo de chegarmos no carro. Eu a levei ao hospital. Enquanto chamava a polícia!

Sebastian interveio.

- Meu cliente agiu como qualquer cidadão faria. Ele não tem qualquer envolvimento com a morte de Hug. Pelo contrário, ele salvou a vida de Kate.

O detetive franziu a testa. A história batia com todos as provas, mas sua experiência parecia estar sentindo outra coisa.

- Temos testemunhas que viram uma discussão entre Hug e Ella antes. E Ella está na cadeia agora.

JC sentiu um misto de alívio e raiva. Ella finalmente estava presa, mas a morte de Hug complicava tudo.

- Detetive, — disse Sebastian — Sugiro que investiguem as ligações de Hug com a facção do tráfico. Ele era um dos mandantes no esquema.

Sebastian entregou algumas provas que eles haviam recuperado nos dias de busca. Isso desviaria os investigadores para outra questão.

O interrogatório se arrastou por mais uma hora, mas JC foi liberado, embora ainda fosse considerado testemunha. Enquanto saía, seu telefone vibrou com uma notícia de que Ella sofrera um atentado na cadeia.

Na penitenciária feminina, Ella estava na enfermaria, com ferimentos graves. Alguém a esfaqueara no pátio durante o banho de sol, e a faca atingira o pulmão. Ela sobreviveria, mas o recado era claro, alguém queria silenciá-la.

O diretor da penitenciária ligou para a delegacia, informando que Ella se recusava a dar detalhes, apenas pedia para ser transferida para uma unidade federal.

Enquanto isso, nos escritórios do Grupo Carter, uma equipe de advogados e relações públicas trabalhava para minimizar os danos. A notícia do escândalo envolvendo Ella, Hug e JC já vazara, mas o Grupo Carter emitiu um comunicado oficial: “Jamie Carter foi vítima de uma fraude orquestrada por terceiros, e está cooperando plenamente com as autoridades. JC não tinha qualquer envolvimento e está afastado temporariamente para cuidar de assuntos pessoais.”

Nos bastidores, Justin e sua equipe garantiram que o nome de JC fosse limpo, e que o foco recaísse sobre Ella e Hug. O atentado na cadeia só aumentou a especulação, mas a polícia prometeu investigar. August Smith já estava em outro país.

[...]

No hospital, o sol da manhã entrava pelas cortinas semiabertas do quarto privativo. Kate estava deitada, com curativos nos pulsos e na testa ela estava sedada, o quarto mergulhado no silêncio. Kate lentamente abriu os olhos, sentindo o corpo ainda cansado pelas agitação dos últimos dias. O zumbido baixo do monitor cardíac ao seu redor era o único som presente, até que seus olhos focaram na figura familiar sentada ao lado de sua cama: JC.

Ele se inclinou para a frente, segurando a mão dela e um sorriso aliviado quando percebeu que ela finalmente recobrara a consciência.

- Kate... você está bem? — a preocupação em sua voz era clara, mas havia um toque de esperança misturado.

Ela piscou algumas vezes, tentando se situar. Lembranças de seu sequestro por Hug e de sua fuga desesperada vieram à tona, mas antes que o medo pudesse tomá-la, a presença tranquilizadora de JC a trouxe de volta para o momento presente.

- Estou... estou aqui, — sussurrou, sua voz ainda falhando, apertando levemente as mãos de JC. — Gwen... ela está bem?

JC sorriu com ternura, apertando levemente a mão dela de volta para tranquiliza-la.

- Ela está bem. Enquanto te procurava mandei ela para um lugar seguro. Então... — JC hesitou. — Ela sabe de toda a verdade.

O coração de Kate disparou. Por anos, ela sonhara com esse momento. Durante todo o tempo que estivera longe, injustamente acusada e separada de sua filha, Kate sempre imaginara se um dia poderia finalmente abraçar Gwen como sua mãe. No entanto, a ansiedade também a atingiu com força, ela sabia de tudo e agora?

- Ela... sabe tudo? Sobre mim?

JC assentiu.

- Sim. Ela sabe que você é a verdadeira mãe dela e que tudo o que aconteceu no passado foi por causa das mentiras de Ella. Eu disse a ela que você a amou desde o primeiro momento e que nunca parou de lutar por ela.

Kate sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos.

- Ela quer me ver? — sua voz soava quase incrédula.

JC se levantou, ainda segurando a mão dela.

- Mais do que tudo, — ele disse, suavemente. — Ela está aqui.

Antes que Kate pudesse responder, a porta do quarto se abriu, e Gwen apareceu, hesitante na entrada. Kate piscou, afastando as lágrimas. A visão embaçada foi se ajustando, e ela viu aquele rostinho familiar, tão parecido com o seu. Lágrimas escorreram por seu rosto antes mesmo que pudesse falar.

A menina segurava um pequeno buquê de flores, seus olhos curiosos e cheios de emoções conflitantes. Ela parecia mais madura do que Kate lembrava, mas o amor era inegável nos olhos da menina.

- Gwen... — Kate chamou, sua voz embargada de emoção.

Gwen deu alguns passos para dentro do quarto, e por um momento, mãe e filha se encararam, tentando compreender tudo o que estavam sentindo. O silêncio era quase palpável, mas não era um silêncio desconfortável, era cheio de coisas não ditas, mas compreendidas.

JC se afastou ligeiramente, dando espaço para aquele momento tão esperado.

Finalmente, Gwen quebrou o silêncio.

- Você é... minha mãe? — sua voz era suave, mas havia uma curiosidade genuína.

Kate assentiu, as lágrimas rolando silenciosamente por seu rosto.

- Sim, querida... sou eu. Sinto tanto por tudo o que aconteceu. Eu nunca quis estar longe de você.

Com isso, Gwen avançou rapidamente, jogando os braços ao redor de Kate em um abraço apertado. As flores que ela segurava caíram no chão, esquecidas. Kate abraçou Gwen com toda a força que tinha, soluçando baixinho enquanto acariciava os cabelos da filha.

- Eu te esperei por tanto tempo... — Kate sussurrou entre lágrimas. — Eu te amo tanto, Gwen.

- Eu te amo também, mamãe. — Gwen respondeu, sua voz abafada contra o ombro de Kate. Ela também chorava.

JC, observando de longe, sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Anos de dor e separação estavam finalmente se dissolvendo diante dele, e sua família estava se curando.

Kate, ainda abraçando Gwen, olhou para JC e sorriu entre lágrimas.

- Obrigada por me trazer de volta a ela.

- Ontem quando trouxe você para cá, Gwen chegou a tarde e ela não saiu do seu lado. Ela te ama muito. Mesmo antes de saber.

JC se aproximou novamente, colocando a mão no ombro de Kate.

- Nós estamos juntos nisso, Kate. Sempre estaremos. Agora, podemos finalmente ser uma família de verdade.

Gwen, ainda abraçada à mãe, olhou para JC e sorriu. A tensão dos últimos dias parecia finalmente começar a se dissipar, e naquele quarto de hospital, uma nova esperança surgia para os três.

Algumas horas depois, após os últimos exames e a alta médica. Depois de resolver todas as questões com os médicos e garantir que Kate estava estável o suficiente para sair, ele organizou tudo com cuidado.

- Se sentir-se mal, retorne! Faremos novos exames! — o médico disse a Kate.

- Pode deixar Doutor! — foi JC quem confirmou.

JC levou Kate e Gwen para casa. Não para a mansão dele, mas para uma casa aconchegante que ele comprara recentemente, pensando justamente em um lar para os três.

O carro deslizava suavemente pelas ruas, o som leve dos pneus sobre o asfalto era a única coisa que se ouvia no interior do veículo. Kate, ainda um pouco exausta, olhava pela janela, absorvendo o momento. Gwen estava sentada ao seu lado, com a mão pequena entrelaçada na de sua mãe, como se nunca mais quisesse soltá-la.

JC olhava as duas de relance pelo espelho retrovisor, um sorriso leve nos lábios. Sabia que, apesar de tudo que haviam passado, aquele era o início de uma nova jornada. Kate e Gwen estavam juntas novamente, e agora, era seu dever garantir que nunca mais seriam separadas.

- Estamos quase lá. — JC disse suavemente, quebrando o silêncio. — Nossa casa está esperando por vocês.

Kate virou o olhar para ele, seus olhos ainda brilhando com um misto de emoções.

- Obrigada, JC. — ela disse, sua voz repleta de gratidão. — Por tudo. Eu nem sei como começar a agradecer.

- Não precisa me agradecer. — ele respondeu, sorrindo. — A única coisa que importa agora é que estamos juntos, como sempre deveria ter sido.

Gwen, até então quieta, olhou para JC e depois para sua mãe.

- Nossa casa. — repetiu baixinho, como se a ideia de finalmente estarem todos juntos começasse a se tornar real para ela. — Vai ser diferente agora, né?

Kate apertou a mão da filha e sorriu, emocionada.

- Sim, meu amor. Vai ser diferente. Vamos ser felizes.

Poucos minutos depois, o carro entrou pela longa estrada que levava à propriedade. O portão se abriu automaticamente, revelando a casa grande e aconchegante que agora significava mais do que um simples lar, era um símbolo de um novo começo.

- Não vamos para sua casa? — Kate questionou.

- Comprei um novo lugar achei que seria melhor começarmos de novo, em um lugar novo. Só nós três!

Ao chegarem, JC estacionou o carro e desceu rapidamente para abrir a porta para Kate e Gwen. Gwen, ansiosa, foi a primeira a sair, correndo pelo jardim e olhando tudo ao redor.

Kate desceu mais devagar, ainda sentindo a leve fraqueza no corpo, mas com um alívio profundo no coração. JC ofereceu o braço para apoiá-la, e ela aceitou, olhando ao redor. Era surreal estar de ali, agora com Gwen ao seu lado. O medo e a incerteza que a haviam consumido durante tanto tempo pareciam, finalmente, começar a se dissipar.

- Estamos em casa. — JC murmurou, quase como uma promessa, enquanto olhava para Kate.

Ela olhou para ele, o coração cheio de gratidão e um novo senso de esperança.

Gwen correu de volta até eles, os olhos brilhando.

- Vamos entrar? Eu quero ver tudo! — disse animada. — A casa que tem uma mamãe!

JC sorriu, inclinando-se para abrir a porta da frente.

- Então, vamos entrar. Esta casa é sua, Gwen. Nossa.

Quando atravessaram a porta, um novo começo verdadeiramente se desenhava para todos. Era o início de uma vida sem segredos, sem medos. E, com isso, Kate sentiu, pela primeira vez em anos, que finalmente estava onde sempre deveria ter estado, com sua filha e o homem que aprendeu a gostar.

- É linda — Kate disse, olhando a sala iluminada, com móveis de madeira e um jardim nos fundos.

- É nossa — JC respondeu, colocando a mão no ombro dela. — Vamos ser felizes a partir de agora!

Gwen já corria para o jardim, rindo. Kate observou a filha, depois olhou para JC.

A noite Kate estava sentada no sofá vendo Gwen brincar no tapete. A casa estava aquecida e o cheiro da comida vinha da cozinha, onde JC cozinhava.

— Você precisa de ajuda? — ofereceu ela.

- Sim, pegue a manta e se cubra, está frio. — orientou ele.

O silêncio acolhedor da casa foi quebrado pelo som de um carro chegando à entrada. Kate, ainda se ajustando ao ambiente familiar, olhou para JC com um toque de curiosidade. Ele franziu as sobrancelhas, já adivinhando quem poderia ser.

Gwen, entretida com a exploração de sua nova casa, correu até a porta e abriu-a, revelando uma figura familiar. Era a mãe de JC, vestida impecavelmente como sempre, mas havia algo diferente nela, uma expressão de preocupação e peso, como se estivesse carregando um fardo por muito tempo.

- Jamie...

Alice parecia ter envelhecido de uma hora pra outra.

- Me desculpa! — pediu ela. — Quando fizemos a aquisição daquele hotel... Eu sabia das dúvidas de jogo do pai de Hug e achei fácil tomar tudo... A transação foi legal, mas eu me aproveitei das dividas daquele homem...

- Isso já está no passado. — JC limpou as mãos no pano de prato. — Hug está morto.

- Eu sei, mas... Minhas escolhas refletiram sobre você! — ela cruzou as mãos em sinal de nervosismo. — Não vou mais me meter no seus relacionamentos...

- Nem se você quisesse se meter, eu deixaria.

- Eu sei... — ela conhecia o filho bem demais. — Estou dizendo que você pode fazer o que quiser.

- Devo agradecer? — ele disse rude. Kate foi até ele e segurou em seu braço.

- JC... — Kate implorou por sua atenção. — Vamos ser felizes, lembra?

Com indignação ele concordou.

- Tudo bem!

- O relacionamento que vocês construíram é tão forte quando o passado! — ela divagou e JC soube onde sua mãe queria chegar. A verdade. — Bem... Vou me retirar, sei quando não sou bem vinda!

Mais tarde a casa estava silenciosa. A mãe de JC, finalmente fora embora após uma visita que para JC durara tempo demais.

- Sua mãe é... intensa — disse Kate, com um sorriso mais cansado do que queria admitir.

JC riu baixo, servindo dois cálices de vinho.

- Ela gosta de você. Só não sabe demonstrar sem parecer uma general em campo de batalha.

Kate aceitou o vinho, olhando para o corredor onde o quarto de Gwen ficava. A menina dormia profundamente desde as oito, exausta de um dia inteiro brincando na casa nova.

- Ela está tão feliz — Kate murmurou. — É tudo que eu sempre quis para ela. Um lugar seguro.

- Você também está segura! — JC bebeu o vinho tomando coragem.

JC a observou por um momento, o peso de algo não dito pairando entre eles. Ele a conduziu para o sofá, onde a luz aconchegante oferecia privacidade.

- Kate, precisamos conversar sobre Gwen.

Ela franziu a testa, sentando-se ao lado dele.

- O quê?

JC respirou fundo, tomando a mão dela.

- Ella me disse algumas coisas antes de ser presa. A verdade é que... Gwen não é filha de Mac.

Kate endireitou-se, alerta.

- Eu pensei que já soubéssemos tudo. Ella me enganou, eu entrei no quarto de Mac...

- Sim, mas tem uma parte que eu não te disse.

Ele apertou os dedos dela, os olhos fixos nos dela.

- Naquela noite, eu fui drogado também, Eu estava no terraço do hotel, sozinho, depois da festa. E então você apareceu. Eu lembro dos seus olhos confusos, mas tão lindos.

Kate arregalou os olhos.

- Eu... eu lembro vagamente. Lembro de um homem, de uma conversa... mas pensei que fosse um sonho. Achava que era Mac..

- Não foi sonho. Foi real. Você estava tonta, desorientada. Eu percebi que te deram algo. Levei você para o meu quarto para te proteger, mas você já estava tão confusa que mal sabia onde estava. Eu comecei a me sentir estranho... Depois disso tudo fica em branco. Quando acordei estava sozinho, achei que tinha sido um sonho.

- Nós ficamos juntos — ela completou, a voz trêmula.

- Ficamos! Depois você apagou, e eu também. Mas antes disso... houve um momento. Um momento em que era você. Eu e você!

Kate levou a mão livre ao peito, como se pudesse acalmar o coração disparado.

- Então aquela noite... não foi com Mac.

Lágrimas escorriam pelo rosto de Kate.

- E eu acordei no quarto de Mac, confusa, achando que tinha passado a noite com ele. Eu saí da cidade porque não suportava a ideia de me envolver com aquele homem. E quando Mac me encontrou, grávida, pensando que eu era Ella... Ele ligou para ela, e os dois vieram atrás de mim. Estava de sete meses.

- Você descobriu que ele não era o pai?

Kate balançou a cabeça.

- Não. Na confusão, quando Ella me empurrou e Mac morreu, eu nunca soube. Fiquei detida na delegacia achando que tinha matado o pai de Gwen... Mas não acharam provas de que foi eu, não me lembrava de nada, logo fui solta. Mas fiquei nervosa sabendo que eu tinha traído minha irmã com o namorado dela, mesmo sem querer.

JC a puxou para um abraço.

- Não, querida. Gwen é minha. Nossa. Daquela noite no terraço, quando você era você e eu. Fiz um DNA quando você estava no hospital.

Kate soluçou contra o peito dele.

- Por que você não me contou antes?

- Porque você estava se recuperando, porque Ella já estava presa. Mas hoje, vendo você com Gwen, vendo nossa família... você precisava saber. Que aquela noite não foi um engano. Foi destino.

Ela se afastou, enxugando o rosto.

- Eu passei seis anos achando que tinha sido usada, manipulada, que até minha filha era fruto de uma confusão. E agora... agora você me diz que foi real?

- Foi real. E Gwen é a prova viva disso tudo. Ela tem seus olhos, Kate. Mas também tem minha teimosia. Ela tem minha personalidade.

Kate riu entre lágrimas.

- Ela tem mesmo.

- E eu fui ainda mais idiota, minha filha estava ao meu lado e não reconheci. — condenou ele.

- Nenhum de nós sabia. — Kate limpou as lágrimas que escorriam do rosto de JC. — Agora sabemos.

Ficaram em silêncio por um longo momento, olhando um para o outro.

- Obrigada. Por me contar. Por não deixar que a versão de Ella fosse a única verdade. — Kate sussurrou.

JC beijou sua testa.

- Nunca mais vou deixar mentiras nos separarem.

Mais tarde, deitados na cama, Kate virou-se para ele.

- JC?

- Hmm?

- Eu te amo. E estou feliz que foi você. Naquela noite. Sempre foi só você.

Ele sorriu na penumbra, puxando-a para mais perto.

- Eu também, Kate. Eu também.

Os dias seguintes foram de adaptação. Kate conhecia a casa, os hábitos de Gwen e JC, e aos poucos recuperava o vínculo com a filha. JC equilibrava o trabalho do hotel com sua empresa de investimento e também com sua pequena família. Enquanto isso, Sebastian e Jenny se viam envolvidos em outra trama.

Jenny voltou para seu escritório, estava trabalhando com muita garra, seu nome havia finalmente sido limpo e os anos que passaram na cadeia. Seu ex estava preso e ela livre.

Duda havia tirado férias então ela está a sozinha no escritório, quando Sebastian entrou. O terno cinza e bem passado lhe caia muito bem. Jenny levantou o olhar e vi que ele carregava uma sacola.

- Boa tarde! Você está bem? — ele quebrou o silêncio.

- Sim. Trabalho é o que não falta. Como está Kate e JC?

- Pelo que sei estão bem. A nova casa foi a melhor coisa que JC fez. Kate voltou a pintar, Gwen voltou para a escola. Parece que criaram uma rotina.

- Kate merece ser feliz, mais que qualquer pessoa! — Jenny suspirou aliviada. — Espeto que ele não demore demais.

- Demorar?

- Você é insuportável, sabia? — Jenny disse, jogando uma pasta na mesa. — Casamento! JC tem que dar certezas a Kate e não viver um interlúdio de amor.

Sebastian ergueu uma sobrancelha, um sorriso provocador nos lábios.

- E você é uma chata. Mas reconheço que você está certa. — JC colocou a sacola em cima da mesa.

- O que você trouxe?! É pra mim? — ela cruzou os braços.

Ele tirou dois sanduíches da sacola. Ele balançou e depois colocou novamente na sacola.

Eles se encararam, a tensão elétrica no ar. Desde que trabalharam juntos para encontrar Kate, a rivalidade inicial se transformara em algo mais. Sebastian deu a volta na mesa aproximando-se dela.

- Jenny... Eu sei que a gente vive se estranhando, mas... — ele hesitou. — Eu não consigo parar de pensar em você.

Ela corou, surpresa.

- Sério? Porque você age como se eu fosse um inseto irritante.

- Porque é mais fácil do que admitir que você mexe comigo. — ele tocou o rosto dela. — E que eu quero muito te beijar agora.

Jenny sorriu, desarmada.

- Então por que não beija?

Ele não precisou de mais incentivo. O beijo foi intenso, cheio de implicância e atração reprimida. Quando se separaram, ambos estavam sem fôlego.

- Acho que a gente precisa conversar sobre isso, talvez até fazer um contrato — ela sussurrou o lembrando de seu erro.

- Concordo. Mas depois. Agora, quero repetir.

E riram, abraçados.

[...]

Na casa de JC, Kate preparava o jantar enquanto Gwen desenhava na mesa. JC chegou do trabalho, jogando a pasta no sofá e indo direto para a cozinha. Atrás de Kate.

- Cheiro de comida caseira... — ele abraçou Kate por trás. — Você está linda.

- Você está cansado. — ela riu, virando-se para beijá-lo tocando seu rosto. — Como foi o seu dia?

- Estou me preparando para assumir os investimentos da família dentro do grupo. Justin é ótimo hoteleiro, mas como investidor...

Kate suspirou com o contato de JC em sua orelha.

- Você vai conseguir... — Kate voltou para a panela e JC continuou abraçando ela sem querer soltar. — Vamos jantar?

- Só se for você a sobremesa! — ele sussurrou.

- Mais tarde...

Gwen veio correndo, abraçando as pernas do pai.

- Papai! A mamãe fez macarrão!

- Que bom! — ele a pegou no colo. — E você, o que desenhou?

- A nossa família. Olha: você, eu, a mamãe e o Tobby. — ela mostrou o desenho, com um cachorro rabiscado.

- Tobby? — Kate riu. — Desde quando temos um cachorro?

- Ainda não temos, mas quero um! — Gwen fez bico.

JC e Kate trocaram olhares, JC estava despreocupado. Mas Kate tinha um olhar mais estranho.

- Vamos pensar nisso, princesa. — JC interveio.

Depois do jantar, enquanto Kate preparava Gwen para dormir, a menina estava animada com o evento artístico que aconteceria em duas semanas. JC esperou no quarto que compartilhava com Kate, ouvindo as duas conversarem animadas sobre a apresentação.

Kate apareceu na porta trinta minutos depois, envolta em sua camisola de seda, um sorriso discreto nos lábios. Havia prometido uma sobremesa. Atravessou o quarto devagar e sentou-se em seu colo, enlaçando o pescoço dele com um abraço preguiçoso.

- Gwen quer um cachorro — ele disse, as mãos encontrando a curva da cintura dela. — Acho que podemos ter um.

O corpo de Kate enrijeceu. O sorriso desapareceu.

- Não... não acho uma boa ideia.

- Por quê? Ela está animada, seria bom para ela.

Kate desviou o olhar, os dedos alisando distraidamente a gola da camisa dele.

- Eu mal dou conta de nós três, JC. Não me sinto preparada para cuidar de mais ninguém.

Ele ia responder, mas Kate inclinou-se e beijou os lábios dele, um gesto suave que pedia silêncio. JC correspondeu, e o assunto foi se desfazendo entre beijos lentos, as mãos dela subindo pela nuca dele, as dele espalmando-se nas costas dela. O quarto ficou silencioso, embalado apenas pela respiração dos dois.

E então JC lembrou.

A caixinha de veludo no bolso da calça jeans, largada sobre a poltrona. O discurso que ensaiara a tarde inteira. O motivo de estar esperando por ela justamente aquela noite.

Afastou-se um pouco, a testa encostada na dela.

- Kate... — a voz saiu mais rouca do que planejara. — Tem uma coisa que eu quero falar com você!

Ela abriu os olhos, ainda nebulosos de desejo, e o encarou.

Ele se levantou-se e colocou ela sentada na cama, pegou a caixinha e voltou. Joelhou-se diante dela, que permaneceu sentada na cama, os pés descalços tocando o chão, a camisola de seda refletindo a luz amarelada do abajur.

- Desde que você voltou, minha vida virou de cabeça para baixo. Eu passei cinco anos criando a Gwen achando que ela era só sua, mas sempre senti que ela era minha de alguma forma. E você... — Ele abriu a caixinha. A aliança brilhou, pequena e delicada. — Eu sei que é cedo. Sei que você precisa de tempo. Mas eu não quero esperar mais. Você quer se casar comigo?

O rosto de Kate transformou-se. Não era emoção de alegria como ele esperava. Os olhos dela atingiu uma cor tão forte de... pavor.

Ela levou as mãos ao peito, como se lhe faltasse ar. Como se as paredes ao redor dela estivessem se fechando.

- Jamie...

- Deixa eu passar o resto da minha vida tentando te fazer feliz.

Kate ficou de pé, as mãos agora trêmulas cobrindo a boca. Os olhos marejados não eram de alegria. Eram de quem estava encurralada. O medo a cegou por um momento, sua boca ficou seca.

- Eu não... — a voz falhou. — Eu...

Ele continuou ajoelhado, a caixinha aberta, a espera crescendo entre eles como um abismo.

Kate deu um passo para trás.