Sentença de Amor
14 Capítulo 13 - Final
Capítulo 13: Você não me salvou, você me deu forças para me salvar.
Os dias que se seguiram ao pedido de casamento deveriam ter sido de pura felicidade, mas algo mudou no olhar de Kate. JC percebeu, embora ela tentasse esconder. Durante o café da manhã, ela ficava em silêncio, olhando para o anel no dedo como se fosse um fardo e não uma promessa. À noite, quando Gwen dormia, Kate se recolhia cedo, inventando desculpas de cansaço. E quando JC a tocava, ela retribuía o carinho, mas seus olhos estavam sempre distantes, ancorados em algum lugar que ele não alcançava.
- Kate, podemos conversar? — JC abordou-a na cozinha depois que ela havia buscado Gwen na escola. — Você está distante. Foi algo que eu fiz?
Ela virou-se, os olhos evitando os dele. As mãos apertavam o pano de prato como se fosse uma taboa de salvação.
- Não, JC. É só... eu. Preciso de tempo para processar tudo.
- Tempo? Nós temos uma vida inteira pela frente. Mas se você não quer casar, precisa me dizer.
- Eu não sei o que quero! — a voz dela saiu mais alta do que pretendia, carregada de uma angústia que ela mesma não entendia. — Desculpa, eu... não posso fazer isso agora. Não me pressiona.
Ela saiu da cozinha, deixando JC parado com o coração apertado. No dia seguinte, a tensão pairou sobre a casa como um elefante invisível. Gwen, com a sensibilidade aguçada, sentia o clima sempre que os pais estavam juntos.
- Mamãe, você está triste? — perguntou na noite seguinte, enquanto Kate a ajudava a vestir o pijama.
Kate apenas sorriu fraco, ajeitando os cabelos da filha. Sua pequena não merecia uma mãe tão quebrada.
- Mamãe só está cansada, minha querida!
Mas não era cansaço. Era algo mais profundo. Era um vazio que voltava a se instalar no peito, uma névoa cinzenta que ela reconhecia bem demais. Os mesmos sintomas que sentiu em cinco anos: o desânimo que pesava nos membros, a falta de ar que vinha do nada, o choro fácil no chuveiro onde ninguém podia ver. Acordava de madrugada com o coração disparado, a mente um turbilhão de pensamentos sombrios.
Está voltando, pensava. A depressão está voltando. Ela não queria ter aqueles sentimentos estranhos e tão desolantes.
Com medo, pediu para Jenny marcar uma consulta com o médico que ela lhe levou após sua libertação.
No consultório, o médico revisou os exames com calma, porém seus olhos se demoraram mais tempo que o normal em uma página específica.
- Kathryn seus exames psiquiátricos estão normais. Os níveis de serotonina, o perfil hormonal... a depressão não voltou, pelo menos do ponto de vista clínico. Mas notei algo diferente em outro local.
Ela franziu a testa, o coração acelerando.
- O quê?
O médico sorriu, gentil, tirando os óculos.
- Você está grávida. Aproximadamente oito semanas.
O mundo de Kate parou. As palavras ecoaram no vazio da sua mente como um sino rachado. Grávida. Outro filho. Ela levou a mão à boca, mas o gesto não era de alegria. Seus olhos se encheram de lágrimas, lágrimas de pavor.
- Não... não pode ser. — balbuciou. — Eu não posso.
- Kathryn, fisicamente está tudo bem. O bebê está saudável, você está saudável. Mas a notícia te abalou. Quer conversar sobre o que está sentindo?
Ela balançou a cabeça, já se levantando, as pernas trêmulas.
- Eu preciso... eu preciso ir.
Saiu do consultório como uma sonâmbula. Jenny estava sentanda do lado de fora.
- Kate está tudo bem? — ela se levantou ao ver Kate perturbada.
- Podemos ir pra casa?
- Sim. — concordou Jenny.
No carro, desabou em prantos, as mãos crispadas. Como poderia ter outro filho se ainda não conseguia lidar com o que acontecera com Gwen? A culpa, o medo, os anos perdidos... tudo voltava como uma onda que a afogava. Ela não era a mesma mulher que segurava um chocalho na prisão, sonhando com o bebê que ela não sabia se estava bem. Ela era uma sobrevivente, sim, mas uma sobrevivente quebrada.
E agora havia outra vida dentro dela.
Jenny a deixou em casa preocupada com o silêncio e a recusa da amiga em conversar.
Em casa, JC percebeu que algo estava terrivelmente errado no instante em que ela entrou. Kate estava pálida, trêmula, os olhos vermelhos.
- O que houve? — ele correu até ela, as mãos segurando seus braços. — Kate, fala comigo.
- Estou grávida. — a frase saiu seca, dura, como uma confissão insuportável.
JC congelou por um segundo. Então um sorriso, um sorriso genuíno, luminoso, cheio de esperança, começou a se formar em seus lábios.
- Kate... isso é... é maravilhoso!
- Maravilhoso? — ela explodiu, a voz embargada, as mãos se soltando das dele. — Você acha maravilhoso? Eu passei cinco anos na cadeia por um crime que não cometi, perdi os primeiros anos da minha filha, quase me matei de depressão, e agora você quer que eu fique feliz por ter outro filho? Eu não dou conta, JC! Não dou conta de ser mãe de novo! Olha pra mim! Eu mal consigo dormir à noite, mal consigo acreditar que mereço estar aqui... como vou cuidar de um bebê?
Ela arrancou o anel do dedo e colocou-o sobre a mesa da sala. O leve tilintar da aliança contra a madeira soou como um trovão.
- Eu não posso casar. Não posso.
JC sentiu o chão se abrir sob seus pés.
- Kate, por favor...
- Não há o que conversar. — ela foi em direção ao quarto sem olhar para trás.
Ele ficou sozinho na sala, o anel brilhando sobre a mesa como se tudo estivesse acabando ali.
Jenny encontrou Kate no jardim na manhã seguinte, sentada no chão frio, as costas apoiadas no tronco da árvore, olhando para o vazio. A amiga sentou-se ao seu lado sem dizer nada. Apenas ofereceu sua presença, como sempre fizera.
- Eu estraguei tudo. — Kate sussurrou depois de um longo silêncio. — JC me pediu em casamento, estou grávida, e tudo que sinto é medo. Um medo tão grande que me paralisa. Eu olho para o anel e só consigo pensar em tudo que posso perder de novo.
- Medo de quê, exatamente? — Jenny perguntou compreensiva.
Kate virou o rosto, os olhos marejados.
- De perder de novo. Da última vez que tive uma filha, ela foi tirada de mim antes mesmo que eu pudesse segurá-la. Em uma noite estava com correntes nos pulsos, depois numa cela fria, e Gwen cresceu sem mim. Durante cinco anos, tudo que eu sabia dela eram as cartas que eu escrevia e nunca enviei. E agora... e se acontecer de novo? E se eu não for boa o suficiente? E se a depressão voltar e eu não conseguir cuidar desse bebê? E se... e se eu for como Ella?
Jenny segurou sua mão de Kate dando um leve aperto.
- Kate, olha para mim. — esperou até que os olhos verdes da amiga encontrassem os seus. — Você não é a mesma mulher de cinco anos atrás. Você sobreviveu à prisão, à depressão e a Ella também. Você enfrentou um sistema inteiro que te condenou injustamente e saiu do outro lado. Você é a mulher mais forte que eu conheço. E dessa vez, você tem JC, um homem que se ajoelhou e te ofereceu o mundo. Tem a Gwen, que te ama com cada fibra do pequeno coração dela. Tem a mim. Você não está sozinha nessa!
- Mas e se eu não merecer essa chance?
- Merecer? — Jenny riu, um som doce e triste. — Ninguém merece nada nessa vida, Kate. A gente apenas agarra as chances que aparecem, com unhas e dentes. E você tem uma chance diante de você: um homem que te ama, uma filha que te adora, um novo bebê a caminho. Não deixe o medo vencer. Não dessa vez. Você pode lutar por si mesma agora!
Kate ficou em silêncio por um longo tempo, as palavras de Jenny penetrando devagar, como água que infiltra a terra seca.
Mais tarde depois de colocar Kate na cama, como um bebê, Jenny procurou JC no escritório da casa. Ele estava com os olhos vermelhos, papéis espalhados sobre a mesa sem que ele realmente os visse. Depois que tinha assumido os negócios financeiros da família Carter havia muito trabalho, mas ele não estava com cabeça para nada.
- Você precisa saber o que está acontecendo com ela. — Jenny sentou-se à sua frente, sem cerimônias. — Kate não está brava com você. Ela está aterrorizada.
- Aterrorizada com o quê? Comigo?
- Com ela mesma. Com o medo de perder outro filho. Pensa, JC: da última vez que ela esteve grávida, lidou sozinha com o esquema da morte de Mac, culpa e depois passou cinco anos presa sem poder ser mãe. O trauma não desapareceu só porque vocês se reencontraram. E agora, com outro bebê a caminho, o medo de que tudo se repita está paralisando ela. Ela não rejeitou você, ela está em pânico porque te ama tanto que a ideia de perder tudo de novo é insuportável. Ela já perdeu demais na vida!
JC passou a mão no rosto, exausto.
- Eu não sei o que fazer. Eu a amo, Jenny, mas não posso forçá-la a ficar comigo. Não posso prendê-la de novo, mesmo que seja numa jaula de ouro.
- Então mostre a ela que você não vai embora. Que você é diferente de tudo que ela perdeu. — Jenny inclinou-se, os olhos determinados. — Você não precisa de grandes discursos. Só precisa estar lá. Só precisa provar que, mesmo quando ela tentar te afastar, você não vai desaparecer.
JC assentiu lentamente, uma ideia frágil se formando em meio à névoa da sua própria dor.
Mais tarde naquela noite depois de colocar Gwen para dormir, JC encontrou Kate no quarto, sentada na cama, os olhos fixos na janela. A lua derramava uma luz prateada sobre seu rosto. Ele se aproximou devagar, sentou na ponta da cama, mantendo uma distância respeitosa, as mãos apoiadas nos joelhos.
- Kate, eu preciso te dizer uma coisa.
Ela não respondeu, mas virou levemente a cabeça.
- Eu vou sair de casa. Vou alugar um apartamento próximo do trabalho e vou ficar lá até você decidir o que quer. Gwen pode ficar com você, eu venho vê-la todos os dias. E o bebê... vou cuidar de vocês de qualquer forma, mesmo que não estejamos juntos. Você não vai passar sozinha pelo que passou na primeira gestação. Nunca mais. Eu prometo.
Kate arregalou os olhos, virando-se bruscamente para ele.
- Você... vai embora?
- Não estou indo embora da sua vida. Só estou te dando o espaço que você precisa para respirar. Você merece paz, Kate. E se isso significa que eu preciso ficar longe para que você se sinta segura, eu farei. O que importa é você, Gwen e o bebê.
Lágrimas escorreram pelo rosto dela, lentas e quentes.
- JC... você faria isso? Abrir mão de tudo?
Ele finalmente a tocou, apenas um toque suave em seu rosto, os dedos enxugando uma lágrima.
- Eu abriria mão do mundo inteiro por você. Mas preciso que saiba uma coisa: eu nunca vou desistir de você. Pode levar o tempo que for.
Algo se quebrou dentro de Kate. Não de dor, mas de rendição, a rendição de quem finalmente entendia que não precisava mais travar todas as batalhas sozinha. Ela se jogou nos braços dele, o corpo sacudido por soluços.
- Eu não quero que você vá. — murmurou contra seu peito, as mãos agarrando sua camisa como se ele fosse a única coisa sólida num mundo em ruínas. — Eu só... tenho tanto medo. Medo de não ser suficiente, de falhar, de perder vocês... eu achei que a depressão tivesse voltado, mas era o bebê o tempo todo, mexendo com tudo aqui dentro...
- Eu sei, meu amor. Eu sei. — Ele a apertou contra o peito, a barba roçando seus cabelos. — Mas vamos enfrentar juntos. Você não está mais sozinha nessa guerra. Estou aqui.
Ela se afastou um pouco, erguendo os olhos para ele.
- Você ainda me quer? Mesmo com todo o meu caos? Mesmo com todos os meus fantasmas?
- Mais do que tudo.
Kate solto-se dele e buscou algo na gaveta da mesa de cabeceira. O anel. Com mãos ainda trêmulas, mas agora com uma nova determinação, colocou-o de volta no dedo, onde ele parecia finalmente pertencer.
- Sim. Eu aceito me casar com você. Não porque deixei de ter medo, mas porque você é a única pessoa que me faz acreditar que posso enfrentá-lo.
JC sorriu, beijando-a com toda a ternura do mundo, um beijo que não exigia nada, apenas prometia.
Duas semanas depois, Kate estava nervosa como não ficava desde o julgamento. O carro de JC atravessava os portões de uma propriedade elegante nos arredores da cidade, onde uma casa de arquitetura clássica se erguia entre jardins impecáveis.
- Eles vão me odiar. — murmurou Kate, alisando o vestido pela décima vez. — Depois de tudo que aconteceu...
- Eles não vão te odiar. — JC segurou sua mão, beijando seus dedos. — Minha mãe está ansiosa para te conhecer de verdade. E meu pai... bem, ele só precisa de tempo.
- E seus irmãos?
- Jules e Justin? Jules é o mais fácil de todos. Confia em mim. Justin é sério.
Gwen, no banco de trás, balançava as pernas animadamente, alheia à tensão da mãe.
A porta se abriu antes mesmo que eles tocassem a campainha. Alice Carter, uma mulher de cabelos prateados e olhos iguais aos do filho, estava parada na soleira com um sorriso cauteloso.
- Finalmente! — exclamou, abraçando JC. — Eu esperei tanto tempo para você voltar por vontade própria.
Kate, surpresa com a recepção calorosa, sentiu os olhos arderem.
- Bem vinda! — Alice ofereceu a mão para Kate que devolveu o aperto.
- Obrigada, senhora Carter. Eu...
- Alice, por favor. E essa deve ser Gwen! — a senhora abaixou-se para ficar na altura da menina. — JC me mostrou fotos, mas você é muito mais linda pessoalmente.
Gwen sorriu, timidamente.
Na sala de estar, a família estava reunida. Edward Carter, o patriarca, estava sentado numa poltrona de couro, o jornal ao lado. Seu olhar era mais reservado, avaliador, mas não hostil, apenas cauteloso. Ao lado da lareira estava um homem alto, de ombros largos e um sorriso fácil no rosto.
- Então essa é a famosa Kate. — Jules aproximou-se, estendendo a mão. — Conseguiu mudar Jamie e fazê-lo voltar pra casa.
- Espero que seja uma coisa boa. — Kate apertou sua mão, um sorriso tenso nos lábios.
- Em sua maioria. — Jules piscou. — Mas não vou mentir, as partes mais interessantes Justin deve saber.
- Jules! — JC repreendeu, mas havia uma nota de afeto em seu tom.
Foi então que uma terceira figura entrou na sala, um homem alto e com uma força que atingiu Kate que fez recuar e apertar a mão de JC. Seus olhos, porém, eram gentis.
- Tio Justin. — Gwen correu pra ele. — Eu tava com saudade, cadê a tia?
Justin a pegou no ar e a jogou pra cima. O riso de Gwen fez todos, inclusive o taciturno Edward a sorrir. Aparentemente Gwen era a única que conseguia esse feito.
- Ela não pôde vir. Da próxima princesa! — ele a soltou. — Prazer Kathryn.
Justin apertou a mão de Kate com firmeza, mas seus olhos estudavam-na com uma curiosidade sem hostilidade.
- Então você é a mulher que virou a vida do meu irmão de cabeça para baixo. — ele sorriu, um sorriso sério e sábio. — Sabe, eu ouvi falar muito sobre você. Dos investigadores, nos tribunais, nas conversas de família. Mas nada se compara a ver pessoalmente a pessoa que enfrentou o inferno e saiu caminhando.
Kate piscou, surpresa com a franqueza.
- Eu... Obrigada, senhor Carter.
- Justin. — corrigiu ele. — Não temos cerimônias aqui. Se JC te escolheu, então você é família. E família Carter cuida dos seus.
Durante o jantar, a atmosfera foi se descontraindo. Alice serviu um assado que Kate insistiu em elogiar, Edward aos poucos abandonou sua reserva inicial para fazer perguntas genuínas sobre Gwen e o casamento. Ele até fez uma brincadeira com Gwen fazendo-a rir.
Jules e Justin se entreolharam e depois olharam para o pai e ficaram surpresos. Nunca haviam visto o pai tão a vontade com eles, aparentemente Gwen era a única excessão.
- Kate e eu estamos esperando um novo bebê! — JC disse segurando a mão de Kate para deixá-la calma.
- Uma outra criança? — Edward foi o primeiro a comentar. — Nesse caso devem realizar o casamento o mais breve possível.
- Eu e Kate já decidimos que vamos fazer uma cerimônia simples.
Justin ergueu sua taça.
- Um brinde. — anunciou, e todos se calaram. — A Kate, que sobreviveu ao pior que a vida pode oferecer e ainda assim encontrou forças. Que sua entrada nesta família seja o começo de um tempo de paz. E ao Jamie — ele ergueu a taça para o irmão — Que passou anos trocando farpas com a inimiga e acabou se apaixonando por ela. Acho que isso prova que o amor é, acima de tudo, uma grande ironia do destino.
Kate sentiu algo se aquecer dentro do peito, uma sensação que ela estava lentamente reaprendendo a reconhecer. Pertencer.
O evento artístico na escola de Gwen era algo que Kate antecipara com uma mistura de excitação e terror. Excitação porque a arte sempre fora seu refúgio, terror porque seria sua primeira aparição pública desde que seu nome fora limpo, e as cicatrizes da exposição ainda doíam.
O ginásio da escola fora transformado num grande ateliê. Longas mesas cobertas de papel craft, potes de tinta, pincéis, telas em branco. Crianças corriam entre as estações, seus risos ecoando no espaço amplo. E no centro de tudo estava Kate, com um avental manchado de cores, cercada por pequenos artistas ansiosos.
Gwen estava radiante, segurando a mão da mãe e apresentando-a a todos os colegas.
- Essa é minha mamãe! Ela é artista de verdade!
Kate aproximou-se diante de uma tela grande que ocupava o centro do ginásio. As crianças se reuniram ao redor.
- Hoje, vamos pintar juntos uma tela especial. — anunciou, a voz mais calma do que se sentia. — Mas tem uma regra: ninguém pode dizer "está feio". Porque na arte, não existe feio. Existe só... diferente. E o diferente é o que torna tudo interessante.
Uma menina de cabelos encaracolado ergueu a mão.
- Professora Kate, o que a gente vai pintar?
Kate sorriu.
- Vamos pintar o que nos faz felizes. Pode ser uma pessoa, um lugar, uma lembrança. Ou pode ser só uma cor que faz seu coração dançar.
Ela mergulhou o pincel na tinta azul e fez o primeiro traço na tela, uma linha curva, como uma onda.
- Eu vou pintar o mar. — disse. — Porque quando eu era pequena e estava triste, ia para a praia e deixava as ondas levarem minha tristeza embora.
Uma a uma, as crianças começaram a pintar. Algumas faziam sóis amarelos, outras desenhavam seus cachorros, seus pais, suas casas. Gwen pintou três figuras de mãos dadas uma alta, outra de cabelos longos e com a barriga redonda, uma pequena no meio.
- É você e o meu irmão, o papai e eu. — explicou, e Kate sentiu um nó na garganta.
JC apareceu na porta do ginásio, encostando-se no batente. Ele não queria interromper. Assistiu em silêncio enquanto Kate guiava as crianças, sua voz suave e paciente, seus olhos finalmente brilhando com algo que ele não via há semanas, propósito. Ela pertencia àquele lugar, cercada de cores e pequenos sonhadores.
Depois, quando o evento terminou e as crianças foram embora, Kate ficou sozinha diante da tela coletiva, um mosaico caótico e lindo de pequenas felicidades.
- Você estava magnífica. — JC aproximou-se, os braços envolvendo sua cintura por trás.
- Eu estava apavorada. — confessou ela, apoiando a cabeça em seu peito. — Mas quando comecei a pintar com eles... foi como se algo se soltasse aqui dentro.
- Você nasceu para isso, Kate. Para transformar dor em cor.
Ela virou-se, olhando nos olhos dele.
- Sabe qual foi a última vez que me senti assim? Quando entreguei Gwen a você. E de alguma forma, eu já sabia que você era importante.
Ele beijou sua testa, emocionado.
- Você confiou em seu inimigo?
- Eu... — Kate sorriu. — Eu não te via como um inimigo.
JC a abraçou forte, como se pudesse protegê-la de todas as dores passadas apenas com a força do seu amor.
O dia do julgamento de Ella amanheceu cinzento, como se o próprio céu soubesse o peso do que seria revelado.
Kate estava sentada na galeria do tribunal, a mão de JC entrelaçada na sua com força. Do outro lado, Ella estava no banco dos réus, vestida com um uniforme prisional, uma máscara de compostura no rosto. Mas seus olhos estavam diferentes, mais duros, mais frios. Olhos de quem sabia que não tinha mais nada a perder.
A promotora, uma mulher de meia-idade com a postura de quem não se deixava intimidar, levantou-se para as alegações finais.
- Meritíssimo, senhores jurados, este caso começou como uma investigação sobre fraudes financeiras, manipulação de documentos e falsidade ideológica. Mas ao longo das audiências, veio à tona uma verdade muito mais sombria. — ela fez uma pausa, caminhando lentamente diante do júri. — A ré, Ella Stan, não apenas roubou, enganou e manipulou. Ela matou.
Um murmúrio percorreu a sala. Kate sentiu o sangue gelar.
A promotora continuou:
- Durante a investigação, descobrimos evidências forenses negligenciadas no caso da morte de Mac, o ex da acusada, ocorrido há seis anos. Na época, a morte foi considerada acidental, uma queda da escada. A culpa recaiu sobre Kathryn aqui presente, que foi solta por falta de provas, os crimes de fraude finceira e manipulação de documentos a fez passar cinco anos na prisão.
Ela ergueu um envelope lacrado.
- Mas novas análises das impressões digitais na grade da escada, combinadas com o depoimento de uma testemunha que até então permanecera em silêncio por medo, revelaram a verdade. Na noite da morte de Mac, houve uma discussão violenta entre ele e a ré. Ela o empurrou. Ele caiu. E a ré, para encobrir o crime, alterou a cena e incriminou Katherine, que estava dopada e inconsciente no andar de cima.
A sala explodiu em murmúrios. Kate levou a mão à boca, lágrimas escorrendo silenciosamente. JC apertou sua outra mão com força, seu maxilar tenso.
- Isso mesmo. — A promotora virou-se para Ella. — A ré não apenas destruiu a vida de Kathryn, não apenas roubou sua filha e enganou Jamie Carter sobre a paternidade da criança. Ela também assassinou seu ex namorado e deixou uma mulher inocente apodrecer na cadeia em seu lugar.
Ella não piscou. Mas algo em seu rosto se desfez, um músculo que tremia no canto da boca. A máscara estava rachando.
O advogado de defesa tentou argumentar, tentou desqualificar as provas, mas era inútil. A verdade era sólida demais, e as evidências, irrefutáveis.
Quando o júri se retirou para deliberar, Kate não conseguia respirar direito. As revelações ecoavam em sua mente: Ella matou Mac. Ella a incriminou. Cinco anos. Cinco anos da sua vida roubados.
- Kate. — a voz de JC era um porto no meio da tempestade. — Respira comigo. Devagar.
Ela obedeceu, inspirando e expirando, até que o mundo parasse de girar.
Duas horas depois, o júri voltou. O veredito foi lido em meio a um silêncio absoluto:
- Culpada de todas as acusações.
Ella foi condenada a trinta anos de prisão quinze pelas acusações de fraude, falsidade ideológica, sequestro e manipulação documental, e mais quinze pelo homicídio culposo de Mac, com o agravante de incriminação dolosa de terceiro.
Ao sair do tribunal, Kate respirou o ar fresco com uma sensação que não experimentava há anos: justiça. Não a justiça imperfeita dos homens, mas a justiça profunda de ver a verdade finalmente revelada.
- Acabou. — sussurrou, sentindo o vento no rosto.
- Agora começa. — JC respondeu, beijando sua testa.
O casamento foi planejado para uma cerimônia íntima no jardim da casa que JC comprara. Apenas familiares e amigos próximos: Jenny como madrinha, Sebastian como padrinho, os pais de JC, Jules, o Justin, e Gwen como a florista mais orgulhosa do mundo. Duda e Mary como convidadas.
Sob um pôr do sol dourado, Kate caminhou até JC vestida de branco, o vestido simples e fluido, os cabelos soltos adornados com pequenas flores silvestres. Gwen ia à sua frente, jogando pétalas de rosas, o sorriso mais luminoso que o sol.
Os votos foram simples, mas carregavam o peso de todas as batalhas que enfrentaram.
- Kathryn. — JC segurou suas mãos, os olhos brilhando. — Eu passei seis anos procurando por você sem saber. Aquela noite, o destino nos uniu de uma forma que eu não entendia. Mas hoje eu entendo. Você é a peça que faltava. Prometo te amar, te proteger, cuidar de você, de Gwen e do nosso bebê pelo resto da minha vida. Não importa o que venha, eu estarei ao seu lado.
Kate sorriu, mas seus olhos também estavam marejados.
- Jamie, você me mostrou que eu posso ser amada. Que posso ser mãe. Que posso ser feliz, mesmo com todas as cicatrizes. Você não me salvou , você me deu forças para me salvar. E por isso, prometo enfrentar todos os meus medos ao seu lado. Porque com você, eu sou forte. Com você, eu sou inteira.
Eles se beijaram, e os aplausos ecoaram pelo jardim, abafados apenas pelo latido feliz de Dudu, o cachorro que Kate finalmente aceitara um vira-lata que Gwen escolhera no abrigo e que agora corria em círculos entre os convidados, como se também celebrasse.
Dez meses depois, a sala da casa estava banhada pela luz dourada da tarde. JC estava sentado no sofá, vendo Kate pintar uma tela, enquanto ela ria ao vê-lo lutar com as cores.
- Você está misturando tons que não combinam. — provocou ela.
- Na arte não existe feio, existe só diferente. Lembra? — ele a puxou para o colo, manchando seu rosto com tinta azul.
No tapete, Gwen, construía castelos de blocos, enquanto o irmãozinho, Melvin, um bebê recém nascido que balbuciava em seu berço portátil e colocava suas mãos gorduchas na boca. Dudu, o cachorro, estava deitado ao lado deles, o rabo abanando preguiçosamente.
- Papai, o Dudu derrubou minha torre! — Gwen reclamou, mas estava rindo.
- Ele é um destruidor profissional de castelos, princesa. Você vai ter que reconstruir.
Kate apoiou a cabeça no ombro de JC, observando a cena com uma paz que ainda a surpreendia.
- Olha só a nossa bagunça.
- Nossa bagunça. — ele beijou seus cabelos. — Feliz?
- Mais do que jamais imaginei que poderia ser.
JC sorriu, deixando-a voltar a pintar. Kate voltara para o mundo artístico rapidamente e mais talentosa do que nunca, ocasionalmente ela dava aulas no colégio de Gwenz suas aulas faziam sucesso.
Gwen correu para o colo da mãe, e JC pegou Melvin do berço, fazendo uma careta e ouvindo sua risada. A família estava completa, unida não por acaso, mas por escolha. Por amor. Por todas as lutas que enfrentaram e venceram.
Kate olhou para JC, para os filhos, para o cachorro, e sussurrou:
- Obrigada.
- Pelo quê?
- Por não desistir de mim. Mesmo quando eu mesma desisti.
Ele sorriu, os olhos brilhando com a mesma intensidade daquela noite, seis anos atrás, quando dois estranhos se encontraram e, sem saber, plantaram as sementes de uma família.
- Nunca. — disse ele, beijando-a suavemente. — Nunca.
E a tarde seguiu tranquila, embalada pelo riso das crianças e pelo latido feliz de Dudu, enquanto a vida, enfim, lhes sorria. Porque, como Kate aprendera, a felicidade não era a ausência de cicatrizes, era a coragem de pintar sobre elas com as cores mais vibrantes que o coração pudesse encontrar.
FIM
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