Sentença de Amor
2 Capítulo 02
Capítulo 02: Você quer que eu atrevesse com você?
Cinco anos depois
— Estamos saindo juntas? Parece até que foi ontem que você quase me estrangulou na grade! — suspirou Jenny olhando para Kate. — Finalmente livre…
Kate olhou para o céu e para o portão do complexo, do lado de fora, havia um sentimento que machucava mais que o confinamento daquele lugar. A perca de sua filha para sempre. Ela não poderia nem chegar perto dela, Kate também não queria que sua filha tivesse uma mãe que era ex-presidiária, isso doía tanto, mas ela não poderia fazer nada. A vida era como era. Também havia Ella, se ela tentasse encontrar sua filha, sabia do que ela era capaz. Só queria simplesmente desaparecer.
— Suponho que sim… — a voz tão pouco usada saiu entrecortada e rouca. Nunca seria livre, não se quisesse que sua filha vivesse.
— Pra onde você vai? Você tem pra onde ir? — Jenny perguntou.
Kate segurou firme a bolsa, ali havia tudo o que ela tinha. Ella havia roubado até sua vontade de viver.
— Não se incomode comigo... — daria um jeito, ela pensou.
— Não seja dura consigo mesma, eu era advogada aqui fora, como sabe... Uma amiga está cuidando da minha casa e das minhas coisas, venha comigo... — Jenny convidou.
Jenny havia ficado na mesma cela que ela por cinco anos e sabia que essa pessoa era inalcançável. Mas Jenny tinha sido protegida todos esses anos por Kate, ela queria retribuir isso de alguma forma. Jenny queria ajudar muito Kate, ela parecia tão solitária.
A história entre as companheiras sobre Kathryn era conhecida como a mulher que foi presa pelas acusações de roubo e venda de informações corporativas que não disse uma palavra por dois anos na cela e que tinha uma passagem por homicídio. Só existia uma coisa que todo mundo se perguntava: um chocalho.
Jenny ou qualquer outro não conseguia imaginar o que se passava na mente dela. Tinha família? Parentes? Por Deus, ninguém nunca a visitava. A não ser pelo chocalho ninguém sabia muito o que tinha realmente acontecido com ela.
Um carro preto esporte parou próximo das duas, abaixou o vidro e as encarou.
— Jenny, sua pirralha — uma senhora de cabelos elegante e grisalhos tirou os óculos. — Estão todos esperando por você, vamos?
— Tem espaço pra mais um? — Jenny brincou.
— Você sabe que sempre tem… — a senhora olhou para Kathryn e não se importou.
Já esteve na cadeia... Isso não era algo pra se vangloriar, mas tudo isso iria passar. Bastava levantar e caminhar a vida continua.
Sem esperar uma resposta Jenny empurrou Kathryn para dentro de carro, e soube que a forma de convencer a mulher tão difícil, era simplesmente não lhe consultar a opinião e fazer de sua maneira. E impor suas vontades era especialidade de Jenny, naturalmente Kate conheceria o quanto ela era obstinado fora das grades.
— Duda... — Jenny chamou a senhora alegre. — Eu vou fazer aquele desgraçado me pagar por ter me colocado na cadeia...
— Estamos rastreando todos os passos dele, ele vai cair junto com sua rede. Soube que ele está envolvido com tráfico de drogas — a senhora disse enquanto dirigia para longe da ruína delas.
Kate que não prestava atenção na conversa das mulheres no carro, apenas olhava pra fora: o sol, o céu, os prédios, o barulho. Tudo incomodava sentia-se sufocada, ela começou a sentir o braço dormente, o coração acelerou e as mãos soavam. Sentindo um lado do corpo tudo formigando e descoordenado, ela estava tendo um infarto?
Sem dizer uma palavra sobre o que estava acontecendo, ela tinha vontade de pular do carro para fazer parar, seus pensamentos estavam em uma linha incoerentes ela abriu a porta ainda com o carro em movimento. Quando ela acordou ela estava na emergência de um hospital.
Olhou para o lado e viu Jenny.
— O que aconteceu? — sua voz saiu ainda mais fraca que antes.
— Kathryn... — Jenny pegou as mãos dela. — Você desmaiou antes de algo trágico acontecer.
O médico que viu que a paciente tinha acordado, foi até ela.
— Está se sentindo melhor? — ele sorriu para acalma-lá. Quando ela balançou a cabeça concordando, ele continuou. — Você tem vivido com muito estresse ultimamente? Mudou algo na rotina?
Kate simplesmente não sabia o que responder, esteve vivendo sob estresse nos últimos 5 anos, com medo, triste e sozinha. Ela não queria que ninguém soubesse que ela esteve presa por tantos anos, mesmo um desconhecido. Queria apenas que tudo sumisse, não tinha forças para nada mais.
Vendo o desespero de Kathryn, Jenny chamou o médico para conversar com ele. A vontade desesperada de chorar de Kate veio logo em seguida, mas ela a domou como vinha fazendo todos esses anos.
Jenny voltou
— Vamos? O médico te deu alta. — ela pegou as coisas de Kathryn sem se importar com qualquer negação dela.
— Eu tenho um escritório de advocacia. Atualmente quem está cuidando é a Duda somos sócias antes que eu fosse para lá. Você quer vir trabalhar com a gente? — ela convidou
— Não sou formada e nem experiência. — Kate de justificou.
— Tem um café no andar de baixo quer um emprego lá? Nesse caso seria coisa simples... — ela deu os ombros como se não importasse. — Algo como servir mesas ou ir para cozinha.
— Se o dono não incomodar com a minha condição. — Kate tentou se justificar novamente, se colocar novamente em contato com outras pessoas seria uma tarefa um tanto quanto árdua.
— Eu acho que ele não se importa... — Jenny era a dona do prédio o que ela disse era a lei.
Ajudando Kathryn a se levantar e sair do hospital foram em direção ao caminho da saída Jenny cuidou da conta sabendo que ela não tinha absolutamente nada.
— Tenho um apartamento simples próximo ao café. Você fica lá até se ajeitar. — Jenny a informou.
Chegando no estacionamento, procurou uns minutos por onde Duda estacionou o carro, ao encontrar apontou para ele e empurrou Kate na direção. Ao abrir a porta do passageiro para ela entrar. Kate não entrou. Ficou parada encarando a aquela criatura que foi uma vez espremida na grade da cadeia nas mãos dela.
— Por que? — Kate perguntou.
— Porque o que?
— Por que você está me ajudando?
Jenny ficou em silêncio por um tempo pensando no que dizer, Kathryn não aceitaria se dissesse algo como pena ou gratidão, ela então resolveu não ser sentimental com a situação.
— Porque eu posso! — sentindo que só faria funcionar assim. — Quando você se reerguer você me paga de volta.
Recusando a aceitaria um não como resposta, mas para manter a paz ela faria o acordo com o diabo, já está no inferno, abrace o diabo.
Se vendo sem alternativa Kate pensou que era melhor ter uma dívida com alguém que ela conhecia.
— Eu vou te pagar! — Kate afirmou e entrou no carro.
[...]
— Quando cheguei lá para buscá-la me disseram que ela já tinha ido. — o advogado informou a JC.
— O que houve com a hora da liberação?
— Ao que parece liberaram mais cedo por questões internas... — o advogado comentou. — Você sabe que ela não está bem... temos que encontrá-la antes que ela faça uma besteira.
— O que o psicólogo disse dessa vez? — JC arrumou a pasta e o encarou.
— Ele disse que ela pode ter desenvolvido depressão severa. Ela ficou dois anos sem falar uma palavra provavelmente teria terminado a pena sem dizer nada. Mas umas das presas novatas roubou um chocalho dela e ela perdeu o controle.
JC sabia o porquê dela ter perdido o controle: Gwen. Após tantos anos a raiva de JC tinha sido apagada pela garotinha falante e amável que ele tinha virado um pai sem nem mesmo perceber. Ele não queria dar aquela criança de volta para a mãe, mas ele sabia que no fundo Gwen iria fazer perguntas e essas perguntas mesmo que ele quisesse esconder a todo custo, ele sabia que a verdade sempre vinha a tona, mais cedo ou mais tarde. Ele queria que fosse bem mais tarde.
Era melhor manter Kathryn sob controle, ele pensou. Se ela tentasse roubar a própria filha isso seria um problema. JC tinha a justiça do seu lado. Mas isso não impediria ela de tentar fazer algo. JC não queria tentar a sorte.
— Você acha que devemos procurar um detetive? — o advogado sugeriu.
— Não seria ótimo se ela simplesmente morresse! — JC pensou alto.
— Não diga uma bobagem dessas... — o advogado o repreendeu. — Estamos monitorando ela desde quando começou a pena. Ela não fez mal a ninguém e teve um comportamento exemplar, eu tenho a impressão de que essa história não está certa.
— Agora você está dizendo que eu sou o culpado? Ela roubou minha empresa e vendeu informações para os meus concorrentes... — JC lembrou dos crimes. — Tenho vídeos que comprova isso.
— Bem, isso é um fato... — como advogado ele sabia que contra provas não há argumentos. — O que pretende fazer agora que ela sumiu?
JC suspirou. O que ele faria? Ele nem sabia o que iria fazer com ela quando a encontrasse. Ele queria se certificar que ela não fosse atrás de Gwen.
— Vou contratar um detetive. — ele pensou que esperaria um pouco mais.
Se ela viesse até ele, seria possível fazê-la desaparecer. Mal sabia ele que Ella também estava atrás da irmã para fazer a mesma coisa.
[...]
Três semanas depois.
Kate tinha aprendido algumas coisas sobre si mesma. O tormento de ter vivido 5 anos encarcerada deixou muitas sequelas: uma delas era a insônia e os pesadelos de um bebê sendo morto nas mãos de Ella. Aquela criança era sua Gwen, estava sendo doloroso reviver a morte de um bebê recém nascido todas as noites quando ela fechava os olhos. Ela se sentia triste na maior parte do tempo, havia um vazio imenso, mesmo que o trabalho ocupasse quase todo o seu dia. Ela fazia de dois até três turnos só pra não ficar sozinha consigo mesma, não pensar.
Ela estava livre da prisão, mas continuava aprisionada.
A depressão de ter perdido a filha, o medo constantemente de que Ella voltaria para fazer com que ela desaparecesse era coisas constantes... Tinha medo das pessoas falarem com ela e descobrirem que ela não era pessoa normal e qua havia passado na prisão.
Qualquer pessoa que chegasse perto demais dela, ela se encolhia e sentia repulsa. Qualquer pessoa era uma agressora em potencial.
Ela estava limpando as mesas do lado de fora do café quando Jenny estacionou o carro. Ela saiu do carro com o estilo hippie contagiante, e foi até ela.
— Você está bem? — Jenny perguntou.
— Estou sim. — ela mentiu.
— Você tem que descansar, o Robert disse que está trabalhando tem quatro dias seguidos. — Jenny sabia do diagnóstico do médico dela. Então tentava ao máximo ajudá-la. Não era fácil.
— Ninguém morre por trabalhar. Estou bem, de verdade. — ela terminou de limpar a mesa.
— Amanhã você está de folga, que tal você vir comigo fazer umas compras? — Jenny a convidou.
Já que seria sua folga era melhor fazer alguma coisa produtiva, Kathryn pensou.
— Sim, é claro.
Vendo que ela concordou Jenny se sentiu mais aliviada. O psiquiatra disse que se ela fizesse planos de viver a vontade de morrer diminuiria, não era cem por cento eficaz, mas tinha seu crédito.
— Te pego amanhã no apartamento às 10h. — ela informou — Hoje vai ser corrido, vou ficar fora a maior parte do dia, então estou indo. Se precisar de algo a Duda está lá em cima.
— Bom trabalho! — Kate desejou.
Vendo aquela pessoa saindo alegre e saltitando Kate se sentiu ainda pior. A pessoa que ela havia machucado na prisão era a pessoa boa que foi acusada injustamente, agora estava ajudando ela a viver do lado fora. Ninguém nunca se importava com ela desde a morte de sua mãe. Aquilo era ainda muito doloroso. Não poderia oferecer nada para Jenny. Ela não valia nada.
Era uma imprestável que perdia tudo. Sua mãe morreu por sua causa, sua filha tinha ficando sem mãe por sua causa, sua irmã fazia as coisas erradas por sua culpa. Tudo isso era culpa dela. Sem evitar ela caminhou para a rua movimentada de frente ao café, ela simplesmente atravessou a rua sem olhar pra lado nenhum.
Um som de buzina veio de longe, mas ela só ouvia um zumbindo forte que a impedia de fazer qualquer movimento por ela mesma. Ela só se deu conta do que estava fazendo quando ela foi puxada para fora.
— Você está bem? — uma criança com o desenho de um trige no rosto a olhou. — Nem olhou para atravessar a rua hein.
— Me desculpe! — Kate pediu sentindo-se ainda pior.
— Meu pai me disse que quando eu for atravessar a rua eu tenho que olhar para os dois lados e só atravessar quando não vir carros, seus pais não te ensinaram?
— Me desculpe! — Kate disse novamente.
— Eu te ensino, você quer que eu atrevesse com você? — o rosto alegre da criança fez seu coração se acalmar.
— Não, eu não vou atravessar. — Kathryn voltou seus sentidos. — Obrigada.
— Pelo o que? — a menina não tinha nem ideia do que ela tinha acabado de fazer.
— Só obrigado por ter me ensinado a atravessar a rua. — ela apertou as mãos envergonhada. — Você quer um chocolate quente?
— Não aceito nada de estranhos. — a garotinha se afastou.
— Oh não querida... Eu trabalho aqui, se quiser posso te trazer um recibo!
— Nesse caso, eu aceito sim, mas eu vou pagar. — a garotinha se sentou na mesa e se acomodou mostrando umas notas amassadas.
Kathryn preparou o chocolate quente bem caprichado. Aquela criança salvou sua vida e ela não poderia retribuir com nada então faria um serviço diferente pra ela. Colocou a xícara e alguns biscoitos na bandeja e levou até ela.
A menina estava desenhando em seu enorme caderno uma flor com pétalas caindo mas não tocavam o chão simplesmente sumiam. O desenho mexeu com ela de uma forma inesperada, a levou para os tempos de faculdade quando tinha sonhos e vontade de viver, tinha tantos planos. Antes de tudo desmoronar. Limpando a mente ela suspirou para chamar a atenção da garotinha.
A menininha tinha um rosto redondo e com formato de um coração no queixo, os olhos verdes e cílios enormes compunham um rosto travesso e muito forte. Os dedos de Kate coçou para fazer um esboço.
— Um serviço completo para nossa princesa. — ela colocou tudo em cima da mesa. — Você desenha muito bem!
A criança não a olhou, apenas continuou desenhando sem preocupação, depois de alguns minutos ela finalmente terminou. Ela sorriu para Kate e arrancou o desenho e entregou a ela.
— Fiz pra você!
— Oh — olhando as flores na folha de papel uma emoção tocou seu coração de uma forma tão tranquila, algo que ela não sentia há muito tempo. — Obrigada. Vou guardar com carinho, mas um presente merece outro.
Kathryn pegou o lápis e o caderno da menina e começou a rabiscar alguns traços. Eles saíram sem qualquer técnica, apenas um esboço bruto.
— Pode comer enquanto eu termino aqui. — Kathryn olhou para aquele rosto tão pequeno e bonito.
Ela desenhou o rosto com traços inocentes e fofo, mas com uma determinação muito forte. A imagem exata daquela pequena criança que parecia carregar muito.
Kathryn entregou o caderno para ela.
A criança examinou o desenho por um bom tempo, seu rosto inexpressivo deixou Kathryn ansiosa.
— Eu não sou teimosa assim! — a criança ficou chateada.
— Mas é fofa. — a criança ainda tinha cara zangada.
Kathryn caiu na risada. Ela tinha muito talento, mesmo um desenho rude, ela conseguiu ver por baixo do rosto fofo e inocente a teimosia e determinação.
Alguém chamou Kathryn, e ela teve que ir atender novos clientes que chegaram.
A menina terminou sua refeição enquanto Kathryn estava ocupada com outros clientes. Ela saiu sem se despedir.
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