Senpai, Você É Incrível
15 Eram como irmãos
Notas iniciais
Aquela semana foi um saco. Só saía da cama para ir ao banheiro e tomar banho, fora isso passava o dia inteiro deitada na cama ou no sofá, vendo TV ou mexendo no computador enquanto Kasamatsu estava na escola. Ele mandava mensagens frequentemente, e eu quase sempre respondia que era para ele se concentrar na aula, e não em mim.
Mamãe parecia muito deprimida esses dias. Estava bebendo mais café que o normal, e saía para trabalhar de manhã e voltava só a noite. Nunca me senti tão sozinha quanto naquela semana, apesar de receber visitas frequentes das meninas e de alguns garotos também. Até o técnico mandou flores.
Naquele dia, sábado, eu tinha dormido até mais tarde, aproximadamente meio-dia. Pensei que minha mãe tivesse saído, pois ela não respondia quando eu a chamava. Yukio tinha prometido que vinha no final da tarde, e eu fiquei esperando ele chegar. Tinha tomado banho e estava fuçando a vida alheia no computador. A dor, que ia e vinha de vez em quando, começou a atacar. O médico tinha receitado um remédio, mas ele estava no quarto de mamãe porque ela que sabia os horários para me dar. Com esforço, peguei as muletas encostadas na parede e fui até o quarto dela.
Eram aproximadamente cinco e quarenta da tarde, o sol estava se pondo.
Abri a porta do quarto de mamãe, e reparei que a cama estava uma bagunça. Roupas espalhadas para todos os lados, papéis, meias, tudo o que se pode imaginar. No centro da cama dela, estava um envelope branco aberto.
Curiosa, fui até lá. Sentei na cama e peguei o papel, tirando-o da embalagem.
Rin,
Como você deve saber, estamos passando por um momento muito difícil na nossa vida, e lamento por ter que deixá-la ainda mais difícil para você. Só queria, antes de tudo, dizer que te amo muito.
Não sei se você percebeu, mas depois que seu pai sofreu o acidente, eu entrei numa depressão profunda. Sempre tive essa doença, e sempre fiz de tudo para tentar escondê-la de você. Não queria que minha única filha achasse que eu era louca.
Depois, além do seu pai, vieram os problemas econômicos. Nesse momento, comecei a ter surtos depressivos, mas sempre em segredo. Eu estava quase sendo demitida e mal tinha dinheiro para colocar comida em casa, então surgiu essa oportunidade e eu fui viajar, deixando você sozinha aqui em casa. Isso me destruiu internamente. Você, Rin, era a única coisa que ainda me deixava meio sã da cabeça. Fiquei devastada nesse período longe de casa, mesmo que só por uma semana.
Quando cheguei, descobri que você tinha torcido o tornozelo. Com o último dinheiro que nos restava, paguei sua fisioterapeuta e todos os exames que você teria que fazer, mais a estada do seu pai no hospital, o que não é barato. Basicamente, estamos falidas.
Desculpe, Rin, não aguentei. Espero que você seja forte o suficiente para superar tudo isso. Você tem um namorado prestativo e atencioso, muitos amigos que te fazem bem, eles vão te ajudar. Kishirime Rin, eu te amo muito, e sempre vou amar.
Mamãe
PS: meu último pagamento está no vaso ao lado da TV. Boa sorte.
Mas. Que. Diabos?
"Deixar a vida mais difícil para mim"?
"Depressão profunda"?
"Surtos depressivos em segredo"?
"Não aguentei"?!
"Forte o suficiente para superar tudo isso"?!
Que merda ela quis dizer com "BOA SORTE"???
Ok. Ok. O que foi isso? Que porra de carta é essa? Depressão? Desde quando minha mãe tem depressão? Pra mim ela sempre foi bem normal.
Não queria que minha única filha achasse que eu era louca.
–Mãe? Mãe, você está aí? — comecei a perguntar.
As roupas dela estavam espalhadas pelo quarto, então ela não tinha fugido.
Não aguentei.
Alguma coisa dentro de mim explodiu em milhões de pedacinhos.
Peguei minhas muletas para conseguir andar direito. A porta do banheiro tinha somente uma fresta aberta. Parei na frente, e a empurrei devagar.
O grito que soltei deve ter assustado a vizinhança inteira. Se eu tivesse vizinhos.
–Mãe! Mãe! MÃE!
Sangue. Para todo lugar que eu olhava, o vermelho dominava. Chão, paredes, teto, o espelho, a pia, banheira, tudo. Tudo estava encharcado e brilhante.
E ela estava lá, vestida de branco, jogada dentro da banheira de uma forma não natural. O cabelo cobria toda a face, o vestido estava manchado. Cortes profundos exibiam a carne nos braços e pernas.
Boa sorte.
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Kasamatsu's Point of View
O sol estava se pondo, deveriam ser quase seis horas. A casa de Rin era uma das travessas dessa rua em que eu estava. Tentei ligar para ela mais uma vez, mas deu caixa postal. Ela deve estar cochilando, ou vendo TV. Era normal.
Agora que ela tinha tirado a tala e estava indo para a escola de muletas, pelo menos ela não ficava tão sozinha no período da manhã. Quando eu não tinha treino, passava a tarde inteira com ela até que sua mãe chegasse do trabalho.
Estava escutando uma música legal, andando pela rua sem preocupações. Kise estava melhorando cada dia mais, e se continuassemos assim, talvez até vencêssemos o Interescolar. Tínhamos destruído os primeiros times contra quem jogamos, estava fácil demais por enquanto.
Ouvi um barulho por trás da música que saía dos fones de ouvido. Tirei um da orelha para ter certeza de que não estava ouvindo coisas. Era o barulho de ambulância, pelo menos duas delas. Virei para trás e vi que elas vinham a toda velocidade pela rua, desviando dos carros que abriam espaço. Essa era uma rua grande, saída para várias partes da cidade. Deve ter sido algum acidente.
As ambulâncias passaram por mim rapidamente, e fizeram a curva na rua seguinte.
A rua de Rin.
"Deve ter sido algum vizinho", pensei.
Mas Rin não tem vizinhos. A casa dela era a única daquela rua, o resto eram começos de construções e terrenos baldios.
Um surto de energia percorreu meu corpo, e um único pensamento ecoava na minha cabeça: "Não foi nada, ela está bem. Ela está bem". Eu ficava tentando me convencer disso.
Corri o mais rápido que podia atrás das ambulâncias, e fiz a curva da rua dela. As ambulâncias estavam paradas na frente da casa branca, as portas escancaradas. Tudo o que eu podia ouvir eram gritos desesperados.
"Ela está bem, ela está bem"
Continuei correndo, mais rápido ainda.
Vários gritos ecoavam pela rua, tão altos quanto as sirenes das ambulâncias. Meu coração disparou no peito.
"Ela está bem"
Esse pensamento não funcionava mais. Meus nervos estavam em frangalhos.
Quatro homens saíram da casa, dois carregando uma maca, os outros dois tapando minha visão do que estava acontecendo. Eles chegaram na primeira ambulância, e naquele momento um pequeno ser saiu correndo porta afora, acompanhada de mais uma pessoa de branco. Era aquele pequeno ser que estava gritando gritos agudos, de partir a alma ao meio. Aquele pequeno ser era Rin.
Ela estava vestindo calças de moletom e uma camisa azul, mas estava encharcada em um líquido vermelho dos pés a cabeça. Ela tentava correr, mas a moça de branco a segurava pelos braços. Os quatro caras agora colocavam a maca no chão, e correram para pegar algo dentro dos carros.
Naquele momento, eu pude ver. Era a senhora Kishirime. Ela estava muito estranha. Uma poça de sangue começava a se formar na rua, e eu conseguia ver umas linhas grossas e vermelhas nos braços e pernas dela, que deixavam escorrer filetes de sangue.
–Rin, RIN! — gritei.
Por um momento, pensei que estivesse infartando.
Ela parou de se mexer e me olhou. Gritou meu nome desesperadamente, e veio mancando em minha direção. Não sei como consegui correr mais rápido do que já corria. A garota estava toda pintada de vermelho, descabelada, a face vermelha e úmida, a boca escancarada gritava meu nome sem parar.
–O que aconteceu?! — perguntei, quando ela se jogou nos meus braços.
Ela suspirava e soluçava loucamente. Nunca tinha visto alguém chorar tanto.
–Rin, me responde! RIN!
–Yukio, Yukio, Yukio... — ela não parava de dizer.
–Eu estou aqui, Rin-chan — tentei reconfortá-la — O que houve? Que diabos é tudo isso?!
–Minha mãe, Yukio, minha mãe!
Essa foi a última coisa que ela disse antes de cair flácida nos meus braços.
Comecei a gritar de desespero. Parecia que meu coração iria se partir ou sair voando pela minha garganta a qualquer segundo. Gritei o nome dela algumas vezes, mas ela parecia estar dormindo profundamente. Aquela moça de branco chegou e a arrancou dos meus braços, deitando-a no chão e chamando os outros caras. Dois deles vieram correndo na nossa direção. Eu estava enxergando tudo embaçado, deveria ser por causa das lágrimas nos olhos.
Eles mediram os batimentos, e constataram que ela tinha desmaiado. Perguntaram se eu era da família, e eu respondi que era só namorado da garota. Eles nos enfiaram na segunda ambulância, e nós fomos direto ao hospital. Naquele momento, várias coisas se passaram na minha cabeça, muitas perguntas por enquanto sem resposta.
–Mas o que aconteceu? — perguntei para a moça que estava sentada comigo na parte de trás, acompanhando Rin.
–Nós recebemos um chamado de uma garota, ela berrava e dizia que a mãe tinha tentado se suicidar e não parava de sangrar, então a ligação caiu — a moça suspirou pesadamente — Nós rastreamos o número e viemos.
–Meu Deus — foi a única coisa que consegui falar.
–Nós chegamos, a porta estava destrancada. Ouvíamos gritos por toda a casa. Subimos as escadas e entramos no quarto. Ela — apontou para Rin — estava jogada no chão, chorando, com a cabeça da mãe apoiada no colo, praticamente nadando em sangue. O celular estava jogado ao lado, encharcado. Ela dizia "me ajude, me ajude" sem parar. Por algum motivo ela não consegue andar direito.
–Ela torceu o tornozelo — respondi.
–Nós colocamos a mulher na maca. Os batimentos ainda estavam lá, mas eram muito fracos. Dava para imaginar o por que, mal tinha sangue para bombear.
A ambulância fez uma curva fechada, comprimindo-me contra a parede.
–A garota estava em total desespero. A única coisa que fazia era gritar e chorar, tentava chegar perto da mãe a qualquer custo. Mas eu não podia deixar ela fazer isso.
–Entendo.
Paramos bruscamente. A porta de trás foi aberta de supetão, e outros dois homens vieram e pegaram a maca com Rin. Desci da ambulância voando, acompanhando os médicos.
–Você está ferido? Ela está ferida?
–Não, não estou. Acho que ela não está também. — respondi.
Estávamos no estacionamento do hospital, a maca com a mãe de Rin estava a frente. Uma moça estava com aquelas máscaras de oxigênio, colando-a no nariz e boca da senhora Kishirime.
–Ela tem pai, algum parente?
–O pai dela está em coma. Ironicamente, nesse mesmo hospital.
–Mas que maravilha. Tem alguém que nós possamos avisar?
Kagami. Kagami foi o único que me veio a mente.
Eles eram como irmãos. Agiam como irmãos, faziam todo o tipo de coisa que irmãos fariam. Aquele ruivo idiota era o mais próximo de uma família que estava disponível no momento. Até a mãe de Rin o tratava como filho.
–Tem. Eu ligo, pode deixar.
Entramos no complexo. Lá, eles pediram para que eu preenchesse algumas fichas. Nome, idade, sexo, tipo sanguíneo, alergias, doenças crônicas, etc. Depois de preencher tudo o que eu sabia, liguei para o ruivo do celular de Rin.
–Fala aí, Rin-chan! Seu pé está melhor? — Kagami atendeu animado. Eu conseguia ouvir vozes e barulhos de tênis ao fundo, e Riko-chan apitando.
–Kagami, é o Kasamatsu.
–Senpai? — o tom de voz dele mudou, e ficou meio sério — Está tudo bem?
–Que? — não ouvi direito o que ele tinha dito.
–Se é você quem está ligando do celular de Rin-chan, alguma coisa deve estar errada.
–Kagami, eu preciso de um favor.
–Pode falar, senpai.
–Preciso que você venha ao hospital o mais rápido possível.
–Ao hospital? Que merda vocês...
–A mãe dela tentou se matar, Kagami.
Silêncio. O telefone ficou mudo por um minuto.
–Kagami-kun, está tudo bem? — ouvi alguém perguntar do outro lado da linha — Kagami-kun?
–Estou indo imediatamente, senpai.
E desligou.
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