Senpai, Você É Incrível
16 Tingido de vermelho
Notas iniciais
Dez minutos depois, uma multidão de gente estava entrando pelas portas do complexo hospitalar. Kagami estava pálido e parecia muito preocupado.
–Senpai, o que diabos aconteceu?! — ele perguntou, puxando a parte da frente da minha camisa — Espera, isso é sangue?
Ele reparou que eu estava tingido de vermelho também, então me soltou e olhou para as mãos. As meninas do time dela apareceram também, seguidas do técnico, e todo o resto do time de Seirin.
Contei tudo o que sabia para eles. Contei que estava esperando há uns vinte minutos, mas não tinha confirmação de nada e ninguém queria me contar coisa alguma. Minhas mãos tremiam sem parar, e eu sentia uma dor no peito horrível. Tudo o que eu queria era ficar perto de Rin, abraçá-la e beijá-la, saber que estava tudo bem com ela.
Pouco antes de terminar a história toda, um médico veio.
–Kasamatsu Yukio? Algum de vocês é Kasamatsu Yukio?
–Sou eu — pronunciei-me.
–Por favor, acompanhe-me.
–Certo.
Deixei todo o pessoal para trás, mas Kagami veio junto. O médico nos levou até o corredor e parou perto de uma porta branca. Ele tinha olheiras e parecia cansado.
–Senhores...
Ele me encarou nos olhos por um momento, então olhou para o chão. Isso, definitivamente, não era bom sinal.
–Ela está bem? — Kagami perguntou, ansioso.
–Desculpe, fizemos todo o possível, mas não conseguimos salvá-la.
Minhas pernas tremeram, e eu senti uma mão firme no meu ombro. Kagami parecia prestes a cair no chão de surpresa. Eu estava incrédulo.
–Isso é algum tipo de piada doentia? — perguntei.
–Não, senhor. Kishirime Lola faleceu há dez minutos.
A mão no meu ombro esmagou minha pele. Tive que me apoiar na parede para não cair. Como assim ela morreu?
–Parece que ela perdeu muito sangue, os órgãos começaram a falhar. Logo que ela chegou aqui, teve uma parada cardíaca, e não conseguimos trazê-la de volta. Sinto muito.
–E-E... — tentei falar, mas não consegui.
–Onde está Rin? — Kagami falou, obviamente forçando a voz para fora.
–Ela está nesse quarto, ainda está dormindo, mas deve acordar daqui a pouco. Vou deixá-los a sós, com licença.
O médico foi embora.
Kagami continuou apertando meu ombro, respirando fundo. Tentei controlar o tremor nos joelhos antes de falar alguma coisa.
–Você está bem?
–S-Sim.
–Temos que estar com ela quando acordar, Kagami.
–Tem razão. Desculpe, senpai.
–Pare de me chamar de senpai. Kasamatsu é o suficiente.
Ele concordou com a cabeça, acho que se esforçando para não vomitar.
Um vazio muito estranho tomava conta do meu peito quando adentramos o quarto de Rin. Ela tinha uns fios conectados a ela, uma máquina mostrava os batimentos cardíacos. Parecia estar dormindo profundamente.
Eu e Kagami sentamos num sofá que lá tinha, e minutos depois Kise entrou, suando.
–Senpai, o que houve? Está tudo bem? O pessoal de Seirin me disse que...
Abaixei a cabeça, olhando para o chão.
–Kise, só vá embora — Kagami falou, parecendo exausto.
–Cadê a mãe da Rin? Ela está bem? — o loiro insistiu — Senpai.
–Kise... — Kagami tentou falar, mas eu interrompi.
–Kise, vá embora, tá? Só vá embora. — lancei um olhar de lado para ele, e pareceu que o loiro compreendeu.
–T-Tá. Desculpe.
Ele fechou a porta, e fez-se silêncio no quarto de novo. O clima estava muito pesado. Eu poderia desmoronar a qualquer momento.
E ela, meu Deus? Como Rin reagiria a isso? Um pai em coma, a mãe falecida. Nenhum outro parente para dar apoio. Estava tudo nas nossas mãos agora, nas mãos dos amigos. Nas mãos do namorado. Nas mãos do irmão substituto. Teriamos que fazer de tudo para ela não entrar em colapso.
Kagami levantou do meu lado, e foi até a janela. Apoiou as mãos na beirada e abaixou a cabeça. Pude ouvir os soluços baixinhos dele. Meus olhos se encheram de lágrimas de novo. Esforcei-me, mas algumas gotas acabaram rolando face abaixo.
O celular de Rin começou a apitar sem parar, eram várias mensagens chegando ao mesmo tempo.
"Rin, você está bem? Kise-kun acabou de contar o que aconteceu. Não se preocupe, lembre que eu e as meninas estaremos aqui para você, ok? Beijos, Kori".
"Ainda lembro do dia em que meu pai morreu, Rin-chan. Não é fácil, mas sei que você vai superar. Você é linda, inteligente, forte e esperta. Vai ficar tudo bem. Aki."
"Rin-san, não fique triste. Também já perdi parentes, e sei como é. Parece que o mundo está caindo aos pedaços, mas depois você vê que não é bem assim. Te amo muito, minha irmãzinha mais nova. Hyuga."
"Querida Rin, agora, depois que Kise nos deu a terrível notícia, lembrei de uma frase que minha vó costumava me falar. É assim: tudo fica bem no fim; se não está tudo bem, então não é o fim. Espero que essa frase sirva de consolo para essa época difícil que você está passando. Com muito amor, Riko."
"Saiba que pode contar comigo para tudo, Rin-chan. Sempre que precisar de alguma coisa, pode falar comigo. Beijos do seu pai substituto.'
"Querida Rincchi, sei que acabamos de nos conhecer, mas queria dizer que você se tornou muito próxima de mim e de todos de Kaijo muito rápido. Como namorada do capitão, você virou uma amiga muito importante para nós. Queríamos que você soubesse que pode contar conosco pro que der e vier. Qualquer coisa, apareça aqui na escola. Mil beijos do time de Kaijo."
"Sei que não te conheço a tanto tempo assim, mas esse tempo que passamos juntas foi muito legal, e não gostaria de te ver triste, Rin-san. Se precisar de alguma coisa, alguém para conversar ou simplesmente chorar junto, saiba que estou sempre disponível. Beijos, Hira".
Todos estavam mandando mensagens sem parar. Tive que desligar o celular para que o barulho não a acordasse. Kagami continuava parado na mesma posição, com a cabeça baixa na janela. O quarto estava ficando escuro, o sol já tinha se posto e agora a única luz que nos iluminava era a do céu ainda claro.
Fui ao pequeno banheiro passar uma água no rosto e na nuca, tentar me acalmar. Quando saí, Kagami estava sentado de novo, dessa vez segurando uma das mãos de Rin com uma cara péssima.
–Ela vai ficar arrasada — ele comentou quando sentei também.
–Mais do que já estava.
–Senpai, eu...
–Ela precisa de você agora. Não ouse ir embora, vou te dar uma surra se tentar. — suspirei — Eu sei que ela te considera muito, Kagami. Preciso que você fique aqui. Não vou conseguir aguentar tudo sozinho. — nós nos olhamos — Por favor.
O ruivo ficou quieto por um tempo, só olhando para mim.
–Tudo bem.
Uma enfermeira veio e acendeu as luzes, verificou os batimentos e todas as outras coisas. A garota agora estava com roupas limpas que uma das amigas dela tinha ido buscar na casa dela. Já eram quase sete horas quando a máquina que fazia os bipes irritantes começou a apitar mais forte.
–Ela está acordando — sussurrei para o ruivo.
Peguei na outra mão ela. As pálpebras dela começaram a tremer delicadamente. Balançou a cabeça um pouquinho e abriu os olhos. Aquelas esmeraldas pareceram desfocadas num primeiro momento.
–Ah... Ah...
–Rin-chan? — perguntei suavemente.
–Hm... Yukio-kun? Yukio-kun?
–Oi, eu to aqui.
Ela olhou pra mim meio confusa.
–Hm... Oi. — ela olhou ao redor — Kagami-kun?
–Oi, Rin.
–Que lugar é esse? — ela se esforçou para ficar sentada, rondando o quarto com os olhos.
–Hospital — Kagami falou.
–E o que a gente tá fazendo aqui? Meu pai está bem, é alguma coisa com ele?
"Ela não se lembra", pensei. "Ela não se lembra de nada".
Voltou a minha mente a matéria de uma revista de ciência que eu lia. Era algo como pessoas que sofrem traumas muito fortes podem esquecer que passaram por aquilo. É uma maneira do cérebro evitar a dor.
Olhei para Kagami, pedindo ajuda.
–Rin-chan, você não lembra de nada? — perguntei.
–Lembrar do que? — ela sorriu um pouco — Do que vocês estão falando, hein?
–Senpai, a gente deveria mesmo contar? — Kagami sussurrou para mim.
–Ela merece saber — respondi.
–Parem de sussurrar como se eu não estivesse aqui. — ela brigou conosco.
–Rin-chan, você não se lembra de ter chamado a ambulância? — perguntei.
–Podem parar com as piadinhas agora — ela ficou séria, desconfiada. O rosto dela tinha se fechado.
–Sua mãe, Rin... Sua mãe... — Kagami prendeu a respiração por um momento — Ela morreu.
–Eu disse que vocês podem parar com as piadinhas. — ela ficou furiosa.
–Rin, por favor — pedi — É verdade, sua mãe morreu.
Ela congelou, olhando nos meus olhos. A respiração dela parou de repente. O rosto dela ficou pálido, muito pálido. Ela olhou para baixo, respirando forte. O bipe da máquina começou a ficar mais forte.
–Morreu? — a voz dela saiu esganiçada — COMO ASSIM MORREU?
–Rin...
–NÃO, NÃO! CALEM A BOCA!
O barulho da máquina aumentava cada vez mais, soando tão alto quanto os berros que ela dava.
–NÃO, MINHA MÃE ESTÁ VIVA! OUVIRAM?! VIVA! MÃE! MÃE!
Ela parou de novo. Os bipes eram ensurdecedores.
–NÃO! NÃO, MÃE! ALGUÉM, SOCORRO! ME SOLTEM, SEUS IDIOTAS! MÃE, MÃE!
–Rin, por favor — comecei.
–CALE A BOCA, YUKIO! CALE A SUA MALDITA BOCA! MÃE! TIREM SUAS MÃOS DE MIM! MÃE! SOCORRO! SOCORRO!
Ela gritava, implorava pela mãe e eu não sabia mais o que fazer. Nós dois estávamos na mesma situação, encarávamo-nos, pedindo ajuda um ao outro. Nenhum de nós soube o que fazer.
Ela começou a arrancar os fios que prendiam no seu corpo, e a máquina que fazia bipes emitiu um barulho contínuo. Ela empurrou o ruivo para fora do caminho, e desceu da cama.
–SAIAM DA MINHA FRENTE, SEUS IDIOTAS! NÃO ENCOSTEM EM MIM! MÃE! MÃE!
Alguém abriu a porta, então duas enfermeiras entraram, seguidas pelo técnico de Seirin. Elas tentaram arrastar a garota de volta para a cama, mas ela se recusava e empurrava as moças. Eu nunca fiquei tão em choque quanto naquele momento.
O técnico dela abaixou e a segurou pelos ombros, sacudindo-a.
–Rin, controle-se! Controle-se! — o tom dele era firme.
–MINHA MÃE, CADÊ MINHA MÃE?!
–Acalme-se! — ele gritou, fazendo a menina ficar calada. Era um tom de um pai, com certeza — Não faça escândalos desnecessários! — ela ficou parada, quase sem respirar — Rin, escute. Sua mãe morreu, não há mais nada que possamos fazer. Aceite isso, Rin, você é praticamente uma mulher! Ela não aguentou tudo isso, mas você é forte. Você é mais forte que ela, Rin, você sempre foi. O que aconteceu com a capitã inabalável do time de basquete feminino de Seirin, hein?!
As pernas dela tremeram, e ela caiu. Meu corpo se jogou para frente, pegando-a nos braços. Agora, ao invés de gritar, ela somente chorava. Mas aquele choro era de partir o coração. Minhas mãos tremiam como nunca tremeram antes, meu peito estava prestes a explodir. Ela agarrava a minha blusa com as duas mãos e soluçava desesperadamente.
As enfermeiras foram embora. Kagami parecia um lixo, e o técnico parecia exausto sentado naqule sofá barato. Continuei pela meia hora seguinte sentado no chão com a garota chorando em mim.
–Quero ir para casa. Alguém me leve para casa, por favor. — ela pediu, depois de passar um tempo em silêncio, tentando controlar os soluços. Kagami estendeu uma mão para ela.
–Você está bem? — ele perguntou, puxando a garota para cima. Ela cambaleou um pouco, então o abraçou com força. Ele pareceu meio surpreso de início, mas depois a apertou contra ele.
Eu me sentia emocionalmente cansado. Joguei-me no sofá ao lado do técnico.
–Você vai precisar ser forte agora, Kasamatsu. Por ela. Espero que tenha noção disso.
–Eu tenho, só não sei se vou aguentar ver isso sem ficar louco.
Antes de irmos embora, Rin quis passar no quarto do pai dela. Ela contou a notícia, ainda chorando um pouco, como se ele pudesse ouvir tudo o que ela falava. Eu sabia que ele conseguia, o senhor Kishirime era incrível.
O técnico se ofereceu para dar uma carona para casa. Logo que chegamos no hall, todos ainda estavam lá. As meninas do time dela estavam aos prantos num canto, todos do meu time estavam reunidos, o resto do time de Seirin estava num clima péssimo.
As meninas pularam em cima de Rin, apesar de eu dizer para ficarem longe. O pessoal de Seirin foi falar com Kagami, e Kise foi o primeiro a chegar perto de mim.
–Desculpe, senpai, eu não sabia... — o loiro parecia muito triste.
–Tudo bem, Kise, a culpa não é sua.
–Está tudo bem, Kasamatsu? — Moriyama perguntou, colocando uma mão no meu ombro.
–Sim, eu estou bem.
–Precisa de alguma coisa? — Kobori bateu nas minhas costas em um gesto reconfortador.
–Uma água seria ótimo.
–Vou pegar, capitão! Espere um segundo! — Hayakawa, sempre muito energético, saiu correndo.
Kise apertou minha mão, e disse umas palavras encorajadoras:
–Você não precisa encarar tudo isso sozinho, senpai. Nós estamos aqui com você. — e sorriu.
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