Senpai, Você É Incrível
17 Suspiros
Notas iniciais
Fomos para a minha casa, obviamente.
Lá, preparei alguma coisa para ela comer, enquanto ela ficava sentada no sofá, abraçando as pernas. Eu olhava a cada dez segundos para ter certeza de que ela ainda estava lá. Rin agora parecia estar em estado de aceitação.
-Pronto, aqui está. Coma tudo.
Coloquei o prato na frente dela. Sanduiche de presunto com patê de atum, o favorito dela.
-Obrigada. — a voz dela parecia morta.
Ela deu a primeira mordida e mastigou infinitamente. Sentei ao lado dela, passando a mão nos seus cabelos e olhando o rosto. Algumas lágrimas escorriam de vez em quando, mas ela não soluçava ou tirava os olhos da TV, que passava algum desenho infantil. Eu sabia que ela não estava prestando atenção, era somente para ocupar a mente com mais alguma coisa.
-Se importa se eu tomar um banho? — ela me olhou. Os olhos dela pareciam sem brilho.
-Não, imagina. Vou pegar uma toalha.
Levantei e fui até o armário do corredor. Peguei uma toalha amarela para ela.
-Fica comigo? — ela perguntou, pegando a toalha da minha mão.
Ela entrou no chuveiro e eu fiquei sentado na privada, esperando ela terminar o banho. Ela parecia meio em transe, ficava parada olhando a parede branca. Não conseguia saber se ela chorava ou não, pois escorria água pelo rosto dela. Um hora, ela sentou-se no chão e afundou a cabeça nos joelhos, soluçando. Arranquei fora minha camisa e minha calça, entrei no chuveiro e a abracei forte contra mim. Ela apoiou a cabeça no meu peito e fechou os olhos.
Ficamos lá por uns dez minutos. Peguei uma camisa minha para ela usar de pijama, então deitamos. Rin estava exausta, e eu também. Porém, o sono não chegava, pelo menos para mim. Ela, depois de chorar mais um pouco, caiu no sono profundo. Devo ter ficado olhando o rosto dela por uma hora, até que comecei a ter cãibras nas pernas. Resolvi levantar um pouco.
Fui até a cozinha beber água. Sentei no sofá, colocando em um canal qualquer na TV só para não me sentir totalmente sozinho. Devo ter ficado um bom tempo só encarando o teto.
Como eu deveria me sentir? O que eu deveria fazer agora? Como lidar com uma garota com o pai em coma e a mãe morta? Eu só sabia que a amava. Demais, até para o meu próprio bem. Rin não merecia tudo isso; ela era brilhante.
Ouvi um barulho, e vi que Rin vinha, carregando um cobertor nos braços e coçando um dos olhos.
-O que está fazendo aqui? — ela perguntou, sentando-se ao meu lado.
-Desculpe, não consegui dormir.
Passei meus braços ao redor dela, dando um beijo em sua cabeça.
-Posso ficar um pouquinho aqui com você, Yukio-kun?
-Claro que sim.
Deitei, encostando a cabeça no braço do sofá, e Rin deitou em cima de mim, com a cabeça no meu peito. Ela ainda cheirava a sangue, e eu não conseguia dormir de jeito nenhum. Era de manhã quando consegui pregar os olhos.
Sempre chove mais forte nas pessoas que merecem o sol.
-Rin? — perguntei ao sentir que ela não estava por perto — Rin-chan?
Abri os olhos, já sentando e olhando ao redor. Nenhum sinal dela.
-Rin? Rin?
Meu Deus, cadê ela? Fui até meu quarto, até o banheiro e a cozinha, mas ela tinha desaparecido. Simplesmente não estava mais lá. Liguei para o celular dela, mas estava no quarto. Comecei a entrar em pânico. Onde ela foi? Ela não teria tentado cometer suicídio também, não é? Meu coração disparou no peito, e eu tive que me segurar para não surtar.
-Alô?
-Kagami, é o Kasamatsu.
-Senpai, tá tudo...
-A Rin sumiu.
-O QUE?!
-Ela sumiu, Kagami, ELA SUMIU! — passei a mão na cabeça nervosamente, tentando manter a sanidade — Eu estava dormindo, e quando acordei ela não estava mais aqui!
-Tá... Tá... Olhou pela sua casa?
-Claro que olhei, idiota!
Virei a cabeça quando escutei o barulho da maçaneta. Ela girou e foi empurrada. Rin estava com uma calça jeans e a minha camisa, segurando uma sacola de plástico. Olhou para cima quando viu que eu estava em pé na frente do sofá, segurando o celular com uma cara não muito boa.
-Senpai? Senpai? — Kagami chamou.
-Ela está aqui. Desculpe, tchau. — e desliguei.
-Kasamatsu-kun, está tudo bem? — ela perguntou, com a voz monótona.
-KISHIRIME RIN — fui até ela e a peguei pelos ombros — VOCÊ NUNCA MAIS FAÇA ISSO COMIGO!
-O que? Eu só...
-CALE A BOCA! NUNCA MAIS SAIA SEM ME AVISAR, ESTÁ ENTENDIDO?!
-Yukio...
Abaixei e a puxei contra mim, apertando-a nos meus braços com força. Só de sentir que ela estava ali, relaxei. Não queria tirar meus olhos dela, eu achava que poderia perdê-la num segundo, que ela não estaria mais ali quando eu não estivesse olhando. Pensar nisso me deixava histérico.
Ela passou os braços por mim também, encostando o queixo no meu ombro. Eu poderia passar o dia inteiro assim, sentindo o corpo dela contra o meu.
-Yukio-kun.
-Desculpe, Rin, desculpe. Acabei de acordar e entrei em pânico quando não te vi. Desculpe, não queria ter te mandado calar a boca. Só não faça mais isso, eu fico preocupado.
-Tudo bem, senpai. Eu só tinha ido a mercearia porque não tinha nada para comer e eu queria fazer alguma coisa para você... — ela falou baixinho — Sabe, por ter cuidado de mim. Um agradecimento.
-Não precisa disso, você sabe que eu vou sempre cuidar de você.
-Principalmente agora, né? — ela riu sozinha, tristemente.
Afastei-me o suficiente para que pudesse olhar nos olhos dela.
-Rin, deixe-me te falar um coisa. Você não precisa encarar tudo isso sozinha. Eu e seus amigos estamos aqui com você — roubei a frase de Kise. Finalmente aquele loiro serviu para alguma coisa.
-Yukio-kun... — ela arregalou os olhos de início — Ah, disso eu sei. Mesmo assim, agradeço de verdade — ela sorriu um pouco — Sente-se e eu vou fazer alguma coisa pra nós comermos, tá?
-Tem certeza? Se quiser eu ajudo.
-Tenho certeza, vá fazer outra coisa.
-Ok...
Beijei a bochecha dela suavemente e fui ao banheiro para tomar um banho. Tá, ela parecia bem, era meio estranho. Os olhos dela, apesar disso, pareciam sem brilho e cansados. Ela também estava mais quieta que o normal...
Desliguei o chuveiro, e quando saí do box ouvi uma série de suspiros altos vindos da sala. Sequei-me rapidamente, coloquei uma cueca e uma calça e saí às pressas. Rin estava sentada no sofá, a cabeça enterrada nas mãos, soluçando sofregadamente. Corri até ela.
-Rin? Não precisa chorar, eu estou aqui.
Abracei o corpo dela, fazendo carinho em seus cabelos.
-Mas que cheiro é esse? — perguntei.
-Meu Deus, a comida!
Ela me empurrou para trás e saiu correndo com o rosto todo molhado. Parou na frente do fogão, mexendo na panela desesperadamente.
-Não, não! Merda!
Ela cobriu o rosto de novo e deixou-se cair no chão branco. Corri até ela de novo, puxando-a para cima.
-O que aconteceu?
-Queimou, Yukio-kun! Eu não faço nada direito! Não me surpreende que minha mãe tenha me deixado... — ela chorava.
-Ei, pode parar com isso — briguei com ela. Tirei as mãos da frente e a obriguei a olhar nos meus olhos — Não foi culpa sua, tá? Não faça isso com você mesma, Rin-chan. Nunca mais repita uma mentira dessas. Sua mãe te amava do jeito que você é, e eu também. Não tem importância se queimou, a gente faz outra coisa.
-Yukio...
-Chega de chorar, tá? Você está me deixando triste, Rin-chan. — passei os dedos pelo rosto dela e sorri — Que tal colocar um sorriso nesse rosto? Você fica muito mais bonita.
O lábio inferior dela tremeu um pouco, e ela se jogou em cima de mim, apertando meu pescoço com força. Passei os braços pela cintura dela, puxando-a para mim de novo. O cheiro dela encheu meus pulmões.
-Eu te amo — ela falou e me beijou.
-Eu te amo também — respondi, colocando-a sentada em cima do balcão ao meu lado — Agora fique aí que eu termino o almoço. Você já fez muito.
-Obrigada. — e sorriu.
O peso do meu peito se aliviou um pouco.
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Rin's Point of View
-Mas... Mas... Como isso é possível? Não pode ser tudo isso.
-Rin-chan — Kagami falou baixo.
-Não acredito que ela fez isso comigo, Kagami-kun... — meus olhos foram se enchendo de lágrimas de novo — Não acredito nisso...
-Vai dar tudo certo.
-Cale a boca! Olha isso! — joguei os envelopes em sua direção — Como você espera que eu pague tudo isso, hein?! Meu Deus, eu não sei o que fazer.
-Rin — Kagami parou na minha frente e segurou meus ombros — Eu já disse: nós vamos arrumar um jeito.
-Quei jeito, Kagami? Não tem jeito — mordi o lábio, retendo as lágrimas — Eles vão vir pegar minhas coisas pra pagar as contas, eu não tenho dinheiro para tudo isso.
Joguei-me no sofá. Minha casa estava limpa, não havia nenhum resquício daquela noite, o que fazia bem para mim. Encarei o teto. Minhas mãos, literalmente, estavam abanando diante daquela situação. Eu não conseguiria sequer pagar as mensalidades da escola.
-Seu pai, ele não trabalhava? O dinheiro dele deve ter ficado retido esse tempo que ele está no hospital — o ruivo observou sabiamente.
-Isso, isso! Ah, Kagami, seu idiota! — pulei do sofá na direção dele, abraçando-o no ar — Você é incrível, baKagami! Vamos até lá agora então.
-Agora? O Kasamatsu-senpai deve chegar daqui a pouco...
-Ele está no treino, e o seu começa mais tarde. Além do mais, a editora não fica tão longe. Vamos lá agora e vemos como tudo se resolve.
-Tá, tá...
Chutei o ruivo, e nós fomos até a editora do meu pai. Kagami pagou minha passagem de ônibus, e depois de vinte minutos sacolejando, chegamos ao grande prédio de vidro azulado. Fomos até a porta, e um homem baixinho veio nos recepcionar.
-Boa tarde — ele falou.
-Eh, oi. Boa tarde. Meu nome é Kishirime Rin, e...
-Kishirime? A filha do senhor Kishirime? Ah, sim, ele falava muito da senhorita. — sorriu gentilmente — Como posso ajudá-la?
-Eu queria falar com o secretário do meu pai, se possível.
-Claro, um segundo. Aguarde ali, se quiser — ele apontou para dois sofás pretos num canto.
-Obrigada.
Ficamos sentados por uns cinco minutos, até que o loiro veio nos receber.
-Nossa, Rin, como está grande! Há quanto tempo não nos vemos, não é?
-É, pois é — ri um poquinho para descontrair — Escute, posso falar com você em particular? É importante.
-Claro, vamos até meu escritório.
Seguimos três andares acima, e entramos numa sala com paredes cor de creme, chão de madeira e alguns quadros de Monet nas paredes.
-Sobre o que quer falar?
-Escute, desde que meu pai sofreu o acidente, o dinheiro dele não caiu na conta, caiu? Eu queria recuperar o dinheiro o mais rápido possível.
-Sim, ficou suspenso por um tempo. — o loiro mexeu numa gaveta — Aqui. É só ir ao banco e entregar esse papel, o dinheiro cairá na conta imediatamente. — e escreveu algumas coisas que eu não entendia nas linhas disponíveis. Colocou o papel na minha frente e sorriu.
-Muito, muito obrigada, senhor...?
-Nokuro — apertou minha mão.
Corremos direto ao banco depois daquele episódio.
-Olá, gostaria de falar com o gerente — falei com uma moça no balcão de atendimento.
-Quem é a senhorita? — a moça perguntou.
-Kishirime Rin. Queria tratar de uns assuntos importantes. O dinheiro do meu pai estava suspenso e eu vim retirá-lo.
-Pode tratar desse assunto comigo mesmo, senhorita. Alguém te deu um papel?
-Sim, sim.
Kagami procurou nos bolsos, e então me entregou a folha branca.
-Ah, sim. Espere um segundo.
A moça começou a digitar rapidamente no seu computador, clicando em várias coisas. Depois, ficou um tempo parada e sorriu.
-O dinheiro já está na conta, senhorita.
-Muito obrigada!
-Aqui está o extrato, tenha um bom dia!
Ela me entregou um pedaço de papel, e eu saí do banco praticamente saltitando.
-Problema resolvido? — Kagami disse.
-Veremos.
Chegamos ao ponto de ônibus, e sentamos nos bancos vazios para esperar o transporte. Dei uma olhada no papel, e senti meu peito sendo esmagado por um caminhão.
-Rin?
Não, não, não.
-Rin?
-Merda, merda. Por favor, não.
-O que houve? — ele insistiu.
Mostrei o papel a ele.
-O que foi?
Respirei fundo algumas vezes antes de falar, fazendo mil vezes a mesma conta só para ter certeza. Contei nos dedos mais algumas vezes.
-Não é o suficiente. Kagami — olhei nos olhos dele, sentindo a garganta se fechando e ardendo — Não é o suficiente para pagar tudo.
-O que? — ele pareceu indignado.
-Veja bem; aqui, de acordo com meus cálculos, só tem dinheiro suficiente para pagar a mensalidade da escola e a internação do meu pai, Kagami. Não tenho como pagar as outras coisas.
Sentindo as gotinhas escorrerem, tapei o rosto com as mãos. Um braço grande e quente passou nas minhas costas e me puxou para o lado. Encostei a orelha no peito do ruivo, podendo chorar todas as preocupações para fora sem me importar em ser julgada.
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