Sendo Uma Das Únicas Em Milhões
2 Talvez eu tenha medo da morte
Notas iniciais
— Rachel Visuit, você vai perder o jantar!
O jantar, é mesmo, eu já havia me esquecido completamente, me perco em meus pensamentos constantemente.
Desci as escadas correndo, tomando cuidado para não escorregar com minhas pantufas do Snoop, pulei dois degraus de uma vez, três e por aí vai... quase levei um tombo no qual eu bateria a cabeça e na certa um traumatismo craniano me infernizaria pelo resto da minha vida... é, eu preciso tomar cuidado, se um escorregão quase me matou, imagine só zumbis! Morte não é algo que está fora de cogitação para acontecer comigo, na verdade, é o que irá acontecer na certa, mas eu não me importo, nunca me importei.
Sento na primeira cadeira, a da ponta, lembro de uma frase que meu pai dizia: "Quem senta na ponta paga a conta.", me faz soltar um sorriso. Papai, ele se orgulharia de mim se estivesse aqui. Sinto-me seduzida por um cheiro divino de salmão, tão cheiroso, tão rosado... tão salmão. Pego logo o maior pedaço da bandeja e coloco no meu prato, umas duas colheres enormes de arroz e um caldo especial que minha mãe sempre faz, ela cozinha muito bem. Saboreio cada pedacinho. Salmão é o meu prato favorito... como não gostar de salmão? Olho toda a mesa e lá no cantinho, do lado do prato da minha mãe uma bandeja de batata frita. Meus olhos brilham e eu logo pego como se fosse um bicho esfomeado. Coloco quase tudo no meu prato, minha mãe me encara como se eu estivesse com algum problema, eu rio da cara dela e logo ela ri da minha risada mais que estrondosa.
Termino rápido o meu prato e dou um pulo no sofá, arrepio toda, o sofá está gelado. Está passando The Walking Dead, irônico não é? O mundo numa gigante crise de um apocalípse zumbi e na televisão se passar um seriado sobre o mesmo. Que mundo estúpido esse né? Isso me leva a rir. Assisto à alguns episódios e vou achando tudo um tanto estapafúrdio, eu amo essa série mas nesse situação acho que eu dispensaria, sinceramente, então vou pegando no sono, bem devagar...
Acordei no meio do passeio, pessoas mais pálidas que eu formavam uma fila enorme no meio da rua. Na verdade, não era uma fila, tudo uma bagunça, sangue esparramado pelo chão, cadáveres, cabeças soltas, ocas, sem cérebro. É tão interessante quanto eu imaginava... Até que um dos bichos pálidos me enforca por trás, mordidas no pescoço, braço, cabeça, uma, duas, três e eu caí morta.
Grito e me sento desesperadamente no sofá, meu Deus, aquilo foi só um sonho. Agradeço por estar viva. Estou tremendo de frio, de medo, de desespero. Não quero morrer, não, não, não. A morte é assustadora, é escura, é a morte! Um novo grito clamando por ajuda, meu coração bate tão rápido que quero o cuspir para fora logo.
Minha mãe aparece desesperadamente lá em cima da escada gritando:
— Rachi, você está bem?!
Eu balbucio algumas palavras:
— Eu, eu, eu acho que estou. Estou viva.
— Bom, foi só um pesadelo querida. — Ela me abraça forte. Nenhum zumbi poderia me machucar ali dentro daquele abraço.
Eu ainda adorava zumbis, eles eram meus melhores amigos, pelo menos na minha mente, só não queria ser morta por nenhum deles, ou ser apenas mordida uma vez para transformar-me num deles, eu adoraria. Minha facinação era enorme demais para ser desfeita num pequeno sonho. Olho no meu relógio de pulso: 4h da manhã. Daqui algumas horas eu estaria lutando realmente com os meus amores, meus queridos amores, ao qual todos esses anos dediquei todo esse meu facínio.
Minha mãe se levanta, vai até um armário do lado da tv e pega um cobertor enorme, me cobre e me dá um beijo na testa, dizendo:
— Boa noite querida, já vou indo, até amanhã.
Ela costumava dizer sempre que nada pode com um cobertor e isso me deixava mais segura que tudo... Caí no sono logo logo, mas não sonhei com nada, só algumas horas de escuridão e mais escuridão...
— Hora de acordar, seu vôo sai em 1h.
Espreguiço, ainda estou dormindo.
— Quan-quantas horas?
— 7h. — Ela olha no relógio. — Agora 7h10, levante-se Rachel, você irá se atrasar.
Eu estou com sono, mas a ansiedade logo toma conta de mim por completo, dando um pulo do sofá e subindo as escadas correndo, sem medo de cair, ou escorregar. Pego uma calça montaria preta e uma regata branca, calço meu coturno estilo militar marrom e amarro um rabo de cavalo. Estou pronta. Abro a outra porta e lá está... meu enorme arsenal de armas. Foices, facões, arcos e flechas, espadas... tudo o que um menino sonha em consumir. Armas de estilos variados, como as de filmes. Coloco todas elas dentro de uma mala enorme própria para as tais e vou logo para o carro, jogando a mesma no porta-malas.
Moro perto do aeroporto, uns quarenta minutos no máximo então a viajem até lá não faz a mínima diferença. Vou escutando a playlist do meu iPod: AC/DC, Led Zeppelin, Kansas, Oasis, Nirvana, Beatles, Rolling Stones, Metallica, Kiss e por aí vai... essas músicas fazem quarenta minutos parecerem apenas cinco. Chegando no aeroporto eu vou logo comprar um pão de queijo e um café, não tomei café da manhã, havia me esquecido. Já tremia de tanta fome, tanto que quase derrubei meu café no chão. Enquanto tomava, fui andando até a fila onde se encontrava as outras nove pessoas que iriam comigo combater um exército de zumbis.
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