Sendo Uma Das Únicas Em Milhões

3 Uma mentira boa? Talvez... às vezes


A fila estava logo a frente, mas tive que ir me espremendo no meio das pessoas para chegar até lá. Todos os semblantes estavam extremamente assustados, bom, não era pra pouco, todos buscavam uma saída, um lugar onde ninguém os encontrasse, mas isso era inútil, não há mais lugar seguro pra ninguém, daqui a alguns dias os tais mortos-vivos já haverão povoado toda a terra, toda.

Um velho homem, de cabelos marrons com alguns fios cinzas e com a barba rala branca segurava um cartaz branco com algumas palavras escritas de canetão preto: Rachel Visuit. Era pra mim, obviamente. Era meu instrutor, uns dos agentes do governo que me "contratara" contra minha vontade para guerrear. Fui logo até ele, apressada para ver quem viajaria junto comigo.

— Rachel Visuit, você foi uma das dez pessoas convocadas para defender o mundo.

Essa baboseira de filminho clichê soou mais assim para mim: "Bla, bla, bla, bla, mate zumbis ou morra vadia." Virei o rosto e andei em direção aos outros que vestiam como militares.

— Calma aí apressadinha, eu os apresento pra você. — O cara do cartaz falou, me fazendo ficar com uma cara de ignorante. — Me chamo Tonn Hoers, serei seu guia. Essa é Luísa Gerian.

Ele me mostrou uma garota linda, loira de olhos cinzas, alta, com um corpo atlético, morena, tinha a minha idade pelo visto.

— Ela é especialista em bombas. — Ele deu um passo a frente. — Esse é Enzo Chern, o adolescente mais inteligente do mundo.

Enzo era mais baixinho, magro, tinha olhos penetrantes castanhos escuros.

— Esse é...

Meu coração desparou. O que aquele diabo fazia ali? Não, eu não queria, não podia...

— Oi Rachel. — Vinícius disse num tom irônico.

— Pelo visto vocês já se conhecem. — Tonn se espantou.

— Infelizmente sim. — Puxei ele pelo braço. — O que você faz aqui?

— Bom, eu sou ótima com armas, assim como você, esqueceu? Mas armas de fogo, não armas brancas.

— Droga.

Vinícius é lindo, tem olhos castanhos esverdeados, cabelos castanhos, é um pouco mais alto que eu. Eu gostava dele quando tinha os meus dez anos e ele sabia, depois ele se mudou e eu nunca mais o vi. Eu não me permiti sentir ao menos sequer um risquinho de amor depois dele e até hoje não me permito. Eu sou fria, eu sou forte, eu sou, eu sou. Se um zumbi não matar ele eu mato, afinal, ele faria o mesmo. Não me interessei em saber o nome dos outros.

Fomos para sala de embarque, tive que passar pelo detector de metal e ele apitou. Pediram para eu passar novamente e ele apitou denovo. Lembrei me do broche que guardava dentro do bolso. Era tão pequeno que nem aparecia. Tirei-o de lá e coloquei na mala junto com as armas, isso eles não recolheram, era necessário, mas permitido apenas dentro do avião de bagagens e claro, apenas nessa ocasião. Passei pelo detector normalmente, depois peguei o broche e o coloquei na minha blusa.

Ele é lindo, com as iniciais de meu pai: A.V.; Aaron Visuit. Seu sonho sempre foi participar dessa guerra e se não fosse ele, era eu. Sou eu. Por isso me treinara incansavelmente desde meus sete anos, quando completei quinze ele morreu. Ele não trancou o arsenal direito quando foi lá colocar a primeira flecha que acertei exatamente no meio no alvo e ao se virar tudo desmoronou nele. Eu não vi, nem minha mãe, quando entramos no quarto já era tarde.

— Rachel, o avião chegou, vamos — Disse Tonn, me apressando.

Caminhei até ele, era enorme, primeira classe. Minha cadeira era a 16A, janela. Sentei me na confortável poltrona e logo um dos outros nove já vinha sentar ao meu lado.

— Oi, meu nome é Jason Schmnem, 16B, é aqui.

— Oi, me chamo Rachel Visuit, mas se quiser pode me chamar de Rachi.

— Rachi, gostei. Especialista em armas brancas, né?

— Isso, como sabe?

— Apostam em você. — Me espanto.

— Por que está aqui?

— Artes marciais.

Isso explicava seu físico alto e forte, tinha cabelos ruivos e olhos verdes, parecia ser uma boa pessoa e estava seguro de si, apesar de mostrar não querer muito estar ali. Na verdade, ninguém queria estar ali.

Os avisos para a decolagem do avião começaram e aquela voz irritante me fez quase dormir. Eu coloco o cinto e lembro que esqueci meu chiclete para os ouvidos não entopirem e aquela coisa toda.

— Aceita um? — Jason esticou a mão e me deu um chiclete de menta, meu preferido.

Eu aceito e o coloco na boca. Sorrio para me mostrar agradecida. Ele pisca. E finalmente estamos em vôo, o aviso para o cinto se apaga se apaga e eu o tiro rapidamente, aquilo me agoniza demais, gosto de me sentir livre nos mínimos detalhes, por mais tolos que sejam.

— Você acha que volta... pra casa? — Jason me olhou com uma cara que se eu fosse um pouco mais coração molhe despencaria a chorar.

Eu não ia voltar, fui para lá para não voltar. Eu também sabia que ninguém ia voltar, entramos naquele avião num vôo direto para a morte, mas eu não queria nem podia o deixar tão preocupado.

— Todos nós vamos voltar.

— Eu não confio muito que vou voltar, nem meu pai acredita que eu vou voltar.

— Eu acredito em você, serve? — Ele ri.

— Não muit...

— Eu estou sempre certa, O.K.?

— Tudo bem dona da razão, todos nós vamos voltar, mas não com vida.

— Idiota. — Ambos soltamos uma risada mais abafada. — Não acredita em mim?

— Acreditar em você eu acredito, eu não acredito é em mim.

— Vai dar tudo certo. — Sorrio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.