Sempre Soube
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Nunca se viu planejando uma grande festa de casamento, mas quando percebeu já tinha virado o que virou. Festa em um salão, com jantar e pista de dança, mas a cerimônia da igreja foi, de longe, sua parte preferida.
Só existiam os dois ali. Clara e Cadu, no que parecia um só sorriso para expressar a felicidade do momento.
Dois anos tinham se passado desde aquele termino praticamente definitivo do casal, mas Clara não resistiu aos encantos do rapaz e agora estavam ali, aceitando um ao outro num altar, na frente de toda a família e amigos.
Um fantasma ainda assombrava os sonhos de Clara, mas acreditava que acordar todos os dias ao lado de Cadu apagaria o que precisava esquecer para seguir a vida que sempre quis. Mas era o que era, um fantasma. Uma realidade que morreu mas a curiosidade do “e se” não a libertava totalmente, assombrando seu eterno presente. Afastou as memorias da mente. Não podia se permitir sentir falta de um passado que parecia tão irreal.
Não parecia uma lembrança de algo que realmente aconteceu, mas sim de um sonho, aparecendo como fragmentos de uma época que nunca existiu. Ainda mais com o desaparecimento de Marina após Clara terminar por e-mail o namoro que tinham tantas esperanças.
– Estou pegando o próximo avião pro Rio. – disse Marina assim que Clara aceitou a chamada.
– Não, por favor, não pare sua vida pra tentar decidir algo já feito. – Clara respondeu no telefone.
– Clara, você não pode simplesmente fazer isso. – tentou.
– Claro que posso. – falou óbvia. – Eu só tornei concreto o que já estava acontecendo desde que você deixou o Rio, não finja que não notou.
Não tinha simplesmente notado mas também concordado, já que não fez nada para mudar a situação, Marina sabia.
– Mesmo assim... a gente pode...
– Não quero te ver, Marina.
Marina parou de jogar coisas na mala improvisada. Clara não queria a ver?
Ficou em silencio por um momento e, por incrível que pareça, não sentiu vontade de chorar. O que enchia seu peito era decepção e quase raiva da covardia de Clara.
Simplesmente desligou o telefone sem mais palavras e sentou-se na cama, olhando a cidade cheia de névoa pela janela não realmente enxergando algo.
Clara fechou os olhos quando ouviu a linha muda, o sinal de que definitivamente tinha acabado.
– Não posso. – deixou escapar, como se Marina ainda estivesse do outro lado da linha. – Não posso te ver.
Agora, aos 20 anos, havia tomado a decisão de formar uma família com o homem que amava e não se arrependia. A felicidade era quase palpável pelos convidados enquanto o casal passava de mesa em mesa para agradecer a presença e receber os bons desejos e bênçãos.
– Ah, Cadu, meu rapaz! – um homem levantou-se para abraçar o noivo da festa. – Meus parabéns e felicidades. E devo acrescentar que não será difícil tendo essa beldade como esposa. – saiu do abraço apertado e quase violento que dera em Cadu e depositou um beijo delicado na bochecha maquiada de Clara, segurando suas mãos. – Ouvi muitas coisas boas de você, Clara. Uma mulher pra casar, como dizem por ai.
– Obrigada. – Clara se encabulou, apertando gentilmente as mãos calejadas do senhor nas suas.
– Obrigada, tio. – Cadu agradeceu. – Meu pai deve ter contado da folia que fiz quando soube que o senhor vinha pro casamento.
– Claro que soube. – respondeu. – Mas pensei que era muita bajulação dele, sendo o exagerado que é.
– E o primo Fábio, veio? – Cadu riu, continuando a conversa que logo se perdeu no espaço-tempo de Clara quando o senhor soltou suas mãos.
As crianças soltas no salão passavam acenando para Clara, já que o vestido de noiva chamava-lhes a atenção.
Um dos sonhos dentro de formar uma família, para Clara, era ser mãe. Menino ou menina, não se importava. Cadu queria um menino, obviamente. Fazia planos descontraídos com Ricardo sobre levar o menino para jogar futebol e andar de bicicleta, mas sempre deixou claro que queria aproveitar um tempo do casamento antes de pensar em um filho. Clara tinha nascido para ser mãe, mas sabia que Cadu não havia nascido para ser pai.
No meio desse devaneio, seu mundo parou. Não se lembrava de como se respirava diante da imagem a sua frente.
Ela veio, foram as primeiras palavras reais que reconheceu na bagunça de sua cabeça vazia.
A próxima mesa era a de sua família, onde esperava que somente os pais e Helena estariam sentados, mas lá estava ela. Reconheceu Diogo, que conversava carismático com Ricardo, com seus cabelos já grisalhos nas têmporas e terno caro, então Marina de braço dado com Felipe.
Vestia um vestido preto liso sem mangas e longo, escondendo os sapatos de salto alto que a fazia bem mais alta que Felipe, mas a atenção de Clara estava nos lábios pintados de vermelho que saltavam na pele porcelana que lhe parecia tão familiar. O cabelo de lado deixava o pescoço longo a mostra, onde exibia um colar dourado que não duvidava ser ouro, assim como os brincos sofisticados e, como se estivesse sendo vitima de uma piada de mal gosto do inconsciente, começou a sentir seu perfume. Essas reações eram tão Marina.
O toque da mão de Cadu em seu ombro a fez despertar do transe, voltando a agradecer a família do senhor que nem recordava o nome.
Foi nítida a mudança de tom na voz de Cadu ao chegar a mesa.
– Pessoal. – cumprimentou simpático mas logo encolheu o sorriso. – Marina.
– Cadu. – Marina cumprimentou, erguendo a taça alta cheia de champanhe. – Clara.
Uma troca de olhares foi o bastante para Clara sentir o terremoto abalar seu mundo. Aquela voz que sentia tanta saudade em conjunto a aqueles olhos tão mais maduros compunham um charme único e treinado a aulas práticas.
– Pensei que não vinha. – Cadu continuou, na falta de palavras da esposa.
– Ah, tive que vir. – sorriu descontraída, ajeitando a franja. – Tive que trazer meu primo de volta são e salvo para a dona Chica ver que realmente estava inteiro.
Ela falava como se simplesmente fosse parte da família e nada mais, Clara percebeu. Mas o que queria que ela fizesse, Clara? Ficasse alfinetando sobre o passado e depois te pedir para fugir no meio da noite?
– Ei, falando assim parece que sou um descabeçado. – Felipe reclamou.
– E como foi esse tempo na Europa, Felipe? – Cadu mudou o foco para o cunhado.
– Perfeito. – definiu com um dar de ombros de quem não tem o que falar. – Já esperava que fosse lindo, mas meu Deus, que cidade é Londres. As propriedades do Diogo são... sem palavras, simplesmente.
Marina riu pelo nariz e tomou um pequeno gole da taça. Clara assistia Marina com cautela e curiosidade. Enviar o convite de seu casamento foi apenas uma formalidade já que sabia que não iria aparecer, mas aqui estava ela.
– É que você é muito impressionável. – Marina respondeu a Felipe.
Não, é você que é impressionante.
– Clara! – Diogo abriu os braços e Clara ficou feliz em ter uma distração. – Ah, Clarinha, quanto tempo.
– Diogo. – sorriu para o homem de meia idade com seus toques leves e olhares expressivos. Sempre foi muito claro que o charme de Marina foi herança do pai. – Que prazer.
– Eu sumo por um tempinho e as pessoas casam, tem filhos, mudam de vida. – riu brincalhão ao sair do abraço e olha-la nos olhos. – Como está bonita.
– Foi bem otimista com esse “tempinho”. – Ricardo riu. – Nunca aparece e quando aparece não aceita nem ficar em casa com a gente.
– Não é como se estivéssemos pagando hotel. – Marina sorriu. – Estamos em Angra, aqui pertinho.
– E você deve ser o marido. – Diogo continuou.
– Acho que não nos conhecemos. – Cadu ofereceu a mão. – Carlos Eduardo.
– Ah, Carlos Eduardo. – repetiu como se entendesse algo muito complicado, aceitando o aperto de mão. – Diogo Meirelles, pai da Marina.
– Imaginei. – sorriu educado. – São bem... parecidos.
– Opa, obrigada. – agradeceu, afastando-se para olhar a filha. – Não é todo dia que alguém me compara a alguém tão lindo. – Marina riu, balançando a cabeça. – Ok, ok, admito que sou bem coruja.
– Bota coruja nisso. – Marina comentou, soltando-se de Felipe e alcançando o ombro do pai. – Não sei como ainda não começou a falar sobre meu projeto.
– Mas estava falando disso com o Ricardo agora mesmo. – respondeu e Marina deu um tapa brincalhão no pai. – Ei, gosto de me gabar quando tenho motivos.
– Projeto? – Clara não se conteve, mas logo se arrependeu ao ganhar o olhar de Marina.
Estava surpresa, podia dizer; talvez estivesse esperando esse choque de Clara.
– A universidade me ofereceu um espaço para apresentar um projeto de Artes. – Marina disse simples.
– Não, a universidade ofereceu o espaço para minha Marina criar, produzir e apresentar o projeto de Artes da universidade. – Diogo explicou, passando um braço pela cintura fina da filha. – Que, no caso, é o mais importante, já que o maior nome dessa universidade é na área de arte.
– Não sabia que já tinha se formado na faculdade. – Chica comentou.
– Ai que tá. – Diogo voltou a faltar antes de Marina. – Nem se formou ainda! Tem dois anos de curso pela frente e a universidade já vem falando de planos.
– Eles queriam para o fim do ano que vem, por que não é permito apresentação de projetos desse porte a alunos com menos de três anos na universidade, mas estou seriamente pensando em guardar para meu ultimo ano. – Marina falou. – Fechar o curso com chave de ouro, sabe.
– Bem seu estilo mesmo. – Clara riu baixo, não evitando o tom nostálgico na voz.
– Exatamente. – Marina concordou, sorrindo. – Para todos lembrarem de mim exatamente dessa minha maneira.
– Indevassável. – Clara definiu.
– Indevassável. – Marina repetiu e as duas riram.
– Já vi que sobramos. – Diogo falou, batendo no ombro de Cadu. – Mas então, o que disse que faz da vida mesmo?
– Hm, eu não disse. — Clara leu a hesitação na voz do marido, que era empurrado por Diogo para um conversa particular.
Era quase como se Diogo estivesse afastando Cadu de propósito.
– Quer mais? – Felipe perguntou e Marina olhou para a própria taça vazia.
– Por favor. – pediu já agradecendo ao entrega-la ao rapaz.
Então elas se viram sozinhas. As pessoas passavam e conversam a volta mas agora estavam sozinhas, frente a frente, uma vestida de branco e outra de preto.
– Se quer minha opinião sincera, esta uma noite estranha pra um casório. – Marina começou, realmente sem querer forçar nada. – Está meio calor, meio chuvoso, meio ventando.
– Então foi o vento que te trouxe? – Clara perguntou.
– Não... – apoiou o queixo nos delicados dedos da mão. – Acho que foi a Lua.
– Não acredito que você veio, pra falar a verdade. – Clara riu.
– Nem eu. – deu de ombros sorrindo. – Mas não podia deixar passar. É seu casamento, poxa, e você... – procurou palavras espertas para substituir as objetivas. – foi uma pessoa muito importante.
Foi. Passado.
– Você também foi. – não conseguiu evitar alfinetar de volta.
Marina riu, abaixando o rosto mas logo voltou a olhar Clara. Colocou as mãos em seus ombros e só acariciou por um momento. Tantas vezes que havia sonhado com um reencontro e finalmente estava o vivendo no casamento de Clara com outra pessoa. Bem, até Marina admitia que Cadu não era qualquer pessoa. Ele era a vida que Clara chegou a desistir para ficar com ela, assim como Marina era a vida que Clara desistiu para ficar com ele. Ele estava longe de ser “outra pessoa”, mas nesse momento era.
Deslizou as mãos pelos braços de Clara com leveza e uma sensualidade tão pura que nem parecia sexual, fechando o aperto suave em suas mãos e as guiando para sua cintura.
Clara a sentiu envolver o pescoço enquanto abraçava o tronco a sua frente. Por mais significativo que parecesse, era apenas um abraço. Não sabia se era de boas vindas ou adeus, de felicidades ou pêsames, não importava, era o abraço de Marina e aquilo definia o momento.
Fechou os olhos e sentiu o cheiro do pescoço exposto. Marina Meirelles foi, é e sempre será o mistério mais inquieto nos pensamentos de Clara.
– Quero que seja muito feliz. – ouviu o sussurro da fotografa. – Mesmo que não seja comigo.
– Volta pra minha vida. – Clara apertou mais o corpo da outra contra o seu. – Volta a ser minha melhor amiga e confidente.
Clara não sabia o que estava pedindo. Era como se aquele perfume fosse uma droga e os efeitos lhe apagassem não somente a consciência imediata de certo e errado mas também toda a história vivida para chegar aqui.
Se Marina voltasse, tudo voltava.
– Não. – Marina negou, acenando com a cabeça. – Não, por que não sei ser só isso.
– Licença. – ouviram a voz incomodada de Cadu, que acabou conseguindo sair da teia de conversas de Diogo, fazendo-as soltar o abraço. – Temos que continuar cumprimentando o pessoal.
Marina sorriu pequeno, acariciando a mão de Clara quase como uma despedida ao solta-la completamente.
– Viu, Clarinha. – Diogo apareceu ao lado da filha. – Tava aqui oferecendo minha casa em Angra pra um almoço amanhã. Uma comemoração mais particular do casório.
– Acha, Diogo, magina que...
– Não, não, não. – o Meirelles fechou os olhos nem querendo ouvir. – Não aceito não como resposta, faz parte do meu presente de casamento que ainda não comprei. Vou buscar vocês pessoalmente.
– Louco pra dirigir um helicóptero, é o que eu digo. – Marina brincou. – Vamos, casal, dona Chica e seu Ricardo já concordaram, Felipe acostumou com a vida boa e Helena nunca viu a casa.
– Deixo você escolher o menu, chef. – Diogo apontou para Cadu.
Clara olhou para o marido e viu que nada o seduzia na proposta, mas não tinha como recusar.
– Ok, tudo bem, nós vamos. – a noiva sorriu e Diogo bateu palma.
– Pronto, viu, meu amor. – Diogo voltou-se para a filha. – Agora só falta você. Fica com a gente. Quase nunca vê seu velho.
– Você não vai ficar? – Cadu perguntou, quase imediatamente.
– Não, não posso. – Marina respondeu gentil. – Não posso parar minhas coisas em Londres por muito tempo, só tirei esse tempinho mesmo. Amanhã de manhã estou voando de volta pra casa.
Casa.
– Quando não sou eu, é ela que não pode ficar. – o Meirelles voltou a abraçar a filha. – Ter filho importante não é fácil não.
– Ficamos combinados amanhã então. – Cadu falou simpático. – Agora temos que falar oi pro resto da festa.
– Ah, sim. – Diogo concordou. – Não queremos monopolizar os astros da noite.
– Até mais. – Cadu pegou a mão de Clara, despedindo-se da mesa.
– Até amanhã, Diogo. – Clara sorriu. – Até... mais, Marina.
– Cuida dela, Cadu. – Marina sorriu.
– Fica tranquila que isso eu faço melhor que ninguém. – não se conteve e retrucou grosso, sem ao menos olhar para a mulher.
– Cadu. – Clara repreendeu baixinho enquanto se afastavam.
Nem teve chance de dar uma última olhada em Marina.
– Não acredito que ela teve a cara de pau de vir. – Cadu sorriu para o ambiente a volta como se tudo ainda estivesse perfeito, mas seu sussurro era indignado. – Quem vai vestida de preto a um casamento?
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