– Finalmente! – Vanessa comemorou. – Não acredito que estamos em casa.

Marina abriu os olhos por trás dos óculos de sol, levantando a cabeça apoiada no encosto do banco e percebendo que estavam na rua de seu prédio.

– Realmente. – Flávia concordou com um suspiro cansado. – Depois de quase dois meses inteiros longe, finalmente voltamos para nossa Nova Iorque. – deu um tapa brincalhão na coxa de Marina. – Essa temporada foi maravilhosa, não canso te elogiar. A qualidade do material que conseguimos é incrível, as exposições foram incríveis... você é incrível, Marina.

– Ah, Flavinha, obrigada. – Marina acariciou a mão da assistente ainda em sua perna. – E devo dizer que você está se saindo uma ótima assistente. Quase perfeita, na verdade.

– Por que perfeita de verdade só eu mesmo. – Vanessa ironizou e ouviu o riso debochado das duas no banco de trás.

– Mas verdade, viu. – Marina continuou para Flávia. – Desse jeito vou ser obrigada a te dar umas fotos para assinar. Infelizmente – fez voz de choro –, acho que não consigo mais evitar que você crie um nome e me abandone.

– Sério isso, Marina? – Flávia não acreditava no que estava ouvindo. – Assinar umas fotos das suas exposições?

– Sim senhorita. – Marina balançou a cabeça e Vanessa observou seu sorriso sonolento pelo retrovisor de teto. – Mas conversamos melhor sobre isso outra hora. Não quero saber de trabalho por um tempo.

– Como se você conseguisse conter essas ideias que chovem nessa sua cabecinha valiosa. – Vanessa comentou.

– E com as ideias vem a animação hiperativa. – Flávia continuou.

– Então as férias sempre acabam antes do esperado. – Vanessa finalizou quando o táxi parou. – Quanto deu? – perguntou em inglês para o motorista ao seu lado.

Marina e Flávia saíram no carro enquanto Vanessa acertava a corrida, apoiando-se uma na outra com a vontade incontrolável de se espreguiçar.

– Caralho, que dor nas costas. – Marina reclamou no meio do bocejo.

– É a idade. – Flávia provocou. – Sabe como é... trinta anos.

– Cala boca! – Marina se espantou, enchendo a amiga de tapas. – E ainda não fiz trinta, pare de me envelhecer. – finalizou baixinho.

Flávia continuou rindo da situação ao ir pegar as malas no porta-malas aberto.

Marina observou a rua movimentada e barulhenta, cheia de carros e pessoas correndo.

Haviam acabado de voltar de um tour pelos países baixos da África, colhendo material para a ideia que decidiram escolher e Marina apostava que seria seu melhor trabalho, mas tinha essa mesma sensação a cada trabalho atual que ainda não fora concluído. Após esse farto sucesso no continente africano, finalizaram a temporada na Ásia com algumas exposições de trabalhos antigos.

– Marina? – ouviu a voz de Vanessa e saiu do transe. – Tudo bem?

– Sim. – piscou duro. – Só cansada.

– Parece um pouco estranha. – Vanessa estranhou. – Será que vai ficar doente de novo?

– É quase uma lei eu ficar doente depois de uma viagem longa, então não duvido. – passou a mão na testa.

– O que tá acontecendo aqui? – Flávia apoiou a mão no ombro de Marina. – Você tá pálida.

– Pessoal, eu to bem. – falou um pouco mais alto que o normal, tentando um sorriso. – E as malas?

– O porteiro chamou os funcionários pra carregar quando percebeu que era você chegando. – explicou.

– Vamos entrar. – Vanessa falou. – Dai eu te preparo um banho e a gente abre uma garrafa de vinho.

Marina assentiu e Vanessa passou um braço por sua cintura ao caminhar para dentro do prédio.

– Bem vindas, garotas. – o porteiro sorriu. – Senti falta das reclamações dos vizinhos pela a música alta no apartamento de vocês.

– Esse é o seu jeito profissional de dizer que estava com saudade? – Marina sorriu para o senhor já de idade, que deu de ombros, brincalhão.

– Já mandei trazer sua correspondência, viu. – avisou. – Acumulou bastante e não deu pra guardar no armário.

– Ah, sim, sem problema.

– Está abatida. – comentou. – Anda comendo direito?

Marina riu pelo nariz da preocupação sincera do homem.

– Viu, eu falo. – Vanessa avisou.

– Jet lag. – Marina respondeu. – Foi um longo tempo viajando.

– Aqui. – um menino ofegante entregou o pequeno monte de cartas e umas revistas ainda plastificadas, não aprecia ter mais que dezesseis anos.

– Obrigada. – Marina agradeceu e o garoto abaixou os olhos, corando.

Vanessa riu debochada da cena mas Marina acariciou o ombro do rapaz, sorrindo simpática.

– Vamos logo antes que ele tente falar contigo. – Vanessa sussurrou e Marina riu baixo.

– Senhorita Meirelles! – o porteiro voltou a chamar quando estavam quase entrando no elevador do prédio nobre. – Aquela mulher que a senhorita me deixou avisado já está no seu apartamento.

– Ah, Helena já chegou? – perguntou retórica. – Obrigada.

– Pensei que ia chegar só de noite. – Flávia disse ao entrarem no elevador.

– Também. – Marina respondeu. – Mas não tem problema. Melhor ainda, na verdade, assim não precisamos ir busca-la.

– E sobraria pra quem? – Vanessa ironizou novamente. – Pra Vanessinha, lógico.

– Eita, que mal humor. – Marina reclamou, fugindo da amiga. – Nem vou encostar, vai que é contagioso. Chego doente mas não de mal humor.

– Depois de um sucesso desses, só você mesmo pra essas coisas. – Flávia sorriu.

A porta se abriu e elas saíram no corredor do oitavo andar.

– Tava brincando, gente. – a ruiva defendeu-se, voltando a abraçar Marina. – Como vocês são, que coisa. – Marina deu um cutucão esperto em Flávia e elas riram baixo. – E não pensem que não sei dessa conspiração de vocês duas comigo.

– Agora a gente que é filha da puta. – Marina riu. – A chave tá com quem?

– Com quem será? – Vanessa voltou com a ironia. – Com a Vanessinha, claro, a única responsável aqui.

– Para de reclamar e abre logo essa porta, mulher. – Marina balançou a cabeça.

A artista pegou duas das malas na porta e entrou finalmente sentindo-se relaxada. Aquele cheiro familiar encheu seus pulmões e ficou até um pouco mais corada.

– Leninha? – Marina chamou, deixando as malas na sala. – Cheguei, cadê tu.

– Ei, aqui. – a mulher acenou da cozinha moderna. – Onde mais estaria, afinal? Não tem comida nessa casa!

Marina riu e foi abraçar a amiga.

– Acho que nunca usamos essa cozinha. – Flávia comentou.

– Eu já, mas não vem ao caso. – Vanessa admitiu, levando as malas para os respectivos quartos.

Ela chegou a cozinhar para Marina algumas vezes e acender algumas velas para jantarem juntas, mas não queria comentar os ocorridos na frente de Flávia.

Marina e Helena demoraram a soltar o aperto.

– Dez anos. – Helena pegou o rosto de Marina nas mãos. – Olha esse rosto! Como você consegue?

– Consegue o que. – riu alto. – Você tá ótima.

– Ótima tá a dona Chica que aposentou e não pisa mais na Casa de Leilões, eu enlouquecendo lá. – zombou, passando os dedos pelos cabelos castanhos de Marina. – Meu Deus, como está linda.

A mais nova achou graça da expressão alegre e surpresa da amiga.

– E como tá o pessoal? – Marina perguntou. – A Luiza! Era um bebezinho da última vez que a vi.

– Tá lá – sorriu ao voltar a mexer a panela. –, acabando com o pai enquanto vim passar minhas férias no exterior, olha que chique. Mas eles crescem de repente, sabe.

– Tá com uns onze anos já?

– Isso. – confirmou. – Idade difícil.

– Imagino. – apoiou-se no balcão e viu o molho vermelho borbulhando em uma das panelas no fogão. – Peraí, isso é macarronada?

– Não é a da dona Chica, mas tentei. – defendeu-se. – Ela até me falou o segredo quando comentei que ia tentar cozinhar pra você, já que eu previa essa cozinha deserta.

– E qual o segredo? – Marina sorriu. – Amor?

– Exatamente. – Helena concordou. – Amor de Fernandes.

– Sinto falta desse amor.

– Não apareceu mais. – fingiu indignação. – Esqueceu da gente.

– Ah tá, claro, claro. – ironizou. – Mas sabe como é, ando tão ocupada que minhas férias nunca são muito compridas. E o tempo passa tão rápido.

– Nem me fala. – Helena desligou o fogo e virou para Marina. – E você pode ter esquecido da gente, mas o pessoal lá não te esqueceu. Minha mãe mesmo é uma coruja, viu, fala pra todo mundo que é “a segunda mãe da Marina Meirelles”. – Marina riu alto. – Ricardo leva pra casa qualquer coisinha que acha sobre você. Revista, jornal, qualquer notinha ele tá trazendo.

– Esses dois. – Marina sentiu a barriga revirar de saudade. – Liguei pro Felipe esses dias, mas ele tava tão ocupado que nem deu pra falar muito.

– Aquele lá tá sempre correndo. – Helena consolou. – Essa clínica que abriu tá indo muito bem, o que é ótimo, mas vida de médico é complica pra família.

– Consequências. – sorriu mas o olhar de Helena a fez hesitar. Já tinham comentado sobre todos, menos uma pessoa. – E a Clara?

Helena riu pelo nariz.

– Tá bem. – simplificou. – Vida gostosa de esposa e dona de casa, marido bonitão abriu um restaurante no Leblon, vai todo domingo lá pra casa da mãe almoçar, essas coisas.

– Já tem os vinte filhos que sempre quis? – brincou.

– Por incrível que pareça, não tem nenhum. – a artista espantou-se. – Fala que estão tentando, mas nada até agora. Vejo que ela tá meio desanimada, até por que maternidade depois dos trinta é outra coisa.

– Nossa... mas isso é tão estranho. – Marina franziu o nariz. – Sempre foi tão óbvio pra mim que a Clara seria mãe bem cedo.

– Eu meio que vejo o problema ali... e não é ela.

– Cadu não quer?

– Não que ele não queria ter, mas prefere não. – respondeu. – Tipo, ele adiou muito a decisão de finalmente tentar um filho com a desculpa de que precisava curtir a vida a dois antes de incluir mais uma responsabilidade. Dai acabou ficando desempregado e a Clara foi trabalhar lá comigo, então agora que eles estão tentando mesmo.

– Então é meio que agora ou nunca. – entendeu.

– Isso. – Helena concordou. – Mas dá pra ver na carinha dela, sabe, que queria ter uma criança a muito tempo.

– Deve ser bem nítido mesmo. – Marina abaixou o olhar.

Nesses dez anos não houve nenhum contato entre Clara e Marina. A artista só recebia uma noticia ou outra nos e-mails que trocava com Helena e não conseguia evitar a curiosidade em saber como ela estaria.

Imaginava o semblante bonito que assombrava os esporádicos sonhos tão reais que lhe tiravam o sono quando acordava no meio da noite. A boca fina fechada com seriedade e os olhos secos, essa era a expressão que projetava involuntariamente ao lembrar-se de Clara.

– O Cadu... é uma pessoa... curiosa. – Helena tentou, na hesitação de Marina.

– Como assim? – confundiu-se.

– Não sei por que não convivo com ele e essas coisas, mas ele tem umas mudanças de humor bem estranhas. – explicou. – Uma hora ele tá bem, rindo e brincando com todo mundo, dai, de repente, quer ir pra casa. No nada. Aliás, não quer somente ir pra casa mas que a Clara vá com ele. Sempre acaba estragando a festa dela.

– E ela não conversa sobre?

– Diz que ele é assim mesmo. – respondeu. – Mas eu nunca notei isso no namoro deles, nem noivado. Mas não me parece preocupada nem nada, então talvez esteja tudo certo mesmo.

– Ei, ei, minha vez de dar um abraço. – Flávia apareceu no corredor, cortando a conversa.

– Nossa, como você tá crescida. – Helena abraçou a mulher que só lembrava de ver menina. – Como tá sendo viver com a Marina?

– Uma aventura. – Flávia suspirou realizada.

– A aventura. – Marina corrigiu arrogante.

– Pois é, pensa só: – Flávia começou. – colega de quarto, amiga, conselheira e, ainda por cima, minha chefe.

– Falando assim parece que sofre muito. – Marina debochou.

– Não, mas sério, ela tem sido maravilhosa. – Flávia admitiu. – Quase uma irmã mais velha. E a melhor professora do mundo.

– Professora? – Helena questionou.

– Apresento-lhe minha herança para o mundo: miss Flavinha. – fez pose, a voz de apresentador.

– Era só o que faltava mesmo. – Helena riu. – Dar aula.

– Marina, teu banho tá pronto. – Vanessa chamou, entrando na sala. – Nossa que delicia de cheiro. Gente, que saudade de comida caseira.

– Ah, olha só, macarrão a lá brasileira. – Helena brincou.

– Leninha, essa é a Vanessa. – a artista apresentou.

– A famosa Vanessa. – Helena cumprimentou.

– A famosa Helena. – Vanessa sorriu de volta. – Agora vai pro seu banho, senhorita Meirelles, se não esfria.

– Vanessinha prepara o melhor banho de banheira de todos os tempos. – Marina comentou, beijando a bochecha da ruiva ao passar. – Prometo que não demoro.

Ia fazer cinco anos que estava morando em Nova Iorque, depois de se mudar para a Paris logo após terminar a faculdade e passar um tempo no Japão, mas toda vez que pensava na palavra “casa”, a imagem dos prédios londrinos apareciam em sua mente. Morou praticamente sua vida inteira em Londres mas não seria Marina Meirelles, com seu espírito inconstante e explosivo, se ficasse em um lugar só pela vida toda.

Não sabia de onde vinha essa necessidade de mudança, mas já fazia parte de si e era uma das explicações do porque conquistou tudo o que tinha atualmente.

Ela conseguiu. Marina Meirelles era um selo. Quase uma marca. Todos conheciam, respeitavam e, os que entendiam, admiravam tanto o conteúdo abstrato como a técnica e desenvolvimento.

Era verdade, Marina Meirelles não era somente uma fotografa, mas sim uma artista plástica que criava em fotografias. E uma fotografia não pode ser montada, era preciso existir; ou seja, ela fazia arte na realidade. Ela fazia as pessoas verem as cenas da realidade, realmente parando e analisarem a situação, interpretando o humanismo a sua volta. Ela não inventava nada que estava na foto, simplesmente mostrava o que aconteceu, jogando reflexões e gerando tanto explicações para questionamentos parados no tempo quanto perguntas que não tinham resposta.

O sucesso e reconhecimento não paravam de crescer com tantas propostas que surgiam na criatividade de Marina, e Flávia era um de seus projetos. Flávia era extremamente talentosa com a câmera, mas Marina não trabalharia com uma simples fotografa, então estava transformando-a numa artista completa. Era seu aprendiz e Vanessa a previa como “a próxima Marina Meirelles”.

Toda essa genialidade fez seu rosto tornar-se conhecido e aplaudido desde os alheios cidadãos até a crítica, diferente do pai, que era uma figura pública escondida atrás de telefonemas e acordos empresariais.

Elas comeram numa mesa digna de uma família de verdade e terminaram a noite no sofá, a música instrumental baixa enquanto bebiam e conversavam.

– Ah. – Helena pareceu lembrar, levantando um pouco a taça. – Sabe, veio uma moça aqui procurando por você. – apontou para a artista, que espremeu os olhos. – O senhor da portaria perguntou se eu tava esperando alguém ou algo assim e, já que não estava, não deixei subir. Não sei se fiz bem mas fiquei meio com medo. Ela dizia te conhecer e ficou sabendo que voltaria hoje.

Marina voltou da cozinha, entregando a garrafa lacrada a Vanessa.

– Uma moça? – questionou. – Falou nome?

Sentou-se de lado, perto de Helena. Pegou sua taça vazia que a amiga segurava com uma mão e ajeitou cabelo com a outra, colocando a cabeça nela ao apoiar o cotovelo nas costas do sofá.

– Lucy. – respondeu. – Ou Lauren... agora não me lembro.

– Não me recordo de ninguém com esse nome. – concluiu.

– Ah, mas eu me recordo. – Vanessa falou e Flávia riu. – Lembro de uma Lucy e duas Lauren, inclusive.

– Marina trás um povo estranho aqui pra casa e depois nem lembra o nome. – Flávia explicou para Helena.

– Não sou obrigada a lembrar o nome de todo mundo, poxa. – a Meirelles tentou se defender.

– Mas é bom lembrar o de quem você transa. – Vanessa rebateu.

– Ah, cala boca. – revirou os olhos. – Abre logo essa garrafa.

– É a nossa quarta. – Flávia avisou.

– Estamos comemorando. – Marina justificou. – A nossa volta, a visita da Leninha e o potencial do material.

– Falta mais um.

– Que?

– Quatro motivos, quatro garrafas. – Flávia explicou.

– Meu aniversário tá chegando. – deu de ombros.

– Nossa, eu não bebo assim desde... desde muito tempo. – Helena riu, já meio tonta.

– Por isso as pessoas me procuram quando querem tirar férias. – explicou.

– Não é que é verdade! – Flávia pareceu entender o sentido da vida.

– Ah lá, essa ai já empacotou. – Vanessa riu, se ajeitando no chão ao tentar abrir a garrafa que Marina havia ganhado numa cesta de Diogo. – Fraquíssima pra bebida.

– Só a Flavinha fica bêbada com vinho. – Marina riu. – Vai mais um pouco ai, Leninha?

– Meu Deus, vou ser obrigada. – não acreditou nas próprias palavras. – São os melhores que já tomei. Um tão diferente do outro.

– Ah, eu não entendo nada de vinho mas meu pai entende. – a artista falou. – Esse baú chegou antes de sairmos de viagem. Ficou aqui esperando a gente.

– Eu salivava só de pensar na nossa volta. – Vanessa admitiu e Marina riu alto.

Como Marina a hipnotizava.

O cabelo bagunçado, vestindo uma camisola curta de seda preta, aquele tom já mais bobo e ela ainda era a mulher mais linda do mundo. As maçãs do rosto coradas pelo álcool que agitava o sistema, a franja caída nos olhos e a boca sem cor. Os dedos roçaram nos de Vanessa quando aceitou a taça já cheia.

– Obrigada, Van. – agradeceu, voltando a rir de alguma bobagem que Flavinha havia dito nesse seu estado tão difícil de se ver.

– Que revistas são essas? – Helena perguntou ao ver o monte na mesa de centro, ao lado das três garrafas já vazias.

– Ah, recebi pelo correio. – Marina respondeu ao tomar um gole de vinho. – Devem ter alguma coisa comigo.

– Posso ver? – Helena voltou a perguntar.

– Claro, claro. – concordou. – Pega ai, Flavinha.

Flávia se esticou até os objetos e entregou para a Fernandes.

Rascou o plástico que protegia as quatro revistas e só olhou, por um momento.

Duas tinham uma foto miniatura no rodapé, o nome rodeado de um contexto espanhol e também o que lhe parecia alemão. Na outra uma câmera profissional ilustrava a capa com umas aspas em francês, a assinatura Meirelles logo abaixo. Mas a última foi a que lhe fez prender a respiração. Parecia uma mídia extremamente séria, a capa preta de material mais rígido tinha uns escritos em japonês e Marina estampava a frente de corpo inteiro, usando óculos e um terno estilo masculino sem gravata que caia justo e perfeito no corpo magro, com lábios vermelhos saltando mais que as noticias a volta.

– Meu Deus. – Helena não conteve. – Olha isso. – mostrou para as meninas sentadas no chão.

– Eu que tirei! – Flávia reconheceu. – Não sabia que tinha mandado essa.

– Também nem lembrava. – deu de ombros.

Helena voltou a observar a revista e não evitou que Clara que invadisse a mente.

O principal motivo de ter aceitado o convite de passar um tempo em Nova Iorque foi o fato de Marina estar se preparando para voltar ao Brasil.

Comunicavam-se por e-mail sempre quando possível e a artista havia comentado o desejo de passar algum tempo fixo no Brasil, já que nunca o chamou de casa propriamente dita, mas a novidade de que a casa onde moraria estava comprada e a passagem tinha data e hora veio com essa proposta de férias que foi muito bem aceita por Helena.

Não tinha uma posição certa sobre a volta de Marina, mas não podia proibi-la ou algo assim. Sempre foi da família, mas não tinha esse direito. E, afinal de contas, a ideia não era de todo ruim. Tê-la por perto a agradaria muito, sendo que até Marina percebia o carinho de irmã mais velha que Helena exalava ao seu redor. Até ao se tratar da mãe, sabia que Chica amaria poder manter um olho na criança que viu crescer, e hoje, já mulher, vivia as divagações que antes eram somente sonhos e vontades. O único ponto duvidoso era Clara.

Esperava que toda confusão tivesse passado após essa vida sem nenhum tipo comunicação, mas algo dentro de Helena sabia que Marina sempre desestabilizaria Clara.

Na foto Marina tinha as mangas do blazer arregaçadas, as mãos nos bolsos da calça e o queixo ligeiramente elevado, o cabelo preso em um coque onde só a franja escapava, mas aquele olhar...

Aquele olhar era exatamente o que Clara descreveu anos atrás em uma noite chorosa.

Notas finais
O capítulo ficou longo e praticamente sem Clarina, mas o próximo já é a volta da Marina. Esse foi mais explicativo para apresentar o ambiente novo, afinal, muita coisa acontece em 10 anos.