– Mas que horas Helena disse que ia chegar? – Chica perguntou novamente.

– Mãe, elas já devem estar no carro com o Ricardo, pelo amor, calma. – Felipe tentou, tomando mais um gole de suco.

– Também disse que viriam mais duas moças junto – Chica sentou em uma das cadeiras. –, mas não sei o quanto elas comem nem nada. Se ciscarem que nem a Marina, vai sobrar comida.

– Como se isso realmente fosse um problema. – Clara riu, colocando mais uma panela na mesa.

– Ah, mas é. – preocupou-se. – Já pensou esse monte de comida em casa e eu sendo obrigada a comer.

– Sempre dividi a Chica em três fases: a solteira – Juliana começou. –, a casada e a com Ricardo.

– Realmente. – Clara concordou, massageando os ombros da mãe. – Mas fica tranquila, mãe. Essa casa vive cheia de gente, todo mundo entrando e saindo, sempre vai ter alguém com fome.

Primeiro Clara esperou Helena falar que era brincadeira, depois levou um susto e então percebeu que no final das contas não era nada de mais.

Marina estava voltando para o Brasil. Agora definitivamente.

Estranhou e até perguntou o motivo, mas a resposta que recebeu parecia superficial.

Chica ficou em êxtase e não conseguiu nem se aguentar, ligando para a filha mais velha e logo pedindo para falar com Marina.

O peito da artista se encheu ao ouvir a voz de Chica. Lembrava-se da maneira como tinha a acolhido logo após perder a mãe e, inevitavelmente, a imagem materna em sua cabeça infantil passou a ser a Fernandes. Ela passou a ter uma família pelas férias, até perceber que os tinha mesmo longe. Então o telefone passou para Felipe, com quem já havia comentado vagamente sobre a possibilidade de voltar para “casa” mas ainda era tão incerto que pediu segredo. Mas a ligação acabou com os beijos de Chica, que tocaram o coração frio de amor familiar.

Podia chamar Vanessa e Flávia de família, mas lembrar dos Fernandes a fazia sentir saudade de uma época que a vida levou. Ela passou a vê-los mais do que via o próprio pai.

– Mas não tem ninguém nessa casa? – ouviram a voz da sala e o choque de Clara foi involuntário.

Isso realmente estava acontecendo.

Já não eram apenas planos. Marina tinha definitivamente chegado e para ficar.

Chica foi a primeira a levantar e sair do cômodo, correndo abraçar a menina que agora era mulher. Mas Clara ficou lá, parada.

Sentia os dedos das mãos duros e o estomago revirar. Estava com medo, percebeu; vergonha. A mais de dez anos atrás ela tinha terminado um relacionamento por e-mail e uma simples ligação foi o bastante para o esclarecimento de tudo. Trocou meia dúzia de palavras da última vez que a viu, no casamento de Clara, e o “olá” foi compartilhado no mesmo abraço que o “adeus”.

– Clara? – ouviu Juliana. – Tudo bem?

Piscou duro, voltando a ouvir o barulho que vinha da sala.

– Oi, tá, lógico. – passou a mão no rosto.

– Tá mesmo? – estranhou.

– Claro que to. – riu. – Cadê o Nando?

– Tá com o Cadu. – respondeu, ainda hesitante. – Acho que eles saíram pra tomar alguma coisa.

Estava óbvio que Clara não estava bem, o que intrigou Juliana.

Juliana morou muito tempo fora do Rio de Janeiro, não participando muito da infância das filhas de irmã, mas agora morava no mesmo prédio que toda a família.

Acabou por não propriamente conhecer a artista mas chegou a ouvir todas as histórias, já que a menina era tão querida por Chica, e acabou por saber que Clara e Marina tinham uma relação forte. “Não se desgrudavam”, como dizia Chica.

Lógico que nem lembrou de perguntar sobre Marina nesse tempo que construiu uma boa relação com Clara, ambas sendo a irmã mais nova de três, mas eventualmente percebeu que Clara nunca tocava no nome de Marina e quando o assunto surgia na mesa, ela era a mais quieta. Agora isso.

– Estranhei o Cadu não querer comer aqui. – continuou. – Geralmente ele não perde um domingo.

– Também estranhei. – mentiu.

Elas voltaram a ficar em silencio e Juliana cruzou os braços.

– Mas, vem cá. – falou. – Você não vai cumprimentar a moça, não?

– Que moça? – franziu a testa.

– Marina. – respondeu óbvia.

– Ah, verdade. – Clara sorriu amarelo, desencostando da pia. – Vou, lógico que vou.

– Então vamos. – continuou o tom desconfiado. – Finalmente vou conhecer essa menina.

A sala estava barulhenta, ainda cheia de pessoas se abraçando, mas a primeira coisa que chamou a atenção de Clara foram os cabelos ruivos de uma das meninas.

Vanessa, reconheceu imediatamente mas Marina lhe calou a mente.

Os cabelos castanhos soltos e as pernas de fora em um short curto, os óculos de aro grosso no rosto e aquele sorriso cansado na boca pálida.

– E essa meninona? – acariciou os cabelos de Luiza. – Você não lembra de mim mas eu lembro de você. Tá a cara da mãe, gente.

– Sorte dela. – Virgílio brincou.

– E cadê a cor nesse rosto? – Chica se indignou, dando um tapa na bochecha da artista.

– Lá vai ela. – Helena brincou.

– Mas tá tão magra. – voltou a comentar.

– E nunca estaria saudável o suficiente. – Marina constatou, erguendo o dedo.

– Mas eu te preparei um pastel.

– Pastel? – os olhos de Marina se arregalaram.

– E tapioca. – Felipe complementou, abraçando a cintura fina da artista.

– Meu Deus. – uma morena ao lado da ruiva comentou. – Amo tapioca. Que saudade.

– Ah, pessoal, essa aqui é a Vanessa. – Marina apresentou, apontando para a ruiva e depois para a morena. – E a Flávia. Minhas fieis escudeiras.

– Brasileiras? – Virgílio perguntou.

– Brasileiríssimas. – concordou.

– E belíssimas. – Ricardo elogiou.

– E famintas. – Vanessa completou e a sala riu.

– Vamos comer então, que já tá tudo pronto. – Chica bateu palma, pegando o braço de Flávia. – Como você é linda, meu bem.

– Porém magra demais. – Marina brincou.

– Marina. – Clara chamou.

A artista parou e olhou na direção da voz.

A mesma Clara com a mesma franja e quase com as mesmas roupas. O mesmo sorriso.

– Clara. – as duas se encontraram num abraço macio e delicado.

A Fernandes estava mais encorpada e menos morena do que Marina lembrava. Seus braços fecharam-se no quadril brasileiro enquanto sentiu os de Clara em seu pescoço.

Foi como ter quinze anos novamente, Clara respirou fundo. Marina chegando do aeroporto para ficarem três meses juntas depois de quase um ano sem se ver. Mas agora elas tinham trinta anos e fazia dez que não ouviam a voz uma da outra, sem ao menos um olhar.

Chica sorriu para a cena, nunca entendendo o porquê do afastamento das duas, e Flávia trocou um olhar esperto com Vanessa.

A ruiva tinha contado seu parecer sobre o namoro delas, dizendo que acabou no desastre responsável por Marina ter se jogado totalmente nas ambições e se tornado quem é, mas ainda não sabiam exatamente o que havia acontecido. Além, claro, das pistas que Marina soltava vez ou outra em noites bêbadas.

Clara sentiu uma mistura de hesitação e alegria, mas aquele toque a fez relaxar por que a fez perceber que não havia ressentimento. Era simples e amigável assim como todos os abraços ali.

Foi assim que Clara se sentiu: apenas mais uma ali.

– Saudades. – Marina admitiu, afastando-se.

– Também. – olhou do rosto da artista.

Tinha de admitir para si mesmo que estava linda. Não havia mudado nada, além de ter as linhas mais amadurecidas e realmente parecia mais magra e pálida.

– Essa aqui é a minha tia Juliana. – Clara apresentou. – Vocês não se conheceram mas...

– Não nos conhecemos mas nos conhecemos. – Marina sorriu. – Como vai, tia-Ju-das-fotos?

– Vou bem, Marina-Meirelles-a-artista. – abraçou Marina rapidamente. – Veio de Nova Iorque, certo? Li em uma revista que morava lá, não sei se ainda mora.

– Sim, vim de lá mesmo. – respondeu. – Mas agora não moro mais.

– E como é Nova Iorque, Leninha? – Chica perguntou.

– Ah... como descrever? – Helena pediu ajuda a Marina.

– I wanna wake up in a city that doesn’t sleep and find I’m a king of the hill, top of the heap. – Marina cantou, abrindo os braços. – Frank Sinatra explica Nova Iorque como ninguém.

– New York, New York. – Ricardo continuou cantarolando, puxando Chica para dançar. – Mas devo admitir que prefiro Chicago.

– This is my kind of town, Chicago is my kind of town. – Marina apontou para o primo.

Chica empurrou o peito do marido, arrastando todos para a cozinha.

– Ah, como eu amo essa mulher. – ele comentou.

– Love and marriage, love and marriage go together like a horse and carriage – Marina cantou de volta. –, this I tell you brother, you can’t have one without the other.

– Tá cantora hoje. – Vanessa riu, entrelaçando seus dedos com os da amiga.

– To feliz. – sorriu. — Essa família me faz muito bem.

– A sua família, não simplesmente essa família. – Virgílio corrigiu.

– Pois sentem-se todos que eu e dona Chica vamos pilotar essa cozinha. – Clara falou. – Que tapioca só é gostosa de verdade quando feita da hora.

Marina sorriu simpática para Clara, que não pode deixar de notar suas mãos dadas com Vanessa.

– Champignon e brócolis? – Clara perguntou a Marina.

– Ainda meu favorito. – admitiu culpada.

– E a de vocês será do que, garotas? – voltou a pergunta para as meninas.

– Calabresa. – Vanessa respondeu.

– Queijo. – Flávia colocou a mão do coração. – Muito queijo.

– Queijo? – Marina bateu no ombro da amiga. – Mas não é que dona Chica realmente convenceu Flavinha a engordar.

– Daqui a pouco tá comendo leite condensado puro. – Vanessa acusou. – Latas e latas.

– Não fala assim que até eu me entrego, para. – Marina sorriu para a ruiva, que corou na voz rouca.

Clara estudou aquela reação com cuidado.

– Todo mundo que vem da América chega aqui cheio de fome. – Virgílio comentou.

– Da Europa então, não queira nem ver. – Ricardo respondeu e as três meninas riram, entendendo a piada.

– E tá bom esse suco ai, meu irmão? – Marina perguntou para Felipe, esticando o próprio copo vazio. – Coloca um pouco pra mim também.

– Já começando a se aproveitar, já. – serviu para a artista. – Mas tá ótimo sim, se realmente quer saber.

Vanessa e Flávia sabiam da luta de Felipe contra o vicio. Até por que ele sempre separava um tempo do ano para passar onde quer que Marina estivesse, então não era figura estranha para elas.

– Tá bom mesmo. – Marina aprovou. – Mas espera só dona Chica saber que tá sem açúcar. Clara que fez, com certeza.

– Clara! – Chica repreendeu.

– Deixei sem açúcar pra Marina, ei. – Clara justificou. – A senhora tava ai toda louca atrás de fazer tudo perfeito, só quis ajudar.

– Faz bem pra consciência. – Helena falou, pegando pastel na bandeja. – Principalmente depois dessa gordura toda.

– E como estão as coisas, Marina? – Virgílio perguntou. – Vai tirar umas férias por aqui antes de realmente começar a trabalhar?

– Ah, não, não. – negou. – Minhas férias foram o tempo que passei com a tua mulher. To a todo vapor, muita coisa anotada pra fazer.

– É o que eu diga. – Vanessa comentou.

– E o que elas são? – Ricardo apontou para as duas meninas sentadas uma de cada lado de Marina.

– Amigas, assistentes, chame do que quiser. – Marina respondeu. – Nem eu sei direito.

– E como é ter vida de artista? – Juliana perguntou e Marina riu.

– Hm, não sei. Normal, acho. – deu de ombros, mordendo o pastel.

– Ah tá, super normal ser internacionalmente conhecida, fazer exposições gigantescas, assinar capa de revista, essas coisas. – ironizou. – As pessoas te param na rua pra tirar foto?

– Já aconteceu. – Flávia lembrou-se.

– E os convites pra festas... ah, que sonho.

– Isso tem bastante. – Felipe falou. – Não tem uma vez que eu vá lá e ela não tenha uma festa programada pra ir. Dai sou obrigado a ir junto.

– Nossa, é que realmente o amarramos e jogamos na limusine. – Vanessa zombou. – Esse ai já chega perguntando quais são os planos.

– É o último a ficar pronto e se enche de perfume. – Flávia completou. – Uma noiva.

Mas Marina ficou meio alheia a conversa ao perceber que Cadu não estava lá. Esperava que não aparecesse mas não deixou de se perguntar se Clara tinha vindo por livre e espontânea vontade.

Depois do almoço, ficaram na sala conversando e o pessoal começou a dispersar.

Helena foi a primeira a ir junto com o marido e filha, Felipe teve que voltar a clínica por que a sócia ligou para avisar de uma emergência, Juliana foi fazer a filha dormir em um dos quartos e as duas assistentes convidaram Marina para ir para casa, que recusou a pedido de Chica. Acabou que Chica foi fazer café enquanto Ricardo guardava a louça, só sobrando Marina e Clara na sala.

– Que calor, como vocês conseguem. – Marina comentou, de olhos fechados.

Estava deitada no sofá de três lugares, sentindo-se mais em casa que provavelmente se sentiria na sua própria.

– Como você consegue naquele frio. – Clara rebateu, sentada no sofá menor.

– Ah, Nova Iorque é bem quente no verão e no inverno, minha filha, realmente é muito frio. – respondeu. – Mas o outono é um amor. Delicioso.

– Você nunca foi de calor mesmo. – citou. – Nem de frio, propriamente.

– Outono. – Marina riu pelo nariz. – É até minha season preferida de Vivaldi, tamanho meu amor pelo outono.

Clara não entendia de musica ou nomes como Marina, mas se lembrava de algumas coisas que aprendeu sem querer. Foi impossível não se recordar do que ainda guardava em sua estante de musica.

Marina ainda sentia a barriga pesada do almoço, embora não conseguisse se punir por comer tanto de algo tão bom. O barulho baixo dos carros passando na rua se misturando a uns poucos pássaros cantando e o cheiro de café caseiro, feito com cuidado e carinho, impregnando o ar.

Estava tão exausta e relaxada que nem chegou a realmente perceber que estava sozinha no cômodo, conversando diretamente com Clara.

E a carioca achava graça da situação, percebendo o quanto Marina estava alheia no ambiente.

– Cadê o Cadu? – a artista perguntou.

– Comeu em casa, provavelmente. – respondeu simples. – Não quis vir.

– Nem imagino porque. – ironizou ao respirar fundo, sentindo aquele cheiro de domingo entrar em seu organismo. – Ainda não acredito que não tem filhos. Admito que até pensei que Helena tava tirando uma comigo, pra chegar aqui e te encontrar com uma criança no colo.

– A Helena não é dessas. – riu fraco. – Mas não, por enquanto não conseguimos nada.

– Vejo. – entendeu.

– E você?

– Eu o que?

– Filhos. – riu. – Não tem planos?

– Hm. – mordeu o lábio. – Se falasse que nunca pensei, estaria mentindo.

– Tá falando sério? – surpreendeu-se. – Você pensando em ter filhos?

– Uma criança só. – logo corrigiu. – E adotar, óbvio. Que fique claro que não quero nada saindo de mim. Nem sendo uma vida.

– Admito que estou chocada.

– Mas não são nem planos ainda. – esclareceu. – Uma possível possibilidade provável. Mera hipótese distante. Não chega nem a ser uma sombra. – exagerou. – Mas então, como anda a vida?

– Ah, tranquila e simples. – falou. – Do meu jeito, sabe.

– Sua casa deve ser um charminho. – devaneou.

– Te levo pra conhecer. – convidou. – Faço um almoço pra gente. Tudo bem que o cozinheiro é o Cadu mas eu também não sou um desastre completo.

– Desastre sou eu que me perco até lavando louça. – falou e Clara riu baixo. – Um dia fui dar uma de dona de casa lá no meu pai e quebrei dois dos cinco pratos que ele comprou no leilão da rainha da Espanha.

– Meu Deus! – Clara não conseguiu prender o riso.

– É, e tu ri. – riu junto. – Meu pai salvou o copo, graças a Deus. Disse que ia comprar tudo de plástico pra eu comer, tipo criança. – lembrou-se. – Falei que tudo bem desde que eu escolha a cor.

– Você e seu pai. – Clara balançou a cabeça. – Que dupla.

– Ele é foda mesmo. – sorriu. – Saudade do velho.

– Tá morando onde?

– Ainda na Suiça. – respondeu. – Não acho que vá sair de lá. Mas disse que visitaria minha casa quando mudasse, vamos ver quando.

– A sua casa deve ser um charme. – Clara repetiu o elogio.

– Que é linda, é, mas charmosa mesmo vai ficar depois do meu trato. – falou. – Primeira casa que eu moro desde que entrei no internato, acredita? Sempre preferi apartamento.

– Talvez isso queira dizer alguma coisa.

– Tipo o que?

– Teve apartamento por todos os lugares que passou, dai chega no Brasil e compra uma casa. – explicou. – Pode significar algo.

Marina pensou e viu certa lógica, mas estava muito cabeça vazia para manter um pensamento sólido. Nunca nem pensou em comprar uma casa em nenhum dos lugares que ficou, nem mesmo em Londres, mas quando pensou no Brasil era nítida a ideia de que teria uma grande casa com muito verde e piscina.

– Talvez. – concordou. – Mas também está convidada pra um almoço lá. – ofereceu. – Se quiser levar o maridão. Tem espaço pra todo mundo.

– A gente marca. – Clara garantiu e Marina sorriu.

Essa era a desculpa que mais usava quando se tratava de enrolar suas transas de uma noite. Um “a gente marca” pronunciado por um sorriso galanteador ou “volto outro dia” mentido por aqueles olhos espertos que atacavam como um felino.

– A gente marca. – repetiu.

Notas finais
Ei pessoal, bom último capítulo de Em Clarina pra vocês rs