Sempre Soube
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Clara colocou café quente no copo americano e o apoiou na frente de Cadu.
Cadu fazia o jantar, ela lavava e de manhã guardava a louça enquanto ele lia os tópicos que lhe interessavam no jornal popular. Fazia parte da rotina do casal. Assim como esse silencio.
Clara passava o pano nos pratos para secar as gotinhas que sobraram, empilhando-os enquanto ouvia o dia se formar nas ruas.
– Mais baixo, amor. – ouviu Cadu a suas costas.
– Hm? – perguntou distraída, virando para o marido.
– Mais baixo. – repetiu, sem tirar os olhos do paragrafo. – Esse barulho é irritante.
– Não estou tentando ser barulhenta. – respondeu simples.
O homem respirou fundo. Não havia perguntado se fazer barulho era sua intenção e sim pedido pra parar.
– Mais baixo, amor. – limitou-se a repetir.
Clara não tinha como pedir para a porcelana parar de ruir quando se chocar com algo. Não era como se ela conseguisse colocar o mundo no mudo.
Diminuiu a velocidade do trabalho, sendo delicada ao continuar a empilhar o jogo de louça bonita que havia sido presente de Diogo Meirelles. As peças eram todas feitas de vidro pesado e Cadu as amava tanto que usava praticamente toda noite. Tudo bem que Clara sofria para limpar as massas e molhos que recavam na superfície mas não se importava.
Fechou as portas do armário, jogando o guardanapo na cesta de roupa suja que havia deixado no meio do caminho ao ir fazer café para o marido, já que disse estar com pressa. Mas pelo jeito o bistrô podia esperar, pois estava sentado a mais de vinte minutos comendo entre as linhas das matérias que lia.
– Quer colocar mais alguma coisa? – Clara pegou a lista presa na geladeira pelo ímã.
– Que? – olhou a esposa.
– Na lista de compras. – explicou. – Quer acrescentar mais coisa?
– Vai à feira? – abaixou o jornal e sorriu.
– Sim. – concordou se aproximando. – Com a Helena. – colocou as mãos nos ombros do homem.
– Ah, ótimo. – fechou os olhos para a leve massagem. – Mas nada que me lembre.
– Vai voltar tarde? – perguntou.
– Provavelmente. Não tem como prever mas provavelmente sim. – apoiou a cabeça na esposa. – Ah, como eu queria ficar aqui o dia inteiro. Mas tenho que ir.
– Ok. – Clara continuou com as mãos nas costas do marido. – Se cuida, tá?
– E a senhora também. – pegou a chave na mesa e deu-lhe um beijo rápido de despedida. – E, faz um favor? Liga pro encanador. Explica o problema no chuveiro.
– Mas Cadu, eu que pedi pra voce fazer isso! – falou.
– Por favor. – pediu com aquele sorriso largo.
– Canalha. – empurrou seu peito e o sorriso só cresceu mais. – Tá, vai trabalhar.
– Brigadão, amor. – agradeceu já saindo. – Olha, hoje de noite eu vou fazer um pato que você nunca viu nada igual. – parou na porta. – É meu pedido de desculpa por... por aquilo lá. – jogou-lhe um beijo e bateu a porta.
Clara ficou parada até esquecer o motivo do sorriso. Vinha ganhando uns bons quilos com esses pedidos de desculpa. Espantou as memorias que prometeu esquecer e voltou a se concentrar na visão reconfortante do marido feliz.
Colocou a página de caderno rasgada no balcão e pegou o cesto de roupa, levando para a lavanderia.
Sorriu para si mesmo. Fazia aquele serviço com prazer. Não ligava pro fato de Cadu sujar uma calça jeans por dia ou encardir as meias brancas por andar no piso frio da casa.
Ouviu uma batida e sabia que era Helena.
– Já vai. – jogou as roupas na maquina e apertou o botão, correndo abrir a porta. – Entra, Leninha. Oi Luiza, meu amor.
– Que entra nada, vamo logo. – falou. – Tenho que deixar a Luiza na escola.
– Espera um pouco, então. – pediu. – Vou trocar de roupa.
– Mas por quê? – estranhou, olhando o short curto da irmã. – Tá calor mesmo.
– Cadu não gosta quando uso roupa curta. – falou mais alto para a irmã conseguir ouvi-la. – E ele tem razão, sabe. Já não tenho mais vinte anos pra ficar com as pernas de fora.
Helena entrou, balançando a cabeça.
Quando Clara começou com esses comportamentos de subordinação ao marido, Helena estranhou, tentando puxar o assunto numa conversa para entender a fase que estava passando. Ela mesmo, sendo casada a mais tempo, nunca passou por essa fase com Virgílio mas sabia que não podia generalizar todas as relações tomando a sua de exemplo.
Clara não nunca viu o estranho que Helena apontava em sua vida. Não percebia que fazia tudo que Cadu queria. Era tão natural que não conseguia ver o problema na situação. Amava seu marido, odiava brigar e gostava de agradá-lo, o que estava errado nisso?
Vestiu a simples calça jeans e encontrou Helena na cozinha.
– De quem é esse café aqui? – a mais velha perguntou.
Clara viu o café intocado que colocou para Cadu.
– Ah, de ninguém. – respondeu. – Digo, era do Cadu mas deve ter esquecido de tomar.
– Então agora é meu.
– Pode ser com o seu carro? – riu pelo nariz.
– Claro. – concordou.
– Não tava com pressa?
– Tava. – deu de ombros. – Mas agora que entrei vou ter que tomar um café.
– Quer biscoito, Lu? – Clara chamou a menina sentada do sofá.
– Quero sim, tia. – levantou e Clara apontou para os potes na bancada.
– Pode escolher.
– Mas Luiza, você acabou de escovar os dentes. – Helena reclamou.
– E senhora também, mãe. – deu de ombros.
Clara riu baixo, admirando a relação mãe e filha das duas.
Não era novidade para ninguém que Clara já queria ter uma criança a muito tempo. Imaginava-se com uma criaturinha dentro de casa exatamente como via Luiza na casa da irmã, brincando com os amigos e tirando cochilos no sofá.
– Vamos? – Helena terminou o café e roubou um biscoito da mão da filha.
As três andavam pelo prédio conversando com Luiza sobre quais seriam suas aulas e se estava sendo mais fácil ter um professor para cada matéria.
Luiza era tão Helena, Clara percebia. Articulada e simpática, mas também acanhada quando estava desconfortável. Claro que apontar uma criança de onze anos como bem resolvida não fazia sentido, mas também chegava a sentir isso da irmã na sobrinha.
As compras foram como de costume, as conversas costuradas entre as perguntas para os vendedores com o sol suave da manhã que ainda não chegava a incomodar no clima quente gostoso de respirar. Cumprimentou alguns conhecidos e logo colocaram as sacolas no carro.
– Ai. – a mais velha reclamou de dor nas costas. – Quer que te deixe em casa?
– Vai passar em mais algum lugar? – perguntou.
– É, então, acho que vou sim. – ligou o carro. – Fiquei de ir fazer uma visita pra Marina.
– Ah. – Clara assentiu.
Agora que parou para contar, percebeu que havia passado quase dois meses inteiros desde a última vez que se falaram. Não chegou a vê-la nenhuma vez após seu almoço de boas vindas no apartamento da mãe.
Já havia passado seu aniversário, Clara lembrou-se.
– Da última vez que esteve em casa pediu pra ir lá ver umas fotografias que esta selecionando. – explicava enquanto prestava atenção nas manobras. – Não avisei que ia mas ela também vive aparecendo do nada.
– Nossa. – Clara disfarçou a duvida. — Vocês... se veem muito?
– Ah, bastantinho até. – fez pouco caso. – Nada do tipo hora marcada nem nada, mas vez ou outra ela aparece pra me dar um oi lá na Casa de Leilões.
– E você? – olhou pela janela. – Já foi na casa dela?
– Já. – disse óbvia. – O Virgílio ama lá. Vivo indo buscar ele e a Luiza.
– Ah é?
– É. – Helena riu. – Luiza é apaixonada por aquela piscina. Nem quer saber mais de praia, pra você ter noção. – parou no sinal vermelho. – E o Virgílio você conhece, né. Os dois começam a conversar e não param mais. Aqueles papos meio confusos, sabe, cheios de nomes. Mas parecem adorar.
– E a mãe?
– A mãe gosta de ficar sentada nas espreguiçadeiras. – sorriu. – Parece uma madame quando coloca os óculos de sol, você precisa ver.
Clara riu pelo nariz com a cena mas logo o sorriso caiu.
– Ah, melhor me deixar em casa. – concluiu simples.
– Por quê?
– Ah, Helena. – Clara ergueu os ombros. – Eu meio que não fui convidada. – riu tentando acobertar um certo desconforto.
– Ah, pelo amor de Deus, Clara. – Helena continuou dirigindo. – Conta outra, vai.
– Mas é verdade. – indignou-se. – Eu nem sabia que vocês tinham visto a casa dela! Falando a verdade, cheguei até esquecer que ela mudou pra cá! Não recebi nenhum tipo de convite. Nem vocês mesmo me chamaram! – Helena respirou fundo. – Fica super chato eu aparecer lá como intrusa.
– Você não conhece mesmo a Marina. – riu pelo nariz e Clara sentiu o peito apertar.
Quem a irmã pensava que era para dizer isso a ela? Ela era a pessoa que mais conhecia Marina nessa vida. Enquanto era a melhor amiga de Marina desde seus primeiros fleches de memoria, Helena era somente a “irmã mais velha de Clara”, aquela que riam pelas costas quando chegava a brigar com elas por algum motivo crescido demais para duas crianças entenderem.
Clara riu irônica e Helena estreitou os olhos para a estrada, estudando a irmã.
– Clara? – chamou.
– Hm. – respondeu e Helena não conteve o sorriso cômico que foi se transformando em uma risada de verdade.
– Você tá com ciúme?
– Ah, para com isso, Helena. – Clara defendeu-se, ainda mais irritada. – Até parece, pelo amor.
Helena riu alto e Clara fechou os olhos para não agir como uma criança.
– Não é ciúmes. – sentiu a necessidade de se explicar e Helena tentou controlar outra onda de riso de lhe invadiu. – É... sei lá, raiva. Raiva dela. – tentou.
– Raiva de mim. – Helena completou.
– Sim. – concordou. – E muita, nesse momento.
Riu fraco junto com a gargalhada de Helena, batendo na coxa da irmã.
– Vamos lá. – Helena continuou sorrindo. – Vou te levar lá.
Clara ficou quieta. Queria ir, sabia, mas queria ser convidada. Queria receber um telefonema de Marina marcando uma hora para elas se encontrarem e Clara finalmente conhecer a casa que todos pareciam ter um canto preferido.
Por todo esse tempo, Clara pensou que ela não a ligaria simplesmente por que não ligaria para ninguém. Foi como se Marina ainda nem morasse no Brasil, mas o fato era que morava e Clara foi a única de realidade não afetada por sua presença. Isso explicava os sumiços da mãe, a falta da gritaria de Luiza no apartamento de Helena e os domingos que Felipe não aparecia para almoçar com a família.
– Vocês não se falaram mais, né? – Helena perguntou, mas ela já parecia bem ciente da situação.
Clara balançou a cabeça negativamente.
Talvez Marina já tivesse conversado com Helena sobre isso, já que eram tão próximas assim. Ou talvez Clara fosse um detalhe tão pequeno que Marina tenha até esquecido de sua existência, quem dirá comentar com alguém.
A reação de Marina ao ver Clara ali seria um mistério, assim como tudo que a envolvia. Ela pode lhe dar um meio sorriso e continuar a conversa com Helena ou um abraço e começar uma conversa, mas Clara sabia muito bem que seus assuntos eram zero. Não se conheciam mais, admitiu para si mesmo.
Desceram do carro e tocaram a campainha da casa de muro alto. O bairro era lindo, cheio de história e cultura, era óbvio que aquilo era exatamente o estilo da artista.
A voz de uma das meninas soou no interfone e logo o portão individual foi destrancado.
– Que surpresa. – reconheceu a voz de Flávia.
E realmente era lindo.
O quintal era grande e verde quase escocês, um jardim com uma fonte desligada ao lado da garagem coberta e finalmente a casa.
Flávia estava na porta com olhos pequenos pela claridade, vestida numa camisola.
– Acordamos vocês? – Helena perguntou, enquanto andava pelo caminho de pedras.
– Não. – respondeu. – Só nos pegou de pijama mesmo.
Flávia beijou a bochecha de Helena e então de Clara, que ainda estava maravilhada com o lugar.
– Acho que você lembra da minha irmã. – Helena apresentou.
– Clara. – a fotografa citou. – Terreno bonito, né?
– Demais. – Clara respondeu.
– Por que voce não viu lá no fundo. – Flávia falou. – Entra, gente. Marina não avisou que você vinha.
– Ah, é por que não avisei mesmo. – a Fernandes mais velha respondeu. – Resolvi aparecer.
– Olha só. – riu, fechando a porta. – Pode aparecer sempre, aqui não tem essa de convite especial.
– Conheço bem a figura. – Helena sorriu.
A casa tinha muitos móveis e a decoração era característica de quem já viajou o mundo, cheia de lembranças que divertiam o ambiente e o fazia colorido mas sem perder o moderno da madeira escura.
– Ela com certeza está dormindo. – Flávia continuou. – A vi saindo ontem de noite e quando fui dormir ainda não tinha chegado.
– Vanessa foi junto?
– Não. – negou. – Foi sozinha mesmo. Nem sei pra onde, não costumo perguntar.
– Se tão falando da Marina, ela ainda não chegou. – Vanessa entrou na sala, o cabelo despenteado e uma xicara na mão. – Bom dia, família.
Assim como tinha certeza que aquela era Vanessa logo no primeiro momento, a ruiva também reconheceu Clara sem precisar de maiores explicações e não era uma fã. Lembrava-se de uma foto que Marina deixava escondida na mala, ainda nos tempos de colégio e nunca realmente prestou atenção na menina morena já que seus olhos sempre estavam ocupados demais com Marina. E também se recordava do ódio bruto que sentia dessa tal garota. Em sua cabeça de adolescente, ela era a culpada de tudo ter dado errado, mas percebeu que se havia uma culpada na história, esse alguém era Marina. Mas como precisava liberar essa frustração reprimida e nunca conseguiria descontá-la na verdadeira culpada, acabou se tornando uma mulher com fama de amargurada. E não se importava, desde que as pessoas importantes conhecessem a verdade.
– Como assim não chegou? Te ligou pra avisar alguma coisa? – Flávia estranhou. – Ela geralmente liga pra gente.
– Não, ela não liga pra gente. – Vanessa corrigiu. – Ela liga pra você. Por que sabe o que eu penso dessas palhaçadas de virar a noite sozinha.
– Tá, o fato é que não ligou. – revirou os olhos. – Tentou falar com ela?
– Tentei e dá caixa postal – tomou um gole do chá na caneca. –, mas achei uns cartões de hotel na gaveta dela e liguei pra todos.
– E achou? – Helena perguntou.
– Achei, lógico. – falou óbvia. – Você acha que estaria tranquila assim se não tivesse? – tomou outro gole. – Eles disseram que tinha saído acabado de sair. – Vanessa cruzou o olhar com Clara, que tentou um sorriso mas achou impossível jogar alguma simpatia naquele rosto tão negativo. – E você? É muda?
– Ei, nossa, que isso? – a porta se abriu, revelando Marina com a maquiagem levemente borrada e carregando o sapato de salto nas mãos. – Clube dos sem-Marina?
Um curto vestido azul escuro de camurça lhe abraçava o corpo magro, as mangas compridas arregaçadas.
– Palhaçada. – Vanessa falou simples, conseguindo a atenção total da artista. – Obrigada por ligar.
– Acabou a bateria da porra do celular. – respondeu grossa.
Flávia abaixou a cabeça para as mãos.
– O hotel tem telefone, só pra você saber.
– Ah, Vanessa, não enche. – fechou a porta. – To viva, não to?
– Não enche. – Vanessa repetiu, irônica. – Depois a gente conversa certinho.
– Não me trate como uma menina de dezesseis anos, Vanessa.
– Mas é você que pede isso. – descontrolou-se.
– Chega! – Flávia falou mais alto. – Marina, sobe pro quarto, por favor. E você – apontou para Vanessa. – fica aqui comigo.
A ruiva segurou a xicara com ainda mais força e sentou-se no sofá, ligando a televisão.
Marina finalmente se concentrou na visita que percebeu ter. Estava quase acostumada a ter Helena por perto, mas falhou um passo ao ver a companhia.
– Clara. – cumprimentou. – Que surpresa.
– A noite toda fora, moça? – Helena cruzou os braços, tirando seus olhos de Clara.
– Vamos subir. – sorriu fraco. – Tive que sair meio correndo e não tive tempo de tomar banho no hotel.
Abriu caminho entre as duas irmãs e Helena não hesitou em seguir, fazendo Clara acompanhá-la.
No corredor havia quadros e fotografias penduradas no papel de parede, com uma mascara de aparecia pesada suspensa na parede final, cheia de fitas pretas e brancas que davam ao ferro uma perspectiva sombria. Marina entrou na última porta.
O quarto tinha grandes cortinas que cobriam uma parede inteira mas o que mais lhe chamou atenção foi a pintura a óleo de mais de um metro.
Jogou a bolsa na cama de casal e correu ligar a água da banheira.
Clara entrou olhando os cantos, assim como tinha feito na casa toda.
– Concentrada. – Helena riu da irmã.
– Que? – Marina apareceu na porta do banheiro. – Falou alguma coisa?
– Nada. – abanou as mãos. – Mas então quer dizer que eu venho planejando aparecer do nada e acaba que você me faz uma visita surpresa na tua própria casa, é isso mesmo?
Marina riu, passando as mãos no cabelo.
– Sai ontem e não vi o tempo passar. – contou. – Como prometi pras meninas que não traria mais pessoas desconhecidas aqui, fiquei num hotel. – os olhos de gato pousaram em Clara. – E você. Adorei a visita.
Por um momento Clara desejou que estivesse sozinha com Marina. Sentia que ficaria muito mais confortável se Helena não estivesse presente, assim como naquele dia que conversaram sem problema algum na sala de Chica.
– Tem que visitar, né. – Clara falou, tendo esquecer a presença da irmã para soar natural. – Já que você não visita.
– Mas eu vivo na tua mãe. – justificou.
– Mas não to falando de visitar minha mãe e sim se me visitar. – respondeu e Marina levantou os braços em rendição.
– Qualquer dia eu passo. – sorriu e Helena desviou o olhar.
Conhecia esse jogo.
– A gente te espera tomar banho. – Helena foi até a cama mas Marina a interrompeu.
– Não, que isso, entrem aqui comigo. – chamou, desencostando da porta. – Assim a gente conversa. Enchi a banheira pra isso.
Clara olhou Helena quando Marina sumiu.
– Ela tá brincando, né? – sussurrou.
– Você acha que ela tá brincando? – sussurrou de volta, já indo em direção a porta.
Parecia-lhe errado ver sua ex-namorada tomar banho mas analisou o estado de paz que estava consigo mesmo e percebeu que não é como se estivesse traindo Cadu simplesmente por achar uma mulher bonita, nem física nem emocionalmente. Dez anos tinham sido mais que suficiente para Clara superar aquele amor de uma maneira que mesmo ele estando aqui, despindo-se a sua frente, ainda parecia impossível.
– Me ajuda aqui? – pediu para ninguém em particular, tirando o cabelo das costas e revelando o zíper meio aberto.
Helena pisou na frente de Clara e puxou o vestido aberto.
– Nossa, suas costas tá cheia de risco vermelho. – a mais velha passou os dedos na pele da artista, que sentiu uma leve ardência. – Onde a senhorita foi?
– Num bar com um colega. – respondeu, tirando as mangas dos braços. – Dai aconteceu que ele conheceu alguém, eu conheci alguém e acabamos nos separando.
Clara sentou na mureta de frente para a banheira cheia de espuma, observando o ambiente bem iluminado. Quando seus olhos voltaram em Marina, a artista deixou o vestido cair e o chutou para um canto qualquer, sem realmente se preocupar com os movimentos.
– Cacete, esqueci o sutiã no hotel. – percebeu, lembrando-se exatamente onde tinha o visto pela última vez. – Droga, gostava tanto daquele.
– Acha que tem a chance da menina te procurar pra entregar? – Helena questionou, sabendo dos hábitos da artista.
– Acho que não. – começou a fazer uma trança lateral. – Não pareceu me reconhecer e não dei sobrenome.
– Nunca pensou em criar um nome falso? – Helena sentou ao lado de Clara e Marina encarou as duas irmãs.
– Já, já. – respondeu. – Até já fiz isso num tempo atrás, mas ah... é foda a menina gemer outro nome na cama contigo, sabe. Além de ser chato pra caralho, me desconcentra.
Helena riu e Marina tirou a calcinha, entrando na água morna. Se Vanessa não estivesse tão desagradável, a pediria para preparar seu banho.
– Mas então – continuou após de se ajeitar na banheira, focando Clara. –, qual o proposito da visita?
Clara confundiu-se, não tendo certeza se a pergunta foi feita diretamente a ela ou para as duas. Pegou o ar para responder mas Helena quebrou o vazio, arrancando um sorriso pequeno mas cômico de Marina.
Percebeu a hesitação em Clara, por mais que não lhe importasse se realmente existia ou não. Tinham mantido uma conversa com tanta naturalidade após esses dez anos e agora parecia simplesmente deixar Helena falar por ela.
– Disse que tinha umas fotos selecionadas pra mostrar.
– Ah, verdade. – balançou a cabeça.
– Pra eu aparecer quando tivesse tempo. – completou
– Ontem mesmo revelei as que já escolhi. – falou. – Teria que separar setenta, mas acho que vou fechar com as cinquenta melhores.
– Ah, e eu passei o telefone daquele Galpão Cultural pra Vanessa, viu. – avisou.
– Então, sabe o que eu acabei descobrindo? – perguntou retórica. – Que o dono desse Galpão é conhecido meu. Foi com ele que sai ontem, inclusive.
– Ele é nosso primo. – revelou.
– Mas caramba! – bateu da água. – Tem alguém no Rio que não seja parente de vocês?
– Então já fechou o lugar? – riu, continuando a conversa.
– Não, ainda não. – respondeu. – Ele me falou mas não quis discutir trabalho, dai disse que ligaria depois.
– Ah, mas com certeza libera.
– Ele disse que o espaço já é meu. – riu.
– Tá planejando uma exposição? – Clara perguntou e Marina hesitou um pouco em responder, surpresa pela mulher finalmente falar algo.
– Sim, minha primeira no Brasil em uns cinco ou seis anos. – falou. – Vai ver as fotos depois.
– Sobre o que?
– Cultura, basicamente. Fui colher material na África. – respondeu. – Mas sem aquela babaquice de pobreza versus riqueza que todo mundo já sabe.
– Marina Meirelles não tem espaço pra clichê. – Clara riu baixo e Marina parou.
– O Rio tem paisagens tão lindas... – Clara sugeriu quando Marina trancou a porta do quarto.
– Paisagem não é comigo. – cortou.
– Mas por quê? Todo mundo gosta de ver uma boa foto do Pão de Açúcar, por exemplo.
– Por que não dá pra criar numa paisagem, Clarinha. – falou tirando o short e sentando na cama. – Ela tá lá e pronto. Além do mais, se alguém quiser ver o Pão de Açúcar, qualquer agencia de viagens pode te apresentar uma foto legal.
Clara olhou Marina, respirando fundo. Tinha medo. Conhecia sua capacidade e acreditava que poderia conseguir alcançar seus sonhos, mas eles eram altos demais e a queda seria muito feia no caso de um escorregão.
– Marina, você sabe que... que talvez seus planos não deem certo. – tentou e Marina revirou os olhos, já começando a deitar. – Não, Marina, é sério, olha aqui. – levantou-se da escrivaninha e sentou no colo da namorada. – Sei que vai lutar com toda força e garra pra realizar seus sonhos – acariciava sua nuca. –, mas...
Marina colocou sua boca na de Clara, interrompendo a parte desinteressante com um beijo simples e demorado.
– Eu vou conseguir. – sussurrou, assistindo Clara ainda de olhos fechados a sua frente. – Sabe por quê? – beijou a ponta do nariz da carioca, que sorriu. – Por que no nome de Marina Meirelles não tem espaço pra clichê.
Clara riu, sentindo as mãos de Marina em seu quadril.
– Só o clichê do “melhor amigo” que vira “namorado”. – Clara apontou.
– Hm... ok, pra esse eu tenho espaço. – sorriu. – Agora vai me deixar dormir?
– Porque sempre dorme cedo aqui? – saiu de cima da namorada, ajeitando-se debaixo do lençol.
– Sei lá. – deu de ombros. – Tenho mais paz. – assistiu o sorriso nos lábios da carioca. – Mas sabe o que me daria ainda mais paz? Uma banheira. Vou comprar uma banheira, pode avisar tua mãe.
– E eu ainda to te devendo aquela banheira. – Marina lembrou e Clara sabia exatamente do que estavam falando.
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