Sempre Soube
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“Marina Meirelles volta ao Brasil com promessas”, dizia a nota; “Voltando de uma temporada corridíssima em Nova Iorque, a nossa artista admite que precisa pensar um pouco para falar a língua natal”.
Depois de todo esse tempo tremendo só de pensar no nome da ex-namorada, aqueles olhos acalmaram seu nervosismo enquanto esperava seu nome ser chamado. Eram exatamente os olhos de anos atrás: espertos mas elegantes, confiantes e curiosos. Faziam qualquer um querer conhece-la.
Queria entender porque tinha a leve sensação de que estava fazendo algo errado ao guardar a revista na bolsa. Não é como se tivesse roubado ou gasto seu dinheiro para comprar, simplesmente viu na estante e pediu para a recepcionista se podia levar.
Claro que a ansiedade a atacou novamente quando Silvia pegou os papeis do exame de sangue. Mas a revista em sua bolsa foi a última coisa em sua cabeça depois do sorriso que a cunhada lhe ofereceu. Não precisava falar mais nada.
Clara sentiu os olhos encherem de lágrimas e abraçou a amiga com toda felicidade que explodia do peito.
– O Felipe tá ai? – perguntou secando os olhos. – Já quero sair contando pra todo mundo.
– Não, já foi. – Silvia respondeu, acariciando as costas da cunhada. – Meus parabéns, Clara. Não faz ideia do quanto estou feliz. – continuou. – Ainda mais sabendo desse seu desejo incondicional.
Clara agradeceu já não controlando as lágrimas novamente.
Saiu radiante do consultório, voando para a casa da mãe. Ela precisava ser a primeira.
Tudo parecia mais bonito, desde o azul do céu ligeiramente nublado até a luz dos semáforos que regravam o ritmo caótico do transito da cidade grande.
Imaginou a reação da mãe. Então a de Helena. E a de Cadu.
Ficou em dúvida se ligava ou simplesmente o esperasse chegar em casa, mas esqueceu-se de tudo ao estacionar no prédio da família.
– Mãe. – Clara chamou ao bater na porta, já entrando.
– Ei, Clara. – viu Felipe sentado na ponta do sofá com os pés de Marina no colo. – A mãe acabou de colocar o pão no forno.
Marina deu um sorriso na direção de Clara e um flash da revista escondida piscou em sua mente. Estava deitada do sofá segurando uma xícara enquanto Felipe massageava seus pés.
– Clara. – cumprimentou. – Vem tomar café. – chamou. – Tá com dor nos pés? Se quiser posso emprestar meu escravo.
– Ei. – Felipe beliscou o tornozelo da amiga.
– Ah. – reclamou encolhendo os pés, rindo da própria piada. – Ficou ofendido.
Clara riu pelo nariz, jogando a bolsa em uma das poltronas.
– Então vamos brindar com café. – falou, pegando um dos copos do lado da garrafa térmica na mesa de centro.
– Brindar? – Felipe estranhou e Marina franziu a testa também confusa.
– Cadê a dona Chica? – sorriu ignorando o irmão.
– Eu to aqui. – Chica apareceu ajeitando a aliança no dedo. – O pão vai demorar um pouquinho mas vai valer a pena. – avisou. – Eu experimentei fazer um com uma farinha integral que o padeiro me indicou. – apontou para Marina. – Pra nós duas.
– Santa Chica! – a artista comemorou, jogando as mãos para o alto. – Arrumei uma parceira pra dieta, gente.
– Tem que se cuidar, né. – Chica riu. – Ficar bonita pro maridão.
– Mas fala ai, Clara. – Felipe continuou. – Agora que a mãe chegou, o que temos a brindar?
Clara abriu o maior sorriso que Marina já presenciou na vida e sua boca abriu em choque. Afastou o desejo de ter uma câmera nas mãos para registrar e percebeu que só uma coisa faria Clara se iluminar desse jeito.
– Você tá grávida. – Chica leu seus pensamentos.
– To. – Clara afirmou.
A mera monossílaba foi o bastante para Marina saltar do sofá e se atirar em Clara.
Clara sentiu seu chão afundar e demorou alguns segundos para finalmente entender o que aconteceu. Sua inocente respiração foi tomada por aquele cheiro e fechou os olhos com força, colocando os braços ao redor de Marina. Mergulhou o rosto no pescoço da artista e segurou um soluço, permitindo-se sentir aquele toque. Era apertado mas gentil... cheio de saudade.
Chica escondeu o sorriso com a mão ao ver a cena. Não sabia o exato motivo do afastamento das duas, que eram tão inseparáveis, mas agora não tinha como não lembrar das duas meninas aos quinze anos, se jogando uma contra a outra no primeiro abraço após quase um ano separadas. E era exatamente assim que Clara se sentiu: finalmente abraçando sua melhor amiga pela primeira vez. Sua Marina.
– Finalmente. – ouviu Marina. – Finalmente você conseguiu.
– Finalmente. – repetiu, apertando ainda mais a mulher contra si para então soltá-la.
Seus olhos se encontraram e Marina sorria grande e sincero que quando percebeu já estava hipnotizada por aquela energia.
Marina olhou por cima do ombro quando sentiu a mão de Chica e lembrou-se que não estava sozinha. Deu um passo para o lado e Clara secou as lágrimas que não chegaram a ser derramadas, caindo no carinho da mãe.
– Como estou feliz, Clara. – Chica falou. – Parabéns, você sabe que todo mundo torcia muito. – Clara assentiu. – Minha caçulinha vai ter um neném. – reafirmou para si mesmo, fazendo a filha rir.
– Parabéns, irmã. – Felipe envolveu as duas num abraço. – Sabia que uma hora ia dar certo. Não tinha como não dar.
– Já contou pro Cadu? – Chica perguntou quando os três finalmente se soltaram, secando o rosto.
– Ainda não. – respondeu. – Vou fazer uma surpresa hoje de noite. – seu olhar encontrou o de Marina, que ainda sorria. – Falou sério quando disse que vivia por aqui.
– Se não apareço por conta própria, acabo recebendo uns telefonemas meio chateados de um certo alguém. – explicou.
– Ah, ligo mesmo. – Chica se denunciou. – Quero meus queridos perto de mim, não quero nem saber.
– Então apareço pra tomar café de vez em quando. – Marina deu de ombros.
Clara riu, abraçando a artista de lado.
– Se você já não tivesse cheia de bolo e café, te convidaria pra dar uma passada lá em casa. – falou. – Tomar um chá.
– Iria adorar, de verdade – surpreendeu-se com a atitude da carioca mas foi sincera. –,mas, infelizmente, passei aqui meio rápido. Tenho que ir estudar o ambiente do Galpão Cultural.
– Fechou o espaço? – sentiu a amiga soltar um pouco o peso contra seu corpo.
– Fechei. – respondeu. – Flavinha já deve estar lá, me esperando. – parou e olhou Clara por um momento. – Que vir comigo?
Felipe congelou o copo no meio do caminho até a boca, observando a interação a sua frente. Marina tinha mesmo feito um convite a Clara?
– Pode ser. – respondeu. – Você tá de carro?
– To sim, vamos comigo. – falou, saindo do toque da morena e pegando a bolsa ao lado de Felipe. – Depois te trago aqui.
– E vem experimentar o pão. – Chica lembrou. – Não esquece.
– Não esquecerei. – cantarolou. – Vamos, senhorita Fernandes?
– Vamos, senhorita Meirelles. – sorriu apoiando uma mão em seu ombro da artista descoberto pela blusa que larga.
Marina não sabia exatamente o que estava fazendo mas continuou segura por ainda se sentir no controle da situação. A primeira coisa que fez quando começou a levar mais a sério a possibilidade de voltar ao Brasil foi prometer a si mesmo simplesmente ficar longe de Clara, para o bem de ambas, mas o momento de intimidade a fragilizou sem realmente perceber. Voltar a ser sua amiga não estava nos planos, por mais que existisse a curiosidade de conhecer essa Clara, mas não se desesperaria pelo singelo impulso de oferecer um passeio. Isso não queria dizer nada, afinal.
– Grávida. – comentou ao ligar o carro. – Sei que é cedo, mas já pensou em nomes?
– Ah, se for menina eu gostaria de Catarina ou Bianca – respondeu. –, mas o Cadu comentou quer Vitória.
– E se for menino? – colocou os olhos de sol redondos.
– Já concordamos em Ivan, se for menino. – contou. – Tem um significado ligado a Deus e amor.
– Ivan. – Marina falou com atitude. – Iván. – repetiu com um sotaque russo, lembrando-se de um imperador que já leu sobre. – Ivan, o Terrível.
Clara riu.
– Que isso?
– É um nome russo. – explicou, rindo junto com a dona de casa.
– Como sabe essas coisas? – apoiou o queixo na mão, observando o perfil bonito da artista.
– Lembro de muitos Ivans na Rússia.
– Então já foi pra lá. – falou retórica.
– Algumas vezes. – deu de ombros. – Foi lá que acabei expondo na mesma galeria que teu primo Laerte, inclusive. O recital dele e da Verônica era a abertura da noite.
– E lá é bonito?
– Bastante, mas um bonito meio sombrio. – tentou explicar. – Provavelmente é pela história, sabe. E um frio, nossa, até no calor é frio.
De repente o rádio cuspiu um CD e as duas se encararam confusas, rindo quando a voz de um locutor encheu o ambiente.
– Não entendi. – Marina estranhou, abaixando o volume para quase zero. – Guarda esse CD no porta-luvas, fazendo favor. – pediu. – Devem ser as musicas das Vanessa. Só ela pra ainda usar CD.
Clara continuou rindo pelo nariz ao pegar o CD com cuidado, abrindo a gaveta a sua frente. Sentiu que uma folha caiu nos pés mas colocou o objeto no estojo antes de se abaixar e pegar a foto.
Marina olhou de relance para Clara entretida na fotografia.
– Japão. – explicou. – Pedi pra Flavinha mandar fazer uma moldura e deve ter esquecido no carro.
Clara continuou observando a foto de Marina. Tinha um sorriso engraçado enquanto Vanessa beijava uma de suas bochechas e Flávia a outra, uma mascara higiênica pendurada em seu pescoço e uma rua crepuscular movimentava como cenário.
– Parece mais interessante que a Rússia. – comentou.
– Ah, e é. – concordou. – Moramos em Tóquio por um tempo e Ginza era nosso lugar preferido para matar o tempo. Cheia de boutiques, lojas e restaurantes. – suspirou. – É um lugar que eu definitivamente moraria de novo. Não pra sempre, mas por um bom tempo. – divagou. – Quando mudei pra Nova Iorque não senti tanta falta por que até que é bem parecida com Tóquio, mas o Rio definitivamente é muito diferente de qualquer outra parte do mundo.
– Por que é único. – Clara finalmente levantou os olhos da imagem.
– É. – afirmou, parando o carro para o manobrista. – Todo lugar é único pra mim – abaixou a voz e a carioca sentiu a inconsciente sedução da artista bater a sua porta. –, mas o Rio realmente é... algo a mais. – piscou ao tirar os óculos, soltando um riso simpático ao desprender o cinto de segurança. – Vamos?
– Vamos. – esperou Marina sair do carro para finalmente responder.
Flávia esperava a chefe com uma câmera digital em mãos e um sorriso cansado.
Quando aceitou o convite de Marina, esqueceu de considerar o fato de que estava ali a trabalho e não para simplesmente passar o tempo. Pensou em ir até o bistrô beijar o marido mas a primeira coisa que Verônica comentou quando a viu foi que Cadu havia saído, estranhando sua presença ao lado da artista.
Seu dia foi resumido em observar Marina trabalhar.
Ofereceu-se para segurar sua bolsa e foi a última vez que a artista realmente a olhou dentro daquele tempo.
Se perdeu nos primeiros dois parágrafos ditados para a fotografa, percebendo a seriedade com que Marina dirigia seu trabalho e o quanto Flávia se esforçava para seguir sua linha de pensamento sem fazer mais perguntas que o necessário. As duas discutiam possibilidades, com a artista instruindo os ângulos para a assistente tirar a fotos que usariam para aprimorar as ideias que enfeitariam a ordem do ambiente já planejado.
E Clara ficou ali ao seu lado, tentando silenciosamente enxergar tudo o que falava e não ficar no caminho de alguém.
– Tudo bem por aqui? – sentiu a mão de Verônica no ombro.
– Acho que sim. – Clara respondeu. – Pergunte pra chefe. – apontou para a morena totalmente imersa no trabalho.
– Não sabia que se conheciam. – admitiu. – Que mundo pequeno, não?
– Demais. – riu, cruzando os braços. – Somos... amigas de longa data.
– Que engraçado ela nunca ter comentado sobre nenhuma Clara.
Clara hesitou.
– Ah, ela não sabia que o Laerte era meu primo. – deu de ombros, tentando não demonstrar o desconforto.
– É verdade. – concordou. – Além do mais, não é como se eu a conhecesse tanto assim.
Clara voltou o olhar para Marina, já uns quatro passos a frente. Observava o salão apoiando o queixo nos dedos, a boca intercalava entre um ligeiro bico e mordiscadas no lábio inferior, os olhos estreitando a cada sugestão de Flávia. Por mais que estivesse a um bom tempo sem fazer absolutamente nada, Marina a impedia de cair do tédio.
Falhou um sorriso quando os olhos da artista encontraram os seus, uma sensação estranha no peito por ter sido pega olhando.
Marina puxou os lábios num sorriso simples.
– Tá com fome? – Clara a ouviu perguntar para Flávia.
– Hm? – a fotografa estranhou, erguendo os olhos da câmera. – Como assim?
– Prometi que voltaria lá na Chica pra comer pão caseiro. – explicou. – Esqueci que poderíamos demorar e acabei trazendo a Clara junto.
– Ei, pode ficar tranquila se eu for o problema. – Clara se aproximou. – Sabe que espero sem problema ou até pego um táxi e pronto.
– Não, que isso, deve tá morrendo de tédio aqui. – Marina falou, voltando para a assistente. – Tá com fome? – repetiu. – A gente volta pra terminar quando sairmos de lá.
– Marina. – Clara repreendeu.
– Clara. – retrucou no mesmo tom, arrancando um riso suave da carioca. – Olha a minha cara de quem gosta de pão frio.
– Pão caseiro? – Flávia comentou. – Mas a tua mãe é uma figura mesmo, viu Clara.
– Dona Chica e suas maneiras de juntar a turma. – Clara respondeu.
– Ok, vamos lá. – aceitou, desligando a câmera. – Mas a gente volta depois. – apontou para a chefe. – Se não a Vanessa arranca nossa cabeça.
– Lógico. – pegou os óculos na gola da blusa. – E eu não ando com muita energia pra brigar, então melhor não enrolar mesmo.
– Vocês brigam muito? – a cariosa perguntou curiosa enquanto caminhavam até o carro.
– Ah, tapas de amor. – Marina respondeu.
– Sabe briga de irmãos? – Flávia comparou. – Se matam mas se amam?
– Bem isso mesmo. – Marina concordou. – E por falar em amor, como andam as coisas com ela, Flavinha?
– Ah – suspirou, entrando no banco de trás do carro alto. –, sem muitas novidades.
– Sério?
– Como assim? – Clara se perdeu. – Você e a Vanessa... – apontou para mais nova. – estão juntas ou algo assim?
– Algo assim. – riu fraco. – Mas entendo o dilema dela, sabe, por isso não forço nada.
Não conseguiu ver como alguém gentil como Flávia poderia se interessar por Vanessa, aparentando ser tão baixo astral e grossa. Era como se ela fosse a segurança de Marina e não melhor amiga, como um cão de guarda sempre disposta a uma resposta rápida. Tudo bem que não tinha convivência com a mulher, mas só lembrar do rosto sério de cachos ruivos já lhe dava um sensação estranha na boca do estomago.
– E qual o dilema dela? – voltou a perguntar.
– Ela é apaixonada por outra pessoa. – a fotografa respondeu. – E eu a aceitei assim, por isso não posso exigir nada. Aceitei amá-la mesmo sabendo que... – Marina respirou fundo e Clara esperou o resto da sentença. – que ama Marina mais do que qualquer coisa.
– Não sei mais o que fazer, Flavinha. – Marina começou.
– Não, Marina, não precisa se justificar. – Flávia riu pelo nariz, interrompendo a chefe. – Sei muito bem o jeito que ela é e o jeito que você lida com a situação. Sei que ela é o problema.
Clara continuou calada, a dúvida de se Marina havia voltado com Vanessa após seu termino fazia sua garganta coçar.
Vanessa era paranoica, Marina sabia. Lembrava do amor possessivo que se encontrou amarrada, aquele ciúme dos olhares alheios. E era uma figura pública, ou seja, pessoas olhavam. No começo do romance aquilo lhe acariciava o ego, mas o tempo foi passando e o problema acabou vindo a tona. Até a amizade atual era impregnada com uma herança daquela época, onde Vanessa simplesmente não conseguia deixar de sentir ciúmes e alfinetá-la a qualquer oportunidade. Marina sabia que a amiga não conseguia. Era inconsciente.
Ainda chorava na lembrança de Marina. Ainda se arrastava para a cama da artista no meio da noite só para sentir o cheiro que um dia já pertenceu a seus lençóis. Ainda fantasiava o dia que Marina voltaria a seus braços, mesmo sabendo que as probabilidades eram quase zero.
E Flávia a compreendia totalmente, pois a amava exatamente do mesmo jeito que Vanessa amava Marina sem receber nada em troca. Flávia ama Vanessa, que ama Marina, que não ama ninguém.
Elas comeram e conversaram na cozinha de Chica, que prometeu fazer comprar mais farinha integral quando as duas artistas tiveram que se despedir, jogando beijos no ar e trombando com Helena na porta.
Clara deu a noticia para Helena e começou a contar os segundos para a chegada de Cadu, escolhendo as palavras que usaria e já imaginando aquele sorriso incrível completando o charme dos cabelos grisalhos. Preferiu ir para casa quando percebeu estar alheia na conversa da família.
Uma onda de paz lhe invadiu ao fechar a porta atrás de si, o escuro do começo de noite no apartamento simples e a felicidade de finalmente estar vivendo o que planejou com tanto vigor durante a vida toda.
Colocou uma mão sobre a barriga e se permitiu chorar. Já não era somente um lugar no coração que aquela criança hipotética tinha, primeiro porque já não era somente um plano futuro e segundo que finalmente tinha aceitado o espacinho físico que lhe estava oferecendo emprestado a tanto tempo.
– Clara? – ouviu a voz de Cadu e abriu os olhos. – Você dormiu.
Lá estava ele sentando na mesa de centro da sala, a luz ainda apagada fazendo o ambiente ainda mais escuro. Acariciava os cabelos da esposa mas a voz parecia distante.
– Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou rouca, percebendo que estava deitada no sofá.
– Não, por quê? – estranhou.
– Não, nada... – sentou-se, observando o rosto sério a sua frente. – É que me parece meio...
– Meio o que, Clara? – interrompeu, fechando os olhos com força. – Eu to com sono, poxa, trabalhei o dia inteiro. Não se pode mais ser humano?
Ele levantou, mas Clara segurou seu pulso antes que se afastasse.
– Fui ao Galpão mais cedo e a Verônica disse que tinha saído. – lembrou-se da sua visita. – Mas não importa por que...
– Tá duvidando de mim? – a interrompeu, os olhos pequenos no rosto bonito.
Por um momento não soube o que responder. Claro que não estava tentando nenhuma intriga, foi só um comentário mal interpretado que escapou da mente sonolenta.
– Não... – respondeu fraco. – Não quis dizer...
– Já dei motivos pra desconfiar de mim? – a atropelou novamente.
Clara voltou a ficar em silencio, confusa demais com essa conversa sem sentido. Uma sensação parecida com medo lhe tomou o peito de uma forma mais familiar do que gostaria de admitir para si mesmo.
– Não, nunca, mas não era minha intenção...
– Então nunca mais duvide de mim. – concluiu firme, beijando a mão da esposa antes se soltar o aperto.
– Espera, Cadu. – pediu. – Senta aqui rapidinho, por favor. Tenho uma coisa pra te contar.
– Ah, amor. – reclamou indo para o quarto, a voz doce. – To cansadão. Depois a gente conversa, pode ser?
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