Sempre Soube
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O tempo passou e elas agiam como se tudo estivesse bem. Ligações até tarde da noite com Marina contando seus dias agitados e Clara dando de ombros quando era sua vez de dizer as novidades. Trabalhar na Casa de Leilões da família era parado e rotineiro.
Não que Clara fizesse questão de sua vida estar tomando o rumo que estava, até gostaria que fosse mais agitada, gostaria que tivesse coragem para viver o imprevisível, mas não se importava. Aprenderia a amar sua rotina com o tempo e Marina passou a desconfiar que esse era o objetivo.
Uma estudava a outra. As palavras, as expressões e tudo parecia ter duplo sentido. Cada ligação fazia a distancia entre elas aumentar.
Marina ajeitou a grande bolsa no ombro enquanto caminhava para a sala que o professor havia direcionado. Amava esse clima mais quente em Londres, onde as roupas não precisavam ser nem pesadas nem leves.
Sentou em um dos bancos altos espalhados aleatoriamente pela grande sala junto com alguns rostos que reconheceu e retirou a câmera média da bolsa, ajeitando as lentes e foco para perto.
A universidade estava sendo até melhor que esperava. Tinha um pouco de medo do curso querer compactar e editar sua criatividade mas aliviou-se percebendo que o objetivo era exatamente o contrario. Era nítido a habilidade peculiar que cada um na turma pequena e bem concentrada.
Respirou fundo, abaixando a máquina já pronta. Esse professor sempre acabava se atrasando, mesmo que fosse impossível. Um rapaz novo de cabelo e barba comprida que só usava camisas escuras e as vezes ia de skate dar aula.
Virou-se e focou impaciente a janela no fundo da sala, esperando vê-lo correndo pela portaria principal do campus de Artes, mas seu olhar parou na garota sentada no último banco.
A menina abaixou os olhos com rapidez quando percebeu que Marina a pegou olhando. Marina reparou no tom avermelhado que tomou suas maças do rosto, se misturando com as sardas que saltavam na pele tão pálida quanto a própria, o cabelo castanho claro e o nariz delicado. Nem era tão bonita mas chamava atenção, pensou Marina.
A luz limpa da manhã suave batia de lado na postura relaxada e a visão de claridade e sombra encheu o peito de Marina.
A garota sentada ao fundo da sala tentou controlar o coração batendo disparado, ainda com medo de erguer os olhos. Ela estava linda hoje, não conseguiu evitar pensar. Com aquela saia preta comprida e blusa de mangas arregaçadas, os óculos e o cabelo preso em uma trança lateral mal feita que deixava a tatuagem de estrela na nuca visível, como quem tem preguiça de se arrumar davam-lhe um ar sensual pesado de tão leve. Marina Meirelles, fixou o nome na mente.
– Desculpe o atraso, galera. – a voz esganiçada do professor fez Marina recolher o olhar. – Me distrai no caminho e acabei tendo que entrar pelo último portão da universidade, dai já viu a viagem que tive que fazer. – jogou a mochila em um canto da sala e desafez dois botões da camisa larga, levantando as mãos para cima. – Bom dia, meus artistas.
Marina sorriu e respondeu com o coro das poucas pessoas na sala.
– Ainda estou nesse esquema de tentar ajudar vocês com o projeto que foi proposto, passamos duas semanas interpretando e clicando lá fora, nas arvores etc, agora é a vez dos que preferem algo mais... urbano, podemos dizer. – começou, falando um pouco rápido demais pela adrenalina da corrida. – Hoje marquei nessa sala mais ampla, com o objetivo de ter mais espaço pra transito mais também com uma certa restrição de ângulos e luz. Dai é com vocês se quiserem diminuir o espaço, luz etc, vocês que vão decidir tudo pro projeto, mas hoje como é somente a minha aula, vão seguir minhas condições para fotografar.
A introdução para aula foi um pouco longa demais para a pouca paciência de Marina, que ainda estava ligada na foto perfeita que aquela garota lhe daria.
Eles trabalhariam com quatro modelos, uma em cada canto da sala, e não podiam move-las, já que o objetivo era descobrir ângulos que trabalhavam bem com a luz impedida pelos cantos e cortinas que o professor ajeitou estrategicamente.
Quando o inicio da prática foi permitido, já sabia exatamente onde ir. Assistia a modelo de pele escura encostada na parede branca, a luz caia no centro de seu rosto, fazendo uma mancha iluminar sua boca sem cor e seu reflexo acender o rosto fino e magro.
Marina sentiu o que sabia que iria sentir com essa proposta de aula, que foi essa corrente de animação lhe cortando o peito. A única coisa proveitosa que fez nos exercícios ao ar livre foi se permitir tomar sorvete em Londres, coisa que era difícil acontecer.
Aproximou a câmera do rosto da modelo e focou a imagem no visor. Os lábios secos separados, o cabelo liso caindo uniforme dos lados do rosto que parecia tão macio. Estava lindo, mas algo faltava. Algo faltava nos olhos.
Olhou para os lados checando se não vinha ninguém, sem ousar mexer no ângulo da câmera nas mãos.
– Pense na coisa mais triste que lhe aconteceu. – sussurrou para a modelo, que perdeu um pouco da expressão.
– Mas... – ia lembrar a aluna das regras instruídas pelo professor mas se parou quando viu aqueles olhos saírem de trás da máquina.
– Sei que não posso dirigi-la – Marina continuou, a voz ainda baixa. –, mas... não vou dormir nunca mais se não fizer essa foto perfeita. O ângulo eu já tenho, agora preciso do seu olhar.
A modelo encarou aqueles olhos castanhos a sua frente. Era com eles que Marina conseguia tudo o que queria. A segurança que passavam. A confiança que conquistava dos outros por realmente parecer que sabia exatamente o que estava fazendo, sendo que na verdade se tivesse uma conclusão no final já era muita sorte.
A mulata encostou a cabeça da parede e deu exatamente o olhar que Marina queria na expressão que conseguiu refazer.
E a fotografa clicou sem desperdiçar uma foto se quer, estudando as possibilidades de cada ângulo e como uma pose diferente da mulher a sua frente poderia favorece-la. Deu um pequeno passo para trás e continuou sua analise mental, anotando alguns pontos que seria obrigada a acrescentar no esboço do projeto que havia começado a montar. Mais um passo para trás e sua mente piscou rapidamente com a alças finas da blusa leve que a mulata usava, mas logo voltou para sua dissertação silenciosa, fixando como poderia favorecer suas opiniões com as técnicas. Mais um passo para trás e ela parou no segundo click.
Afastou o rosto e observou a imagem na tela. A expressão tinha se cansado um pouco, o olhar já havia passado de triste para melancólico e a cabeça estava em um ângulo bom para sua posição, mas o que lhe chamou atenção foi a blusa rosa bebe que abraçava o corpo esbelto da modelo. Um das alças delicadas quase caia do ombro ossudo e Marina se conteve para não se esticar e simplesmente tirar de uma vez.
Prendeu a respiração na luz que iluminou seus pensamentos.
Nudez.
Imaginou a mulher a sua frente nua, exatamente a mesma expressão, exatamente o mesmo ambiente. Era isso.
Observou de longe as outras modelos, tentando encaixa-las na nova ideia central do projeto.
Qualquer se encaixaria no nu, percebeu. Dava um ar de intimidade. O difícil era se encaixar com perfeição. A expressão desgastada na modelo a sua frente daria uma boa foto nu, mas não uma ótima. Não uma perfeita. Ela queria as perfeitas. E a perfeição era um todo. Externo, interno, meio, presente, passado, futuro, realidade, sonho, história... tudo. Tudo em uma foto.
Assustou-se quando a luz delicada de um flash bateu em seu rosto, virando na direção de quem a tinha fotografado, e lá estava ela novamente.
A menina abaixou a câmera muito envergonhada para dizer algo.
Marina não sabia se estava bem com aquela foto. Era um momento particular entre ela e ela mesmo, mas esqueceu-se de tudo quando lembrou daquela cena perfeita. Imaginou a menina nua naquela mesma posição de antes, ainda mais encabulada e desconfortável.
– Golpe baixo. – Marina sorriu simpática e outra sentiu o coração afundar de ansiedade com a voz sendo direcionada a ela. – Agora minha vez. – ergueu a câmera, focando a menina tímida que olhou para baixo e colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha.
O que Marina chamava de simpatia, ela chamava de sedução.
Clara estava sentada em uma das cadeiras de época da Casa de Leilões. O movimento estava quase zero hoje.
Não que costumasse a ser muito agitado, mas hoje parecia que o relógio não andava. Até preferia estar cheia de coisa para fazer do que simplesmente sentar aqui e olhar para o nada, se recusando a pensar nos problemas pessoais.
Sentiu uma mão no ombro e virou-se para trás.
– Muita coisa na cabeça? – Helena sorriu e Clara limitou-se a dar um puxão de lábios desaminado.
– Pior que sim. – respondeu voltando a apoiar o queixo na mão.
– Marina? – a mais velha tentou, sentando ao lado de Clara.
– Também.
– Hm, e isso quer dizer que vocês estão relativamente bem, a pesar da distancia, ou... – deixou a sentença incompleta.
– Olha, irmã... podia muito bem responder que não sei. Que não sei de nada, que estou confusa e todas essas desculpas... – começou, passando os dedos na franjinha reta.
– Mas... – incentivou.
– Não que não esteja confusa, por que estou, mas... sinceramente? – olhou cansada para a irmã. – Acho que estamos acabadas.
– Como assim, Clara? Logo vocês duas que...
– Eu sei, Leninha. – respirou fundo. – Mas é isso que sinto.
– Mas acabou por parte de quem? – Helena franziu o cenho, tentando entender. – É ela? Ela terminou? Você terminou? O que...
– Ninguém terminou nada. – Clara respondeu. – Ainda não, pelo menos.
– Isso pode ser só paranoia sua.
– Não é. – balançou a cabeça. – O problema é comigo, Lena.
– Contigo?
– É. – afirmou. – Eu que não sei se quero mais.
– Você só pode estar brincando. – Helena riu irônica.
– Digo, eu quero, lógico que quero, mas... querer e sentir que posso são coisas diferentes. – explicou mas Helena ainda continuava confusa. – Eu sinto que a Marina... que a Marina é meu sonho, sabe. Minha perfeição. Mas a vida não é perfeita.
– Clara, você tá se escutando?
– Não tenho coragem nem disposição pra acompanhar a vida dela, Lena. – admitiu. – As vezes me pego pensando que... que nem quero, sabe. Eu gosto de rotina, gosto de me acomodar e curtir esse pouco conforto.
– Mas ela nunca te cobrou isso. – falou. – Tanto é que quando você negou ir pra Londres, ficou tudo bem.
– Mas acontece que se eu não a acompanhar, minha cabeça vira de cabeça pra baixo! – continuou. – Leninha – abaixou a voz. –, eu não sei o que acontece. Quando ela tá aqui do meu lado, não sei nem o que é duvidar. Mal me reconheço de tanta segurança e punho. Mas quando ela sai... quando fico sozinha... já não tenho certeza de nada. – pausou, abaixando o olhar. – Não tenho certeza nem se... nem se parei de gostar do Cadu.
– Clara... – Helena não conseguiu esconder o choque.
– Eu sei. – mergulhou a cabeça nas mãos. – Eu sei que parece absurdo, mas é como me sinto. É como vejo. São essas coisas que circulam minha cabeça.
– Então basicamente esta me dizendo que, pra ficar com a Marina, você precisa ficar do lado dela e pra ficar com o Cadu, precisa ficar ao lado dele?
– Não. Pra ficar com o Cadu eu preciso ficar longe da Marina. – corrigiu. – Pra ficar com qualquer um... é longe da Marina que tenho que ficar.
– Então... se o Cadu te procurar, você vai?
Clara parou, tentando novamente considerar a hipótese de voar para os braços de Marina. A ideia parecia tão maravilhosa... mas tão distante de ser concretizada.
– Sim. – admitiu.
– Bem... então ai está sua chance. – Helena levantou e Clara ergueu os olhos para a porta.
Lá estava ele. Aquele rosto que escondia um sorriso por trás da insegurança da conversa que veio buscar de Clara. As mãos nos bolsos do short de futebol que usava para correr e o boné barato que protegia a cabeça do sol quente.
– Ei, como vai? – Cadu se aproximou e Clara sorriu fraco.
– Indo, e você?
– Indo. – respondeu bem humorado. – Tá livre pra dar uma volta?
– Agora?
– É. – deu de ombros, retirando uma mão do bolso e oferecendo a Clara. – Queria conversar.
Clara observou as linhas do rosto bonito a sua frente. Ele também sabia. Sabia que não adiantaria nada tentar conversar com Clara enquanto Marina ainda estivesse no Brasil. Sabia do efeito imediato que Marina tinha sobre Clara. Namorou a garota por muito tempo para não perceber esse tipo de coisa.
– Pode ser. – respondeu, aceitando a ajuda para levantar.
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