Clara encarava o teto do quarto. Passou o dia deitada no lado de Marina da cama de casal, tentando pegar um pensamento concreto na mente.

Marina tinha embarcado sozinha para Londres naquela manhã. Clara percebeu a decepção por trás do sorriso compreensivo da namorada, mas simplesmente não podia deixar o Rio de Janeiro. Não sabia porque mas não podia. Era como se, por mais que Marina a tirasse completamente do chão, ainda havia uma cordinha amarrada em seu tornozelo que não a permitia sair voando.

Queria chorar. De saudade e de pesar. A falta da presença de Marina fez os pensamentos que tanto empurrava pesarem, sendo praticamente impossível de evitar.

Torcia para que Cadu não a procurasse, pois se procurasse... não poderia garantir o sucesso desse namoro a distancia com Marina.

Porque ela tinha que ser tão confusa?, abafou um soluço. Como ela conseguia sentir-se assim quando era tão óbvio o lugar de Marina em seu coração?

Fechou os olhos. Seu futuro com Cadu ainda parecia tão palpável, enquanto o com Marina tão... irreal. Mesmo sabendo que ontem, enrolada em seus braços, chegava a ver toda sua vida com Marina ao fechar os olhos. Aquele cheiro... esse cheiro.

Virou de bruços e apoiou a bochecha no travesseiro da namorada, fazendo aquele cheiro invadi-la ainda mais. Abriu os olhos como quem leva um susto, olhando atenta para a porta fechada. Chegou a sentir sua presença, como se ela estivesse entrado sorrateiramente no quarto, assistindo a cena com um sorriso sapeca nos lábios pintados de vermelho e esperando que a notasse ali. Mas não havia ninguém. Não havia Marina.

Sua falta doía, mas a ideia de comprar uma passagem para ir atrás dela era tão distante da realidade, na cabeça de Clara, que nem valia a pena cogitar. Aquela ultima noite delas tinha sido inquieta. Clara nem conseguiu dormir direito sabendo que no outro dia Marina não estaria ali dando seu beijo de boa noite.

Ouviu uma batida na porta e Helena entrou com o telefone em fio na mão.

– Ei, é ela ligando. – puxou os lábios tentando animar a irmã. – Manda um beijo quando desligarem, ok?

Clara sentou e pegou o telefone. Esperou Helena sair do quarto para respirar fundo.

– Oi, meu bem. – cumprimentou com a voz rouca.

– Clarinha, então, liguei pra avisar que cheguei. – Marina falava, o tom um pouco agitado mas o cansaço na viagem era nítido. – Já to no apartamento e é um pouco maior que eu esperava. Tinha pedido pro meu pai um coisa pequena mas conhece o velho.

– Conheço. – riu fraco. – Conheço a filha dele também e acho que comprou um espaço maior por que sabe que vai encher isso ai rapidinho.

– Hm, talvez tenha razão. – Clara sentiu seu sorriso largo e sonhador. – Tem um quarto a mais que vou fazer de estúdio, mas, sabe, sem dizer pro meu pai.

– Capaz de comprar um andar pra você fazer de estúdio, se acabar comentando que quer um.

– Exatamente. – concordou. – Então melhor deixar em off. As aulas começam semana que vem mas as atividades de integração já começaram. Cheguei meio atrasada, pelo que parece.

– E é perto da faculdade, teu apartamento?

– Sim, o campus é logo ali embaixo. Umas duas quadras. – suspirou. – Clarinha, você tinha que ver isso...

– O que?

– To olhando pela janela... – explicou. – É uma visão linda.

– Estou a uma foto de distancia de ver o que esta vendo. – Clara tentou ser otimista.

– Não é a mesma coisa. – falou simples como quem dá de ombros mas Clara sabia muito bem que realmente não era a mesma coisa. – Você pode ver todos esses prédios mas não vai poder sentir esse cheiro... esse cheiro de Europa... sentir essa presença...

– Marina. – Clara fechou os olhos. – Por favor, não fique chateada. Precisa entender meu lado também.

– Entendo. – respondeu. – Embora tenha que me esforçar muito pra isso.

Clara de fato não tinha explicações válidas para justificar seu não a ir para Londres com Marina. Realmente não tinha nada a prendendo no Rio que não fosse esse desconforto no peito, reforçado pelo medo e insegurança, e isso não era algo que podia falar para a namorada. Se falasse teria que explicar e se explicasse chegaria em conclusões que não queria considerar agora, ouvindo sua respiração pela linha telefônica. Era como se ela estivesse deitada ao seu lado, respirando em sua orelha.

– Eu sei. – Clara respondeu sincera. – Eu... eu queria estar ai.

E queria mesmo. Querer, vontade, desejo. Como se fosse um sonho que obviamente não ia realizar.

– Então vem. – a voz de Marina saiu baixa e Clara sentiu que não havia esperança alguma ali.

Ficou parada no tempo, raciocinando o tom de Marina e tentando não acreditar no que tinha percebido. Ela sabia. Sabia que não iam durar. Sabia que não podia fazer nada. Sabia que Clara não ia para Londres nem hoje nem nunca por que lá era onde Marina ficaria pra sempre. Sabia disso com toda a certeza que sabia que iria conseguir seus objetivos profissionais. Sua vida seria glamorosa, cheia de viagens, e a de Clara simples, cheia de compromissos vazios na cidade que escolheu ficar. Elas já estavam acabadas ali, na verdade, aquela foi a separação inconsciente do casal.

– Não posso. – Clara finalmente respondeu e Marina acenou com a cabeça, fechando os olhos para conter o choro.

– Certo. – a carioca a ouviu fingir um sorriso. Fingir que estava tudo bem. – Entendo. Eu tenho... tenho que ir. Arrumar minhas coisas por aqui, sabe, me acostumar a chamar isso de casa. – riu fraco. – Manda um beijo pra tia Chica. Fala que chequei inteira sem nenhum problema. Sei que ela entra em pânico comigo aqui sozinha.

– Mando sim. – respondeu. – Helena veio aqui no quarto agora pouco perguntar de você.

– Ah sim, e diz pro Felipe que ele pode vir aqui quando quiser. – avisou, limpando as lágrimas silenciosas que já riscavam o rosto pálido. E Clara sabia que estava chorando. – Que não esqueci que prometi recebe-lo. É só me avisar que até compro a passagem.

– Marina... não chora...

– Não to chorando, Clara. – tentou mas já não controlava a voz quebrada. – Porque não consegue gostar de mim como gosto de você. – era uma pergunta mas Marina não esperava uma resposta.

– Eu gosto...

– Não, não gosta. – disse firme e Clara nem teve como contestar, por mais que não concordasse. – Não como eu gosto. E se pensa que é muito o que sente por mim, imagina o que eu sinto por ti.

– Não fala assim.

Por um momento elas ficaram quietas. Clara ouvia alguns soluços que escapavam e sentiu mais lágrimas descerem pelo próprio rosto.

Clara sabia que Marina queria responder, mas se continuasse a falar aquilo viraria uma briga e estava cansada. Cansada fisicamente e agora ainda mais exausta emocionalmente.

– Preciso mesmo ir. – Marina conseguiu falar, a voz já o mais normal possível. – Daqui a pouco chegam mais coisas minhas pra arrumar e... sabe como é.

– Sei. – respondeu. – Tudo bem, se cuida, ok? Darei todos os seus recados.

– Certo, te ligo amanhã se descer no campus. – adoçou dolorosamente a voz. – Já sinto sua falta.

– Sinto sua falta desde aquele ultimo abraço no aeroporto. – sussurrou em resposta. – Tchau.

– Tchau.

Desligou e jogou o telefone do outro lado da cama. Era isso.

Marina mergulhou a cabeça nas mãos e respirou fundo. A presença da voz de Clara tinha levado a vontade de chorar. Não conseguia entender a insegurança de Clara. O porque dela não parar de dar voltas e simplesmente explicar o que estava sentindo, mas agora já fazia uma ideia.

Nunca duvidou de suas palavras em todo esse tempo com Clara, mas as agora o nome do sentimento crescendo em seu peito era desconfiança. Todos os olhares confirmavam o que Clara sentia por ela, sabia disso, mostravam mais verdades que as próprias palavras que proferiam com tanto cuidado, mas porque a lembrança dos olhos da carioca não condiziam com as palavras? Era isso que confundia Marina. Porque Clara escondia algo que parecia tão importante?

Talvez Marina não pudesse ajudar, mas isso não a impediria de tentar. Além do mais, ela precisa saber. Ver Clara confusa assim fazia Marina sentir-se impotente, como se fosse apenas mais uma pessoa assistindo. Se Clara não confiava totalmente nela... talvez ela devesse fazer o mesmo para autoproteção. Era uma questão de sobrevivência. Ou pelo menos pensar assim a fez sentir-se menos pesada, por mais dolorido que fosse. Sentia como se merecesse um ato de egoísmo.

Olhou para o apartamento novo. Ali seria sua casa. Talvez por apenas alguns anos mas provavelmente para sempre.

Não mentiu para Clara sobre a vista espetacular que tinha de todas as janelas. Tinha vontade de sentar-se com as pernas pra fora daquela grande janela da sala e estudar todos os contornos apertados da cidade que não tinha mais pra onde crescer. Abriu todo o vidro e trocou o ar preso do apartamento pelo gelado que entrou. A paisagem lembrava Nova Iorque mas qualquer olhar mais entendido saberia que era Londres simplesmente pela sensação de história que fazia tremer os ossos.

Pensou em viajar para Nova Iorque visitar uns colegas que deixaram o convite no ar da ultima vez que se viram.

Se Clara estivesse aqui tudo seria tão diferente. Até chegou a imaginar como seria a decoração da casa, por que com certeza não seria essa. O clima frio seria mais quente, o vazio em seu peito se preencheria e esse seu semblante de sofrimento seria um grande sorriso.

Desfocou o olhar na vista por alguns segundos e respirou fundo, já vendo a cena congelada da fotografia. Ocupou os dedos tamborilando na parede para não sentir tanta falta da câmera.

Quando os equipamentos chegassem, tiraria uma foto para Clara.