– É por ela, não é? – Cadu perguntou e Clara pensou ter notado uma ponta de ironia mas quando continuou a indignação não estava mais lá. – Se tem alguma consideração por mim, não minta.

Ela não teve como negar. Como simplesmente justificar o termino com a relação desgastada quando estava tão óbvio o motivo maior. Clara não mencionou sua noite com Marina nem os sentimentos que admitiram ter uma pela outra, só respondeu sim a sua pergunta.

E mesmo já após um tempo, o olhar machucado de Cadu ainda assombrava sua mente. As lágrimas que ele conteve e o sorriso que tentou esboçar quando se levantou. Quando lembrava dele se afastando, sentia uma sensação estranha na boca do estomago. Tentou manter uma relação de amizade pensando que isso solucionaria aquela quase dor mas quando o rapaz finalmente atendeu uma de suas ligações foi para pedir um espaço e não tinha como negar isso, então Clara se permitiu concluir que tal sensação era somente a vontade frustrada de manter um certo contato, mesmo sabendo que não era bem assim.

A verdade era que não queria pensar em nada que não fosse Marina do seu lado, por que nem na garota longe ela se permitia.

Marina tinha alugado um espaço reservado na área do Clube dos Sócios, já que seu pai era um, e falado para os irmãos Fernandes chamarem seus amigos. As musicas de Felipe tocavam baixo no ambiente, já que os rapazes aumentaram o volume do futebol ao continuar se divertindo nas mesas de jogos.

– Ei, coisinha. – Clara virou-se na direção da voz de Marina. – Cerveja ou vodka?

– Tem vinho? – aumentou a voz para ser ouvida.

– Lógico. – falou óbvia. – Vou pegar.

Como se fosse possível não ter vinho numa festa dada por Marina, Clara sorriu voltando a conversa da irmã que a observava esperta. Ficaram em silencio até que Clara deu falta da voz de Helena.

– Não vai continuar a história? – perguntou confusa.

– Como se você estivesse muito interessada. – riu e Clara escondeu o rosto nas mãos.

– Porque você sempre dá um jeito de me zoar? Porque, porque, porque? – falou indignada mas sem conseguir evitar o sorriso divertido.

– Por que essa é a graça de ser a irmã mais velha! – justificou, bebendo sua cerveja. – Acho que nunca bebi cerveja num copo de vidro.

– Ainda mais numa festa de piscina. – completou Virgílio, ao lado de Helena. – Gente rica é outra coisa.

– E esses amigos do Felipe. – Helena riu pelo nariz. – Uns abusados mesmo.

Voltou a buscar Marina com o olhar e a encontrou conversando com uma das colegas que tinha apresentado para Clara mais cedo, dois copos em uma mão e a garrafa escura de vinho recém aberta em outra.

Com o simples biquíni preto cobrindo o corpo, era nítido os olhares que recebia; os cabelos pretos num rabo de cavalo e os óculos de sol redondos que escondiam os olhos faziam seus sorrisos saltarem ainda mais na pele pálida.

– Sorte que você não é encanada, Clara. – Virgílio voltou a falar. – Por que, com todo respeito, mas a Marina é linda.

– Pior que é mesmo. – Helena concordou.

Clara sabia da quantidade de areia que carregava em seu caminhão e não era muito difícil admitir para si mesmo um certo desconforto quando percebia olhares como esse direcionados a Marina, tinha seus momentos de ciúme, mas quando a onda de confiança que Marina passava lhe batia, a insegurança desaparecia e até chegava a gostar da ideia de estar com a mulher mais desejada da festa.

– Cheguei. – Marina sorriu ao entrar na parte rasa na piscina, sentando ao lado de Clara. – Senta com a gente, Flavinha.

– Espera só eu ir ali tentar puxar meu namorado pra sentar comigo.

– Ah, olha, boa sorte. – desejou, servindo o vinho tinto. – O jogo parece que tá bom.

Entregou o copo a Clara.

– O seu tem mais que o meu. – a carioca reclamou, apontando para o copo quase cheio da namorada.

– Se eu colocar tudo isso no seu copo, tu não bebe nem a metade. – Marina respondeu.

– Mas se for colocando de pouquinho em pouquinho, a menina bebe a garrafa inteira. – Helena entendeu e Virgílio riu, já que a namorada também era exatamente assim.

– Viu. – Marina agradeceu Helena. – Tua irmã também já sacou a sua.

Passou as pernas pelo colo de Marina, ficando de frente para seu rosto de perfil e de costas para Helena, que também se voltou para Virgílio ainda rindo da piada interna.

– Tá fazendo sucesso. – Clara comentou.

– Hm? – se confundiu, acariciando a coxa morena da namorada embaixo d’água.

– Todo mundo olhando. – explicou, sorrindo brincalhona.

– Eu vi. – riu tomando vinho. – Nem tentam disfarçar.

Lógico que ela havia percebido, pensou Clara, seus olhos eram a lente de uma máquina fotográfica.

– Mas nem me importei, tava conversando com a Flavinha. – Marina continuou. – Acho que vou contratá-la pra me ajudar ou algo assim.

– Como assim? – Clara perguntou.

– Depois da faculdade, sabe. – explicou. – Ela se interessa muito por fotografia e, pelo que andamos conversando esses dias, os interesses batem bem. Acho que vou contratá-la como assistente ou algo parecido.

– Ah, seus planos. – Clara sorriu e Marina virou o rosto para observá-la. – Cursar artes plásticas, criar um estilo original e fazer um nome mundialmente famoso, só isso.

– Ei, falando assim até parece impossível. – fingiu indignação.

– Impossível não é. Só... difícil.

– Sinto que consigo fazer isso. – Marina deu de ombros. – Quero criar um estilo que... que não precise de explicação, sabe. Que só por falar meu nome as pessoas já saquem do ar como é. Que nem o Terry Richardson ou Annie Leibovitz. Você não precisa explicar que quer uma visão mais, por exemplo, de guerra, onde você consegue sentir só pela fotografia o que o soldado tá sentindo, enxergar o que tá passando, é só chegar e falar: “ah, tipo Robert Capa” e pronto, as pessoas já sabem exatamente do que está falando. Quero isso. Quero que meu nome seja uma reverencia algo original.

– Não duvido de nada quando se trata de você.

– Então quer dizer que não te surpreendo mais?

– Não, quer dizer que tenho consciência que to sujeita a uma surpresa a qualquer momento.

– Hm, gostei. – sorriu largo. – Que estilo poético é esse, nossa.

– Ah, tipo Marina Meirelles.

– Sua bandida! – riu alto. – Me pegou, me pegou. – Marina voltou a observar a festa. – Pensei que ia chamar o Cadu.

– Chamei. – Clara suspirou cansada. – Mas ele não quis. Falou que não consegue te ver.

– Pensei que ia rolar uma amizade. – respondeu.

– Também.

– Mas então – Marina mudou de assunto, percebendo a tristeza de Clara. –, pensou na minha proposta?

– Marina. – Clara começou, ainda cansada. – Tenho que pensar muito bem, você sabe.

– Mas já não deu tempo? – tirou os óculos para olhá-la.

– Não... tenho que ver certinho.

– Clara, você não sabe o que vai fazer de faculdade, já pensa em mudar de casa... – tentou. – Nada te prende aqui. Vamos pra Londres comigo. A gente moraria juntas naquela cidade linda. Além de viajar pela Europa toda, lógico, conhecer outras culturas, outras caras...

– Mas e minha família toda? Minha vida aqui no Rio... os poucos planos que tenho vão por água a baixo.

– Dando lugar a outros. – completou. – Comigo. Você e eu. Juntas.

– Mas Marina... o idioma... eu não sei nada de inglês...

– Isso se aprende com a pratica. – sorriu. – E eu posso te ensinar algumas coisas, também. É tudo uma questão de costume.

– Não sei, Marina, não sei. – Clara abaixou o olhar, sorrindo fraco.

Marina encheu os pulmões de ar para continuar mas parou antes de começar, expirando com pesar.

– Ok, tudo bem. – piscou duro. – Ainda tem tempo pra pensar.

– Obrigada. – Clara sorriu, levantando a cabeça e beijando o queixo da namorada.

A verdade é que Marina tinha medo de Clara se sentir pressionada. Entendia que mudar de continente era um passo gigante, mas elas estariam juntas, concretizando os sonhos que tanto falavam até quando eram só amigas. Chegava a perceber uma insegurança estranha em Clara, mas preferia acreditar que era somente uma impressão falsa, com medo de perguntar e a resposta ser a possibilidade que estava querendo evitar.

...

Clara tinha uma perna de cada lado do corpo de Marina, que subia e descia as mãos de suas omoplatas até a cintura. O quarto escuro era iluminado somente pela televisão que passava algum jornal da madrugada, mas não era o foco das garotas. As bocas se massageavam com línguas entrelaçadas e desejo quase palpável que puxava um corpo para o outro.

O barulho característico dos beijos e os gemidos baixos e suaves que escapavam de Marina vez ou outra entorpeciam Clara cada vez mais, sentindo que tinha a visão de uma coruja com suas pupilas dilatadas de super sensibilidade. Apertou aos mãos no rosto de Marina, se controlando para não fincar as unhas e deixar riscos para sempre. Já havia perdido a conta de quantas vezes havia machucado Marina com seus pequenos descontroles e até admitia para si mesmo que não se empenhava muito em conter a força quando percebia que o lugar era escondido, sendo um troféu secreto que só Clara tinha acesso, mas não podia se dar ao luxo de deixar marcas no rosto delicado sem que o mundo todo desconfie da desculpa.

As únicas pessoas que sabiam o que realmente estava acontecendo entre as duas eram os irmãos de Clara e o pai de Marina. Quando Chica e Ricardo estavam presentes acabavam agindo como antes naturalmente, com todos os toques simples e olhares espertos.

Clara não tinha ideia de como contar para os pais. Para Felipe foi uma das maiores quantidades de adrenalina por tempo que já havia sentido na vida e sempre afastava o pensamento quando lhe invadia. Na verdade, se deixasse o pensamento se estender por mais dois segundos, sentia uma segurança estranha no pressentimento de que esse momento nunca chegaria, como se o relacionamento fosse acabar antes de precisar admitir para os pais, mas quando olhava para Marina essa possibilidade se afastava sozinha e já era novamente óbvio que um dia não somente seria necessário mas também gostaria de apresentava para os pais com outros olhos. Quando olhava para aquele rosto não conseguia se imaginar em outro lugar se não em um casamento perfeito onde se arrepiava toda vez que Marina lhe apresentasse como sua esposa. Sua mulher.

Notas finais
Tivemos beijo Clarina ontem o que é uma coisa ótima mas tenho minhas opiniões sobre a cena e não concordo com grande parte dela, MAS ENFIM TEVE BEIJO e isso que mais importa. Bem, aqui está o capitulo de hoje (que a propósito é meu aniversário) e espero que estejam gostando.